segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

DESTES PENHASCOS FEZ A NATUREZA, de Cláudio Manoel da Costa






Destes penhascos fez a natureza
O berço, em que nasci! oh quem cuidara,
Que entre penhas tão duras se criara
Uma alma terna, um peito sem dureza!


Amor, que vence os tigres, por empresa
Tomou logo render-me; ele declara
Contra o meu coração guerra tão rara,
Que não me foi bastante a fortaleza.


Por mais que eu mesmo conhecesse o dano,
A que dava ocasião minha brandura,
Nunca pude fugir ao cego engano:


Vós, que ostentais a condição mais dura,
Temei, penhas, temei; que Amor tirano,
Onde há mais resistência, mais se apura.



(Ilustração: Leonardo da Vinci – Maria Magdalena)


sábado, 28 de janeiro de 2012

O DUPLO, de Coelho Neto






- Temos, então, um caso de desdobramento da personalidade do meu querido amigo?

- Quem te disse ?

- Laura.

Benito Soares ficou um momento encarado no coronel. Por fim, meneando com a cabeça, desabafou contrariando:

- Laura... Laura faz mal em andar contando essa história por aí.

- Que tem?

- Ora! Que tem... Há dias, em casa do Leivas, pouco faltou para que eu rompesse com o Malveiro, a propósito do que se deu comigo, e que lhe contaram não sei onde, entendeu que me devia tomar à sua conta, expondo-me à risota de uns petimetres ridículos que o cercam. Fiz-lhe sentir que não me agradavam os seus remoques e deixei-o com os tais mocinhos, que lhe aplaudem os versos quando ele lhes paga a cerveja ou o chá, aí por essas casas.

Não ando a pregar doutrinas: não sou sectário, não freqüento sessões nem leio, sequer, as tais obras de propaganda que pretendem revelar o que se passa no Além da morte. Sou religioso à velha moda, observando a doutrina que aprendi, ainda que não ande beatamente pelas igrejas de círio e ripanço. Cumpro rigorosamente os Mandamentos e os marcos que limitam a minha Crença são os quatro evangelistas; fora de tais "termos" não dou um passo - nem para diante, seguindo os reformadores, que pregam o novo Credo, nem para trás acercando-me de altares pagãos ou adorando ídolos grosseiros. Onde me deixaram meus pais, que foram os meus iniciadores, aí ficarei até morrer.

Contei a Laura a tal história como contaria um acidente qualquer de rua, sem cuidar que ela fizesse do caso assunto de palestra nos salões que freqüenta.

O resultado disso é o que se está dando comigo, aborrecendo-me, irritando-me, porque desconfio de todos os olhares e, se alguém sorri à minha passagem, imaginando que comenta o meu caso, fico logo pelos cabelos.

- Mas, afinal, como foi? Comigo podes abrir-te sem receio. Sabes que, além de discreto, não sou dos que zombam do sobrenatural. Os fatos ai estão: produzem-se, reproduzem-se e, se ninguém os explica, muitos dão deles testemunho e provas e eles, efetivamente, manifestam-se visível, sensivelmente.

Os cépticos encolhem os ombros sorrindo, os adversários, à falta de argumentos com que os destruam, bradam contra os que os apregoam. A verdade, porém, é que nos achamos diante de uma porta de bronze que nos veda um grande mistério, ou melhor - Mistério.

Mas já é muito havermos chegado à porta. Sente-se que além dos túmulos, que são limiares de outro mundo, há alguma coisa que... ninguém sabe o que é.

A porta mantém-se fechada, deixando apenas passar um rastinho de luz no qual flutuam indícios, revelações vagas, como átomos nos raios de sol. Mas deixemos as dissertações para mais tarde. Vamos ao teu caso. Foi, então, um desdobramento da tua personalidade...?

- Não sei que foi. Digo-te apenas que passei os minutos mais angustiosos da minha vida.

Saindo do Alvear, subi vagarosamente a Avenida até a Tabacaria Londres, onde comprei charutos e estive um instante a conversar com o Borges sobre coisas da vida.

O Borges anda com a mania dos Marcos; possuí não sei quantos milhões, e espera que a Alemanha recomponha as finanças para aturdir-nos, a nós e ao mundo, com a vida maravilhosa que tem toda em plano. O que me está parecendo é que o pobre está com o juízo em pior estado de que as finanças germânicas. Enfim, deixando o Borges, dirigi-me, sem mais empeços, para a Galeria, onde comprei os jornais.

O meu bonde apareceu logo e logo foi assaltado. Não consegui uma ponta e fiquei entalado no banco da frente, entre um obeso cavalheiro ruivo e uma matrona anafada, dessas que se esparralham.

O bonde partiu e, oprimido pelas duas enxúndias, dificilmente consegui abrir um dos jornais. Pus-me a ler, ou antes: a olhar a página porque, em verdade, a minha atenção vagueava, aí por longe. Os olhos passeavam pelas palavras, sem que o espírito lhe colhesse o sentido, como deve acontecer com os aviadores que vêem, de muito alto, todo o panorama de uma cidade em mancha, sem distinguir os bairros, as ruas, os edifícios, apenas o alvejamento das casas, a placa cintilante do mar, o relevo dos montes. Sentia-me atraído por alguma coisa. Voltei página do jornal - a mesma confusão, o mesmo empastamento. Foi então, que levantei a cabeça, olhando em frente e vi, meu amigo, vi...!

- Viste...?

- A mim mesmo, a mim! Eu, eu em pessoa sentado defronte de mim, no banco da frente, que dá costas à plataforma. Era eu, eu! como refletido em um espelho, e certo estremeci vivamente, incomodando os meus companheiros laterais, porque ambos voltaram-se encarando-se de má sombra.

Pasmado, sem poder desfitar os olhos daquele reflexo, que era, em tudo, eu: nas feições, na atitude, no trajo, não parecido, mas reproduzido em exteriorização, pensei de mim comigo:

"Se tal se dá é que o meu espírito, alma, ou lá o que seja, exalou-se de mim, deixando-me apenas o corpo, como a borboleta deixa o casulo em que se opera a metamorfose. Assim, pois, o que ali se achava, no bonde, era uma massa inerte, sustida pelos dois corpanzis que ladeavam. E, em menos de um segundo, vi todo o horror da cena, que seria cômica, se não fosse trágica, que se daria com a retirada de um daqueles gordos.

Desamparado, o meu corpo vazio tombaria. Dar-se-ia, então, o alarma: todos os passageiros de pé, a verificação da minha morte, o reconhecimento do meu cadáver pelo condutor e a minha entrada fúnebre em casa".

Que angústia, meu amigo ! E o outro lá estava em frente a olhar-me, como se gozasse com o meu sofrimento. Lembrei-me, então, de fazer um movimento com os braços, com as mãos; o receio, porém, de ser a minha vontade atendida pelos nervos fez-me hesitar. Mas eu pensava, raciocinava. Sim, mas o corpo não esfria de repente e tais pensamentos e tais raciocínios podiam ser ainda restos de energia d'alma que me houvessem ficado nas células, como fica nas polias o movimento ainda depois do motor parado.

Sentia-me rígido, petrificado e tinha a sensação de frio, como se me fosse congelando, a começar pelos pés. E o outro sempre encarado em mim.

Fiz um esforço supremo como se quisesse levantar o bonde com todos os passageiros que ele continha e, arremessando os braços, pus-me de pé.

A matrona levantou a cabeça com atrevimento e olhou-me com tal carranca que eu pensei que me fosse agatafunhar ou, com a força dos braços, que eram duas coxas, atirar-me do bonde abaixo e o ruivo roncou ameaçadoramente, aprumando a cabeçorra quadrada de ulano com entono de desafio.

Mas que me importavam ameaças A minha alegria era grande e tornou-se maior quando, ao procurar com os olhos o meu outro "eu", não o vi mais.

Teria descido? Não ! Não descera. Tornara a mim, atraído pela vontade, na ânsia de viver, no desespero em que me vi, só comparável ao de alguém que, indo ao fundo, sem saber nadar, debate-se agoniadamente conseguindo elevar-se à tona e gritar a socorro.

E tudo isso, meu amigo, não durou, talvez, um minuto e eu guardo de tais instantes a impressão penosa de um século de sofrimento.

Eis o meu caso, o caso que tantos aborrecimentos me tem trazido pela tagarelice de Laura, a quem o contei, e que o repete por aí, a todo o mundo.
E crença que D. Juan de Maraña, encontrando-se, certa noite, com um saimento, perguntou a um dos que conduziam o esquife: '~ Quem era o morto?" E logo lhe foi respondido:

- É D. Juan de Maraña. Querendo o fidalgo verificar o que lhe dizia o farricoco e outros sinistramente repetiam, afastou o sudário e viu. Efetivamente: o defunto era ele. E tal visão foi que o levou ao arrependimento. Pois comigo a coisa foi num bonde. Eu vi-me, como te estou vendo; a mim, entendes? a mim! Como explicas tal coisa?

- Essas coisas, meu amigo, não se explicam: registam-se, são observações, fatos, elementos para a Ciência do Futuro, que será, talvez, Ciência da Verdade.




(Ilustração: Antonio Sgarbossa – quante persona passeranno ancora)


quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

POUR TOI MON AMOUR/PARA TI MEU, MEU AMOR, de Jaques Prevért







Je suis allé aux marché aux oiseaux
Et j’ai acheté des oiseaux
Pour toi
Mon amour


Je suis allé au marché aux fleurs
Et j’ai acheté des fleurs
Pour toi
Mon amour


Je suis allé au marché à la ferraille
Et j’ai acheté des chaînes
Des lourdes chaînes
Pour toi
Mon amour


Et puis je suis allé au marché aux esclaves
Et je t’ai cherchée
Mais je ne t’ai pas trouvée
Mon amour



Tradução de Isaias Edson Sidney:



De um velho passarinheiro
Comprei para ti,
Meu amor,
Um lindo bem-te-vi.

Da florista mais vaidosa,
A mais bela rosa
Comprei para ti,
Meu amor.

A um robusto ferreiro,
Do aço mais duradouro,
Banhadas em ouro,
Algemas pedi,
Só para ti,
Meu amor.

Por fim, louco de amor,
Em meio às escravas
Por ti procurei.
Mas tu não estavas,
Meu amor.


(Ilustração: Jean Léon Gerôme - mercado de escravos em Roma)


terça-feira, 24 de janeiro de 2012

UMA MEGA TRISTEZA, de Christian Carvalho Cruz






Tipo, eu acho que nunca mais vou conseguir ouvir o som de um prato quebrando sem me lembrar. Por enquanto não sonhei nem tive pesadelo. É quando estou acordada mesmo, quieta, sem nada pra fazer, que aquela noite acontece outra vez. E não é legal. Os pratos e copos caindo, os gritos, a correria, os velhos tentando se segurar, as crianças perdidas chorando, os pais apavorados procurando. Era pra ter sido tão diferente...

A minha volta a Barcelona tinha um zilhão de significados. Eram várias primeiras vezes. A primeira vez que eu retornava pra cidade onde morei dos 8 aos 13 anos com meus pais e meus dois irmãos. A primeira vez que eu viajava sozinha de avião \o/\o/\o/. (E só fiz 14, mas com muita responsabilidade, HUAHUAHUA!) A primeira vez em tanto tempo que eu ouvia me chamarem de Luiza de novo.
É que quando cheguei ao Brasil fui pra uma escola e na classe já tinha outra Luiza, a Luiza Cruz, minha amigona. Então eu passei a ser a Luiza Levy. E depois que me enturmei, só Levy. Até a professora me chama de Levy. Mas em Barcelona, que eu deixei imaginando ser o melhor lugar do mundo ever, o MEU lugar no mundo, continuo Luiza.

Bom, tinha também a primeira vez de fazer um cruzeiro num daqueles naviozões enormes, com piscina, lojas, cinema, teatro, balada... E, o mais importante, o motivo da minha volta, da minha alegria e ansiedade (minha mãe até me deu floral antes do embarque em São Paulo, hehe), a primeira vez que eu via a Juliana desde o dia em que nos despedimos, ela chorando horrores, na minha partida um ano e pouco atrás. Super hiper melhor amiga, a Juliana. Nos conhecemos no colégio em Barcelona, ela recém-chegada da Colômbia, meio perdida e isolada. Como eu no começo.

Gente, vocês não têm noção do inferno que pode se transformar a adaptação de um adolescente estrangeiro num país que não é o dele. Com o tempo melhora, mas até lá, afff!

A Juliana ia fazer 15 anos em 12 de janeiro e ganhou de presente dos pais uma viagem no Costa Concordia. Uma semana pelo Mediterrâneo com a família toda e direito a levar uma amiga - no caso, eu \o/. Do dia 9 ao 16. Só que tinha uma maldita sexta-feira 13 no meio. Cheguei a Barcelona no dia 2, e como tínhamos muuito tempo livre antes de subir no navio, aproveitamos basicamente para:

1) Fazer corujão (passar a noite conversando e só dormir quando o sol nasce).

2) Ir ao kart perto da minha ex-casa, que era o nosso programa preferido. Dessa vez, achei engraçado poder usar os carrinhos grandes, de adulto. Antes a gente só andava nos de criança. Caraca, cresci!

3) Comprar o meu primeiro salto alto da vida, porque no navio rola noite de gala. Tive que praticar pra não cair, UHUAHUAHUA... Eu tinha um vestido longo na mala, vermelho, e a mãe da Juliana me deu outro, dourado, pro jantar de aniversário a bordo.

4) O melhor de tudo: ficar vendo na internet uns vídeos do Costa Concordia. Muuuito tops! A gente riu bastante dos elevadores panorâmicos que subiam e desciam por trilhos iluminados por lâmpadas verdes. E foi aí que a Juliana inventou a expressão que depois a gente repetia toda hora que via uma coisa legal na viagem: "guuaauuuu!"

Assim que embarcamos eu e a Juliana corremos pros elevadores. Apertamos todos os botões e em cada andar entrava alguém falando um idioma diferente. Só muito tempo e risadas depois é que fomos pra nossa cabine. Ela ficava no lado direito do navio, bem o que tombou. Número 2.405, piso Suécia, que era o nome do segundo andar do Costa Concordia. Ficamos numa Suécia esquisitamente localizada em cima da Holanda e embaixo da Bélgica - meio diferente das aulas de geografia, hehe. Ainda mais pra cima, tudo empilhado, ficavam Grécia, Itália, Grã-Bretanha, Irlanda, Portugal, França, Alemanha e Espanha no topo \o/\o/. Na nossa cabine não rolava varanda, mas ela tinha um janelão onde cabíamos nós duas sentadas. Passamos os melhores momentos da viagem ali, vendo o mar, rindo e combinando como faríamos pra nos ver de novo quando as férias acabassem e eu voltasse pro Brasil.

A tal noite de gala, que acontecia em dias alternados, não era nada demais, tirando o fato de a gente ter que se produzir toda. E só pra jantar, hehe. Eu e a Juliana saíamos da cabine meio envergonhadas. Cabelo, unha, longo, salto alto... E ainda tinha um moooonte de gente circulando de sunga e maiô, UHUAHUAHUA. Depois da refeição, os adultos dançavam um pouco no restaurante e no final todos cantavam Volare, ô-ô, Cantare, ô-ô-ô rodopiando os guardanapos de pano no ar. Divertido até ;-). Numa dessas noites, antes do jantar, fomos pro teatro. O comandante do navio ia se apresentar aos passageiros. O teatro ficou lotado, e olha que era beeeem grande, três andares. O capitão apareceu no palco, junto com a equipe dele. Falou primeiro em italiano, depois em inglês e espanhol. Se apresentou, apresentou os colegas e desejou boa viagem. Só isso. Foi mega aplaudido, parecia Domingão do Faustão. Umas pessoas gritavam, assoviavam, U-HU!, tipo, "esse cara é bom!" Na hora eu não prestei atenção no nome dele, mas depois de tudo não esqueço mais: Schettino. Schettino cretino. :-(

Fizemos muitos amigos a bordo, e passávamos o dia inteiro circulando. Teen Zone, piscina, lojinhas, o deck. O navio é mesmo uma cidade. Mas tínhamos que estar no restaurante Milano às 9 horas para jantarmos juntos. Era uma ordem dos pais da Juliana. E, pensando agora, vejo como foi importante essa ordem, porque quando tudo aconteceu não tinha ninguém do nosso grupo de 15 pessoas em outra parte do navio. Estávamos todos no restaurante Milano, na mesma mesa, assim que o Costa Concordia bateu na pedra. E se vocês vissem a cara dos pais procurando os filhos que não estavam perto deles... Ai, foi muuuuito apavorante. A pior parte.

Nesse dia eu e a Juliana acordamos meio tarde, umas três da tarde. É que na noite anterior tinha sido o aniversário dela e nós só voltamos pra cabine às 5 da manhã :-o. Ficamos um tempão com a turma de amigos no teatro, que estava vazio. Subimos no palco, dançamos salsa, brincamos e rimos muito, pra variar. Até que a Juliana, deitada e olhando o lustre do tamanho de um carro pendurado no teto do teatro, falou assim: "Nossa, isso deve ter custado caro. Por que eles gastam dinheiro nessas coisas? Se um dia esse navio afunda..." Afff!

Quando a premonição da Juliana começou a se confirmar eu só tive tempo de comer o primo piatto, uma salada, porque o espaguete ao sugo nunca chegou. A primeira coisa estranha foi que de repente o restaurante todo tremeu. Então o navio deu uma inclinadinha. E na hora que uma voz nos alto-falantes disse para mantermos a calma, que tinha acontecido um problema técnico e logo ele seria consertado, já estávamos todos fora do restaurante. Por sorte a nossa mesa era a primeira ao lado da porta de emergência e eu só me lembro de ter pensado, tipo, meu, vamos correr daqui. Então o Costa Concordia inclinou com mais força e tudo começou a despencar. As mesas, as cadeiras, as máquinas da cozinha, panelas. Eu ouvia os pratos quebrando lá dentro.

Saímos pelo lado esquerdo do navio, o que ficou pra cima. Logo encontramos os armários onde guardam os coletes salva-vidas, que vestimos e depois colocamos num monte de crianças pequenas que não iam pra lado nenhum - só ficavam ali paradas, chorando, soluçando. Em volta, o maior empurra-empurra, umas mulheres brigando pra se segurar na grade que circunda o navio, vi um velhinho que estava sentado, coitado, ser atingido por uma coisa bem grande que veio escorregando de dentro do restaurante. Eu olhava pra Juliana e ela estava apavorada. Imagino que ela via a mesma expressão de medo em mim.

Então a gente foi pra frente de um bote pendurado do lado de fora do navio, mas acima do nosso andar. Um mundo de gente estava ali querendo entrar logo, aquela gritaria, e um funcionário não deixava. Nem se mexia. Parecia meio em choque, olhando a escuridão lá fora. Ele precisava apertar um botão pro bote descer e as pessoas entrarem, mas ele não fazia nada! Então eu parei na frente dele e, sem saber que língua falava, gritei em espanhol mesmo: "Eres tonto?! Baja ya el bote!" Ele finalmente apertou o botão.

Só fui chorar quando pisei em terra e peguei o celular da Juliana pra ligar pro meu pai no Brasil. Ele é músico, estava voltando pra casa depois de um trabalho. Acho que o deixei desesperado, porque assim que eu disse, chorando, "pai, o navio afundou", tóin-tóin-tóin: a ligação caiu. Ele me ligou de volta e berrava "o que foi, Luiza?! O que aconteceu?! Onde você está?!" Eu só chorava. E tóin-tóin-tóin: a ligação caiu de novo. Pelo jeito o coração do meu pai é forte, não sei como ele não teve um treco. Na terceira tentativa eu consegui contar mais ou menos pra ele o que tinha acontecido e que, sim, apesar de tudo, estávamos todos bem - eu e a família da Juliana.

Nessa altura, a caminho da igreja da Ilha de Giglio, que recebeu os sobreviventes, garoava e fazia muito frio. Mas pelo menos as minhas roupas - calças jeans, tênis e um moletom fino - estavam secas \o/. E com aquele mundão de gente caminhando pelas ruazinhas da ilha, os moradores começaram a jogar cobertores pelas janelas. Deu até briga, uns homens trocaram socos por causa de cobertor, dá pra acreditar? :-o

O nosso pessoal, em vez da igreja, foi recebido na casa de uma senhora italiana, onde permanecemos até a manhã seguinte, quando fomos levados para Roma e de lá voltamos de avião pra Barcelona. Nessa casa, a dona nos serviu café, chá, sanduíches e croissants. Puxa, eu não lembro o nome dela. Gostaria tanto de agradecer mais... No meio da noite nós ainda voltamos à costa para ver o navio. Parecia um prédio caído, com as luzes acesas refletindo na água. Dessa vez o nosso guuaauuuu saiu bem baixinho e encharcado de tristeza... ttt E ela só aumentou quando vimos dois irmãos gêmeos espanhóis, de nossa idade, ensopados e desesperados. Eles vieram nadando, ainda não tinham encontrado os pais, e lamentavam não ter encontrado o avô antes de deixarem o navio.
Hoje, passada uma semana daquela sexta-feira 13, quando o som dos pratos quebrando permitem, eu penso se gostaria de ter salvado algum dos meus pertences que levei a bordo do Costa Concordia. Porque só fiquei com o meu celular e o cartão chave da porta da cabine. Às vezes eu acho que seria legal ter a minha máquina fotográfica, porque as lembranças boas do cruzeiro - os rostos dos amigos que fiz, as paisagens que vi, os dias ensolarados que passei com a Juliana no deck - estão todas lá, agora embaixo d'água. Aí me dou conta de que tudo bem, melhor assim. Eu não preciso de nada além do abraço do meu pai, da minha mãe e dos meus irmãos. O MEU melhor lugar do mundo ever é onde NÓS estivermos juntos.


(OESP, 22.1.2012)


(Ilustração: Giger - dark water)


domingo, 22 de janeiro de 2012

DESENGANOS DA VIDA METAFORICAMENTE, de Gregório de Matos







É a vaidade, Fábio, nesta vida,
Rosa, que da manhã lisonjeada,
Púrpuras mil, com ambição dourada,
Airosa rompe, arrasta presumida.


É planta, que de abril favorecida,
Por mares de soberba desatada,
Florida galeota empavesada,
Sulca ufana, navega destemida.


É nau enfim, que em breve ligeireza,
Com presunção de Fênix generosa,
Galhardias apresta, alentos presa:


Mas ser planta, ser rosa, nau vistosa
De que importa, se aguarda sem defesa
Penha à nau, ferro à planta, tarde à rosa?



(Ilustração: Augustin-Alphonse Gaudar de Laverdine – Narcisse se mirant dans l’eau)


sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

NIKKI, de Philip Roth






Nikk – um talento puro, um talento mágico, e absolutamente nada além disso. Ela não sabia diferenciar a mão direita da esquerda, muito menos somar, subtrair, multiplicar ou dividir. Não sabia a diferença entre o sul e o norte, leste e oeste, mesmo em Nova York, onde passara a maior parte da vida. Não podia suportar a visão de pessoas feias, velhas ou aleijadas. Tinha medo de insetos. Tinha medo de ficar sozinha no escuro. Se algo a deixava nervosa – uma vespa com pintas amarelas, uma vítima do mal de Parkinson, uma criança babando em uma cadeira de rodas –, tomava um tranquilizante Miltown, e o Miltown a transformava em uma louca, com um olhar fixo, arregalado, e as mãos trêmulas. Pulava e gritava toda vez que o motor de um carro dava um estouro ou alguém batia uma porta com força. Sabia muito bem como berrar. Quando tentava se mostrar atrevida, poucos minutos depois, se desfazia em lágrimas e dizia: “Farei qualquer coisa que você quiser, mas por favor não me ataque dessa maneira!” Ela não sabia o que era a razão; se mostrava ora de uma obstinação infantil, ora de uma submissão infantil. Nikki deixava Sabbath perplexo ao se enrolar em uma toalha quando saía do banho e, se Sabbath estivesse no seu caminho, passava correndo por ele, rumo ao quarto.


- Por que você faz isso?

- O quê?
- Isso que fez agora, esconder seu corpo de mim.
- Eu não fiz nada.
- Fez, sim, se escondeu atrás da toalha.
- Estava me esquentando.
- Por que passou correndo, como se não quisesse que eu visse?
- Você está doido, Mickey, inventando essa história. Por que tem de me criticar o tempo todo?
- Por que você se comporta como se o seu copo fosse feio?
- Eu não gosto do meu corpo. Odeio meu corpo! Odeio meus peitos! Mulheres não deviam ter peitos!


Ela não conseguia passar ao lado de nenhum tipo de superfície espelhada sem espiar para ver se estava viçosa e bonita, como nas fotos expostas junto à porta do teatro. E, quando subia ao palco, suas mil fobias evaporavam, todas as esquisitices simplesmente deixavam de existir. Em uma peça de teatro, Nikki podia fingir que encarava sem a menor dificuldade as coisas que mais a apavoravam na vida real. Não sabia o que era mais forte, seu amor por Sabbath ou seu ódio por ele – tudo o que sabia era que não poderia ter sobrevivido sem a sua proteção. Sabbath era a sua armadura, sua couraça.



Com pouco mais de vinte anos, Nikki já era uma atriz tão maleável quanto um diretor voluntarioso como Sabbath podia desejar. No palco, mesmo num ensaio, mesmo de pé, no fundo, esperando as instruções do diretor, não se via o menor sinal do seu nervosismo, aquele jeito ansioso de mexer no anel, de enrolar o colar nos dedos, de batucar de leve na mesa com qualquer coisa que tivesse nas mãos. Ela ficava calma, atenta, incansável, paciente, lúcida, perspicaz. Tudo que Sabbath lhe pedia, por mais meticulosamente pedante ou insólito, ela se mostrava capaz de cumprir no mesmo instante, exatamente como ele havia imaginado. Nikki era paciente com os maus atores e inspirada ao lado dos bons. No trabalho, nunca se mostrava descortês com pessoa alguma, ao passo que, certa vez, em uma loja de departamentos, Sabbath a vira exibir uma superioridade tão esnobe diante de uma vendedora que ele teve vontade de lhe dar um tapa na cara.



- Quem você pensa que é? – perguntou Sabbath, tão logo se acharam na rua.

- Por que você vai me criticar, agora?
- Mas por que você tratou aquela moça como se fosse lixo?
- Ah, ela era só uma vagabundinha.
- E que porra você pensa que é? Seu pai era dono de um depósito de madeira, em Cleveland. O meu vendia ovos e manteiga num caminhão.
- Por que você vive falando do meu pai? Eu odiava o meu pai. Como você se atreve a falar do meu pai?




(O Teatro de Sabbath; tradução de Rubens Figueiredo)



(Ilustração: Emil Nolde – still life with dancers)




quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

ANDAVA A LUA NOS CÉUS, de António Botto







Andava a lua nos céus
Com o seu bando de estrelas

Na minha alcova
Ardiam velas
Em candelabros de bronze

Pelo chão em desalinho
Os veludos pareciam
Ondas de sangue e ondas de vinho

Ele, olhava-me cismando;
E eu,
Placidamente, fumava,
Vendo a lua branca e nua
Que pelos céus caminhava.

Aproximou-se; e em delírio
Procurou avidamente
E avidamente beijou
A minha boca de cravo
Que a beijar se recusou.

Arrastou-me para ele,
E encostado ao meu ombro
Falou-me de um pajem loiro
Que morrera de saudade
À beira-mar, a cantar...

Olhei o céu!

Agora, a lua, fugia,
Entre nuvens que tornavam
A inda noite sombria.

Deram-se as bocas num beijo,
Um beijo nervoso e lento...
O homem cede ao desejo
Como a nuvem cede ao vento

Vinha longe a madrugada.

Por fim,
Largando esse corpo
Que adormecera cansado
E que eu beijara, loucamente,
Sem sentir,
Bebia vinho, perdidamente
Bebia vinha..., até cair.



(Aves de Um Parque Real - As Canções de António Botto)


(Ilustração: Vittorio Carvelli – Endymion and the Moon)


segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

CASO DE MENTIRA, de Marques Rebelo








Morávamos nós em São Francisco Xavier, perto da estação, numa boa casa de dois pavimentos, jardinzinho com repuxo na frente e fresca varanda do lado onde nascia o sol, se bem que por essa época não andasse ainda meu pai muito certo da sua vida para arrastar, sem alguma dificuldade, o luxo de residência tão ampla e confortável, mas temos que perdoar a ele, entre outras fraquezas, esta da ostentação, já que a perfeição foi negada por Deus à alma das criaturas. Eis, senão quando, meu irmão Aluísio, o demônio em figura de gente, ao praticar certa travessura arriscada na sala de visitas, aliás sempre fechada a chave e que, a não ser aos sábados para a limpeza, raras vezes se abria para receber gente de fora, pois poucas eram as nossas amizades, caiu e deitou por terra a elegante peanha de canela, que ficava por trás do sofá de palhinha.


Isso, convenhamos, pouca importância teria se, sobre a peanha, não estivesse, como em precioso nicho, o rico vaso da China, um legítimo Sé-Tchun, que papai freqüentemente gabava - isto é que é a verdadeira arte, meninos! - e que mamãe admirava por seu outro valor: ser das únicas coisas que escaparam à voracidade de tio Alarico, um desmiolado, quando foi feita a partilha dos bens do seu avô, que era barão e morrera na Europa.



De tarde, papai chegando, ainda nem tinha tirado o chapéu de lebre, que usava desabado, e já mamãe o punha ao corrente, com meticulosa exposição, do desgraçado acidente.



- Aluísio!



A voz de meu pai foi tão estranha, diversa e violenta, que minha mãe, coitada, ficou branca, arrependida imediatamente de ter nomeado, precipitada, o santo do milagre.



Aluísio, que se eclipsara, mal praticado o ato, apareceu, lembro-me como se fosse hoje, sem fazer barulho, de pé no chão, cabeça baixa, com aquela cara que tia Alzira classificava de "cara de boi sonso"; chegando perto de papai, levantou o rosto de fuinha, encarou-o de revés, cravando nele os olhos pequenos e irrequietos, o instante suficiente para sondá-lo com profunda sagacidade; abaixou novamente a cabeça, o cabelo nunca penteado, que mamãe ameaçava mandar cortar à escovinha, a cair-lhe em farripas pela testa enrugada e suja.



Todos nós teríamos a bom tremer pela sua sorte, que papai, de ordinário calmo, sossegado, muito brincalhão, sabia ser violentíssimo quando para tal lhe davam fortes motivos, e na fúria de que se enchia era fugir-lhe da frente, pois até a pancada fazia parte da sua maneira de ser severo. A preta Paulina, que nós chamávamos de Lalá, e que trouxera o nosso herói ao colo desde o seu primeiro dia, chorava e rezava no corredor, espiando.



- Como foi isso? - meu pai o interpelou com o cenho carregado.



Aluísio era muito imaginativo e, sem titubear, inventou-lhe ali mesmo não sei que história fantástica em que entrava um bandido, verdadeiramente o autor do lamentável desastre, fugindo logo após praticá-lo, sem que ninguém visse, pois ele, Aluísio, tinha sido a única pessoa que presenciara tão misteriosos fatos, por acaso, acrescentava com razoável dose de modéstia, quando fora buscar na sala o álbum de retratos para folhear, o que, inexplicável dado o seu gênio incapaz de ficar parado um segundo, era inegavelmente uma das suas maiores distrações.



- Nada pude fazer - continuou num tom diferente, porque um medo, para que mentir?, um medo terrível tinha-o invadido, paralisando-lhe os movimentos, tirando-lhe a fala, tornando-o mudo, incapaz de gritar por socorro, como seria natural, não é mesmo?



Meu pai ouvia de boca aberta, numa admiração indisfarçável pela inteligência fantasiosa do pequeno. Eu e mamãe estávamos bestificados, Paulina, arregalando medonhamente os olhos, nem podia acreditar.



Aluísio descreveu ainda, com brilhante colorido e absoluta segurança de ânimo, o aspecto do sujeito: trazia compridas suíças, cor de fogo frisava, com aquele sutil amor pelo detalhe, um dos seus mais brilhantes característicos e uma meia máscara roxa nos olhos; as botas vinham até os joelhos, parece que estava armado, mas isso não garantia porque uma imensa capa preta envolvia-o todo.

Depois, quando percebeu que poderia, sem receio, terminar, fez um silêncio brusco deixando cair os braços, que agitara adequadamente no correr da sensacional narrativa.


Papai não se conteve - soltou uma tremenda gargalhada. Sentou-se na cadeira mais próxima a se estorcer, chamou-o para junto de si, passou-lhe a mão pela cabeça: Você ainda há de dar coisa na vida! - sentenciou com legítimo orgulho paternal. Em frases truncadas, sem continuidade, para o restrito e ainda boquiaberto auditório, traçou-lhe um esplendoroso porvir, e mandou-o passear.

Pegando na palavra paterna, durante umas tantas semanas, Aluísio pôs os livros de banda e não parou em casa, soltando papagaios no morro, jogando gude na rua, no meio de molecada. Chegou dia, porém, em que tanta liberdade precisava ter um freio; papai ralhou - vagabundo! - e mamãe passou o cadeado no portão de ferro. O acidente é que jamais foi esquecido, ficando conhecido na família, e contado às visitas entre gargalhadas, como o caso do bandido, ao invés do vaso da China, como seria mais justo, dada a sua origem.


Mas, origens e transformações, tudo são injustiças neste mundo, rótulos de ouro e mercadorias baratas, tanto assim que falhei, redondamente, na primeira ocasião que tentei empregar o mesmo método do mano Aluísio, hoje advogado, e se, incontestavelmente bem colocado, com uma bonita carreira na sua frente, nem por sombra tem aquele portentoso futuro que profetizara meu pai, posto para sempre distante do nosso afeto, bom pai, quando naquele ano, tão doloroso para a minha gente, chegavam os primeiros rigores do verão.



Havia uma moringa em nossa casa, da qual somente papai lhe bebia a água. Ficava dia e noite, cheia, na varandinha da copa, à sombra plácida da mangueira, para a água ficar mais fresca e se impregnar do leve sabor a barro que papai tanto prezava. Em domingos de verão, se não era infalível, freqüentemente aparecia Seu Sousa para palestrar algumas horas; mamãe achava-o extremamente cacete, mas atendia-o com especiais finezas, porque o marido, que ela colocava pouco abaixo das coisas celestes, elogiava-o, com sincero ardor, como sendo um homem de peso e medida! Seu Sousa não escondia, como poderia fazer usando colarinhos mais altos, uma velha cicatriz no pescoço e era bastante enjoado, não variando nunca de conversas questões de terrenos para vender - e de graças: Você tem água gelada com gelo, compadre?



Papai respondia logo:



- Gelo é um perigo, seu burro! Mas tenho a minha bilha fresquinha e gritava para dentro: - Onde está a moringa? Olhem que o Sousa também quer.



Como se acabou de ver, este privilegiado senhor era o único mortal com quem meu pai dividia o precioso conteúdo da sua moringa. Este célebre objeto, externamente, não correspondia em absoluto a tão súbitas distinções, comuníssima moringa, dessas que se encontram nas menos sortidas das quitandas. Talvez custasse poucos tostões mais, não duvido, por ser pintada, porque lá isso era ela, com casinhas e beija-flores, dentro de um oval que era uma espécie de grinalda de florezinhas róseas e azuis. - No mais uma banalíssima moringa, como já se disse.



Já que falamos de moringa, falemos também de peteca, o que à primeira vista parecendo extravagante, senão absurdo, tem memorável relação nos acontecimentos da minha existência.



Fora uma das minhas grandes ambições, ideal de criança, bem se nota, mas, pela vida adiante, não creio que, das muitíssimas que me vieram, todas tivessem sido maiores ou melhores que a da ingênua posse duma peteca.



Numa loja de brinquedos meus olhos ansiosos tudo punham de parte, trens e velocípedes, jogos e rema-remas, para buscá-la humilde e escondida. Como, quando ia à cidade, voltava sempre com as mãos abanando e sofria horrivelmente no bonde o fato de ter, mais uma vez, deixado na sua vitrine o objeto dos meus caros sonhos, o ir à cidade era motivo para mim de secretos padecimentos, e, infelizmente, isso acontecia com certa regularidade semanal, pois mamãe, não gostando de sair sozinha, e como eu era o filho mais velho, preferia-me para acompanhá-la. Tem mais juízo! - falava. Talvez por isso mesmo fizesse o Aluísio tanta diabrura - não gostava de ir à cidade. Preferia ficar em casa, longe dos ralhos da mãe, a fazer o que lhe desse na cabeça pedras nos quintais vizinhos, estripulias no alto do muro, maldades até, como no dia em que cortou, com o machado, o rabo da gata malhada que Lalá tinha criado com papinhas.



Uma tragédia os meus passeios, porque mamãe não chamava de outra maneira as minhas saídas. Voltava sucumbido. À noite sonhava com ela, a peteca querida, via-a minha, pular no ar, ao bater das palmadas estrepitosas, lept, lept, com as penas vermelhas, lindíssima peteca! Interessante é que não ousava pedi-la aos meus pais, sabendo perfeitamente que pouco seria o seu preço para que eles ma negassem. Idiota, poderão dizer, ilógico, poderão argumentar, levando em conta a facilidade de pedir que é própria das crianças. Nada me fará mudar: pura verdade é o que conto e a mim é quanto me basta.



Vivi assim, longo tempo, sonhando com petecas e ambicionando-as nas montras, quando um belo dia, um dos domingos do Seu Sousa - parece incrível - ele me presenteou com uma.



Nessa tarde excepcional eu compreendi o segredo difícil das simpatias. Olhei de frente o velho amigo de meu pai e, se continuei a achá-lo feio, é impossível esconder que achei-o infinitamente agradável. A grosseira cicatriz do pescoço, longe de qualquer piedade pela má aparência que causava, infundia-me, pelo seu dono, uma notável admiração, tentando ligá-la heroicamente a um episódio desconhecido da sua vida, um ataque inopinado que sofrera, de inimigos covardes, ficando aquele ferimento por lembrança, amarga e sempre viva, da sua coragem reagindo. Cheguei a rir das suas eternas piadas, corria a buscar a moringa quando era hora, ficava perto dele, ouvindo-o conversar (soube aí ser proprietário de não sei quantos terrenos em Botafogo), esperava por ele no portão, levava-o até o bonde quando se ia, largos passos, que eu mal acompanhava, o chapéu-chile de abas para cima.



Pois da moringa e da peteca nasceu uma desgraça: minha mão inexperiente impeliu a última contra a primeira e esta ficou em cacos. Ninguém se alarmou: "moringas há milhões por este mundo, iguais como as formigas" - serenou-me minha mãe, que fazia comparações engraçadas.



Tínhamos já acendido a luz quando papai chegou, atrasado, para jantar, e como fizera demasiado calor durante o dia, entrando suado, com sede, gritou logo:



- Vejam a minha moringa!



Contaram que se quebrara e eu fora o culpado por andar jogando peteca dentro de casa. Chamou-me. Dirigi-me a ele serenamente e tratei de inventar a aventura de um gato que perseguindo um rato...



Eu era, porém, pouco imaginativo e até a meio da minha história, trivialíssima, não conseguira encaixar nenhuma passagem de extraordinário realce. Verdade seja dita, não passei além do meio: papai deu-me um tabefe na boca:



- Mentiroso!



Puxou-me pelas orelhas, levou-me para o quarto, sem jantar, disse-me, com dureza, "que um homem que mentia não era um homem", pôs-me de castigo uma semana, preso em casa, sem pôr os pés fora, na varanda que fosse. Aluísio, insensível à minha prisão, folgava, não parecendo sentir a falta do companheiro. Era de vê-la a facilidade indiferente com que supria, nos seus brinquedos, a minha pessoa ausente. Da janela do meu quarto, enquanto descansava as mãos doloridas de copiar, com boa letra e sem nenhum erro, as trinta páginas da minha geografia, que papai, pela manhã, antes de sair, inflexivelmente, me marcava, ficava vendo-o correr, subir às árvores, com desembaraço e agilidade. E invejava-o surdamente. Tinha dez anos.


(Oscarina, 1931.)


(Ilustração: Paulo Martinez Fernandez)


sábado, 14 de janeiro de 2012

LEMBRANÇA, de Friedrich Hölderlin








Sopra o vento nordeste,
Meu vento preferido,
Porque promete aos navegantes
Boa viagem e espírito ardente.
Agora vai porém
Vai saudar o belo Garona
E os jardins de Bordéus
Onde, ao longo da riba abrupta,
Corre o caminho e o riacho
Tomba fundo no rio vigiado
Do alto por um nobre par
De carvalhos e álamos brancos;

Lembro-me ainda bem de como inclina
O bosque de olmos
Suas largas copas sobre o moinho;
No pátio cresce uma figueira;
De lá se vão, em dias de festa,
Pisando um chão de seda,
As mulheres morenas
Pelos tempos de março
Quando dia e noite igualam-se
E as brisas embalam
Preguiçosas veredas
Repletas de sonhos dourados.

Que me passem, porém,
Cheia de luz sombria,
Uma das taças perfumosas
Com que eu possa repousar: seria
Doce adormecer sob as sombras.
Pois não é bom
Estar sem alma, sem
Pensamentos mortais. Bom é
Deixar que o coração
Falte e converse, ouvir
Histórias de amor
E feitos passados.

Mas onde estão os amigos? Belarmino
Com o companheiro? Muitos
Têm pudor de ir até a fonte,
Pois a riqueza começa
No mar. Como
Pintores, eles recolhem
As belezas da terra sem
Desdenhar a guerra alada nem
A solidão, anos a fio, sob
O mastro sem folhas onde não transluzem
Na noite as festas da cidade
Com harpas e danças.

Mas agora, rumo à Índia,
Eis que os homens partiram.
Lá no promontório ventoso,
Junto ao monte das vinhas, onde
Desce o Dordona
E se une ao esplêndido Garona,
Ganhando largura de mar, o mar
Que dá memória e a tira, assim
Como o amor detém os olhos diligentes.
O que fica, porém, é o que os poetas fundam.



(Poemas, tradução de José Paulo Paes)



(Ilustração: John Constable)


quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

O EIXO, de Marcelo Rubem Paiva








Suas mãos embrulhadas em luvas de borracha limpam obsessivamente todos os cantos do banheiro. Ele passa escova na privada numa velocidade que deixaria qualquer observador tonto.

Na sala, esfrega panos nos vidros. São limpos, como se tivessem acabado de sair da fábrica, e a cidade fosse a menos poluída do mundo.

Passa aspirador. Espanador nos livros. Organiza as almofadas do sofá. Lava a louça e as enxuga com flanela.

É uma faxina completa, rito diário de quem trabalha em casa, vive só e não consegue organizar os pensamentos se um grão de poeira estiver no meio do caminho.

Lava as mãos gastando dez minutos e meio sabonete. E ainda as esfrega com álcool gel antisséptico.

O interfone toca. Ele atende e manda subir. Livra-se do avental, dá uma ajeitada no cabelo e coloca um jazzinho neutro, nada experimental, nem bebop, nem fusion.

Toca a campainha. Ele abre. Ela entra aflita, como sempre.

"Parei na vaga de idoso que tem na frente do seu prédio. Não tinha vagas", ela diz.

Beijam-se burocraticamente com a porta ainda aberta. Ele tranca. Ela joga as coisas pelo caminho. Ele recolhe e as coloca num cabideiro. Ela despeja a bolsa sobre o sofá e encontra um cigarro amassado no fundo. Ele prontamente pega um isqueiro, acende e fica segurando o cinzeiro, para quando ela precisar.

"Ele deu de controlar as minhas contas. Examina cada ligação do celular e reclama se tem alguma longa demais. 'Usa o Skype.' Reclama quando chega uma multa, critica o meu jeito de dirigir, fazer baliza, meus caminhos. 'Esta rua é a mais congestionada. Vai pela faixa da direita'. Imagina quando souber que voltei a fumar?"

Ela dá três tragadas rápidas. Enfim o agarra e o empurra até o sofá. Pula em cima dele, já sentado. Apaga o cigarro. Abre a barguilha dele, levanta a saia e se encaixa. Tira anel, pulseiras e colares. Joga-os displicentemente na mesa de centro. E fala, enquanto transam no sofá mesmo.

"Não suporto mais aquela arrogância, me examina quando saio, me avalia quando cozinho, testa minha inteligência, perguntando: 'Como é mesmo o nome do presidente da ONU?' Vivo tensa, como numa aula em que o professor faz prova oral. Ai, como é bom... Todo metódico para dormir, acordar, é uma pedra que tem respostas para tudo, nunca chora em velórios, sente-se superior a todos. Ai, assim eu gozo... Sempre me aparece com novidades: 'Olha esta gravação rara de Callas. Viu o novo aplicativo que instalei? Leu o blog do fulano?' Detesto ópera, detesto telejornais, detesto a ONU, a OEA, blogs, e ele insiste: 'Viu o que o fulano escreveu? Você concorda com ele?' Ai, para, não para, ai, gostoso, gostoso, gostoso, ai..."

Ela goza. Joga a cabeça sobre o ombro dele. Respira fundo. Sussurra no ouvido dele:

"Delícia..."
"Eu estava com saudades", ele diz.
"É?"
"É."
"Eu também."
"Você também?"
"É."
"Estava nada."
"Claro que estava. Não deu pra notar?"
"É, deu."

Sorriem. Beijam-se. Ela se levanta rapidamente, ajeita a saia e vai ao banheiro. Pergunta lá de dentro:

"Quer me ver quarta? Se não der, mande uma mensagem. Anônima. Que a aula foi cancelada."

Volta ajeitando os cabelos. Recoloca anel e pulseiras. Checa o celular.

"Por que você sempre tira a aliança?", ele pergunta.
"Eu tiro, é? Não tinha reparado..."
"Você namoraria comigo?"
"Está querendo namorar agora?"
"Tenho pensado nisso."
"O que aconteceu com o solteirão mais convicto da cidade?"
"Se cansou."
"Que nada. Você só quer se aproveitar de mim."
"Quero cuidar de você."
"Você não me aguentaria."
"Não?"
"Está falando isso só pra me agradar."
"Fica mais. Vamos passar a tarde juntos."
"Você é tão doce. Me sinto bem aqui. Me sinto leve..."

Ela se senta de novo no colo dele. Abraça. Volta a se excitar. Tira anel e pulseiras, joga-os na mesa de centro. Enquanto ela fala, transam novamente:

"Mas não posso! Ele é importante pra mim, é o meu eixo. Existem aqueles momentos em que ele se ausenta, está na minha frente, mas não está, parece viajar pra Marte, e tudo em sua volta ganha um tom leitoso. Mas eu gosto dele. Vejo seu olhar me atravessar. Isso dura dias, semanas, aquela quietude dos pensamentos, e sei lá se sonha ou se tem pesadelos, o mistério do homem que vive comigo. Eu amo ele. Ai, que gostoso... Minha vocação é tratar, mas como se não se vê a doença? Quero desvendar ele. Quero parar o mundo para ele respirar um pouco. Quero ele pra mim! Ai... O que eu estava dizendo? Ele é meu! Meu homem, meu amor. Ai, tá gostoso... Ai, gostoso, gostoso, gostoso..."
E goza novamente. Aliviada. Esgotada. Beijam-se. De repente, fica aflita e se ergue.

"Multam aqui na sua rua?"

Recoloca anel, pulseiras. Vai para o banheiro. Ele continua sentado.

"Você é tão gostoso. Que música é essa?"

Ele não responde. Ela volta, pega a sua bolsa, checa novamente o celular. Dá um beijo rápido de despedida.

"Não esquece os colares", ele diz.

Ela sorri e os joga na bolsa. Abre a porta, chama o elevador e pergunta:

"Então, quarta?"

Nunca mais se viram. Não respondeu às mensagens dele, aos e-mails, não ligou. A palavra "namorar" contaminou a relação de anos. Também, pedir uma mulher casada em namoro...



(OESP; 22.10.2011)



(Ilustração: Raúl Villalaba – danza de otoño)



terça-feira, 10 de janeiro de 2012

SALUT/ BRINDE, de Mallarmé








Rien, cette écume, vierge vers
À ne désigner que la coupe;
Telle loin se noie une troupe
De sirènes mainte à l'envers.

Nous naviguons, ô mes divers
Amis, moi déjà sur la poupe
Vous l'avant fastueux qui coupe
Le flot de foudres et d'hivers;

Une ivresse belle m'engage
Sans craindre même son tangage
De porter debout ce salut

Solitude, récif, étoile
À n'importe ce qui valut
Le blanc souci de notre toile.



Tradução de Augusto de Campos:



Nada, esta espuma, virgem verso
A não designar mais que a copa;
Ao longe se afoga uma tropa
De sereias vária ao inverso.

Navegamos, ó meus fraternos
Amigos, eu já sobre a popa
Vós a proa em pompa que topa
A onda de raios e de invernos;

Uma embriaguez me faz arauto,
Sem medo ao jogo do mar alto,
Para erguer, de pé, este brinde

Solitude, recife, estrela
A não importa o que há no fim de
um branco afã de nossa vela.



(Ilustração: Jean Bailly)