sexta-feira, 29 de março de 2024

SOCIOGÊNESE DA DIFERENÇA ENTRE "KULTUR" E "ZIVILISATION" NO EMPREGO ALEMÃO: INTRODUCÃO, de Norbert Elias

 




1. O conceito de "civilização" refere-se a uma grande variedade de fatos: ao nível da tecnologia, ao tipo de maneiras, ao desenvolvimento dos conhecimentos científicos, às ideias religiosas e aos costumes. Pode-se referir ao tipo de habitações ou à maneira como homens e mulheres vivem juntos, à forma de punição determinada pelo sistema judiciário, quanto ao modo como são preparados os alimentos. Rigorosamente falando, nada há que não possa ser feito de forma "civilizada" ou "incivilizada". Daí ser sempre difícil sumariar em algumas palavras tudo o que se pode descrever como civilização.

Mas se examinamos o que realmente constitui a função geral do conceito de civilização, e que qualidade comum leva todas essas várias atividades humanas a serem descritas como civilizadas, partimos de uma descoberta muito simples: este conceito expressa a consciência que o Ocidente tem de si mesmo. Poderíamos até dizer: a consciência nacional. Ele resume tudo em que a sociedade ocidental dos últimos dois ou três se julga superior a sociedades mais antigas ou a sociedades contemporâneas "mais primitivas". Com essa palavra, a sociedade ocidental procura descrever o que lhe constitui o caráter especial e aquilo de que se orgulha: nível de sua tecnologia, a natureza de suas maneiras, o desenvolvimento de sua cultura científica ou visão do mundo, e muito mais.

2. "Civilização", porém, não significa a mesma coisa para diferentes nações ocidentais. Acima de tudo, é grande a diferença entre como ingleses e franceses empregam a palavra, por um lado, e os alemães por outro. Para os primeiros, o conceito resume em uma única palavra o seu orgulho pela importância de suas nações para o progresso do Ocidente e da humanidade. Já no emprego que lhe é dado pelos alemães, Zivilisation significa algo de fato útil, mas, apesar disso, apenas um valor de segunda classe, compreendendo apenas a aparência externa de seres humanos, a superfície da existência humana. A palavra pela qual os alemães se interpretam, que mais do que qualquer outra expressa-lhes o orgulho em suas próprias realizações e no próprio ser, é Kultur.

3. Um fenômeno peculiar: Palavras como "civilização" em francês ou inglês, ou o alemão Kultur, são inteiramente claras no emprego interno da sociedade a que pertencem. Mas a forma pela qual uma parte do mundo está ligada a elas, a maneira pela qual incluem certas áreas e excluem outras, como a coisa mais natural, as avaliações ocultas que implicitamente fazem com elas, tudo isto torna difícil defini-las para um estranho.

O conceito francês e inglês de civilização pode se referir a fatos políticos ou econômicos, religiosos ou técnicos, morais ou sociais. O conceito alemão de Kultur alude basicamente a fatos intelectuais, artísticos e religiosos e apresenta a tendência de traçar uma nítida linha divisória entre fatos deste tipo, por um lado, e fatos políticos, econômicos e sociais, por outro. O conceito francês e inglês de civilização pode se referir a realizações, mas também a atitudes ou "comportamento" de pessoas; pouco importando se realizaram ou não alguma coisa: No conceito alemão de Kultur, em contraste, a referência a "comportamento", o valor que a pessoa tem em virtude de sua mera existência e conduta, sem absolutamente qualquer realização, é muito secundário. O sentido especificamente alemão do conceito de Kultur encontra sua expressão mais clara em seu derivado, o adjetivo kulturell, que descreve o caráter e o valor de determinados produtos humanos, e não o valor intrínseco da pessoa. Esta palavra, o conceito inerente a kulturell, porém, não pode ser traduzido exatamente para o francês e a o inglês.

A palavra kultiviert (cultivado) aproxima-se muito do conceito ocidental de civilização. Até certo ponto, representa a forma mais alta de ser civilizado. Até mesmo pessoas e famílias que nada realizaram de kulturell podem ser kultiviert. Tal como a palavra "civilizado", kultiviert refere-se primariamente à forma da conduta ou comportamento da pessoa. Descreve a qualidade social das pessoas, suas habitações, suas maneiras, sua fala, suas roupas, ao contrário de kulturell, que não alude diretamente às próprias pessoas, mas exclusivamente a realizações humanas peculiares.

4. Há outra diferença entre os dois conceitos estreitamente a isto. "Civilização" descreve um processo ou, pelo menos, diz respeito a algo que está em movimento constante, movendo-se temente "para a frente". O conceito alemão de kultw, no emprego implica uma relação diferente com movimento. Reporta-se a produtos nos que são semelhantes a "flores do campo", a obras de arte, livros, sistemas religiosos ou filosóficos, nos quais se expressa a individualidade de um povo. O conceito de Kultur delimita.

Até certo ponto, o conceito de civilização minimiza as diferenças nacionais entre os povos: enfatiza o que é comum a todos os seres humanos ou — na opinião dos que o possuem — deveria sê-lo. Manifesta a autoconfiança de povos nas quais as fronteiras nacionais e identidade nacional foram tão plenamente estabelecidos, desde séculos, que deixaram de ser tema de qualquer discussão, povos que há muito se expandiram fora de suas fronteiras e colonizaram terras muito além delas.

Em contraste, o conceito alemão de Kultur dá ênfase especial a diferenças nacionais e à identidade particular de grupos. Principalmente em virtude disto, o conceito adquiriu em campos como a pesquisa etnológica e antropológica uma significação muito além da área linguística alemã e da situação em que se originou o conceito. Mas esta situação é aquela de um povo que, de acordo com os padrões ocidentais, conseguiu apenas muito tarde a unificação política e a consolidação e de cujas fronteiras, durante séculos ou mesmo até o presente, territórios repetidamente se desprenderam ou ameaçaram se separar. Enquanto o conceito de civilização inclui a função de dar expressão a uma tendência continuamente expansionista de grupos colonizadores, o conceito de Kultur reflete a consciência de si mesma de uma nação que teve de buscar e constituir incessante e novamente suas fronteiras, tanto no sentido político como espiritual, e repetidas vezes perguntar a si mesma: "Qual é, realmente, nossa identidade?" A orientação do conceito alemão de cultura, com sua tendência à demarcação e ênfase em diferenças, e no seu detalhamento, entre grupos, corresponde a este processo histórico. As perguntas "O que é realmente francês? O que é realmente inglês?" há muito deixaram de ser assunto de discussão para franceses e ingleses. Durante séculos, porém, a questão "O que é realmente alemão?" reclamou sempre resposta. Uma resposta a esta pergunta  uma entre várias outras — reside em um aspecto peculiar do conceito de Kultur.

5. As autoimagens nacionais representadas por conceitos como Kultur e "civilização" assumem formas muito diferentes. Por mais diferente que seja a autoimagem dos alemães, que falam com orgulho de sua Kultur, e a de franceses e ingleses, que pensam com orgulho em sua "civilização", todos consideram axiomático que a sua é a maneira como o mundo dos homens, como um todo, quer ser visto e julgado. O alemão pode, quem sabe, tentar explicar a franceses e ingleses o que entende pelo conceito de Kultur. Mas dificilmente pode comunicar o mínimo que seja do meio formativo nacional específico e valores emocionais axiomáticos que para ele a palavra reveste.

Franceses ou ingleses poderão talvez dizer ao alemão que elementos o conceito de civilização assume da autoimagem nacional. Mas por mais razoável e racional que este conceito lhes pareça, ele também nasce de um conjunto específico de situações históricas, e está cercado também por uma atmosfera emocional e tradicional difícil de definir, mas que apesar disso constitui a parte integral de seu significado. E discussão descamba realmente para a inutilidade quando o alemão tenta demonstrar ao francês e ao inglês por que o conceito de Zivilisation de fato representa um valor para ele, embora apenas de segunda classe.

6. Conceitos como esses dois têm algo do caráter de palavras que ocasionalmente surgem em algum grupo mais estreito, tais como família, seita, classe escolar ou associação, e que dizem muito para o iniciado e pouquíssimo para o estranho. Assumem forma na base de experiências comuns. Crescem e mudam com o grupo do qual são expressão. Situação e história do grupo refletem-se nelas. E permanecem incolores, nunca se tornam plenamente vivas para aqueles que não compartilham tais experiências, que não falam a partir da mesma tradição e da mesma situação.

Os conceitos de Kultur e "civilização", para sermos exatos, portam o selo não de seitas ou famílias, mas de povos inteiros ou talvez apenas de certas classes. Mas, em muitos aspectos, o que se aplica a palavras específicas de grupos menores estende-se também a eles: são usados basicamente por e para povos que compartilham uma tradição e situação particulares.

Conceitos matemáticos podem ser separados do grupo que os usa. Triângulos admitem explicações sem referência a situações históricas. Mas o mesmo não acontece com conceitos como "civilização" e Kultur. Talvez aconteça que determinados indivíduos os tenham formado com base em material linguístico já disponível de seu próprio grupo, ou pelo menos lhes tenham atribuído um novo significado. Mas eles lançaram raízes. Estabeleceram-se. Outros os captaram em seu novo significado e forma, desenvolvendo-os e polindo-os na fala e na escrita. Foram usados repetidamente até se tornarem instrumentos eficientes para expressar o que pessoas experimentaram em comum e querem comunicar. Tornaram-se palavras da moda, conceitos de emprego comum no linguajar diário de uma dada sociedade. Este fato demonstra que não representam apenas necessidades individuais, mas coletivas, de expressão. A história coletiva neles se cristalizou e ressoa. O indivíduo encontra essa cristalização já em suas possibilidades de uso. Não sabe bem por que este significado e esta delimitação estão implicadas nas palavras, por que, exatamente, esta nuance e aquela possibilidade delas podem ser derivadas. Usa-as porque lhe parece uma coisa natural, porque desde a infância aprende a ver o mundo através da lente desses conceitos. O processo social de sua gênese talvez tenha sido esquecido há muito. Uma geração os transmite a outra sem estar consciente do processo como um todo, e os conceitos sobrevivem enquanto esta cristalização de experiências passadas e situações retiver um valor existencial, uma função na existência concreta da sociedade, isto é, enquanto gerações sucessivas puderem identificar suas próprias experiências no significado das palavras. Os termos morrem aos poucos, quando as funções e experiências na vida concreta da sociedade deixam de se vincular a eles. Em outras ocasiões, eles apenas adormecem, ou o fazem em certos - aspectos, e adquirem um novo valor existencial com uma nova situação. São relembrados então porque alguma coisa no estado presente da sociedade encontra expressão na cristalização do passado corporificada nas palavras.



Nota:

[1] Oswald Spengler, The Decline of the West (Londres, 1926), p. 21: "A todas as culturas se abrem possibilidades novas de expressão que surgem, amadurecem, decaem, e nunca mais voltam... Essas culturas, essências vitais sublimadas, crescem com a mesma soberba falta de prop6sito das flores do campo. Pertencem, como as plantas e os animais, à Natureza viva de Goethe, e não à Natureza morta de Newton".



(O Processo Civilizador - Volume I: Uma Hist6ria dos Costumes; tradução de Ruy Jungmann)


(Ilustração: Johann Peter Hasenclever - Sociedade de leitura, c.1843)

terça-feira, 26 de março de 2024

O SABIÁ E O GAVIÃO, de Patativa do Assaré







Eu nunca falei à toa.

Sou um cabôco rocêro,

Que sempre das coisa boa

Eu tive um certo tempero.

Não falo mal de ninguém,

Mas vejo que o mundo tem

Gente que não sabe amá,

Não sabe fazê carinho,

Não qué bem a passarinho,

Não gosta dos animá.



Já eu sou bem deferente.

A coisa mió que eu acho

É num dia munto quente

Eu i me sentá debaxo

De um copado juazêro,

Prá escutá prazentêro

Os passarinho cantá,

Pois aquela poesia

Tem a mesma melodia

Dos anjo celestiá.



Não há frauta nem piston

Das banda rica e granfina

Pra sê sonoroso e bom

Como o galo de campina,

Quando começa a cantá

Com sua voz naturá,

Onde a inocença se incerra,

Cantando na mesma hora

Que aparece a linda orora

Bejando o rosto da terra.



O sofreu e a patativa

Com o canaro e o campina

Tem canto que me cativa,

Tem musga que me domina,

E inda mais o sabiá,

Que tem premêro lugá,

É o chefe dos serestêro,

Passo nenhum lhe condena,

Ele é dos musgo da pena

O maiô do mundo intêro.



Eu escuto aquilo tudo,

Com grande amô, com carinho,

Mas, às vez, fico sisudo,

Pruquê cronta os passarinho

Tern o gavião maldito,

Que, além de munto esquisito,

Como iguá eu nunca vi,

Esse monstro miserave

É o assarsino das ave

Que canta pra gente uví.



Muntas vez, jogando o bote,

Mais pió de que a serpente,

Leva dos ninho os fiote

Tão lindo e tão inocente.

Eu comparo o gavião

Com esses farão cristão

Do instinto crué e feio,

Que sem ligá gente pobre

Quê fazê papé de nobre

Chupando o suó alêio.



As Escritura não diz,

Mas diz o coração meu:

Deus, o maió dos juiz,

No dia que resorveu

A fazê o sabiá

Do mió materiá

Que havia inriba do chão,

O Diabo, munto inxerido,

Lá num cantinho, escondido,

Também fez o gavião.



De todos que se conhece

Aquele é o passo mais ruim

É tanto que, se eu pudesse,

Já tinha lhe dado fim.

Aquele bicho devia

Vivê preso, noite e dia,

No mais escuro xadrez.

Já que tô de mão na massa,

Vou contá a grande arruaça

Que um gavião já me fez.



Quando eu era pequenino,

Saí um dia a vagá

Pelos mato sem destino,

Cheio de vida a iscutá

A mais subrime beleza

Das musga da natureza

E bem no pé de um serrote

Achei num pé de juá

Um ninho de sabiá

Com dois mimoso fiote.



Eu senti grande alegria,

Vendo os fíote bonito.

Pra mim eles parecia

Dois anjinho do Infinito.

Eu falo sero, não minto.

Achando que aqueles pinto

Era santo, era divino,

Fiz do juazêro igreja

E bejei, como quem bêja

Dois Santo Antõi pequenino.



Eu fiquei tão prazentêro

Que me esqueci de armoçá,

Passei quage o dia intêro

Naquele pé de juá.

Pois quem ama os passarinho,

No dia que incronta um ninho,

Somente nele magina.

Tão grande a demora foi,

Que mamãe (Deus lhe perdoi)

Foi comigo à disciprina.



Meia légua, mais ou meno,

Se medisse, eu sei que dava,

Dali, daquele terreno

Pra paioça onde eu morava.

Porém, eu não tinha medo,

Ia lá sempre em segredo,

Sempre. iscondido, sozinho,

Temendo que argúm minino,

Desses perverso e malino

Mexesse nos passarinho.



Eu mesmo não sei dizê

O quanto eu tava contente

Não me cansava de vê

Aqueles dois inocente.

Quanto mais dia passava,

Mais bonito eles ficava,

Mais maió e mais sabido,

Pois não tava mais pelado,

Os seus corpinho rosado

Já tava tudo vestido.



Mas, tudo na vida passa.

Amanheceu certo dia

O mundo todo sem graça,

Sem graça e sem poesia.

Quarqué pessoa que visse

E um momento refritisse

Nessa sombra de tristeza,

Dava pra ficá pensando

Que arguém tava malinando

Nas coisa da Natureza.



Na copa dos arvoredo,

Passarinho não cantava.

Naquele dia, bem cedo,

Somente a coã mandava

Sua cantiga medonha.

A menhã tava tristonha

Como casa de viúva,

Sem prazê, sem alegria

E de quando em vez, caía

Um sereninho de chuva.



Eu oiava pensativo

Para o lado do Nascente

E não sei por quá motivo

O só nasceu diferente,

Parece que arrependido,

Detrás das nuve, escondido.

E como o cabra zanôio,

Botava bem treiçoêro,

Por detrás dos nevoêro,

Só um pedaço do ôio.



Uns nevoêro cinzento

Ia no espaço correndo.

Tudo naquele momento

Eu oiava e tava vendo,

Sem alegria e sem jeito,

Mas, porém, eu sastifeito,

Sem com nada me importá,

Saí correndo, aos pinote,

E fui repará os fiote

No ninho do sabiá.



Cheguei com munto carinho,

Mas, meu Deus! que grande agôro!

Os dois véio passarinho

Cantava num som de choro.

Uvindo aquele grogeio,

Logo no meu corpo veio

Certo chamego de frio

E subindo bem ligêro

Pr’as gaia do juazêro,

Achei o ninho vazio.



Quage que eu dava um desmaio,

Naquele pé de juá

E lá da ponta de um gaio,

Os dois véio sabiá

Mostrava no triste canto

Uma mistura de pranto,

Num tom penoso e funéro,

Parecendo mãe e pai,

Na hora que o fio vai

Se interrá no cimitéro.



Assistindo àquela cena,

Eu juro pelo Evangéio

Como solucei com pena

Dos dois passarinho véio

E ajudando aquelas ave,

Nesse ato desagradave,

Chorei fora do comum:

Tão grande desgosto tive,

Que o meu coração sensive

Omentou seus baticum.



Os dois passarinho amado

Tivero sorte infeliz,

Pois o gavião marvado

Chegou lá, fez o que quis.

Os dois fiote tragou,

O ninho desmantelou

E lá pras banda do céu,

Depois de devorá tudo,

Sortava o seu grito agudo

Aquele assassino incréu.



E eu com o maiô respeito

E com a suspiração perra,

As mão posta sobre o peito

E os dois juêio na terra,

Com uma dó que consome,

Pedi logo em santo nome

Do nosso Deus Verdadêro,

Que tudo ajuda e castiga:

Espingarda te preciga,

Gavião arruacêro!



Sei que o povo da cidade

Uma idéia inda não fez

Do amô e da caridade

De um coração camponês.

Eu sinto um desgosto imenso

Todo momento que penso

No que fez o gavião.

E em tudo o que mais me espanta

É que era Semana Santa!

Sexta-fêra da Paixão!



Com triste rescordação

Fico pra morrê de pena,

Pensando na ingratidão

Naquela menhã serena

Daquele dia azalado,

Quando eu saí animado

E andei bem meia légua

Pra bejá meus passarinho

E incrontei vazio o ninho!

Gavião fí duma égua!





(Dois Quadros)


(Ilustração: Henry Blache, Sax)





 

                                   


sábado, 23 de março de 2024

A OUTRA NOITE, de Rubem Braga

 




Outro dia fui a São Paulo e resolvi voltar à noite, uma noite de vento sul e chuva, tanto lá como aqui. Quando vinha para casa de táxi, encontrei um amigo e o trouxe até Copacabana; e contei a ele que lá em cima, além das nuvens, estava um luar lindo, de lua cheia; e que as nuvens feias que cobriam a cidade eram, vistas de cima, enluaradas, colchões de sonho, alvas, uma paisagem irreal.

Depois que o meu amigo desceu do carro, o chofer aproveitou o sinal fechado para voltar-se para mim:

-O senhor vai desculpar, eu estava aqui a ouvir sua conversa. Mas, tem mesmo luar lá em cima?

Confirmei: sim, acima da nossa noite preta e enlamaçada e torpe havia uma outra - pura, perfeita e linda.

-Mas, que coisa...

Ele chegou a pôr a cabeça fora do carro para olhar o céu fechado de chuva. Depois continuou guiando mais lentamente. Não sei se sonhava em ser aviador ou pensava em outra coisa.

-Ora, sim senhor...

E, quando saltei e paguei a corrida, ele me disse um "boa noite" e um "muito obrigado ao senhor" tão sinceros, tão veementes, como se eu lhe tivesse feito um presente de rei.



(Para gostar de ler, vol. 2.)



(Ilustração: Marianne von Werefkin (1860–1938) - Sturmwind-1915-1917)

quarta-feira, 20 de março de 2024

POEMA DEL RENUNCIAMIENTO / POEMA DA RENÚNCIA, de José Angel Buesa

 




Mon ame a son secret...

Arvers



Pasarás por mi vida sin saber que pasaste.

Pasarás en silencio por mi amor y, al pasar,

fingiré una sonrisa como un dulce contraste

del dolor de quererte... y jamás lo sabrás.



Soñaré con el nácar virginal de tu frente,

soñaré con tus ojos de esmeraldas de mar,

soñaré con tus labios desesperadamente,

soñaré con tus besos... y jamás lo sabrás.



Quizás pases con otro que te diga al oído

esas frases que nadie como yo te dirá;

y, ahogando para siempre mi amor inadvertido,

te amaré más que nunca... y jamás lo sabrás.



Yo te amaré en silencio... como algo inaccesible,

como un sueño que nunca lograré realizar;

y el lejano perfume de mi amor imposible

rozará tus cabellos... y jamás lo sabrás.



Y si un día una lágrima denuncia mi tormento,

-el tormento infinito que te debo ocultar-,

te diré sonriente: «No es nada... ha sido el viento».

Me enjugaré una lágrima... ¡y jamás lo sabrás!



Tradução de Jefferson Vasques:



Passarás por minha vida sem saber que passaste.

Passarás em silêncio por meu amor, e ao passar,

fingirei um sorriso, como um doce contraste

da dor de querer-te… e jamais o saberás.



Sonharei com o nácar virginal de tua fronte;

sonharei com teus olhos de esmeraldas de mar;

sonharei com teus lábios desesperadamente;

sonharei com teus beijos… e jamais o saberás.



Quiçá passes com outro que te diga ao ouvido

essas frases que ninguém como eu te dirá;

e, afogando para sempre meu amor inadvertido,

te amarei mais que nunca… e jamais o saberás.



Eu te amarei em silêncio, como algo inacessível,

como um sonho que nunca lograrei realizar;

e o distante perfume de meu amor impossível

roçará teus cabelos … e jamais o saberás.



E se um dia uma lágrima denuncia meu tormento,

— o tormento infinito que te devo ocultar —

te direi sorridente: “Não é nada … foi o vento”.

Enxugarei a lágrima … e jamais o saberás!




(Ilustração: Marcel Duchamp - étude nu jeune homme triste dans un train)

domingo, 17 de março de 2024

A CHEGADA DE VIRGÍLO A BRINDÍSIO, de Herman Broch



Azuladas, leves, movidas por uma branda, quase imperceptível brisa contrária, as ondas do Adriático haviam fluído ao encontro da armada imperial, quando esta, à esquerda das baixas colinas da costa calabresa, que aos poucos se avizinhavam, dirigia-se ao porto de Brindísio, e neste momento em que a solidão do mar, ensolarada e todavia prenunciadora de morte, convertia-se na plácida alegria de atividades humanas, neste momento em que as águas suavemente abrilhantadas pela proximidade de existências e moradas dos homens povoavam-se de navios de toda espécie, alguns que, tal e qual a frota, buscavam o porto e outros que dele acabavam de sair, neste momento em que os barcos pescadores de velas pardas já abandonavam em toda a parte os protetores molhezinhos de um sem-número de aldeias e lugarejos, ao longo da beira irrigada de branca espuma, a fim de se encaminharem ao apanho noturno, o mar tornara-se liso, quase como um espelho. Acima dele abria-se, madreperolada, a concha do céu. Anoitecia, e notava-se o cheiro dos fogos de lenha das lareiras, cada vez que os sons da vida, marteladas ou um grito, chegavam dali, trazidos pela aragem.

Das sete naus acasteladas, que se seguiam em linha desenvolvida, somente a primeira e a última, ambas delgadas Penteras providas de esporões, faziam parte da frota de guerra. As cinco outras, mais lerdas e mais imponentes, com dez ou doze fileiras de remos, ostentavam o suntuoso feitio que correspondia ao estilo da corte do Augusto. Na do meio que era a mais pomposa, com o esplendor dourado da proa blindada de bronze, com o brilho jalde das cabeças de leões aplicadas sob a amurada, e que nas fauces carregavam argolas, e com as flâmulas coloridas da enxárcia, erguia-se, solene e grandiosa, abaixo das velas purpúreas, a barraca do César.

Porém, na nave que a seguia imediatamente, encontrava-se o autor da Eneida e o signo da Morte achava-se traçado em sua fronte.

Vítima de enjoos, mantido em contínua tensão pela constante iminência deles, não ousara mexer-se o dia inteiro; mas, embora preso ao leito que haviam montado para ele no centro do convés, o poeta sentia a si mesmo ou melhor a seu corpo, a sua vida corpórea, que havia muitos anos mal e mal conseguira reconhecer como sua própria, sentia-os como uma única reminiscência tateante, evocadora da relaxação que subitamente o percorrera, quando tinham alcançado a zona costeira, mais calmosa, e esse cansaço fluente, sereno e. serenizante talvez se tivesse convertido numa felicidade virtualmente completa, não houvessem aparecido mais uma vez, apesar do efeito saudável dos revigorantes ares marinhos, a tosse penosa, a prostração causada pela febre de todas as noites, e a angústia que sempre o acossava ao entardecer. Assim jazia ele ali, ele, o autor da Eneida, ele, Públio Virgílio Marão, jazia ali num estado de diminuída consciência, quase que envergonhado do seu desamparo, quase que furioso em face de tal destino, cravando os olhos na redondez madreperolada da redoma celeste. Por que, por que cedera à insistência do Augusto? Por que, por que saíra de Atenas? Com isso, extinguira-se a esperança de que o céu plácido, sagrado de Homero pudesse secundar e favorecer a conclusão da Eneida; extinguira-se qualquer esperança na imensidão de coisas novas, que em seguida deveriam ter começado, a esperança numa vida distanciada das Artes, liberta da Poesia, entregue à Filosofia e à Ciência; na cidade de Platão; extinguira-se a esperança no milagre do conhecimento e na cura pelo conhecimento. Por que renunciara a isso? Espontaneamente? Não! Houvera algo como uma ordem das irresistíveis forças da vida, daquelas forças imperiosas do destino, que jamais desaparecem totalmente, ainda que temporariamente submerjam em esferas subterrâneas, invisíveis, insondáveis, continuando mesmo assim presentes, intatas, como uma ameaça inescrutável de poderes aos quais jamais logramos subtrair-nos e sempre devemos render-nos; era o destino. O poeta deixara impelir-se pelo destino, e o destino impelia-o em direção ao fim. Não fora este sempre o seu modo de viver? Vivera ele diferentemente em qualquer época? A madreperolada redoma do céu, o mar primaveril, o canto dos montes, e aquilo que dolorosamente cantava em seu próprio peito, o som da flauta do deus — será que isso em algum instante significara para ele outra coisa que não uma ocorrência, que, igual a um receptáculo das esferas, em breve o acolheria, para levá-lo ao infinito? De origem, ele era camponês, um homem que adora a paz da existência terrena, ao qual teria sido adequada uma vida singela, sólida, na coletividade rural, e que todavia, em virtude de uma sina superior, não pôde permanecer em sua terra, que jamais o largou. Tal sina enxotara-o, para fora daquela coletividade, adentro da mais nua, da mais maligna, da mais selvagem solidão do formigueiro humano; expulsando-o do ambiente simples das suas origens, empurrara-o ao longe, rumo a uma sempre crescente multiplicidade, e se assim algo se ampliara ou aumentara, apenas se tratava da distância que o separava da vida verdadeira, pois, na verdade, unicamente a lonjura tornara-se maior. Ele caminhara apenas à beira de seus campos, vivera tão-somente à beira da sua vida; transformara-se num ser irrequieto, fugindo da morte, buscando a morte, buscando a obra, fugindo da obra, amoroso e todavia acossado, errante através das paixões íntimas e externas, só temporariamente alojado em sua vida. E hoje, quase ao fim de suas forças, ao fim de sua fuga, ao fim de suas buscas, após ter terminado a luta e se ter aprontado para a despedida, após ter alcançado a prontidão por meio da luta, quando estava prestes a aceitar a derradeira solidão e a iniciar o retorno íntimo que o conduzisse a ela, o destino com seus poderes mais uma vez se apossara dele; mais uma vez lhe vedara a singeleza e as origens: e o imo; novamente afastara dele o regresso; encurvando o caminho, convertera-o no da multiplicidade externa; forçara-o a voltar ao mal que lhe ensombreara toda a vida. Sim, parecia que o destino lhe deixava apenas uma única solução simples, a simplicidade da morte. Acima do poeta, as vergas rangiam no cordame. Entrementes ouviam-se abafados estrondos vindos das velas. Ele escutava o roçar das escumas da esteira e o jato prateado, que se punha a jorrar, cada vez que se levantavam os remos; escutava como estes guinchavam pesadamente nos toletes. Sentia como o navio dava saltos suaves, regulares ao compasso das centenas de remos. Via como a orla marítima agaloada de branco deslizava a seu lado, e pensava nos corpos de escravos silenciosos, acorrentados nos fundos fedorentos, sufocantes, do casco atroador. No mesmo compasso espasmódico, surdos estrugidos, acompanhados de golfadas argênteas, ressoavam dos dois navios vizinhos, do mais próximo e do que o seguia, semelhantes a um eco, que repercutia em todos os mares e ao qual vinham respostas de todos os mares. Pois, em toda a parte, as embarcações avançavam desta maneira, carregadas de homens, carregadas de armas, carregadas de trigo e outros cereais, carregadas de mármore, azeite, vinho e especiarias, carregadas de seda, carregadas de escravos. Em todo o mundo, havia a navegação, a permutar e comerciar, um dos piores vícios entre os muitos que assolam a terra.



(A morte de Virgílio; tradução de Herbert Caro)



(Ilustração: Mosaico anônimo da África Proconsular - Virgílio entre duas musas, início do século III dC)

quinta-feira, 14 de março de 2024

QUID FACIAT LAETAS SEGETES / O QUE DÁ VIÇO ÀS SEARAS ALEGRES (DAS GEÓRGICAS - ÉCLOGA I), de Virgílio

 




Quid faciat laetas segetes, quo sidere terram

uertere, Maecenas, ulmisque adiungere uites

conueniat, quae cura boum, qui cultus habendo

sit pecori, apibus quanta experientia parcis,

hinc canere incipiam. uos, o clarissima mundi 5

lumina, labentem caelo quae ducitis annum;

Liber et alma Ceres, uestro si munere tellus

Chaoniam pingui glandem mutauit arista

poculaque inuentis Acheloia miscuit uuis;

et uos, agrestum praesentia numina, Fauni, 10

ferte simul Faunique pedem Dryadesque puellae:

munera uestra cano; tuque o, cui prima frementem

fudit equum magno tellus percussa tridenti,

Neptune; et cultor nemorum, cui pinguia Ceae

ter centum niuei tondent dumeta iuuenci; 15

ipse nemus linquens patrium saltusque Lycaei

Pan, ouium custos, tua si tibi Maenala curae,

adsis, o Tegeaee, fauens, oleaeque Minerua

inuentrix, uncique puer monstrator aratri,

et teneram ab radice ferens, Siluane, cupressum: 20

dique deaeque omnes, studium quibus arua tueri

quique nouas alitis non ullo semine fruges

quique satis largum caelo demittitis imbrem.

tuque adeo, quem mox quae sint habitura deorum

concilia incertum est, urbisne inuisere, Caesar, 25

terrarumque uelis curam, et te maximus orbis

auctorem frugum tempestatumque potentem

accipiat cingens materna tempora myrto;

an deus immensi uenias maris ac tua nautae

numina sola colant, tibi seruiat ultima Thule, 30

teque sibi generum Tethys emat omnibus undis;

anne nouum tardis sidus te mensibus addas,

qua locus Erigonen inter Chelasque sequentis

panditur: ipse tibi iam bracchia contrahit ardens

Scorpios et caeli iusta plus parte reliquit; 35

quidquid eris (nam te nec sperant Tartara regem,

nec tibi regnandi ueniat tam dira cupido,

quamuis Elysios miretur Graecia campos

nec repetita sequi curet Proserpina matrem),

da facilem cursum atque audacibus adnue coeptis 40

ignarosque uiae mecum miseratus agrestis

ingredere et uotis iam nunc adsuesce uocari.

Vere nouo, gelidus canis cum montibus umor

liquitur et Zephyro putris se glaeba resoluit,

depresso incipiat iam tum mihi taurus aratro 45

ingemere et sulco attritus splendescere uomer.

illa seges demum uotis respondet auari

agricolae, bis quae solem, bis frigora sensit;

illius immensae ruperunt horrea messes.

ac prius ignotum ferro quam scindimus aequor, 50

uentos et uarium caeli praediscere morem

cura sit ac patrios cultusque habitusque locorum,

et quid quaeque ferat regio et quid quaeque recuset.

hic segetes, illic ueniunt felicius uuae,

arborei fetus alibi atque iniussa uirescunt 55

gramina. nonne uides croceos ut Tmolus odores,

India mittit ebur, molles sua tura Sabaei,

at Chalybes nudi ferrum uirosaque Pontus

castorea, Eliadum palmas Epiros equarum?

continuo has leges aeternaque foedera certis 60

imposuit natura locis, quo tempore primum

Deucalion uacuum lapides iactauit in orbem,

unde homines nati, durum genus. ergo age, terrae

pingue solum primis extemplo a mensibus anni

fortes inuertant tauri, glaebasque iacentis 65

puluerulenta coquat maturis solibus aestas;

at si non fuerit tellus fecunda, sub ipsum

Arcturum tenui sat erit suspendere sulco:

illic, officiant laetis ne frugibus herbae,

hic, sterilem exiguus ne deserat umor harenam. 70



Tradução de Arthur Rodrigues Santos:



O que dá viço às searas alegres, sob qual astro

deve-se a terra, Mecenas, volver e casar as videiras

com os olmeiros, quais cuidados ao boi e ao rebanho

são dispensados, quanta perícia às parcas abelhas:

eis o que agora celebro. Vós, ó luzeiros brilhantes 5

deste mundo, guiando no céu o ano que escoa;

Líber e Ceres nutriz, a terra, com a vossa anuência,

pôde trocar Caônias bolotas por trigo graúdo

e misturar o copo Aqueloio às uvas achadas;

vós também, propícios aos lavradores, ó Faunos, 10

vinde dançando, Faunos, ao lado das Dríades ninfas:

vossos dons eu celebro; e tu, que a terra fendeste

com teu tridente, donde surgiu o fogoso cavalo,

ó deus Netuno; e tu boscarejo, a quem uns trezentos

níveos vitelos pastam de Cea fecunda os arbustos; 15

tu, que abandonas o bosque natal e as Liceias clareiras,

Pã, guardião das ovelhas, se o Mênalo inda te agrada,

vem até mim, ó Tegeu, me apoia; e Minerva, dadora

das oliveiras, e o jovem inventor do arado recurvo,

tu também, ó Silvano, trazendo extirpado cipreste: 20

todos, deuses e deusas, vós que zelais pelos campos,

ora nutrindo os novos rebentos não semeados,

ora enviando do céu a forte chuva às sementes.

E, finalmente, tu, de quem não sabemos qual posto

vais ocupar entre os deuses: se queres, César, o zelo 25

pelas cidades e campos, e o vasto universo te acolha

como o pai dos frutos e das estações o regente,

já coroando a tua fronte com murta de Vênus materna;

ou te tornes o deus do imenso mar e os marujos

só o teu nume cultuem e a extrema Tule te sirva, 30

Tétis te quer como genro a preço de todas as ondas;

ou, novo astro, te somes aos meses mais vagarosos,

onde um espaço entre Erígone e as Quelas vizinhas

ora se abre: vê, já contrai suas garras o ardente

Escorpião e deixou-te no céu uma parte folgada; 35

Seja quem fores (não és esperado no mundo Tartáreo

nem te acometa o terrível desejo deste reinado,

mesmo que a Grécia tanto admire os Campos Elíseos

e Proserpina se furte a voltar com a mãe para cima),

fácil percurso me dá, consente o propósito ousado 40

e, compassivo comigo dos lavradores sem rumo,

vem até mim e já te acostuma a ouvir nossas preces.

A primavera revém, dos cândidos montes escorre

frio regato e o Zéfiro quebra o torrão ao seu sopro:

já me comece o touro a gemer no arado tanchado 45

e recupere seu brilho a relha atrita com sulcos.

Só corresponde aos votos do lavrador ansioso

campo que duas vezes sentiu o sol e a friagem;

sua imensa colheita acabou de romper os celeiros.

Antes, porém, de cortarmos com ferro um solo ignoto, 50

cumpre primeiro estudar o vento e o clima mutável,

a qualidade das terras e a prática antiga legada,

o que produz um lugar e também o que ele nos nega.

Trigo vai bem por aqui, por ali, as uvas vigoram,

mais além enverdecem o novo arvoredo e a selvagem 55

erva. Não vês que o Tmolo exporta açafrão perfumado,

Índia marfim, os Sabeus delicados seu típico incenso,

ferro das minas os Cálibes nus, o Ponto castóreo

nauseabundo e o Epiro vitórias das éguas em Élis?

A natureza impôs essas leis e contratos eternos 60

para lugares determinados assim que no mundo,

antes vazio, Deucalião lançou as suas pedras,

delas os homens nasceram, dura progênie. Ao trabalho!

Já no começo do ano, revolvam o gordo terreno

touros fortes, dessa forma as leivas expostas 65

sejam cozidas ao sol maturado do estio pulvéreo;

mas, sendo a terra pouco fecunda, basta somente

leve amanho de sulco no despontar do Arcturo:

lá, as ervas daninhas não tolhem messes alegres,

cá, não deserta a pouca umidade do seco terreno. 70




(Ilustração: autor desconhecido - ilustração do século XV para as éclogas de Virgílio)

segunda-feira, 11 de março de 2024

PABLITO CLAVÓ UN CLAVITO: UMA EVOCAÇÃO DO BAIXINHO ORELHUDO, de Mariana Enriquez

 



A primeira vez que ele apareceu foi na excursão das nove e meia da noite, a que se fazia de ônibus. Foi durante uma pausa do relato, enquanto percorriam o trecho que ia do restaurante que havia sido de Emilia Basil, esquartejadora, até o edifício onde morava Yiya Murano, envenenadora. De todos os tours por Buenos Aires que a empresa para a qual trabalhava oferecia, o de crimes e criminosos era o de maior sucesso. Acontecia quatro vezes por semana: duas de ônibus e duas a pé, duas em inglês e duas em espanhol. Pablo soube que, quando o designou como guia do tour de crimes, a empresa estava lhe dando uma promoção, embora o salário fosse o mesmo (sabia que, cedo ou tarde, se fizesse tudo direito, o valor também aumentaria). A mudança o alegrou muito: antes fazia o tour “Arquitetura Art Nouveau da Avenida de Mayo”, que era muito interessante, mas entediava depois de um tempo.

Tinha estudado em detalhes os dez crimes do circuito para poder narrá-los bem, com graça e suspense, e jamais tivera medo nem se impressionara. Por isso, em vez de terror, sentiu surpresa ao vê-lo. Era ele, sem dúvida, inconfundível. Os olhos grandes e úmidos que pareciam cheios de ternura, mas, na realidade, eram um poço escuro de idiotia. O colete escuro e a estatura baixa, os ombros mirrados e, nas mãos, aquela corda fina — a piola, como a chamavam então — com a qual havia mostrado à polícia, sem expressar emoção alguma, como tinha amarrado e asfixiado suas vítimas. E as orelhas enormes, pontiagudas e simpáticas de Cayetano Santos Godino, o Baixinho Orelhudo, o criminoso mais célebre do passeio, talvez o mais famoso da crônica policial argentina. Um assassino de crianças e de animais pequenos. Um assassino que não sabia ler nem fazer contas, que não distinguia os dias da semana e que guardava debaixo da cama uma caixa cheia de pássaros mortos.

Mas era impossível que estivesse ali, onde Pablo o via. O Baixinho Orelhudo tinha morrido em 1944, no antigo presídio de Ushuaia, na Terra do Fogo, no fim do mundo. O que poderia estar fazendo ali, na primavera de 2014, como passageiro fantasma de um ônibus que percorria os cenários de seus assassinatos? Porque sem dúvida era ele, impossível confundi-lo, o aparecido era idêntico às numerosas fotos de época que haviam sido conservadas. Além disso, havia iluminação suficiente para vê-lo bem: o ônibus ia com as luzes acesas. Estava parado quase no final do corredor, fazendo a demonstração com sua cordinha, encarando a ele, o guia, Pablo, com certa indiferença, porém com clareza.

Fazia um tempo que Pablo tinha contado sua história. Vinha contando-a havia duas semanas, e gostava muito. O Baixinho Orelhudo tinha assombrado uma Buenos Aires tão longínqua e diferente que era difícil sugestionar-se com a sua figura. E, no entanto, algo devia tê-lo impressionado vivamente, porque o Baixinho havia se apresentado, embora ninguém mais o visse — os passageiros conversavam, animados, e passavam o olhar por ele, sem reparar. Pablo sacudiu a cabeça, fechou os olhos com força e, ao abri-los, a figura do assassino com sua cordinha tinha desaparecido. Será que estou ficando louco?, pensou, e apelou à psicologia barata para chegar à conclusão de que o Baixinho lhe aparecia porque ele acabava de ter um filho e as crianças eram as únicas vítimas de Godino. As crianças pequenas. Pablo contava na excursão de onde, segundo acreditavam os forenses da época, vinha essa sanha: o primeiro filho dos Godino, irmão mais velho do Baixinho, tinha morrido aos dez meses na Calábria, Itália, antes de a família emigrar para a Argentina. A lembrança desse bebê morto o obcecava: em muitos dos crimes — e das tentativas, bem mais numerosas —, ele repetia a cerimônia do enterro. Aos peritos que o interrogaram depois de ser apanhado, disse: “Ninguém volta da morte. Meu irmãozinho nunca voltou. Simplesmente apodrece embaixo da terra.”

Pablo relatava o primeiro simulacro de enterro numa das paradas do circuito: a esquina da rua Loria com a San Carlos, onde o Baixinho havia atacado Ana Neri, de dezoito meses, sua vizinha no cortiço da rua Liniers, que não existia mais, mas o terreno onde o prédio ficava era uma parada do percurso, com uma breve contextualização na qual se explicavam aos turistas as condições de vida daqueles imigrantes recém-chegados que escapavam da pobreza europeia amontoados em cortiços úmidos, sujos, ruidosos, promíscuos, sem ventilação. O ambiente ideal para os crimes do Baixinho, porque o desconforto e a desordem acabam por mandar as crianças para a rua: viver naqueles cômodos era tão insuportável que as pessoas ficavam na calçada, especialmente os filhos, que vadiavam por ali.

Ana Neri. O Baixinho a levou ao terreno baldio, golpeou-a com uma pedra e, após deixá-la inconsciente, tentou enterrá-la. Um policial o flagrou no meio da tarefa, e ele rapidamente inventou uma mentira: alegou estar tentando ajudar a garotinha, que tinha sido atacada por outra pessoa. O policial acreditou, talvez porque o Baixinho Orelhudo também fosse um menino: tinha, então, nove anos.

Ana demorou seis meses para se recuperar do ataque.

Não foi o único com simulacro de enterro: em setembro de 1908, pouco depois de deixar a escola — e de terem início seus aparentes ataques de epilepsia; nunca se comprovou em definitivo a que se deviam as convulsões que o Baixinho sofria —, Godino levou Severino González até um terreno baldio em frente ao colégio Sagrado Corazón. No terreno havia um pequeno curral para cavalos. O Baixinho submergiu o menino no tanque onde os animais bebiam água e tentou cobri-lo com uma tampa de madeira. Um simulacro mais sofisticado: a imitação do caixão de defunto. Outra vez um policial que passava impediu o crime e outra vez o Baixinho mentiu, dizendo que, na realidade, estava ajudando o menino. Mas, naquele mês, o Baixinho estava descontrolado. No dia 15 de setembro atacou um bebê de vinte meses, Julio Botte. Encontrou-o na porta de casa, na rua Colombres, 632. Queimou-lhe a pálpebra de um dos olhos com um cigarro que tinha na mão. Dois meses depois, os pais do Baixinho não suportaram mais sua presença nem suas ações, e eles mesmos o entregaram à polícia. Em dezembro, acabou na colônia penal de Marcos Paz para menores. Ali aprendeu a escrever um pouco, mas se destacou sobretudo por jogar gatos e botinas nos caldeirões fumegantes quando os cozinheiros se descuidavam. O Baixinho cumpriu três anos no reformatório de Marcos Paz. Saiu com mais vontade de matar do que nunca, e logo conseguiria o primeiro, e desejado, assassinato.

Pablo sempre terminava o capítulo do Baixinho com o interrogatório a que a polícia o submetera depois da detenção. Parecia impressionar muito os turistas. Lia-o, para que o efeito realista fosse maior. Na noite em que o Baixinho apareceu no ônibus, Pablo sentiu certo incômodo antes de repetir as palavras dele, mas decidiu dizê-las do mesmo jeito. O criminoso só o encarava e brincava com a corda: não o ameaçava.

— O senhor não sente remorso pelos feitos que cometeu?

— Não entendo o que os senhores estão perguntando.

— Não sabe o que é remorso?

— Não, senhores.

— O senhor sente tristeza ou pena pela morte dos garotinhos Giordano, Laurora e Vainikoff?

— Não, senhores.

— Acha que tem o direito de matar crianças?

— Não sou o único, outros também fazem isso.

— Por que matava as crianças?

— Porque gostava.

Esta última resposta provocava a reprovação coletiva dos passageiros, que em geral pareciam contentes quando Pablo trocava de criminoso e passava à mais compreensível Yiya Murano, que envenenou as melhores amigas porque lhe deviam dinheiro. Uma assassina por ambição. Fácil de entender. O Baixinho, ao contrário, incomodava a todos.

Naquela noite, quando chegou em casa, Pablo não contou à esposa que tinha visto o espectro do Baixinho. Também não contou aos colegas, mas isso era normal: não queria ter problemas no trabalho. Por outro lado, afligia-o não poder falar da aparição à esposa. Dois anos antes, teria contado. Dois anos antes, quando ainda podiam confessar um ao outro qualquer coisa sem medo, sem receio. Era uma das tantas coisas que tinham mudado desde o nascimento do bebê.

Chamava-se Joaquín: tinha seis meses, mas Pablo continuava dizendo “o bebê”. Amava-o — ou pelo menos era o que acreditava —, mas o filho não lhe dava muita atenção, ainda estava agarrado à mãe, e ela não ajudava, não ajudava nem um pouco. Tinha se transformado em outra pessoa. Temerosa, desconfiada, obsessiva. Às vezes, Pablo se perguntava se ela estaria sofrendo de depressão pós-parto. Outras vezes, ficava apenas de mau humor e recordava com nostalgia e um pouco — um muito — de irritação os anos anteriores ao bebê.

Agora, tudo era diferente. Ela não o escutava mais, por exemplo. Fingia ouvir, sorria e fazia que sim com a cabeça, mas estava pensando em comprar abóbora e cenoura para o bebê, ou se perguntando se a irritação que o bebê tinha na pele podia ter sido causada pela fralda descartável ou se por acaso se tratava de uma doença eruptiva. Nem o escutava nem queria fazer sexo, porque estava dolorida depois da episiotomia, que não terminava de cicatrizar, e, para completar, o bebê dormia na cama do casal: havia um quarto esperando por ele, mas ela não tinha coragem de deixá-lo dormir sozinho, tinha medo da “síndrome da morte súbita”. Pablo tivera que escutá-la falar dessa morte repentina durante horas enquanto tentava, em vão, acalmar a ansiedade dela, justo dela, que nunca tivera medo, que uma vez ou outra o acompanhara escalando montanhas e dormira em abrigos enquanto nevava do lado de fora. Ela, que tinha comido cogumelos com ele, um fim de semana inteiro de alucinação, aquela mesma mulher, agora chorava por uma morte que não havia chegado e possivelmente não chegaria nunca.

Pablo não lembrava por que ter um filho tinha parecido uma boa ideia. Ela não falava de outra coisa. Acabaram as conversas sobre os vizinhos, os filmes, os escândalos familiares, o trabalho, a política, a comida, as viagens. Agora só falava do bebê e fazia de conta que escutava quando tratavam de outros temas. A única coisa que parecia registrar, como se despertasse de um torpor, era o nome do Baixinho Orelhudo. Como se sua mente se iluminasse com a imagem dos olhos do idiota assassino; como se conhecesse aqueles dedos magros que seguravam a corda. Dizia que Pablo estava obcecado pelo Baixinho. Ele não via a coisa assim. Ocorria que os outros assassinos do tour macabro por Buenos Aires eram chatos. A cidade não tinha grandes assassinos, com exceção dos grandes ditadores, não incluídos no passeio por correção política. Alguns dos facínoras de que Pablo falava tinham cometido crimes atrozes, mas bastante comuns segundo qualquer catálogo de violência patológica. O Baixinho era diferente. Era raro. Não tinha outros motivos além de seu desejo e parecia uma espécie de metáfora, o lado obscuro da orgulhosa Argentina do Centenário, um presságio do mal por vir, um anúncio de que havia muito mais que palácios e fazendas no país, uma bofetada no provincianismo das elites que julgavam que só coisas boas podiam chegar da pomposa e desejada Europa. O mais bonito era que o Baixinho não tinha a mínima consciência disso: simplesmente gostava de atacar crianças e acender fogueiras. Porque também era piromaníaco; agradava-lhe ver as chamas e observar o trabalho dos bombeiros, “sobretudo quando caíam no fogo”, como tinha dito a um dos interrogadores.

A história que irritara a esposa envolvia fogo: ela acabou se levantando da mesa, gritando que nunca mais lhe falasse sobre o Baixinho, nunca mais, por motivo algum. Gritara isso enquanto abraçava o bebê, como se tivesse medo de que o Baixinho se materializasse e o atacasse. Depois, se trancara no quarto e o deixara comendo sozinho. Ele a mandou mentalmente à merda. A história era mesmo impressionante; não para armar tanto escândalo, achava ele, mas muito brutal de fato. Ocorreu no dia 7 de março de 1912. Uma menina de cinco anos, Reina Bonita Vainikoff, filha de imigrantes judeus letões, estava espiando a vitrine de uma sapataria perto de sua casa, na avenida Entre Ríos. Usava um vestido branco. O Baixinho se aproximou enquanto ela estava absorvida pela visão dos sapatos. Levava na mão um fósforo aceso. Tocou com a chama o vestido da menina, que se incendiou. Da calçada em frente, o avô da garotinha a viu envolta em chamas. Atravessou a rua correndo, desesperado. Não conseguiu sequer chegar perto da neta: transtornado, não deu atenção ao tráfego. Foi atropelado por um carro e morreu. Um fato estranhíssimo, dada a baixa velocidade dos veículos naquela época.

Reina Bonita também morreu, mas depois de dezesseis dias de dolorosa agonia.

O assassinato da pobre Reina Bonita não era o crime favorito de Pablo. Ele gostava — essa era a palavra, fazer o quê? — do de Jesualdo Giordano, de três anos. Sem dúvida era o que mais horror causava aos turistas, e talvez fosse por isto que lhe agradava: porque era prazeroso contá-lo e esperar a reação, sempre espantada, da plateia. Foi o crime pelo qual apanharam o Baixinho, além do mais, porque cometeu um erro fatal.

O Baixinho, como já era de costume, levou Jesualdo a um terreno baldio. Enforcou-o com treze voltas de corda. O menino resistiu com força; chorava e gritava. O Baixinho declarou à polícia que tentou fazer com que ele se calasse porque não queria ser interrompido como em outras ocasiões: “O menino, eu agarrei com os dentes aqui, perto da boca, e o sacudi como fazem os cachorros com os gatos”. Essa imagem incomodava os turistas, que se remexiam nos bancos e diziam “Meu Deus” em voz baixa. Não obstante, nunca lhe haviam pedido para interromper o relato. Depois de enforcar Jesualdo, o Baixinho o cobriu com uma placa e saiu para a rua. Mas algo o atormentava, uma ideia ardia em sua mente. De modo que, em seguida, voltou à cena do crime. Levava um prego. Pregou-o na cabeça do menino, que já estava morto.

No dia seguinte, cometeu seu erro fatal. Sabe-se lá por que, compareceu ao velório do menino que havia matado. Disse, mais tarde, que queria ver se ainda tinha o prego na cabeça. Confessou esse desejo quando o levaram para acompanhar a autópsia, depois da denúncia do pai do menino morto. Quando viu o cadáver, o Baixinho fez uma coisa muito estranha: tapou o nariz e cuspiu, como se sentisse nojo, embora o corpo ainda não tivesse entrado em estado de decomposição. Os legistas, por algum motivo que a crônica policial da época não explica, fizeram-no ficar nu.

O Baixinho tinha uma ereção de dezoito centímetros. Acabara de fazer dezesseis anos.

Essa parte ele não podia contar à esposa. Uma vez havia tentado lhe falar das reações dos turistas diante do último crime do Baixinho, mas antes mesmo de começar o relato se deu conta de que ela não o estava escutando. Reclamou que precisavam mudar para uma casa maior quando o bebê crescesse. Não queria criá-lo num apartamento. Queria quintal, piscina, sala de jogos e um bairro tranquilo onde o menino pudesse brincar na rua. Ela sabia perfeitamente que este último quase não existia numa cidade com o tamanho e a intensidade de Buenos Aires, e mudar para um subúrbio rico e aprazível estava muito distante de sua realidade. Quando terminou de enumerar seus desejos para o futuro, pediu-lhe que mudasse de trabalho. Isso não, disse ele. Sou licenciado em turismo, gosto do que faço, não vou pedir demissão; eu me divirto, são poucas horas e estou aprendendo. O salário é uma miséria. Não, não é uma miséria, irritou-se Pablo. Acreditava estar ganhando bem, o suficiente para manter decentemente a família. Quem era aquela mulher desconhecida? Em outros tempos ela havia jurado que, com ele, era capaz de viver num hotel, na rua, embaixo de uma árvore. Tudo era culpa do bebê. Modificara a esposa por completo. E por quê? Se era um menino sem graça, enfadonho, dorminhoco, que, quando estava acordado, chorava quase sem parar. Por que não trabalha você, então, se quer mais dinheiro, disse Pablo à mulher. E ela pareceu se eriçar, gritou como se tivesse ficado louca. Gritou que precisava cuidar do bebê, o que é que ele queria, abandoná-lo com uma babá ou com a louca da mãe dele? Minha mãe não está louca, pensou Pablo, e, para não voltar a brigar aos gritos, saiu à calçada para fumar. Esta era outra coisa: desde que havia nascido o bebê, ela não o deixava fumar no apartamento.

No dia seguinte à discussão, o Baixinho voltou ao ônibus. Dessa vez estava mais perto dele, quase ao lado do motorista, que claramente não o via. Pablo não se sentia diferente, só um pouco inquieto: temia que algum dos turistas também fosse capaz de ver o Baixinho espectral e causasse histeria no ônibus.

Quando apareceu, com a corda nas mãos, estavam numa das últimas paradas do percurso, a casa da rua Pavón. Ali havia sido encontrada uma das vítimas mais velhas do Baixinho, um de seus ataques mais esquisitos. Arturo Laurora, treze anos, estrangulado com a própria camisa; o corpo foi encontrado dentro de uma casa abandonada. Estava sem calça e com as nádegas machucadas, mas não tinha sido violado. Enquanto Pablo contava o caso, o Baixinho espectral, parado a seu lado, aparecia e desaparecia, tremia, perdia os contornos, como se fosse feito de fumaça ou névoa.

Pela primeira vez em muitas noites, alguém quis fazer uma pergunta. Pablo sorriu para o curioso com toda a falsidade que era capaz de conjurar. O turista — que, por seu sotaque, era caribenho — queria saber se o Baixinho havia posto um prego na cabeça de suas vítimas em alguma outra oportunidade. Não, respondeu Pablo. Que se saiba, foi só aquela vez. É muito estranho, disse o homem. E arriscou dizer que, se a carreira criminal do Baixinho tivesse sido mais longa, talvez o prego tivesse se convertido em sua marca, em sua assinatura. Quem sabe, respondeu Pablo com cordialidade, enquanto via como o Baixinho espectral acabava de se esfumar. Mas nunca vamos saber, não é verdade? O caribenho coçou o queixo.

Pablo voltou para casa pensando no prego e num travalínguas que sua mãe lhe havia ensinado quando era criança: Pablito clavó un clavito. /¿Qué clavito clavó Pablito?/ Un clavito chiquitito.* Abriu a porta do apartamento e se deparou com a cena habitual dos últimos meses: a televisão ligada, um prato com desenhos de Ben 10 e restos de abóbora, uma mamadeira meio vazia e a luz de seu quarto acesa. Assomou à porta. A mulher e o filho dormiam na cama, juntos. Sentiu que não os conhecia.

Pablo caminhou até o quarto que ele mesmo havia decorado para o filho antes que nascesse. Estava tão vazio que lhe deu frio. O berço imóvel estava escuro. Parecia o quarto de um menino morto, conservado intacto por uma família de luto. Pablo se perguntou o que aconteceria se o menino morresse, como a esposa parecia temer. Sabia a resposta.

Apoiou-se na parede vazia, onde vários meses antes, ainda antes do nascimento, antes que sua esposa se transformasse em outra pessoa, tinha planejado pendurar um móbile, um universo que giraria acima do berço do bebê para entretê-lo durante a noite. A lua, o sol, Júpiter, Marte e Saturno, os planetas e os satélites e as estrelas brilhando na escuridão. Mas nunca o pendurara porque a esposa não queria que o bebê dormisse ali e não havia meio de convencê-la. Tocou a parede e encontrou o prego, que continuava esperando. Arrancou-o com um puxão seco e o enfiou no bolso. Pensou que propiciaria um grande golpe de efeito para seu relato. Ele o tiraria do bolso justo quando contasse o crime do menino Jesualdo Giordano, no momento preciso, quando o Baixinho voltava e o cravava na cabeça do menino já morto. Numa dessas, algum turista ingênuo até acreditaria que se tratava do mesmo prego, perfeitamente conservado cem anos depois do assassinato. Sorriu ao pensar em seu pequeno triunfo e decidiu deitar no sofá da sala, longe da mulher e do filho, com o prego entre os dedos.



* “Pablito pregou um preguinho. Que preguinho pregou Pablito? Um preguinho pequenininho”, em tradução livre. (N. T.)



(As coisas que perdemos no fogo; tradução de José Geraldo Couto)



(Ilustração : Eric Lacombe - dark abstract portraits)

sexta-feira, 8 de março de 2024

MAR DE SARGAÇOS, de Geraldo Carneiro

 


 

no seu maremoto de sargaços negros

na sua garganta minha caravela

começa de novo nos quintais vazios

a plantar canteiros no meio da noite

nos seus alagados e no fim de tudo

a cantar baladas de uma estranha lua

entre os peixes mortos onde algum corsário

a tramar batalhas no seu mar profundo

recolhendo gritos nas suas entranhas

vaga submerso a beber escolhos

de outros naufrágios de cristais marinhos

 

no seu mar profundo no meio da noite

a beber escolhos de uma estranha lua

a tramar batalhas nas suas entranhas

onde algum corsário vaga submerso

a cantar baladas nos seus alagados

recolhendo gritos de outros naufrágios

na sua garganta de cristais marinhos

a plantar canteiros de sargaços negros

nos quintais vazios no seu maremoto

e no fim de tudo entre os peixes mortos

começa de novo minha caravela

 


(Ilustração: Egon Schiele - Girl with Black Hair (Mädchen mit schwarzem Haar) c.1911)

terça-feira, 5 de março de 2024

DIÁRIOS, de Lúcio Cardoso(*)

 




“Não sei se há em mim um vício central da natureza, sei apenas que é nela, nessa paixão voraz e sem remédio, que encontro afinidade para as minhas cordas mais íntimas.”



“Não é perder que me aflige – porque perdemos tudo, e seria inútil lutar. É perder dessa maneira, sem uma palavra, como uma flor viva que atirássemos ao fundo de uma sepultura. Ai, como eu me enganava, como eu me engano a meu próprio respeito! Julgo-me muito mais frio do que sou, e na verdade a ausência das pessoas me causa uma profunda perturbação. (Sei que despisto, que não me refiro exatamente ao que devo – porque ao certo, era de X, era da sua ausência que devia falar…)”



“O demônio é pequeno, magro e fala quase sem cansar. Está, como eu, estirado nu numa das tábuas da prateleira da sauna, e não parece estonteado com os vapores, tal como me acontece. De vez em quando comunica-me que o meu banho está errado e que não sigo exatamente as regras finlandesas: tenho de descer do canto sufocante onde me abrigo e deixar-me vergastar furiosamente com um chicote de folhas de eucaliptos. Em seguida sentar-me numa tina cheia d’água fria – e logo após subir de novo para a minha prateleira, onde quase sufoco, mal divisando o meu interlocutor através de espessas ondas de vapor. Não há dúvida de que era precisamente aqui que eu devia encontrá-lo. Revela-se logo um velho amigo da minha família, enquanto eu tremo interiormente, pensando em tudo o que poderá suceder. Possui um sítio não sei onde, uma máquina fotográfica com que apanhará instantâneos nossos, mil e uma pequenas utilidades. Recuso-me ao ridículo de sair da sauna correndo nu para me atirar ao rio; prefiro vestir-me calmamente, e só assim consigo livrar-me do importuno mestre de banhos a vapor.”



“Um problema existe, sim, e grave, mas há vinte anos que eu me debato dentro dele, e é possível que, ultrapassando-o, nada mais me afaste desses sacramentos que são a base de toda a vida eterna.”



“Ontem, num bar com Vito Pentagna, conversamos longamente sobre X. talvez eu tenha exagerado os meus sentimentos, mas hoje, procurando examinar com atenção o que se passa comigo, sinto que não tenho muito o que discordar do que disse: mais ou menos os meus sentimentos permanecem os mesmos. Não sei o que mais lamentar – mas nesta fidelidade, apesar de tudo, encontro uma garantia contra as minhas tendências à desordem e à dispersão. É pelo menos o que recolho de melhor nesta pesada prova que já tem a duração de dois anos.”



“Rompendo ontem com X, atingi o final de um movimento que vem caminhando há muito tempo. Pensando hoje nos detalhes, imagino que talvez tenha sido injusto mas, ainda assim, não é mais tempo para recuar, já que no futuro a única coisa que me espera é o longo trabalho que tenho a fazer. Pensando em certos detalhes da vida de X, sua pobreza, suas dificuldades, o escuro porão em que mora, sua timidez feita de orgulho e em geral suas dificuldades na vida prática, sinto uma enorme pena. É uma coisa triste não poder auxiliar as pessoas como seria necessário; mas também não posso me sacrificar mais e, tudo o que foi vivido, vai para este poço fundo onde guardamos as lembranças, algumas delas, como esta, das melhores de nossa vida.”



“Num carro, a caminho do Alto da Boa Vista, sigo com alguns jovens – alguns extremamente jovens – que se embriagam e rompem ampolas de Kelene, em cujo rótulo leio anestesiante. Sim, é fértil em recursos essa mocidade, mas do que precisamente procura ela se anestesiar? Nenhum deles sofre de algum mal profundo – e no entanto, esse mal pior de não sofrer de mal nenhum… – e são hábeis e versados nessas coisas de éter e entorpecentes, pronunciando esse nome – Kelene – com familiaridade, nome sem dúvida mais que usual nos hospitais, mas que ouço pela primeira vez e onde julgo distinguir inquietas ressonâncias, sombrias previsões e não sei que tom amputado e doloroso, que reflete salas de hospitais, asilos de alienados e antros escuros de vícios – todos os lugares enfim onde a alma impaciente pode passear sem arroubos finais seus gritos destruidores. Kelene, mesmo inocente, tem no frio do seu jato efêmero e cristalino, toda uma melodia secreta de delírios fúnebres, alvorecer em êxtase e desabrochamento de deliquescências reprimidas. E o que me espanta é que esses jovens moderados, de atitudes e costumes mais que burgueses, a isto se atirem com gritos de prazer e estremecimentos animais: como que da sombra alguma coisa mais primitiva e mais antiga do que o próprio homem, acorda em suas faces necrosadas o gosto do imundo.”



“É que o prazer não me interessa. Sempre o que me interessou foi o amor, e agora que vejo perder-se a possibilidade dele (ai de mim) sinto que não me interesso por outra coisa, e que o prazer sozinho não vale nada e não tem atrativos para mim.”



“Aproveito todas as aquisições da idade: afasto-me da carne pura e simples, sentindo que nela não há prazer e nem enriquecimento, mas somente melancolia e pobreza. Ah, existe um momento em que ser casto não é difícil — e a ele eu me atiro com todas as forças do ser. Não, não se pode imaginar a necessidade que eu tenho de pureza e de tranquilidade — minha impressão é a de que recomeço a viver.”



“Montherlant diz — e não pode haver testemunho mais insuspeito — que o homossexualismo é “a própria natureza”. No que tem razão, pois no ato de duas pessoas do mesmo sexo se unirem, há um esforço da natureza para se realizar até mesmo sem os meios adequados.”



“Não, a carne não é importante — pelo menos não o é senão em determinada idade. Eu me pergunto se tantas pessoas que eu vejo, exclusivamente dominadas pela carne, pela ânsia do prazer, se não serão assim. exclusivamente por uma questão de vício, de hábito, de covardia ante a necessidade de mudar a forma de vida, de procurar o divertimento em formas mais elevadas e menos deprimentes.”



“Estranho dom: Deus deu-me todos os sexos.”



“Aqui está alguém que eu conheço e cujo retrato encontro estampado em todos os jornais. T. possui dezoito anos, tez pálida, cabelos muito pretos e olhos intensamente azuis. Olhos que vivem nesta face com a melodia agreste dos felinos. Quando o conheci, surpreendeu-me a força que manifestava, calada e secreta. Fugiu de casa, agrediu algumas pessoas, roubou perto de trezentos mil cruzeiros, foi condenado e eu o revi, mais tarde, na penitenciária, numa visita que fiz àquela casa. Não trocamos palavra, ele trabalhava na seção de consertos de rádio e eu o reconheci imediatamente, pela extraordinária particularidade de seus olhos agudos, vigilantes, se bem que tivesse crescido muito e guardasse em todos os gestos um jeito novo de defesa. (Lembrei-me particularmente de um dia de carnaval, quando me levou à casa onde então morava um sórdido barracão, em companhia de um preto que ele espancava continuamente. Embriagou-se nesta noite e quebrou todos os móveis que existiam lá dentro. Eu o contemplava, cheio de admiração.) Agora acaba de fugir pelos esgotos da prisão, onde esteve durante dezoito horas, emergindo rasgado, mordido pelos insetos e coberto de lama, num dos bueiros da cidade. Preso de novo, declarou aos jornais que não suporta a monotonia da vida. E eu me lembro mais uma vez daqueles olhos sem repouso, autoritários, capazes de todos os extremos, que tentei evocar numa peça que nunca saiu da gaveta, intitulada Olhos de Gato. O que ousei pensar, decerto fica muito aquém da realidade. Ó grande Deus, equívoco da paixão e do crime!”



(*) Seleção de Ésio Macedo Ribeiro



(Ilustração: Henry Scott Tuke - After the bath)