sexta-feira, 29 de maio de 2020

A CULTURA DO ESTUPRO NÃO SÓ EXISTE COMO ESTÁ EM NOSSO DNA ENQUANTO NAÇÃO, de Cynara Menezes




Não é exagero afirmar que o primeiro mestiço nascido nesta terra, o primeiro “brasileiro”, pode ter sido o fruto do estupro de uma índia por um português. Nossa nação foi engendrada sob o signo do estupro cotidiano, corriqueiro e impune de indígenas e africanas. A violência sexual contra a mulher faz parte, portanto (e infelizmente), de nossa história como nação. Nascemos do estupro. Como não haveria uma cultura do estupro em nosso país se ele está em nosso DNA? É impossível algo tão enraizado ser dissociado do fato de acontecerem atualmente cinco estupros por hora no país. 

Ao longo da história, palavras foram escolhidas a dedo pelos vencedores para edulcorar o que aconteceu nos anos de colonização da América em geral e do Brasil em particular. O próprio termo “colonização” ou “conquista”, por exemplo, quando o que houve foi uma invasão. “Descobrimento” em vez de “genocídio”. Também “miscigenação”, como se a mistura de raças fosse, na maior parte das vezes, “cordial”, embora tudo indique que foi o contrário. Meninas na mais tenra idade eram forçadas a ter relações sexuais em um mundo para o qual, em seus primórdios, só chegavam homens. Mesmo entre os escravos, as mulheres eram uma minoria cobiçada: eram trazidos para cá duas ou três vezes mais negros do que negras. 

No clássico Casa Grande & Senzala, tantas vezes acusado de promover entre nós a mitificadora concepção de que os intercursos sexuais entre raças e classes sociais se deram por consentimento mútuo, Gilberto Freyre traz algumas histórias bárbaras, como a da transmissão de sífilis às negras africanas pelos sinhozinhos infectados. “Foram os senhores das casas-grandes que contaminaram de lues (sífilis) as negras das senzalas. Negras tantas vezes entregues virgens, ainda mulecas de 12 e 13 anos, a rapazes brancos já podres da sífilis das cidades. Porque por muito tempo dominou no Brasil a crença de que para o sifilítico não há melhor depurativo que uma negrinha virgem”, escreveu Freyre, citando o médico João Álvares de Azevedo Macedo Júnior, que anotou, em 1869, o estranho costume. “A inoculação deste vírus em uma mulher púbere é o meio seguro de o extinguir em si.” 

Ao mesmo tempo, segundo o escritor pernambucano, entre os que vieram para o Brasil (no meio dos tais “degredados”), estão “numerosos indivíduos” acusados de “tocamentos desonestos”, ou seja, estupradores em potencial. Imaginem o contato desta gente com índias nuas e inocentes… Certamente está aí o embrião da tendência que se observa até hoje de culpar a vítima do estupro, atribuindo a selvageria do autor do ataque à forma como a estuprada estava vestida. Atualmente, não faltarão machistas a sustentar que foram as índias que “provocaram” a lascívia dos colonizadores por não usarem roupas. 

Já no século 17, o bandeirante Domingos Jorge Velho, matador de Zumbi e destruidor do Quilombo dos Palmares, ficou conhecido por levar a tiracolo sete concubinas índias e, não contente, forçar outras que encontrava pelo caminho a que tivessem sexo com ele. Em 1697, o bispo de Pernambuco, dom Francisco de Lima, contou ter ficado horrorizado com o priapismo do bandeirante, que andava “pelas matas à caça de índios e índias, estas para o exercício de suas torpezas e aqueles para o granjeio de seus interesses.” 

Na crônica Conquista espiritual hecha por los religiosos de la Compañía de Jesús en las provincias del Paraguay, Paraná, Uruguay y Tape, o padre espanhol Ruiz de Montoya conta que a curra de mulheres era um costume bandeirante. “As mulheres deste povo e de outros (que destruíram), quando de boa aparência, fossem elas casadas, solteiras ou pagãs, encerrava-as o dono consigo num aposento, passando com elas as noites como o faz um bode num curral de cabras”, escreveu, sobre a invasão da missão de Jesus Maria, no Paraná, pelos paulistas, “demônios do inferno” que tinham as casas “cheias de mulheres índias compradas para suas torpezas”. 

A pesquisadora Marina Lacerda, autora de uma tese de pós-graduação em Direito na PUC-RJ sobre a violência contra a mulher na formação do Brasil, traz uma explicação para o fenômeno do estupro de escravas negras e indígenas: o patrimonialismo. “Eu quis tratar a questão sobre o viés do patriarcalismo e do patrimonialismo, que é invisibilizado. O senhor de terras é ao mesmo tempo o agente da colonização e do estupro, o que irá influenciar na falta de punição. A mulher, não só a escrava, era sua propriedade; e não há crime de estupro contra a própria propriedade”, diz Marina. 

“Para Weber, o primeiro direito patriarcal é o direito sobre o corpo da mulher. O paralelo mais evidente da época da escravidão com a atualidade é a ideia que ainda persiste do homem como proprietário da mulher. A empregada doméstica que tem relações sexuais com o patrão ou com o menino da casa, muito presente no imaginário brasileiro, é ou não uma reprodução na senzala? Conhecem-se poucos casos do patrão que larga a mulher para ficar com a empregada… Não é uma relação entre iguais”, opina. 

A pesquisadora cita autores como Caio Prado Júnior, a portuguesa Maria Nizza Silva, Mary Del Priori e Gilberto Freyre para acentuar que o abuso sexual das escravas negras foi generalizado na colônia. “A outra função do escravo, ou antes da escrava, instrumento de satisfação das necessidades sexuais de seus senhores e dominadores, não tem um efeito menos elementar. Não ultrapassará também o nível primário e puramente animal do contacto sexual, não se aproximando senão muito remotamente da esfera propriamente humana do amor, em que o ato sexual se envolve com todo um complexo de emoções e sentimentos tão amplos que chegam até a fazer passar para o segundo plano aquele ato que afinal lhe deu origem”, diz Caio Prado em sua Formação do Brasil Contemporâneo. 

“Existiu, na forma de opressão das mulheres, um cálculo político: necessidade de povoamento, de reprodução de braços para trabalhar, o que se deu, entretanto, entre nós, de forma sádica. A mulher foi mais objeto do que sujeito da colonização, devido à forma de sua inserção: ser violentada para satisfazer desejos e para gerar (filhos)“, escreve a pesquisadora em sua tese. 

“A primeira miscigenação foi com a mulher indígena (…), também abusada sexualmente e escravizada. O primeiro ventre em que se gerou um brasileiro. As negras, escravas, sofreram abuso sexual generalizado. O estupro ocorria em nome do prazer sexual e da ‘reprodução do cativeiro’: o elemento mais rico da escravidão era o ventre gerador, como constatou Joaquim Nabuco em documentos da época. A estabilidade da família patriarcal chegava a depender do abuso desenfreado das negras. Eram relações sexuais entre vencedores com vencidos, num sadismo persistente do conquistador sobre o conquistado, de branco por negro, do homem sobre a mulher.” 

A impunidade era a regra. No Brasil colonial, o estupro só era considerado crime se fosse em flagrante e contra a mulher virgem, ou seja, quando atentava à “honra”. No código penal de 1890, o crime de “defloramento”, mais grave, era definido como “deflorar mulher de menor idade, empregando sedução, engano ou fraude”. Abaixo deste vinha o estupro contra mulher não virgem, “mas honesta”; a pena menor era para o estupro contra a prostituta. A figura do crime contra a “dignidade sexual” apareceria apenas recentemente, em 2009, já no final do governo Lula, com a lei 12.015, que tipificou o estupro e o tornou “crime hediondo” sem fazer diferenças entre a vítima. 

Talvez isto explique por que, até hoje, a ampla maioria dos crimes de estupro permaneça impune ou, pior ainda, nem sequer chegue a ser denunciado. Não por acaso, mulheres pretas e pardas são ainda, quase 130 anos após a abolição da escravatura, a maioria das vítimas de estupro e atentado violento ao pudor (54%), segundo estudo do Instituto de Segurança Pública (ISP) no Rio de Janeiro de 2010. A culpabilização da vítima permanece frequente nas próprias sentenças judiciais: em setembro deste ano, um promotor foi denunciado por humilhar uma menina de 14 anos estuprada pelo próprio pai, acusando-a de “facilitar” o abuso. 

Há poucas referências iconográficas dos abusos cometidos contra as mulheres, sobretudo negras e indígenas, no período colonial brasileiro. Mas a história se repetiu em toda a América escravagista. A imagem que ilustra esta reportagem conta a história de uma escrava de cerca de 18 anos encontrada pendurada em uma árvore pelo viajante John Gabriel Stedman no Suriname no século 18. “Estava lacerada de uma maneira tão chocante que tinha o corpo coberto de sangue, do pescoço à cintura. Havia recebido mais de 200 chibatadas”, conta Stedman na Narrativa de Cinco Anos de Expedição na então colônia holandesa. O crime da menina? Rejeitar as investidas do dono. 

No Peru, as mulheres de Manco Cápac, irmão do Sapa (imperador) inca Atahualpa, teriam sido estupradas em sua presença pelos espanhóis que o sequestraram, como forma de humilhação, além de cuspir e urinar sobre ele. Outra herdeira inca, Beatriz Clara, foi violada aos 8 anos pelo “conquistador” Cristóbal Maldonado, e aos 15 foi presenteada a outro espanhol para se casar. O próprio Francisco Pizarro gerou descendentes com duas princesas incas adolescentes, uma delas viúva de Atahualpa, Cuxirimay, a quem estuprou após assassinar o marido. 

No México, Hernan Cortés possuiu as três filhas do imperador Moctezuma e violentou sexualmente pelo menos uma delas, Tecuichpo Ichcaxóchitl, rebatizada como “Isabel”. Por esta razão Tecuichpo rejeitou a própria filha que nasceu da relação com Cortés, Leonor, criada pelo pai. Nos Estados Unidos, a lei protegia tanto os brancos que não existia a possibilidade de um escravo ser punido pelo estupro de outra escrava: só existia violação sexual se fosse praticado por um homem negro contra a mulher branca. 

“O crime de estupro não existe neste Estado entre escravos africanos. Nossas leis não reconhecem nenhum direito marital entre escravos. As regras legais, como as da raça branca, a respeito de intercurso sexual, não podem ser aplicadas, por razões óbvias, a escravos; o intercurso deles é promíscuo e a violação de uma escrava por um escravo deve ser considerada um mero ataque ou agressão”, argumentou o advogado em um caso famoso em 1859, George vs Mississippi. O escravo George havia abusado de uma menina de 9 anos, mas a Corte aceitou seu recurso baseado em leis feitas para proteger os brancos. “Proprietários e escravos não podem ser regidos pelo mesmo sistema de leis”, dizia a decisão que o inocentou. 

Quando o estuprador era branco, a impunidade grassava, exatamente como entre nós. No livro Rape & Sex Power in Early America, a historiadora Sharon Block conta que, durante a colonização, muitos homens negros foram condenados pelo estupro de mulheres brancas, enquanto os brancos ricos e poderosos escapavam sem punição. Ela demonstra, assim, que as definições do que é violência sexual mudavam de acordo com quem estivesse envolvido. Mudou muito desde então? As diferenças de raça e classe seguem praticamente intocadas no que concerne ao crime de estupro: enquanto o escravo/negro/pobre é punido, o senhor/rico/branco tem muito mais chances de escapar impune. As estatísticas confirmam que a maioria da população carcerária é de jovens negros. O sinhozinho continua a levar vantagem. 

No Brasil, além de ser abusada sexualmente por seus proprietários, a negra escrava ainda tinha de suportar a extrema crueldade das sinhazinhas enciumadas. É Gilberto Freyre quem conta: “Sinhá-moças que mandavam arrancar os olhos de mucamas bonitas e trazê-los à presença do marido, à hora da sobremesa, dentro da compoteira de doce e boiando em sangue ainda fresco. Baronesas já de idade que por ciúme ou despeito mandavam vender mulatinhas de 15 anos a velhos libertinos. Outras que espatifavam a salto de botina dentaduras de escravas; ou mandavam-lhes cortar os peitos, arrancar as unhas, queimar a cara ou as orelhas”. 

Não era de se admirar a inveja que as sinhás nutriam pelas belas africanas: como eram forçadas a casar cedo, com 13 ou 14 anos, aos 18 já eram matronas desfeitas. “Depois dos 20, decadência. Ficavam gordas, moles. Criavam papada. Tornavam-se pálidas. Ou então murchavam”, conta Freyre em Casa Grande Senzala. “Casadas, sucediam-se nelas os partos. Um filho atrás do outro. (…)Deixavam as mães uns mulambos de gente”. O pernambucano cita uma série de viajantes que se impressionavam tanto com a beleza das meninas-moças quanto com o envelhecimento precoce delas após o casamento. 

É a este caldo, a estes antecedentes históricos, praticamente um mito fundador, que nos referimos quando falamos em cultura do estupro. Não a uma “arte do estupro” ou “crença do estupro”, como bizarra e ignorantemente se referiu o deputado pastor Marco Feliciano ao rejeitar o conceito em audiência pública no Conselho de Direitos Humanos da Câmara. 

Se a cultura do estupro está em nosso DNA, como acabar com ela? Acabando com a impunidade, mas também com informação e educação. Mostrando, sem tergiversar, como a história nos tornou herdeiros deste costume bárbaro podemos conscientizar e modificar a forma como a mulher ainda é vista: como propriedade e objeto dos desejos masculinos. Só com educação de homens e mulheres seremos capazes de evitar assistir, em nosso próprio parlamento, a disseminação da ignorância e a perpetuação da cultura do estupro no Brasil. 



(Ilustração: Christiaen Couwenbergh - 1632 - homens e uma mulher negra)




terça-feira, 26 de maio de 2020

CINCO SENTIDOS, de Armando Freitas Filho



1.


No meu olhar o recorte

da sua figura – sinal:

o afiado gume do corpo

e da linha que o desenha



lento, em cada tempo

do movimento, sinto

em cada vento, tênue

o móbile de sua presença.



2.


E cheiro em cheio a soma

do suor do sal, do açúcar

desse perfume que acentua

a imagem nua na lembrança

e sigo o rumo do aroma

que respiro na escura

câmara dos sentidos

onde procuro sua fuga



3.


quando, garra, minha mão

apalpa o chão do nada

ou os muros de pele

do corpo que persigo?



Sob a teia do meu tato

sob a veia do meu pulso

sob o impulso da memória

seguro areia ou figura?



4.


E mordo, mastigo e chupo

do centro do cerne da carne

do seu avesso onde mergulho

e bebo o beijo e o gosto



íntimo, nítido, e último

do imo da alma do âmago

do corpo que se desmancha

no espaço da minha boca.



5.


E escapa: mancha de som

esparso na qual o ouvido

capta o espasmo, o passo

da vida, a letra da voz



que se inscreve no sulco

no resgate do sangue: degrau

sob os panos e sob os sustos

do sono escuto seu nome.



(De corpo presente)




(Ilustração: Marc Chagall)




sábado, 23 de maio de 2020

DE KAFKA A HEMINGWAY: 30 MICRO CONTOS DE ATÉ 100 CARACTERES, de Carlos Willian Leite




Embora não seja reconhecido como um gênero literário — sendo associado às tendências de vanguarda e ao minimalismo —, os “micro contos” ganharam um grande número de adeptos nas duas últimas décadas. A partir do início dos anos 1990, estudos e antologias começaram a abordar o tema de forma enfática, resultando em centenas de publicações em todo o mundo. 

Ainda que pareça, as micro narrativas de ficção não são algo recente. Grandes nomes da literatura mundial como Tolstói, Jorge Luis Borges, Bioy Casares, Julio Cortázar e Ernest Hemingway já incursionaram pelo tema. O escritor guatemalteco Augusto Monterroso, que morreu em 2003, é tido como um dos fundadores do “gênero” com o conto “O Dinossauro”, escrito com apenas trinta e sete letras e considerado o menor da literatura mundial, na época: “Quando acordou o dinossauro ainda estava lá.” O norte-americano Ernest Hemingway também é o autor de outro famoso micro conto, com apenas vinte e seis letras: “Vendem-se: sapatinhos de bebê nunca usados”, embora alguns estudiosos da obra de Hemingway contestem a autoria. No Brasil, o pioneiro foi o escritor Dalton Trevisan, com o livro “Ah, é?”, de 1994. Mesmo não havendo nenhuma regra clara, uma das definições para o micro conto seria o limite de 150 caracteres, incluindo espaços. 

Os micro contos selecionados foram extraídos dos livros “Not Quite What I Was Planning”, “It All Changed in an Instant” e “Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século”, além do jornal “Observer”, da revista “Wired” e do suplemento literário “Babelia”, do jornal “El País”. 



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“Tempo. Inesperadamente, inventei uma máquina do” 

Alan Moore 



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“Olha, Pai, eu tentei, mas acho que não deu muito certo não…” 

Antônio Prata 


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“Um homem, em Monte Carlo, vai ao cassino, ganha um milhão, volta para casa, se suicida.” 

Anton Tchekhov 


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“Quando acordou o dinossauro ainda estava lá.” 

Augusto Monterroso 


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“70 anos, algumas lágrimas, orelhas peludas.” 

Bill Querengesser 


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“O suicida era tão meticuloso que teve que refazer diversas vezes o nó da corda para se enforcar.” 

Carlos Seabra 


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“Uma vida inteira pela frente. O tiro veio por trás.” 

Cíntia Moscovich 


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“Quase uma vítima da minha família.” 

Chuck Sangster 


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“A velha insônia tossiu três da manhã.” 

Dalton Trevisan 


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“Conheceu a esposa em sua festa de despedida.” 

Eddie Matz 


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“Vestiu os artefatos, beijou o filho com ternura e saiu pro último trabalho sobre a Terra.” 

Edival Lourenço 


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“Vendem-se: sapatinhos de bebê nunca usados.” 

Ernest Hemingway 


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“Uma gaiola saiu à procura de um pássaro.” 

Franz Kafka 


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“2 de agosto: a Alemanha declarou guerra à Rússia. Natação à tarde.” 

Franz Kafka 


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“Nascido no deserto, ainda com sede.” 

Georgene Nunn 


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“Então você acredita em mim de qualquer maneira?” 

James Frey 


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“O homem estava invisível, mas ninguém percebeu.” 

José María Merino 


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“A mulher que amei se transformou em fantasma. Eu sou o lugar das aparições.” 

Juan José Arreola 


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“Eu escolhi paixão. Agora sou pobre.” 

Kathleen E. Whitlock 


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“Fui me confessar ao mar. O que ele disse? Nada.” 

Lygia Fagundes Telles 


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“Se Eu não acreditar em Mim, quem vai acreditar?” 

Marcelino Freire 


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“Morreu” 

Marcelo Rota 


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“Escrever sobre sexo, aprender sobre o amor.” 

Martha Garvey 


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“Sem futuro, sem passado. Nada perdeu.” 

Matt Brensilver 


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“Pegou o chapéu, embrulhou o sol, então nunca mais amanheceu.” 

Menalton Braff 


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“Ouvi um barulho no portão, fui ver era a Lua nova.” 

Nei Duclós 


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“Assistindo calmamente de cada moldura da porta.” 

Nicole Resseguie 


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“Alzheimer: conhecer novas pessoas todos os dias.” 

Phil Skversky 


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“Eu perguntei. Eles responderam. Eu escrevi.” 

Sebastian Junger 


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“Eu ainda faço café para dois.” 

Zak Nelson 


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(Ilustração: Frank Stella - Hyena Stomp 1962) 






quarta-feira, 20 de maio de 2020

MY LAST DUCHESS (FERRARA) / A MINHA ÚLTIMA DUQUESA, de Robert Browning





That’s my last Duchess painted on the wall,

Looking as if she were alive. I call

That piece a wonder, now: Fra Pandolf’s hands

Worked busily a day, and there she stands.

Will’t please you sit and look at her? I said

“Fra Pandolf” by design, for never read

Strangers like you that pictured countenance,

The depth and passion of its earnest glance,

But to myself they turned (since none puts by

The curtain I have drawn for you, but I)

And seemed as they would ask me, if they durst,

How such a glance came there; so, not the first

Are you to turn and ask thus. Sir, ’twas not

Her husband’s presence only, called that spot

Of joy into the Duchess’ cheek: perhaps

Fra Pandolf chanced to say “Her mantle laps

Over my lady’s wrist too much,” or “Paint

Must never hope to reproduce the faint

Half-flush that dies along her throat”: such stuff

Was courtesy, she thought, and cause enough

For calling up that spot of joy. She had

A heart—how shall I say?—too soon made glad,

Too easily impressed; she liked whate’er

She looked on, and her looks went everywhere.

Sir, ’twas all one! My favour at her breast,

The dropping of the daylight in the West,

The bough of cherries some officious fool

Broke in the orchard for her, the white mule

She rode with round the terrace—all and each

Would draw from her alike the approving speech,

Or blush, at least. She thanked men,—good! but thanked

Somehow—I know not how—as if she ranked

My gift of a nine-hundred-years-old name

With anybody’s gift. Who’d stoop to blame

This sort of trifling? Even had you skill

In speech—(which I have not)—to make your will

Quite clear to such an one, and say, “Just this

Or that in you disgusts me; here you miss,

Or there exceed the mark”—and if she let

Herself be lessoned so, nor plainly set

Her wits to yours, forsooth, and made excuse,

—E’en then would be some stooping; and I choose

Never to stoop. Oh sir, she smiled, no doubt,

Whene’er I passed her; but who passed without

Much the same smile? This grew; I gave commands;

Then all smiles stopped together. There she stands

As if alive. Will’t please you rise? We’ll meet

The company below, then. I repeat,

The Count your master’s known munificence

Is ample warrant that no just pretence

Of mine for dowry will be disallowed;

Though his fair daughter’s self, as I avowed

At starting, is my object. Nay, we’ll go

Together down, sir. Notice Neptune, though,

Taming a sea-horse, thought a rarity,

Which Claus of Innsbruck cast in bronze for me!



Tradução de João Almeida Flor:




Aquela é a minha última Duquesa pintada na parede,

parece mesmo que está viva. Agora considero

aquela peça um encanto; as mãos de Fra Pandolfo

trabalharam um dia diligentes e ali está ela.

Não quer sentar-se a contemplá-la? Eu disse

Fra Pandolfo de propósito, pois nunca

estranhos como o senhor fitaram aquele semblante

com a profundidade e a paixão do seu olhar sincero

que não se voltassem para mim (pois ninguém corre

a cortina que abri para o senhor ver, a não ser eu)

parecendo perguntar-me, se a tanto ousassem,

como é que um olhar assim ali se oculta; por isso não é

o senhor o primeiro a voltar-se e a perguntar. Não foi, senhor,

só a presença do marido que deu aquele esplendor

às faces da Duquesa. É provável que

Fra Pandolfo tivesse dito por acaso «Esse manto

encobre demasiado o vosso pulso, senhora» ou «As tintas

nunca podem imitar o suave rubor

que se esbate ao longo do pescoço» – coisas assim

eram favores, pensava ela, e motivo bastante

para despertar aquele rubor de alegria. Ela tinha

um coração – como direi? – que depressa exultava

impressionável facilmente; ela gostava de tudo

quanto via e o seu olhar tudo alcançava.

Senhor, tudo era igual! Os meus favores no seu regaço,

a luz do dia declinando no poente,

o ramo de cerejeira que um louco solícito

apanhava no pomar, e a mula branca

que ela montava à volta do terraço – tudo e cada coisa

lhe merecia as mesmas palavras satisfeitas

ou um rubor ao menos. Ela agradecia às pessoas – bom! mas

de um modo – não sei bem como – como se atribuísse

à dádiva do meu nome quase milenário

o mesmo valor de qualquer outra coisa. Quem iria censurar

coisas sem importância como estas? Mesmo se tivesse jeito

para falar (e não tenho) explicando claramente

o que se espera de uma pessoa assim e dissesse «É isto

ou aquilo que em ti me desagrada; aqui pecas por defeito

além por excesso» e se ela se deixasse ensinar

deste modo sem frontalmente

opor sua vontade, pedindo até desculpa,

mesmo assim seria humilhante. E eu não quero nunca

humilhar-me. Oh senhor ela sorria sem dúvida

quando eu passava à sua beira mas a quem

não concedia ela igual sorriso? A coisa tomou vulto. Dei ordens.

Sumiram-se os sorrisos. Ali está ela

como se estivesse viva. Não quer levantar-se. Vamos

ao encontro das pessoas lá a baixo. Repito:

a conhecida generosidade do Conde, vosso amo,

é garantia de serem satisfeitas minhas justas pretensões

em matéria de dote.

Embora, como disse a princípio, o meu interesse

seja a filha dele que é linda. Não. Desceremos,

senhor, os dois juntos. Mas repare naquele Neptuno

domando um cavalo marinho (uma raridade, dizem)

que eu, a Claus de Innsbruck, mandei fundir em bronze.



Tradução de Décio Pignatari:




Ali está a minha última duquesa

Na parede. Parece viva. Que beleza

De obra! Fra Pandolfo não poupou esforço

E ei-la de corpo inteiro, não em busto ou torso.

Você não quer sentar-se para ver melhor?

Não por acaso mencionei o seu pintor,

Pois não costumo a estranhos olhos desvelar

A profundeza da paixão que há nesse olhar,

Que só a mim é dirigido (pois só eu

Abro a cortina), mas eu sinto, percebeu?,

Que quem a vê logo se indaga: de onde veio

Esse olhar? Com você, meu caro, não receio,

É a mesma coisa. Pois eu digo: simplesmente,

A presença do esposo é pouco para a mente

Que procura a razão daquela mancha rosa

De prazer no seu rosto. Uma frase ociosa,

Talvez, de Fra Pandolfo. “Eu acho que o seu manto

Cobre demais o seu pulso”, ou: “Não pode tanto

A arte, não, reproduzir não pode o leve

Rubor em sua garganta, a ir e vir tão breve”.

Galanteria cortês, não mais – o suficiente

Para fazer brilhar um rosto, de repente.

Tinha um jeito, a duquesa, um coração aberto

Ao gostar… ao olhar… Contentamento certo,

O dela; incerto, o meu… Ela não distinguia

Entre gozar das graças que eu lhe concedia,

O declínio da luz ao sol poente, o ramo

De cerejas que um bobo serviçal do amo

Lhe oferecia, a mula branca que montava

Pela terraça, a rir – a tudo ela igualava

Com uma boa palavra, ou um rubor, ao menos.

Que agradecesse, tudo bem – mas é somenos

Equiparar o dom dos novecentos anos

Do meu nome a presentes sem nome? Até planos

De dissuadi-la… Rebaixar-me a isso… O dom

Da palavra me falta… E como, alto e bom som,

Chegar a ela, assim: “Olhe, sua atitude

Me desagrada, passou do ponto, mude”?

Que aceitasse o sermão e até mostrasse medo,

Isto, pra mim, seria ceder, e eu nunca cedo.

Claro, meu caro, de passagem, um sorriso

Ela me dava – mas a quem não dava? Aviso

Não dei, dei ordens: os sorrisos, de imediato,

Murcharam. Mas já pode levantar-se… É fato…

Nesse retrato, agora, ela parece viva…

Podemos ir? Embaixo, a companhia festiva

Nos aguarda. Repito: a generosidade

Do conde, seu senhor, sem dúvida há de

Saber pesar a minha justa pretensão

Ao dote da menina, a cujas graças vão

Os meus melhores sentimentos. De passagem,

Olhe essa peça de escassíssima tiragem:

É um bronze de Netuno domando um delfim,

Que Claus de Innsbruck fez fundir só para mim.



(Ilustração: Agnolo Bronzino - ritratto di Lucrezia de Medici)




domingo, 17 de maio de 2020

EVELINE, de James Joyce




Ela estava sentada junto da janela vendo a noite invadir a avenida. A cabeça estava apoiada contra as cortinas, e no nariz estava o cheiro do cretone empoeirado. Ela estava cansada. 

Havia pouca gente na rua. O morador da última residência passou a caminho de casa; ela ouviu o baque das passadas no calçamento de concreto e depois o ruído das pedras na estradinha antes das casas vermelhas. Lá costumava haver um campo onde eles costumavam brincar todo entardecer com os filhos dos outros. Depois um homem de Belfast comprou o campo e construiu casas – não casinhas marrons como as deles, mas casas claras de tijolos com telhados reluzentes. As crianças da avenida costumavam brincar juntas no terreno – os Devine, os Water, os Dunn, o pequeno Keogh, o aleijado, ela e os irmãos e irmãs. Ernest, no entanto, não brincava nunca: era crescido demais. O pai muitas vezes corria atrás deles pelo campo com uma vara de abrunheiro na mão; mas em geral o pequeno Keogh ficava de olheiro e dava um grito quando via o pai dela chegar. Mesmo assim, todos pareciam ter sido felizes naquela época. O pai dela não estava tão mal; e além do mais a mãe ainda estava viva. Tudo isso aconteceu muito tempo atrás; ela e os irmãos e irmãs tinham crescido; a mãe havia morrido. Tizzie Dunn também havia morrido, e a família Water tinha voltado para a Inglaterra. Tudo muda. Agora ela estava prestes a ir embora como os outros, a sair de casa. 

Casa! Ela olhou ao redor do cômodo, examinando todos os objetos familiares que havia espanado uma vez por semana ao longo de muitos anos, imaginando de onde vinha todo aquele pó. Talvez nunca mais fosse ver aqueles objetos familiares dos quais nunca tinha imaginado se separar. Mesmo assim, durante todos esses anos ela jamais tinha descoberto o nome do padre cuja fotografia amarelada pendia logo acima do harmônio quebrado ao lado das promessas coloridas feitas à Abençoada Margarida Maria Alacoque. Tinha sido um amigo de escola do pai. Sempre que mostrava a fotografia a uma visita, o pai a estendia com um comentário casual: 

– Agora ele está em Melbourne. 

Ela havia aceitado ir embora, sair de casa. Seria uma decisão sábia? Tentou avaliar todos os aspectos da questão. Em casa, tinha abrigo e comida; tinha todas as pessoas que havia conhecido durante a vida inteira por perto. Mas é claro que precisava dar duro tanto na casa quanto no trabalho. O que diriam a seu respeito nas Stores quando descobrissem que tinha fugido com um rapaz? Talvez que era uma boba; e a vaga dela seria preenchida através de um anúncio. A srta. Gavan ficaria contente. Sempre perdia a paciência com ela, em especial quando havia outras pessoas escutando. 

– Srta. Hill, não viu que as clientes estão esperando? 

– Srta. Hill, por favor, tente parecer mais animada. 

Ela não derramaria muitas lágrimas por abandonar as Stores. 

Mas na nova casa, em um país distante e desconhecido, não seria assim. Lá ela estaria casada – ela, Eveline. As pessoas haveriam de tratá-la com respeito. Não seria tratada como a mãe havia sido. Mesmo agora, com mais de dezenove anos, às vezes sentia-se vulnerável à violência do pai. Sabia que essa era a causa das palpitações. Quando estava crescendo o pai nunca tinha batido nela como fazia com Harry e Ernest porque era uma garota; mas nos últimos tempos havia começado a fazer ameaças e a dizer o que faria com ela não fosse por conta da falecida mãe. E agora ela não tinha ninguém para protegê-la. Ernest havia morrido e Harry, que estava no negócio de decoração de igrejas, passava quase o tempo inteiro em algum lugar no campo. Além do mais, a invariável discussão por causa de dinheiro nas noites de sábado estava começando a aborrecê-la além da conta. Ela sempre dava o salário inteiro – sete xelins – e Harry sempre enviava o quanto podia, mas o problema era conseguir dinheiro do pai. Ele dizia que a filha desperdiçava o dinheiro, que não tinha a cabeça no lugar, que não daria o dinheiro ganhado a muito custo para que ela o desperdiçasse pelas ruas e muitas outras coisas, pois via de regra acabava em um estado bastante precário nas noites de sábado. No fim ele entregava o dinheiro e perguntava se ela pretendia comprar o jantar de domingo. Então ela precisava sair de casa o mais depressa possível para fazer as compras, agarrando-se à bolsa de couro preto enquanto abria caminho a cotoveladas em meio às multidões e voltando tarde com a pesada carga de mantimentos. Era um trabalho duro manter a casa em ordem e cuidar para que as duas crianças deixadas a seus cuidados frequentassem a escola regularmente e fizessem as refeições regularmente. Era um trabalho duro – uma vida dura –, mas agora que estava a ponto de abandoná-la não parecia uma vida totalmente indesejável. 

Ela estava prestes a explorar uma vida nova com Frank. Frank era muito gentil, másculo, sincero. Ela iria embora no barco noturno para casar e viver com ele em Buenos Aires, onde Frank tinha uma casa esperando por ela. Lembrava muito bem da primeira vez que o viu; ele estava hospedado em uma casa na rua principal onde ela costumava visitá-lo. Tudo parecia ter acontecido há poucas semanas. Ele estava parado junto do portão, com o quepe puxado para trás da cabeça e os cabelos caídos para frente por cima do rosto de bronze. Depois os dois se conheceram. Ele a esperava todas as tardes no lado de fora das Stores e a acompanhava até em casa. Levou-a para ver The Bohemian Girl e ela sentiu-se extasiada ao sentar em uma parte desconhecida do teatro em companhia dele. Frank adorava música e também cantava um pouco. As pessoas sabiam que os dois estavam se cortejando e, quando ele cantava sobre a garota que amava um marinheiro, ela sempre sentia uma agradável confusão. Ele a chamava de Pitoca por diversão. Em primeiro lugar tinha sido uma emoção para ela conhecer um rapaz, e depois começou a gostar dele. Frank contava histórias sobre países distantes. Havia começado como moço de convés ganhando uma libra por mês em um navio da Allan Line que foi até o Canadá. Contava para ela os nomes dos barcos em que tinha trabalhado e os nomes dos diferentes serviços. Tinha navegado pelo Estreito de Magalhães e contava histórias sobre os terríveis patagônios. Tinha se dado bem em Buenos Aires, segundo disse, e estava de volta ao país natal apenas durante as férias. Claro, o pai dela tinha descoberto o envolvimento e proibido que os dois se falassem. 

– Eu conheço esses marinheiros, disse. 

Um dia ele discutiu com Frank e a partir de então ela começou a encontrar o amado em segredo. 

Ficou mais escuro na avenida. O branco das duas cartas que ela tinha no colo tornou-se indistinto. Uma era para Harry; a outra era para o pai. Ernest era o favorito dela, mas também gostava de Harry. Havia notado que o pai tinha envelhecido nos últimos tempos; ele sentiria falta dela. Às vezes ele era muito gentil. Pouco tempo atrás, quando ela passou um dia de cama, ele leu uma história de fantasmas e preparou torradas na lareira. Uma outra vez, quando a mãe dela ainda era viva, todos foram fazer um piquenique na Colina de Howth. Ela lembrava que o pai tinha posto o chapéu da mãe para fazer graça na frente dos filhos. 

O tempo estava acabando, mas ela continuava sentada junto da janela, com a cabeça apoiada na cortina, inalando o cheiro do cretone empoeirado. Ao longe na avenida ouvia-se o som de um realejo. Ela reconheceu a melodia. Estranho que surgisse justo naquela noite para lembrá-la da promessa feita à mãe, a promessa de cuidar da casa enquanto pudesse. Lembrou-se da última noite da doença da mãe; e mais uma vez se transportou para o quarto escuro e apertado no outro lado do corredor, de onde ouvia uma melancólica canção da Itália tocando na rua. Deram seis pence ao tocador de realejo e mandaram-no embora. Lembrou do pai voltando até o quarto da doente e dizendo: 

– Esses malditos italianos que vêm para cá! 

Enquanto pensava, a visão triste da vida da mãe lançou um feitiço na essência de seu ser – uma vida de sacrifícios cotidianos terminada em uma loucura final. Ela estremeceu ao ouvir mais uma vez a voz da mãe repetir com uma insistência tola: 

– Derevaun Seraun! Derevaun Seraun![*] 

Ela se levantou em um súbito impulso de terror. Fugir! Precisava fugir! Frank haveria de salvá-la. Ele lhe daria vida, e talvez amor, também. Mas ela queria viver. Por que deveria ser infeliz? Ela tinha direito à felicidade. Frank haveria de tomá-la em seus braços, estreitá-la em seus braços. Ele a salvaria. 


* * * 

Ela estava em meio à multidão ondulante na estação da North Wall. Frank segurava a mão dela e ela notou que ele estava falando, dizendo e redizendo alguma coisa sobre a passagem. A estação estava cheia de soldados com bagagens marrons. Pelas amplas portas dos armazéns ela vislumbrou o vulto negro do barco, parado ao lado do muro do cais com as vigias iluminadas. Ela não respondeu nada. Sentiu o rosto pálido e frio e, em um labirinto de sofrimento, rezou a Deus para que a guiasse, para que indicasse o caminho do dever. O barco soltou um longo apito triste em meio à neblina. Se fosse embora, amanhã estaria no mar com Frank, deixando uma trilha de vapor a caminho de Buenos Aires. A passagem estava reservada. Será que ainda seria possível mudar de ideia depois de tudo o que ele tinha feito? O sofrimento despertou-lhe uma náusea no corpo e ela continuou movendo os lábios em uma ardorosa oração muda. 

Um sino dobrou no peito dela. Sentiu quando Frank tomou-lhe a mão: 

– Venha! 

Todos os mares do mundo desaguavam no peito dela. Ele a puxava para o fundo: acabaria por afogá-la. Ela se agarrou com as duas mãos à balaustrada de ferro. 

– Venha! 

Não! Não! Não! Era impossível. As mãos se agarravam desesperadas ao metal. Em meio aos mares ela soltou um grito de angústia! 

– Eveline! Evvy! 

Frank tinha ultrapassado a barreira e naquele instante a chamava. Outras vozes gritavam para que andasse, mas ele continuava a chamar. Ela voltou o semblante branco em direção a ele, passiva, como um animal indefeso. Nos olhos dela não havia sinal de amor, despedida ou reconhecimento. 



[*]Derevaun Seraun; Uma frase que pode ser duas coisas: ou uma frase que James Joyce inventou para a história, ou uma tradução de gaélico irlandês que significa "No final do prazer, há dor". Sua mãe poderia estar dizendo isso a ela para avisá-la que, embora as coisas possam parecer boas para Eveline naquele momento, no final será pior.(Nota do blogger) 



(Dublinenses; Tradução: Guilherme da Silva Braga) 



(Ilustração: John Bellany - Woman of the sea)