sábado, 14 de janeiro de 2012

LEMBRANÇA, de Friedrich Hölderlin








Sopra o vento nordeste,
Meu vento preferido,
Porque promete aos navegantes
Boa viagem e espírito ardente.
Agora vai porém
Vai saudar o belo Garona
E os jardins de Bordéus
Onde, ao longo da riba abrupta,
Corre o caminho e o riacho
Tomba fundo no rio vigiado
Do alto por um nobre par
De carvalhos e álamos brancos;

Lembro-me ainda bem de como inclina
O bosque de olmos
Suas largas copas sobre o moinho;
No pátio cresce uma figueira;
De lá se vão, em dias de festa,
Pisando um chão de seda,
As mulheres morenas
Pelos tempos de março
Quando dia e noite igualam-se
E as brisas embalam
Preguiçosas veredas
Repletas de sonhos dourados.

Que me passem, porém,
Cheia de luz sombria,
Uma das taças perfumosas
Com que eu possa repousar: seria
Doce adormecer sob as sombras.
Pois não é bom
Estar sem alma, sem
Pensamentos mortais. Bom é
Deixar que o coração
Falte e converse, ouvir
Histórias de amor
E feitos passados.

Mas onde estão os amigos? Belarmino
Com o companheiro? Muitos
Têm pudor de ir até a fonte,
Pois a riqueza começa
No mar. Como
Pintores, eles recolhem
As belezas da terra sem
Desdenhar a guerra alada nem
A solidão, anos a fio, sob
O mastro sem folhas onde não transluzem
Na noite as festas da cidade
Com harpas e danças.

Mas agora, rumo à Índia,
Eis que os homens partiram.
Lá no promontório ventoso,
Junto ao monte das vinhas, onde
Desce o Dordona
E se une ao esplêndido Garona,
Ganhando largura de mar, o mar
Que dá memória e a tira, assim
Como o amor detém os olhos diligentes.
O que fica, porém, é o que os poetas fundam.



(Poemas, tradução de José Paulo Paes)



(Ilustração: John Constable)


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