sábado, 20 de junho de 2009

ALEXANDRIA, O GRANDE LAGAR DO AMOR, de Lawrence Durrell









O mar está novamente agitado hoje, com rajadas de vento que despertam os sentidos. Em pleno Inverno, a Primavera começa a fazer-se sentir. Toda a manhã o céu esteve de u ma pureza de pérola; há grilos nos recantos sombrios; o vento despoja e fustiga os grandes plátanos...



Retirei-me para esta ilha com alguns livros e com a criança – a filha de Melissa. Não sei por que, agora, ao escrever, penso nesta ilha como num “retiro”. Os habitantes dizem por brincadeira que só um convalescente pensaria em ver procurar este lugar. Bem, para condescender, admitamos que sou um homem que procura curar-se...



Durante a noite, quando o vento ruge e a criança dorme sossegadamente na sua camita perto da chaminé, acendo uma lamparina e começo a andar para trás e para diante, com a mente cheia de recordações dos meus amigos: Justine, Nessim, Melissa e Baltasar. E, insensivelmente, na senda da memória, regresso à cidade onde as nossas vidas se entrecruzaram e desfizeram, à cidade que se serviu de nós como sua flora – embaraçando-nos nos seus conflitos próprios e deixando-nos convencidos de que a trama das nossas paixões nos pertencia –: à bem-amada Alexandria!



E foi preciso ver até tão longe pra compreender! Vivendo neste promontório escalvado, onde todas as noites Arturo vem disputar-me às trevas, longe da poeira e dos relentos calcários das tardes de Verão, compreendo agora que nenhum de nós é responsável pelo que se passou. É a cidade que deve ser julgada, embora seja sobre nós, os seus filhos, que recaia a punição.

Em suma, que é esta nossa cidade? Que se condensa sob o nome de Alexandria? Num relance, os olhos proporcionam-me a imagem de milhares de ruas poeirentas. Atualmente, as moscas e os mendigos são os donos da cidade – juntamente com aqueles que se deliciam com uma existência intermédia.


Cinco raças, cinco línguas, uma dúzia de credos; cinco esquadras cruzando os seus perfis refletidos sobre as águas oleosas do porto. Mas existem mais de cinco sexos e apenas as sutilezas linguísticas do grego demótico nos proporcionam os cambiantes diferenciais. O capital sexual que se esbanja em oferta abundante surpreende pela sua variedade e profusão. E, contudo, não é u m lugar de prazer. Os amantes simbólicos do mundo grego cedem lugar a algo sutilmente andrógino e diferente, introvertido. O Oriente não pode desfrutar a doce anarquia carnal – porque o Oriente está pra além do corpo. Recordo-me de ter ouvido a Nessim certo dia – creio que o tinha lido em algum lugar – que Alexandria era o grande lagar do amor; os que escapavam eram os doentes, os solitários, os profetas, enfim, todos aqueles que tinham o sexo mutilado.



Apontamentos paisagísticos... Prolongados acordes de cor. A luz, a filtrar-se através da nuvem perfumada que afoga os limoeiros. No ar, em suspensão, a poeirada vermelha dos tijolos, e o relento do asfalto ardente, rego mas logo seco. Pequenas nuvens úmidas rasando a terra sem, contudo, se desfazerem em chuva. Sobre um fundo vermelho baço, pinceladas verdes, lilases, e reflexos carminados sobre as água. No Verão, a umidade do mar põe um brilho luminoso na atmosfera. Uma capa viscosa cobre todas as coisas.



Depois, no Outono, o ar seco e vibrante, uma eletricidade estática e ácida que inflama a pele sob as tênues roupas. A carne acordada ensaia as suas forças nas grades que a encarceram. Uma meretriz embriagada cambaleia pela ruela, espalhando fragmentos de uma canção, como se fossem pétalas de rosas. Teriam sido estes inebriantes acordes que Antônio ouviu, decidindo-o a render-se à cidade que já o tinha conquistado de corpo e alma?



Os corpos incompletos dos jovens procuram a cumplicidade de uma nudez condescendente, e nos pequenos cafés, onde Baltasar ia tantas vezes na companhia do velho poeta da cidade(1), os rapazolas começam a jogar aos dados, à luza das candeias de petróleo; mas, sem tardança, o vento do deserto - prosaico e áspero – constrange-os a largar as pedras, e ficam inertes, a observar os desconhecidos. A respiração é dolorosa e em cada baforada estival reconhecem o sabor ressequido da cal viva...



Tive que vir para aqui para reconstruir integralmente esta cidade na minha memória – esta melancólica província que o velho(1) considerava cheia das “ruínas negras” da sua vida. O estrondear dos elétricos vibrando nas suas artérias metálicas, penetrando no meidan cor de ferrugem de Mazarita. Ouro, fósforo, magnésio, papel. Aqui nos encontramos muitas vezes. Havia um pequeno bar onde ela gostava de vir, no Verão, tomar sorvete e comer talhadas de melancia. Chegava sempre atrasada, regressando, provavelmente, de qualquer encontro num gabinete de persianas cerradas, mas eu fazia por não adivinhar essas coisas quando a sua boca, maravilhosamente fresca e jovem, procurava saciar nos meus lábios uma infinita sede estival. Talvez na sua memória ainda agonizasse a imagem do homem que acabava de deixar, e no seu corpo arrefecesse ainda o calor dos beijos recebidos. Mas isso não tinha a menor importância; só contava, agora, a suave curva do seu braço que envolvia o meu, e eu gozava uma felicidade completa porque nela não existiam segredos. Era bom estarmos assim, perturbados e ligeiramente embaraçados, um pouco oprimidos pelo conhecimento partilhado do nosso desejo recíproco. As mensagens não se detinham na consciência, atravessam espontaneamente os lábios entreabertos, os olhos, os sorvetes e a lojeca de toldo vivamente colorido. Éramos uma parte da cidade, e ali estávamos, com os dedos entrecruzados, respirando a tarde perfumada de aromas de cânfora.






Nota(1 ) “O velho poeta da cidade”, “o velho”, Konstantinos Kavafis.





(Quarteto de Alexandria – Justine, tradução de Daniel Gonçalves)


(Ilustração: Alma Tadema - the honeymoon)









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