terça-feira, 30 de junho de 2009

EVOCAÇÃO DO RECIFE, de Manuel Bandeira










Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois —
Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância
A rua da União onde eu brincava de chicote-queimado e partia as vidraças da casa de dona Aninha Viegas
Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê na ponta do nariz
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras, mexericos, namoros, risadas
A gente brincava no meio da rua
Os meninos gritavam:
Coelho sai!
Não sai!
A distância as vozes macias das meninas politonavam:
Roseira dá-me uma rosa
Craveiro dá-me um botão
(Dessas rosas muita rosaTerá morrido em botão...)
De repente
nos longos da noiteum sino
Uma pessoa grande dizia:
Fogo em Santo Antônio!
Outra contrariava: São José!
Totônio Rodrigues achava sempre que era são José.
Os homens punham o chapéu saíam fumando
E eu tinha raiva de ser menino porque não podia ir ver o fogo
Rua da União...Como eram lindos os montes das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame de dr. Fulano de Tal)
Atrás de casa ficava a Rua da Saudade...
...onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora...
...onde se ia pescar escondidoCapiberibe—
Capibaribe
Lá longe o sertãozinho de Caxangá
Banheiros de palha
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
Foi o meu primeiro alumbramento
Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redemoinho sumiu
E nos pegões da ponte do trem de ferro os caboclos destemidos em jangadas de bananeiras
Novenas
Cavalhadas
E eu me deitei no colo da menina e ela começou a passar a mão nos meus cabelos
Capiberibe
— Capibaribe
Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas
Com o xale vistoso de pano da Costa
E o vendedor de roletes de cana
O de amendoim
que se chamava midubim e não era torrado era cozido
Me lembro de todos os pregões:
Ovos frescos e baratos
Dez ovos por uma pataca
Foi há muito tempo...
A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada
A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem
Terras que não sabia onde ficavam
Recife...
Rua da União...
A casa de meu avô...
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade
Recife...
Meu avô morto.
Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro como a casa de meu avô.


(Libertinagem e Estrela da Manhã)


(Ilustração: Romero Brito)


segunda-feira, 29 de junho de 2009

PAULO HONÓRIO, de Graciliano Ramos







Começo declarando que me chamo Paulo Honório, peso oitenta e nove quilos e completei cinquenta anos pelo São Pedro. A idade, o peso, as sobrancelhas cerradas e grisalhas, este rosto vermelho e cabeludo, têm-me rendido muita consideração. Quando me faltavam estas qualidades, a consideração era menor.



Para falar com franqueza, o número de anos assim positivo e a data de São Pedro são convencionais: adoto-os porque estão no livro de assentamentos de batizados da freguesia. Possua a certidão, que menciona padrinhos, mas não menciona pai nem mãe. Provavelmente eles tinham motivo para não desejarem ser conhecidos. Não posso, portanto, festejar com exatidão o meu aniversário. Em todo o caso, se houver diferença, não deve ser grande, mês a mais ou mês a menos, isto não vale nada. Acontecimentos importantes estão nas mesmas condições.



Sou, pois, o iniciador de uma família, o que, se por um lado me causa alguma decepção, por outro lado me livra da maçada de suportar parentes pobres, indivíduos que de ordinário escorregam com uma sem vergonheza da peste na intimidade dos que vão trepando.



Se tentasse contar-lhes minha meninice, precisava mentir. Julgo que rolei por aí à toa. Lembro-me de um cego que me puxava as orelhas e da velha Margarida, que vendia doces. O cego desapareceu. A velha Margarida mora aqui em S. Bernardo, numa casinha limpa, e ninguém a incomoda. Custa-me dez mil réis por semana, quantia suficiente para compensar o bocado que me deu. Tem um século, e qualquer dia destes compro-lhe a mortalha e mando enterrá-la perto do altar mor da capela.



Até os dezoito anos gastei muita enxada ganhando cinco tostões por doze horas de serviço. Aí pratiquei o meu primeiro ato digno de referência. Numa sentinela, que acabou em furdunço, abrequei a Germana, cabritinha sarará danadamente assanhada, a arrochei-lhe um beliscão retorcido na popa da bunda. Ela ficou-se mijando de gosto. Depois botou os quartos de banda e enxeriu-se com o João Fagundes, um que mudou o nome para furtar cavalos. O resultado foi eu arrumar uns cocorotes na Germana e esfaquear João Fagundes. Então o delegado de polícia me prendeu, levei uma surra de cipó de boi, tomei cabacinho e estive de molho, pubo, três anos, nove meses e quinze dias na cadeia, onde aprendi leitura com o Joaquim sapateiro, que tinha uma bíblia miúda, dos protestantes.



Joaquim sapateiro morreu. Germana arruinou. Quando me soltaram, ela estava na vida, de porta aberta, com doença do mundo.



Nesse tempo eu não pensava mais nela, pensava em ganhar dinheiro. Tirei o título de eleitor, e Seu Pereira, agiota e chefe político, emprestou-me cem mil réis a juro de cinco por cento ao mês. Paguei os cem mil réis e obtive duzentos com o juro reduzido para três e meio por cento. Daí não baixou mais, e estudei aritmética para não ser roubado além da conveniência.



De bicho na capação (falando com pouco ensino), esperneei nas unhas do Pereira, que levou músculo e nervo, aquele malvado. Depois vinguei-me: hipotecou-me a propriedade e tomei-lhe tudo, deixei-o de tanga. Mas isso foi muito mais tarde.



A princípio o capital se desviava de mim, e persegui-o sem descanso, viajando pelo sertão, negociando com redes, gado, imagens, rosários, miudezas, ganhando aqui, perdendo ali, marchando no fiado, assinando letras, realizando operações embrulhadíssimas. Sofri sede e fome, dormi na areia dos rios secos, briguei com gente que fala aos berros e efetuei transações comerciais de armas engatilhadas. Está um exemplo. O Dr. Sampaio comprou-me uma boiada, e na hora da onça beber água deu-me com o cotovelo, ficou palitando os dentes. Andei, virei, mexi, procurei empenhos – e ele duro como beira de sino. Chorei as minhas desgraças: tinha obrigações em penca, aquilo não era trato, e tal, enfim, etc. O safado do velhaco, turuna, homem de facão grande no município dele, passou-me um esbregue. Não desanimei: escolhi uns rapazes em Cancalancó e quando o doutor ia para fazenda, caí-lhe em cima, de supetão. Amarrei-o, meti-me com ele na capoeira, estraguei-lhe os couros nos espinhos dos mandacarus, quipás, alastrados e rabos de raposa.



- Vamos ver quem tem roupa na mochila. Agora eu lhe mostro com quantos paus se faz uma canoa.



O doutor, que ensinou rato a furar almotolia, sacudiu-me a justiça e a religião.



- Que justiça! Não há justiça nem religião. O que há que o senhor vai espichar aqui trinta contos e mais os juros de seis meses. Ou paga ou mando sangrá-lo devagarinho.



Dr. Sampaio escreveu um bilhete à família e entregou-me no mesmo dia trinta e seis contos e trezentos. Casimiro Lopes foi o portador. Passei o recibo, agradeci e despedi-me:



- Obrigado, Deus o acrescente. Sinto muito ter-lhe causado incômodo. Adeus. E não me venha com a sua justiça, porque se vier, eu viro cachorro doido e o senhor morre na faca cega.



Não tornei a aparecer por aquelas bandas. Se tornasse, era um tiro de pé de pau na certa, a cara esfolada para não ser reconhecido quando me encontrassem com os dentes de fora, fazendo munganga ao sol, e a supressão da minha fortuna, que eu conduzia dentro de um chocalho grande, arrolhado com folhas e pendurado no arção da sela. Ali estava em segurança: se o dinheiro e as folhas caíssem, o chocalho tocava.



Afinal, cansado daquela vida de cigano, voltei para a mata. Casimiro Lopes, que não bebia água na ribeira do Navio, acompanhou-me. Gosto dele. É corajoso, laça, rasteja, tem faro de cão e fidelidade de cão.




(São Bernardo)




(Ilustração: Alice Alves - L'Oncle)









domingo, 28 de junho de 2009

FECUNDAÇÃO, de Gilka Machado










Teus olhos me olham
longamente,
imperiosamente...
de dentro deles teu amor me espia.

Teus olhos me olham numa tortura
de alma que quer ser corpo,
de criação que anseia ser criatura

Tua mão contém a minha
de momento a momento:
é uma ave aflita
meu pensamento
na tua mão.

Nada me dizes,
porém entra-me a carne a persuasão
de que teus dedos criam raízes
na minha mão.

Teu olhar abre os braços,
de longe,
à forma inquieta de meu ser;
abre os braços e enlaça-me toda a alma.

Tem teu mórbido olhar
penetrações supremas
e sinto, por senti-lo, tal prazer,
há nos meus poros tal palpitação,
que me vem a ilusão
de que se vai abrir
todo meu corpo
em poemas.



(Sublimação)



(Ilustração: Jean-Pierre Ceytaire)



sábado, 27 de junho de 2009

EUA CONTAM 120 MIL MORTOS EM CHACINAS DESDE 2001, de Bob Herbert










Na Sexta-Feira Santa, uma mulher de 60 anos rezava diante do número 1.016 da Rua Fairfield,onde ocorreu um tiroteio. Ela lia umlivro de orações e, de tempos em tempos, dava uma tragada num cigarro encharcado. Policiais numa viatura, a meio quarteirão de distância, vigiavam a mulher e a casa com as janelas fechadas por tábuas.



No início relutando falar, ela acabou sussurrando: “Sou a avó do garoto que matou aqueles guardas.” Ela disse que seu nome era Catherine Scott e estava rezando por seu neto, Richard Poplawski, 22 anos, que está preso, e pelos três policiais que ele matou: Stephen Mayhle, 29 anos; Paul Sciullo, 37; e Eric Kelly, 41.



Os policiais foram mortos quando investigavam uma denúncia de tumulto na casa. A polícia informou que eles foram recebidos por Poplawski, que vestia um colete à prova de balas e estava armado até os dentes. “Meu neto fez uma coisa terrível”, disse Catherine. “Não há perdão para o que ele fez.”



Seja como for, não há fim para o trauma e o sofrimento causado por essas pavorosas erupções de violência armada, tão comuns na cena americana. No mesmo dia em que os três policiais foram assassinados, James Harrison, de 34 anos, matou cinco crianças a tiros e depois se matou em Graham,Estado de Washington. As crianças foram identificadas como Maxine,16 anos; Samantha, 14; Jamie, 11; Heather, 8, e James, 7.



No dia anterior, um homem em Binghamton, Estado de Nova York, invadiu uma associação cívica, matou 13 pessoas e se suicidou. Em 7 de abril, três dias depois da matança em Pittsburgh e Graham, um homem em Priceville, Alabama, assassinou a mulher, a filha de 16 anos, a irmã, e um sobrinho de 11 anos, antes de se matar.



E tem mais. Quatro policiais de Oakland, Califórnia, foram assassinados no mês passado por um preso em liberdade condicional que, em seguida, foi morto pela polícia. Desde 11 de setembro de 2001, quando a atenção dos EUA se voltou para o terrorismo, 120 mil americanos foram mortos em homicídios não relacionados ao terror. Pense nisso – 120 mil mortos, quase 25 vezes o número de americanos mortos no Iraque e no Afeganistão.



Em geral, não damos atenção a essa carnificina. A ideia de fazer alguma coisa sobre o número de armas em circulação tem pouca chance de sucesso.E que tal se oito garotos fossem mortos a tiros a cada dia nos EUA? E se alguém fosse morto por uma arma a cada 17 minutos? O objetivo da Associação Nacional do Rifle e de muitos congressistas conservadores é colocar um número cada vez maior de armas nas mãos de um número cada vez maior de pessoas.



O Texas é um dos Estados que estudam leis para permitir armas em universidades. Os defensores dizem que isso permitirá que alunos e professores se defendam contra assassinos como o que matou 32 pessoas em Virginia Tech há dois anos. Eles gostariam que as armas fossem tão comuns como laptops ou celulares. Um legislador texano referiu-se a pessoas desarmadas em campus como “patos sentados”.



A polícia de Pittsburgh está abalada com a perda dos policiais.Detetives caminhavam atônitos de um lado para outro com lágrimas nos olhos. “Todos tinham famílias”, disse o investigador Antonio Ciummo, pai de quatro filhos. “É difícil descrever o tipo de dor que as famílias estão sentindo.”



A primeira página do jornal Pittsburgh Tribune-Review estampava uma foto da filha de 6 anos de Mayhle, Jennifer. Ela segurava uma rosa e um ursinho de pelúcia. Havia também uma foto da viúva de Kelly, Marena, com os olhos perdidos para o céu. Todas as expressões de horror com a violência e piedade pelos mortos, porém, soam falsas numa sociedade que não é nem madura nem civilizada o bastante para fazer alguma coisa a esse respeito.




(The New York Times / publicado em OESP: 22.4.2009)


(Ilustração: Patrice Murciano - desespoir)


sexta-feira, 26 de junho de 2009

SONETO A LUIZ VAZ DE CAMÕES, de Carlos Lopes Pires






Incerto amor, tempos duros e sangrentos,

preso num tempo que o teu peito recusou,

e onde padeceste soldado na vida e no amor;

pobre em vida, e na morte tão cheio de honrarias.



Andaste por terras de muito estranhos ventos,

sofrendo de amores que a vida dura separou,

desterrado por paragens de ódio e terror,

desmerecido de uma sorte que imerecias.



Sincero amor que por barcos e países repartiste,

numa dor tão humana e brutalmente imensa,

foi rodeado de inveja e torpeza que te viste.



Saberás agora tu, se onde estiveres existe,

que a poesia que amaste de forma tão extensa,

é só a alegria da vida, que a vida tornou triste.


(Falar às Aves)


(Ilustração: Caspar David Friedrich)



quinta-feira, 25 de junho de 2009

OS BEBÊS DO COSMOS, de Salvador Nogueira







Muitas pessoas vivem dizendo por aí que o Universo conspira contra elas. Não dê ouvidos; é puro espírito persecutório, e a ciência pode provar. Todas as evidências coletadas até hoje dão conta de que o Universo de fato está metido em alguma estranha conspiração, mas para nos favorecer. Na verdade, a impressão que se tem, do lado de dentro do cosmos e 13,7 bilhões de anos após seu surgimento, é que ele foi "regulado" exatamente para nós. Por quê? Esse talvez seja o maior desafio intelectual enfrentado pela espécie humana.

Resumidamente, o mistério é o seguinte: toda a dinâmica do cosmos – sua expansão, a formação de estrelas, o surgimento de planetas ao redor dessas estrelas, a criação de elementos químicos simples e complexos, e assim por diante – depende de um conjunto de parâmetros. "Apenas seis números", como disse o astrônomo britânico Martin Rees, no título de seu livro sobre o assunto.

Um deles, por exemplo, é a intensidade da força gravitacional. Outro é a massa dos prótons, partículas de carga positiva que ditam as propriedades dos átomos, tijolos de que são feitas todas as coisas no Universo. Ou o número de Planck, que designa as menores medidas significativas para qualquer coisa que exista. E por aí vai. Hoje, ninguém sabe por que essas coisas todas estão reguladas do jeito que estão. Mas o mais surpreendente é que se qualquer uma dessas medidas fosse só um pouquinho diferente, para mais ou para menos, ninguém estaria aqui para perguntar.

A força da gravidade, por exemplo. Fosse só um pouco mais forte, só permitiria a existência de estrelas de vida efêmera, que queimariam seu combustível todo rapidamente e explodiriam em pouco tempo, sem dar chance ao surgimento de formas de vida. Fosse ainda mais intensa, talvez tivesse impedido de cara a expansão do Universo jovem, fazendo-o implodir antes que alguma coisa mais interessante pudesse acontecer. Fosse mais fraca, e as estrelas jamais se formariam. Enfim, qualquer mexida parece necessariamente ser para pior. O mesmo, de uma forma geral, acontece com todos os outros parâmetros que configuram o cosmos em que vivemos. É um grande mistério, que evoca todo tipo de explicação.

Há uma esperança de que, quando alguém conseguir juntar toda a física numa única teoria, conciliando seus dois grandes pilares (a mecânica quântica, que explica o mundo do muito pequeno, e a relatividade, que explica o mundo do muito grande), essas propriedades possam emergir naturalmente das equações. Mas diminui a cada dia o número de cientistas que acreditam nesse "milagre". É mais provável a essa altura que tenhamos de viver com o fato de que, de uma gama infindável de universos possíveis, o nosso tenha simplesmente escolhido ser bonzinho conosco.

Claro, essa é uma imagem que parece quase implorar pela existência de um "Criador", uma entidade consciente responsável pela "regulagem" do Universo, de modo a torná-lo propício à nossa existência. (E eu não tenho nada contra quem considere o problema solucionado assim.). Mas evocar uma explicação desse tipo vai contra os princípios científicos, pois significa admitir que não há uma razão lógica, natural ou mesmo passível de verificação experimental. Pressupõe que temos de aceitar que nosso cosmos é como é, tão benevolente conosco por projeto, e é isso. Em outras palavras, nenhum cientista vai comprar a idéia sem antes esgotar todas as opções.

Nesse sentido, uma alternativa que já é popular entre os físicos teóricos há algumas décadas é tentar diluir toda essa benevolência cósmica. Ou seja, supor que o nosso Universo, o nosso Big Bang, seja apenas um, de infindos que acontecem num "multiverso". Se infinitos novos universos estão surgindo o tempo todo, de forma aleatória, haverá muitos em péssima sintonia, que logo implodirão de volta a seu estágio primordial ou em que nada digno de nota acontecerá em zilhões de anos, mas uns poucos serão bons a ponto de gerar criaturas como nós. Daí nasce o chamado princípio antrópico – a noção de que podemos nos colocar no topo da hierarquia neste Universo. Afinal, ao menos por aqui o cosmos calhou de ser especialmente "sintonizado" para nós. De acordo com muitos cientistas, essa é uma saída suficientemente honrosa, e vários físicos de renome, como Stephen Hawking e Martin Rees, têm sido vistos por aí defendendo o princípio antrópico.Mas há quem considere essa solução estética e filosoficamente insatisfatória, para não dizer pouco passível de comprovação experimental. Em resumo, não muito científica. Talvez a resposta para explicar a configuração do Universo seja outra. E se ele puder ter bebês?

Em essência, essa é a teoria de Lee Smolin, físico norte-americano que trabalha no Perimeter Institute, em Ontário, Canadá. Ele propõe que o Universo na verdade não esteja configurado para favorecer o surgimento de formas de vida como nós, mas sim para produzir o maior número de buracos negros possível. O interior de cada buraco negro, por sua vez, abrigaria um novo universo, novinho em folha. Ou seja, quanto mais buracos negros um universo fosse capaz de fabricar, mais "filhos" ele teria, passando adiante essa característica para seus "descendentes". Pois é, você já deve estar pegando o espírito da coisa: é Charles Darwin aplicado à evolução dos universos. Não é à toa que Smolin chama sua teoria de "seleção cosmológica natural".

Pode parecer maluco, mas talvez valha a pena lembrar que o nosso Universo, no momento do chamado Big Bang, estava comprimido num ponto muito denso e muito pequeno (infinitamente compactado, se levarmos a teoria da relatividade ao pé da letra), e essa é exatamente a descrição de um buraco negro, uma estrela que implodiu de forma tão radical a ponto de caber num espaço extremamente contido. A gravidade ali fica tão intensa que nem mesmo a luz consegue escapar de lá. É como se a força gravitacional na verdade enrolasse aquele pequeno pedaço do cosmos em torno de si mesmo, arrancando-o do espaço e do tempo em que vivemos. Quer melhor lugar para criar um universo inteiro longe das nossas vistas?

A idéia de Smolin é que o primeiro universo da história do "multiverso" fosse um daqueles desengonçados e desregulados aleatórios, incapaz de produzir estrelas e de implosão rápida. Sua implosão (como a de um buraco negro) daria origem a outro universo, com uma regulagem só um pouco diferente, talvez um pouco melhor. Ao longo de muitas "gerações", finalmente surgiria um universo capaz de produzir estrelas. Apenas algumas delas teriam massa suficiente para, ao fim de suas vidas, virarem buracos negros, mas isso já daria um grande impulso à prole desse primeiro universo capaz de ter muitos filhos. E o processo continuaria, melhorando cada vez mais a capacidade de gerar universos pródigos em descendentes. Para Smolin, nosso Universo estaria bem adiante nesse processo evolutivo, com uma capacidade imensa de produzir buracos negros.

O efeito é que, com o tempo, os universos capazes de ter muitos filhos predominariam no "multiverso", criando uma configuração que, do ponto de vista de uma distribuição aleatória, seria muito improvável. Ou seja, por esse raciocínio, passa a ser muito mais provável que universos como o nosso (feitos na verdade para produzir buracos negros, não pessoas) sejam criados. Dispensa-se um Criador e também o princípio antrópico, numa tacada só.

Muito bonito, mas como provar? Smolin tem algumas sugestões. Primeiro, ele faz predições teóricas a partir de sua teoria, que outros cientistas poderão tentar desafiar usando apenas papel e caneta. Por exemplo, se ele estiver correto, ninguém conseguirá manipular os parâmetros do Universo de forma a criar um cosmos hipotético que seja muito mais prolífico em buracos negros que o atual.

O físico americano também sugere esforços de observação astronômica para apoiar sua hipótese. Por exemplo, pela seleção cosmológica natural, entre duas teorias diferentes existentes hoje sobre as condições pelas quais se formam buracos negros, a que exige a menor massa inicial (e portanto permite maior surgimento de buracos) deve ser a verdadeira. Se alguém achar uma estrela morta com mais massa do que esse valor mínimo e que, ainda assim, escapou ao destino de virar um buraco negro, Smolin promete jogar sua teoria na privada e puxar a descarga.

Finalmente, ele diz que os observatórios de ondas gravitacionais – há vários em construção ao redor do mundo, e o maior deles já está em operação, composto por duas instalações nos Estados Unidos – poderão no futuro detectar o eco gravitacional do próprio Big Bang, que conteria alguma informação sobre o que ocorreu antes do surgimento do nosso Universo, se é que houve algo antes. Essas informações talvez possam corroborar ou derrubar a seleção cosmológica natural.

Seja qual for a resposta correta, é certo que devemos comemorar, por duas razões. Uma, porque, seja qual for o motivo, somos bem-vindos a este Universo. Outra, porque temos um bem precioso – a razão – que nos permite especular sobre tudo isso. Considerando que os seres humanos são feitos dos mesmos átomos que um dia foram fabricados no coração das estrelas, não podemos evitar a conclusão de que nossa existência e nossas especulações não são nada mais que o próprio Universo fazendo uma tremenda força para entender a si próprio. A ausência de respostas definitivas dificilmente estraga a beleza dessa constatação.


(Folha Online, 29.9.2005)

(Ilustração: Bill Feigenbaum - bed, bath and beyond infinite)


quarta-feira, 24 de junho de 2009

A MORTE DO FUNCIONÁRIO, de Anton Tchecov







Numa noite encantadora, o não menos encantador oficial de justiça Ivan Dmitritch Tcherviakov estava sentado na segunda fila da platéia, contemplando, pelo binóculo, "Os Sinos de Corneville". Sentia-se no cúmulo da bem-aventurança. Mas, de repente... É muito comum encontrar-se, nos contos, este "mas, de repente". Os autores têm razão: a vida é tão cheia de coisas inesperadas! Mas, de repente, seu rosto enrugou-se, os olhos contraíram-se, parou a respiração... afastou o binóculo, inclinou-se e... atchim!!! Espirrou, conforme estão vendo. Não é proibido espirrar, seja a quem for e onde for. Espirram os mujiques, os chefes de polícia e, às vezes, os próprios conselheiros-privados. Todos espirram. Tcherviakov não ficou sequer encabulado, enxugou-se com um lencinho e, como pessoa educada, espiou ao redor, para ver se havia incomodado alguém com seu espirro. Chegou-lhe então a vez de ficar perturbado. Viu que um velhinho, sentado na frente, na primeira fileira, enxugava meticulosamente a calva e o pescoço com a luva, murmurando algo. E Tcherviakov reconheceu, naquele velhinho, o general civil Brizjalov, do Departamento da Viação.

- Eu o molhei! - pensou Tcherviakov. - Não é meu chefe, mas apesar de tudo, não fica bem. Devo desculpar-me.

Tossiu, inclinou o busto para frente e murmurou ao ouvido do general:

- Desculpe, Vossa Excelência, eu o borrifei... foi sem querer...

- Não faz mal, não tem importância...

- Perdoe-me, pelo amor de Deus... Realmente, foi sem querer!

- Ah, sente-se, por favor! Deixe-me ouvir a música!

Tcherviakov ficou perturbado, sorriu estupidamente e pôs-se a olhar para o palco. Mas, por mais que olhasse, não sentia a primitiva bem-aventurança. Começou a atormentar-se de inquietação. No intervalo, aproximou-se de Brizjalov, caminhou um pouco para um lado e outro, perto dele, e, vencendo finalmente a timidez, balbuciou:

- Eu o borrifei, Vossa Excelência... Desculpe... Com efeito... eu... não é que...

- Ah, não se preocupe... Eu até já esqueci e o senhor está sempre falando nisso! - disse o general e moveu com impaciência o lábio inferior.

“Diz que esqueceu, mas há maldade em seus olhos", pensou Tcherviakov, olhando desconfiado para o general. "Nem sequer fala sobre o caso. Seria preciso explicar-lhe que eu não quis, absolutamente... que se trata de uma lei da natureza. Senão, vai pensar que eu quis cuspir nele. Se não pensar assim agora, chegará a essa conclusão mais tarde!...".

Em casa, Tcherviakov relatou à mulher a falha cometida. Pareceu-lhe que ela encarou o ocorrido com demasiada leviandade. Teve um susto, mas se acalmou, ao saber que Brizjalov pertencia a outra repartição.

- Mesmo assim - disse ela - você deve ir lhe pedir desculpas. Senão, vai pensar que você não sabe se comportar em público!

- Isso mesmo! Eu já me desculpei, mas ele se portou de modo estranho... Não disse uma palavra razoável, sequer. Além disso, não houve oportunidade de conversar.

No dia seguinte, Tcherviakov envergou seu novo uniforme de gala, cortou o cabelo e foi à casa de Brizjalov, para se explicar... Entrando na sala de recepção, viu lá muitos solicitantes e, no meio destes, o próprio general, que já iniciara o recebimento das solicitações. Depois de interrogar alguns dos presentes, o general dirigiu o olhar para Tcherviakov.

- Se o senhor se recorda, Vossa Excelência, ontem, no "Arcádia" - começou a relatar o oficial de justiça - eu espirrei e... involuntariamente, o borrifei... Des...- Que tolice... Vá com Deus! E o senhor, que deseja? - perguntou o general, dirigindo-se já a outro solicitante.

“Não quer falar!", pensou Tcherviakov, empalidecendo. "Quer dizer que está zangado... Não, isso não pode ficar assim... vou-lhe explicar...".

Quando o general acabou de atender o último solicitante e dirigia-se já para o interior da casa, Tcherviakóv deu um passo em sua direção, murmurando:

- Vossa Excelência! Se me atrevo a incomodar Vossa Excelência, é justamente, posso dizer, sob o impulso do arrependimento!... Não foi de propósito, o senhor não pode ignorá-lo!

O general fez cara de choro e sacudiu a mão.

- O senhor está simplesmente zombando de mim! - disse, desaparecendo atrás da porta.

“Que zombaria pode haver nisso?", pensou Tcherviakov. "Não se trata de zombaria! É general, mas não pode compreender isso! Se assim é, não vou me desculpar mais perante esse fanfarrão! Diabo que o carregue! Vou escrever-lhe uma carta, mas não o procurarei mais pessoalmente! Juro por Deus!".

Assim pensava Tcherviakov, a caminho de casa. No entanto, não escreveu aquela carta ao general. Ficou pensando, pensando, mas não conseguiu redigi-la. Foi preciso ir explicar-se pessoalmente, no dia seguinte.

- Ontem eu vim incomodar Vossa Excelência - balbuciou, quando o general dirigiu para ele o olhar interrogador - mas não foi para zombar do senhor, conforme se dignou a dizer. Eu estava-me desculpando porque, ao espirrar, borrifei-o... mas, nem pensei em zombaria. Como poderia ousá-lo? Se formos zombar, quer dizer que não haverá, então, qualquer respeito... pelas pessoas...

- Fora daqui! - vociferou de repente o general, que se tornara azul e tremia com todo o corpo.

- O quê? - perguntou, num murmúrio Tcherviakov, empalidecendo de espanto.- Fora daqui! - repetiu o general, batendo os pés.

Algo se rompeu na barriga de Tcherviakov. Recuou para a porta, sem ver, sem ouvir coisa alguma, saiu para a rua e caminhou lentamente...

Chegando maquinalmente em casa, deitou-se no divã, sem tirar o uniforme de gala e... morreu.


(A Dama do Cachorrinho e Outros Contos, tradução de Boris Schnaiderman)

(Ilustração: Walter Sickert)


terça-feira, 23 de junho de 2009

VANDALISMO, de Augusto dos Anjos







Meu coração tem catedrais imensas,
- Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume do amor em serenatas
Canta a aleluia virginal das crenças.


Na ogiva fúlgida e nas colunatas

Vertem lustrais irradiações intensas,
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas.


Como os velhos templários medievais

Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos...


E erguendo os gládios e brandindo as hastas,

No desespero dos iconoclastas,
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!




(Eu e Outras Poesias)



(Ilustração: Franciscus Gijsbrechts - vanitas)




segunda-feira, 22 de junho de 2009

A PASSANTE, de Pierre Louÿs









Caminhava lentamente, com a cabeça inclinada sobre o ombro, no molhe deserto e enluarado. Uma pequena sombra móvel palpitava no chão à sua frente.



Demétrio via-a aproximar-se.



Pregas diagonais sulcavam o pouco que se via de seu corpo através do tecido transparente; um dos cotovelos fazia saliência sob a túnica justa, e o outro braço, que deixara nu, arrepanhava a longa cauda, para evitar que rojasse no pó.



Pelas joias, conheceu que era uma cortesã; para evitar que o saudasse, atravessou vivamente o molhe.



Não queria olhá-la. Voltou deliberadamente o pensamente para o grande esboço de Zagreu. E entanto, seus olhos tornaram a fitar a transeunte.



Viu, então que a mulher não se detinha, não se incomodava com sua presença, sequer afetava estar espiando o mar, nem mergulhada em reflexões profundas; mas passeava sozinha simplesmente e ali só buscava a frescura da brisa, a solidão, o abandono, o frêmito ligeiro do silêncio.



Sem fazer o menor movimento, Demétrio não deixou de olhá-la e perdeu-se num espanto singular.



A mulher continuava a andar como uma sombra amarela na distância, despreocupada e precedida pela minúscula sombra negra. Demétrio ouvia a cada passo o débil rangido da sandália na poeira do caminho.



A cortesã foi até a ilha do Farol e subiu aos rochedos.



De repente, como se já de há muito amasse a desconhecida, Demétrio saiu-lhe no encalço, estacou, voltou atrás, tremeu, indignou-se consigo mesmo, tentou abandonar o cais; mas nunca empregara a vontade a não ser a serviço do seu próprio prazer, e quando foi chegado o memento de fazê-la agir em defesa de seu caráter e do calmo ritmo de sua vida, sentiu-se impotente e não pôde arredar do sítio em que estava.



Como já não lhe era possível deixar de pensar nessa mulher, procurou desculpar-se da preocupação que viera distraí-lo tão violentamente. Esforçou-se por acreditar que lhe admirava o andar gracioso por um sentimento todo estético e disse consigo que ela seria o modelo sonhado para a Cárite com leque que pretendia esboçar no dia seguinte...



Depois, de repente, todos os seus pensamentos se confundiram e afluíram-lhe ao cérebro múltiplas perguntas ansiosas que giravam em torno daquela mulher.



Que iria fazer na ilha a essa hora da noite? Por quê, por quem saía tão tarde? Por que não o abordara? Vira-o, vira-o decerto quando ele atravessara o molhe. Por quê, sem uma palavra de cumprimento, seguira seu caminho? Dizia-se por aí que certas mulheres às vezes escolhiam as horas frescas que precedem a alvorada, para banhar-se nas águas do mar. Mas ninguém se banhava no Faro! O mar ali era muito profundo. Aliás, era tão inverossímel uma mulher cobrir-se assim de joias só para ir ao banho!... Então, que a atraía tão longe de Racótis? Uma entrevista, quiçá? Algum jovem requintado, sequioso de emoções novas, a quem aprazia ter por leito de um instante os grandes rochedos polidos pelas ondas? Demétrio quis certificar-se. A moça, porém, já vinha voltando, com o mesmo passo descuidoso e tranquilo, iluminada de frente pela fraca claridade lunar, e varria suavemente comas plumas do leque o pó da amurada.






(Afrodite – Romance de Costumes Antigos, tradução de Elias Davidovich)



(Ilustração: Vita - forever gone)




domingo, 21 de junho de 2009

ÍTACA, de Konstantinos Kaváfis








Se partires um dia rumo a Ítaca,
faz votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrará
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não os levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.

Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais, com que prazer, com que alegria,
tu hás de entrar pela primeira vez um porto
para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir:
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,
e perfumes sensuais de toda a espécie,
quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrina
para aprender, para aprender dos doutos.

Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha velho enfim,
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.

Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,
e agora sabes o que significam Ítacas.



(Tradução de José Paulo Paes)

Quando, de volta, viajares para Ítaca
roga que tua rota seja longa, repleta de peripécias, repleta de conhecimentos.Aos Lestrigões, aos Ciclopes,ao colérico Poseidon, não temas:tais prodígios jamais encontrarás em teu roteiro,se mantiveres altivo o pensamento e seletaa emoção que tocar teu alento e teu corpo.Nem Lestrigões nem Ciclopes,nem o áspero Posêidon encontrarás,se não os tiveres imbuído em teu espírito,se teu espírito não os suscitar diante de si.
que, múltiplas, se sucedam as manhãs de verão.
Com que euforia, com que júbilo extremo
entrarás, pela primeira vez num porto ignoto!
Faze escala nos empórios fenícios
para arrematar mercadorias belas;
madrepérolas e corais, âmbares e ébanos
e voluptuosas essências aromáticas, várias,
tantas essências, tantos arômatas, quantos puderes achar.
para aprenderes coisas e mais coisas com os sapientes zelosos.
Todo tempo em teu íntimo Ítaca estará presente.
mas não busques apressar tua viagem.
É bom que ela tenha uma crônica longa, duradoura,
que aportes velho, finalmente à ilha,
rico do muito que ganhares no decurso do caminho,
sem esperares de Ítaca riquezas.
Ítaca te deu essa beleza de viagem.
Sem ela não a terias empreendido.
Nada mais precisa dar-te.
Se te parece pobre, Ítaca não te iludiu.
Agora tão sábio, tão plenamente vivido,
bem compreenderás o sentido das Ítacas.


Roga que tua rota seja longa,
Detém-te nas cidades do Egito -nas muitas cidades-
Tua sina te assina esse destino,

 (Tradução de Haroldo de Campos)


(Ilustração: Yves Plateau)





sábado, 20 de junho de 2009

ALEXANDRIA, O GRANDE LAGAR DO AMOR, de Lawrence Durrell









O mar está novamente agitado hoje, com rajadas de vento que despertam os sentidos. Em pleno Inverno, a Primavera começa a fazer-se sentir. Toda a manhã o céu esteve de u ma pureza de pérola; há grilos nos recantos sombrios; o vento despoja e fustiga os grandes plátanos...



Retirei-me para esta ilha com alguns livros e com a criança – a filha de Melissa. Não sei por que, agora, ao escrever, penso nesta ilha como num “retiro”. Os habitantes dizem por brincadeira que só um convalescente pensaria em ver procurar este lugar. Bem, para condescender, admitamos que sou um homem que procura curar-se...



Durante a noite, quando o vento ruge e a criança dorme sossegadamente na sua camita perto da chaminé, acendo uma lamparina e começo a andar para trás e para diante, com a mente cheia de recordações dos meus amigos: Justine, Nessim, Melissa e Baltasar. E, insensivelmente, na senda da memória, regresso à cidade onde as nossas vidas se entrecruzaram e desfizeram, à cidade que se serviu de nós como sua flora – embaraçando-nos nos seus conflitos próprios e deixando-nos convencidos de que a trama das nossas paixões nos pertencia –: à bem-amada Alexandria!



E foi preciso ver até tão longe pra compreender! Vivendo neste promontório escalvado, onde todas as noites Arturo vem disputar-me às trevas, longe da poeira e dos relentos calcários das tardes de Verão, compreendo agora que nenhum de nós é responsável pelo que se passou. É a cidade que deve ser julgada, embora seja sobre nós, os seus filhos, que recaia a punição.

Em suma, que é esta nossa cidade? Que se condensa sob o nome de Alexandria? Num relance, os olhos proporcionam-me a imagem de milhares de ruas poeirentas. Atualmente, as moscas e os mendigos são os donos da cidade – juntamente com aqueles que se deliciam com uma existência intermédia.


Cinco raças, cinco línguas, uma dúzia de credos; cinco esquadras cruzando os seus perfis refletidos sobre as águas oleosas do porto. Mas existem mais de cinco sexos e apenas as sutilezas linguísticas do grego demótico nos proporcionam os cambiantes diferenciais. O capital sexual que se esbanja em oferta abundante surpreende pela sua variedade e profusão. E, contudo, não é u m lugar de prazer. Os amantes simbólicos do mundo grego cedem lugar a algo sutilmente andrógino e diferente, introvertido. O Oriente não pode desfrutar a doce anarquia carnal – porque o Oriente está pra além do corpo. Recordo-me de ter ouvido a Nessim certo dia – creio que o tinha lido em algum lugar – que Alexandria era o grande lagar do amor; os que escapavam eram os doentes, os solitários, os profetas, enfim, todos aqueles que tinham o sexo mutilado.



Apontamentos paisagísticos... Prolongados acordes de cor. A luz, a filtrar-se através da nuvem perfumada que afoga os limoeiros. No ar, em suspensão, a poeirada vermelha dos tijolos, e o relento do asfalto ardente, rego mas logo seco. Pequenas nuvens úmidas rasando a terra sem, contudo, se desfazerem em chuva. Sobre um fundo vermelho baço, pinceladas verdes, lilases, e reflexos carminados sobre as água. No Verão, a umidade do mar põe um brilho luminoso na atmosfera. Uma capa viscosa cobre todas as coisas.



Depois, no Outono, o ar seco e vibrante, uma eletricidade estática e ácida que inflama a pele sob as tênues roupas. A carne acordada ensaia as suas forças nas grades que a encarceram. Uma meretriz embriagada cambaleia pela ruela, espalhando fragmentos de uma canção, como se fossem pétalas de rosas. Teriam sido estes inebriantes acordes que Antônio ouviu, decidindo-o a render-se à cidade que já o tinha conquistado de corpo e alma?



Os corpos incompletos dos jovens procuram a cumplicidade de uma nudez condescendente, e nos pequenos cafés, onde Baltasar ia tantas vezes na companhia do velho poeta da cidade(1), os rapazolas começam a jogar aos dados, à luza das candeias de petróleo; mas, sem tardança, o vento do deserto - prosaico e áspero – constrange-os a largar as pedras, e ficam inertes, a observar os desconhecidos. A respiração é dolorosa e em cada baforada estival reconhecem o sabor ressequido da cal viva...



Tive que vir para aqui para reconstruir integralmente esta cidade na minha memória – esta melancólica província que o velho(1) considerava cheia das “ruínas negras” da sua vida. O estrondear dos elétricos vibrando nas suas artérias metálicas, penetrando no meidan cor de ferrugem de Mazarita. Ouro, fósforo, magnésio, papel. Aqui nos encontramos muitas vezes. Havia um pequeno bar onde ela gostava de vir, no Verão, tomar sorvete e comer talhadas de melancia. Chegava sempre atrasada, regressando, provavelmente, de qualquer encontro num gabinete de persianas cerradas, mas eu fazia por não adivinhar essas coisas quando a sua boca, maravilhosamente fresca e jovem, procurava saciar nos meus lábios uma infinita sede estival. Talvez na sua memória ainda agonizasse a imagem do homem que acabava de deixar, e no seu corpo arrefecesse ainda o calor dos beijos recebidos. Mas isso não tinha a menor importância; só contava, agora, a suave curva do seu braço que envolvia o meu, e eu gozava uma felicidade completa porque nela não existiam segredos. Era bom estarmos assim, perturbados e ligeiramente embaraçados, um pouco oprimidos pelo conhecimento partilhado do nosso desejo recíproco. As mensagens não se detinham na consciência, atravessam espontaneamente os lábios entreabertos, os olhos, os sorvetes e a lojeca de toldo vivamente colorido. Éramos uma parte da cidade, e ali estávamos, com os dedos entrecruzados, respirando a tarde perfumada de aromas de cânfora.






Nota(1 ) “O velho poeta da cidade”, “o velho”, Konstantinos Kavafis.





(Quarteto de Alexandria – Justine, tradução de Daniel Gonçalves)


(Ilustração: Alma Tadema - the honeymoon)









sexta-feira, 19 de junho de 2009

MEMÓRIA, de Carlos Drummond de Andrade







Amar o perdido
deixa confundido
este coração.


Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.



As coisas tangíveis
Tornam-se insensíveis
à palma da mão.


Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.



(Ilustração: Paul Delvaux - la belle songeuse)



quinta-feira, 18 de junho de 2009

AS CONFIDÊNCIAS SÃO SEMPRE PERNICIOSAS, de Marguerite Yourcenar






Certa noite, em Presburgo, pouco tempo depois da morte de minha irmã, voltei para casa sentindo-me mais desolado que de costume. Amara muito a minha irmã. Não pretendo, porém, insinuar que sua morte me tivesse afligido em excesso; estava terrivelmente atormentado para ter tempo ou emoção para tanto. O sofrimento nos torna egoístas, pois nos absorve inteiramente. Só mais tarde, sob forma de saudade, é que o próprio sofrimento nos ensina a sermos compassivos. Cheguei em casa um pouco mais tarde que planejara, embora não houvesse fixado com minha mãe a hora da chegada. Portanto, ela não me esperava. Contudo, ao empurrar de leve a porta, encontrei-a sentada no escuro. Em seus últimos anos de vida, minha mãe costumava ficar quieta ao cair da noite, sem ocupar-se de coisa alguma. Parecia-me que desejava familiarizar-se com a inação e as trevas. Seu rosto, suponho, assumia a expressão calma e sincera que todos assumimos quando sabemos que estamos inteiramente sós e quando a escuridão em torno é absoluta. Entrei. Minha mãe não gostava de se surpreendida nesses momentos. Disse-me, tentado justificar-se, que a lâmpada apagara-se pouco antes de minha chegada. Coloquei a mão sobre o vidro. Sequer estava morno, mas completamente frio. Ela notou perfeitamente que eu não estava bem; somos mais clarividentes no escuro porque nele nossos olhos não nos podem enganar. Sentei-me ao seu lado às apalpadelas. Achava-me num estado de languidez especial e bastante meu conhecido. Parecia-me quase certo que uma confissão ia fluir de mim para minha mãe, inevitavelmente, sob a forma de pranto. Estava prestes a contar-lhe tudo quando a criada entrou com uma nova lâmpada.

O momento e a hora haviam passado. Já não lhe podia dizer mais nada porque não suportaria a expressão do seu rosto quando tudo tivesse sido compreendido. Um pouco de luz livrou-me de cometer uma falta irreparável, além de inútil. As confidências, querida Mônica, são sempre perniciosas quando não têm por finalidade simplificar a vida de outrem.
Entretanto, eu fora demasiado longe para guardar silêncio. Era preciso dizer alguma coisa. Descrevi então a tristeza da minha existência, minha chances de futuro indefinidamente afastadas, a dependência sob a qual meus irmãos me mantinham na família. Pensava, porém, numa submissão muito mais séria, da qual contava libertar-me partindo. Pus nessas queixas sem importância toda a angústia que teria posto numa outra confissão que não podia fazer e que era a única eu não podia fazer e que era a única que verdadeiramente importava. Compreendi que a convencera. Levantou-se e encaminhou-se para a porta. Estava cansada e frágil, e pude perceber o quanto lhe fora penoso concordar comigo. Era como se acabasse de perder um segundo filho. Quanto a mim, sofria por não poder confessar a verdadeira causa de minha insistência em partir. Talvez me julgasse egoísta. Quis dizer-lhe que não partiria.

No dia seguinte, mandou chamar-me. Falamos de minha partida como se ela sempre tivesse estado decidida entre nós. Minha família não era suficientemente rica para me manter com uma pensão; devia trabalhar para viver. A fim de me facilitar os primeiros tempos, minha mãe me deu, sob grande sigilo, uma quantia retirada de sua verba pessoal. Não era uma soma elevada, embora assim tenha parecido a mim e a ela. Tão logo me foi possível, reembolsei-a em parte, mas minha mãe morreu antes que eu conseguisse saldar o compromisso. Ela acreditava no meu futuro. Se algum dia desejei a glória foi por saber que isso a faria feliz. Assim, à medida que vão desaparecendo aqueles a quem amamos, diminuem nossas razões para conquistarmos uma felicidade que não poderemos fruir juntos.



(Alexis, tradução de Martha Calderaro)


(Ilustração: Alyssa Monks)