terça-feira, 24 de janeiro de 2012

UMA MEGA TRISTEZA, de Christian Carvalho Cruz






Tipo, eu acho que nunca mais vou conseguir ouvir o som de um prato quebrando sem me lembrar. Por enquanto não sonhei nem tive pesadelo. É quando estou acordada mesmo, quieta, sem nada pra fazer, que aquela noite acontece outra vez. E não é legal. Os pratos e copos caindo, os gritos, a correria, os velhos tentando se segurar, as crianças perdidas chorando, os pais apavorados procurando. Era pra ter sido tão diferente...

A minha volta a Barcelona tinha um zilhão de significados. Eram várias primeiras vezes. A primeira vez que eu retornava pra cidade onde morei dos 8 aos 13 anos com meus pais e meus dois irmãos. A primeira vez que eu viajava sozinha de avião \o/\o/\o/. (E só fiz 14, mas com muita responsabilidade, HUAHUAHUA!) A primeira vez em tanto tempo que eu ouvia me chamarem de Luiza de novo.
É que quando cheguei ao Brasil fui pra uma escola e na classe já tinha outra Luiza, a Luiza Cruz, minha amigona. Então eu passei a ser a Luiza Levy. E depois que me enturmei, só Levy. Até a professora me chama de Levy. Mas em Barcelona, que eu deixei imaginando ser o melhor lugar do mundo ever, o MEU lugar no mundo, continuo Luiza.

Bom, tinha também a primeira vez de fazer um cruzeiro num daqueles naviozões enormes, com piscina, lojas, cinema, teatro, balada... E, o mais importante, o motivo da minha volta, da minha alegria e ansiedade (minha mãe até me deu floral antes do embarque em São Paulo, hehe), a primeira vez que eu via a Juliana desde o dia em que nos despedimos, ela chorando horrores, na minha partida um ano e pouco atrás. Super hiper melhor amiga, a Juliana. Nos conhecemos no colégio em Barcelona, ela recém-chegada da Colômbia, meio perdida e isolada. Como eu no começo.

Gente, vocês não têm noção do inferno que pode se transformar a adaptação de um adolescente estrangeiro num país que não é o dele. Com o tempo melhora, mas até lá, afff!

A Juliana ia fazer 15 anos em 12 de janeiro e ganhou de presente dos pais uma viagem no Costa Concordia. Uma semana pelo Mediterrâneo com a família toda e direito a levar uma amiga - no caso, eu \o/. Do dia 9 ao 16. Só que tinha uma maldita sexta-feira 13 no meio. Cheguei a Barcelona no dia 2, e como tínhamos muuito tempo livre antes de subir no navio, aproveitamos basicamente para:

1) Fazer corujão (passar a noite conversando e só dormir quando o sol nasce).

2) Ir ao kart perto da minha ex-casa, que era o nosso programa preferido. Dessa vez, achei engraçado poder usar os carrinhos grandes, de adulto. Antes a gente só andava nos de criança. Caraca, cresci!

3) Comprar o meu primeiro salto alto da vida, porque no navio rola noite de gala. Tive que praticar pra não cair, UHUAHUAHUA... Eu tinha um vestido longo na mala, vermelho, e a mãe da Juliana me deu outro, dourado, pro jantar de aniversário a bordo.

4) O melhor de tudo: ficar vendo na internet uns vídeos do Costa Concordia. Muuuito tops! A gente riu bastante dos elevadores panorâmicos que subiam e desciam por trilhos iluminados por lâmpadas verdes. E foi aí que a Juliana inventou a expressão que depois a gente repetia toda hora que via uma coisa legal na viagem: "guuaauuuu!"

Assim que embarcamos eu e a Juliana corremos pros elevadores. Apertamos todos os botões e em cada andar entrava alguém falando um idioma diferente. Só muito tempo e risadas depois é que fomos pra nossa cabine. Ela ficava no lado direito do navio, bem o que tombou. Número 2.405, piso Suécia, que era o nome do segundo andar do Costa Concordia. Ficamos numa Suécia esquisitamente localizada em cima da Holanda e embaixo da Bélgica - meio diferente das aulas de geografia, hehe. Ainda mais pra cima, tudo empilhado, ficavam Grécia, Itália, Grã-Bretanha, Irlanda, Portugal, França, Alemanha e Espanha no topo \o/\o/. Na nossa cabine não rolava varanda, mas ela tinha um janelão onde cabíamos nós duas sentadas. Passamos os melhores momentos da viagem ali, vendo o mar, rindo e combinando como faríamos pra nos ver de novo quando as férias acabassem e eu voltasse pro Brasil.

A tal noite de gala, que acontecia em dias alternados, não era nada demais, tirando o fato de a gente ter que se produzir toda. E só pra jantar, hehe. Eu e a Juliana saíamos da cabine meio envergonhadas. Cabelo, unha, longo, salto alto... E ainda tinha um moooonte de gente circulando de sunga e maiô, UHUAHUAHUA. Depois da refeição, os adultos dançavam um pouco no restaurante e no final todos cantavam Volare, ô-ô, Cantare, ô-ô-ô rodopiando os guardanapos de pano no ar. Divertido até ;-). Numa dessas noites, antes do jantar, fomos pro teatro. O comandante do navio ia se apresentar aos passageiros. O teatro ficou lotado, e olha que era beeeem grande, três andares. O capitão apareceu no palco, junto com a equipe dele. Falou primeiro em italiano, depois em inglês e espanhol. Se apresentou, apresentou os colegas e desejou boa viagem. Só isso. Foi mega aplaudido, parecia Domingão do Faustão. Umas pessoas gritavam, assoviavam, U-HU!, tipo, "esse cara é bom!" Na hora eu não prestei atenção no nome dele, mas depois de tudo não esqueço mais: Schettino. Schettino cretino. :-(

Fizemos muitos amigos a bordo, e passávamos o dia inteiro circulando. Teen Zone, piscina, lojinhas, o deck. O navio é mesmo uma cidade. Mas tínhamos que estar no restaurante Milano às 9 horas para jantarmos juntos. Era uma ordem dos pais da Juliana. E, pensando agora, vejo como foi importante essa ordem, porque quando tudo aconteceu não tinha ninguém do nosso grupo de 15 pessoas em outra parte do navio. Estávamos todos no restaurante Milano, na mesma mesa, assim que o Costa Concordia bateu na pedra. E se vocês vissem a cara dos pais procurando os filhos que não estavam perto deles... Ai, foi muuuuito apavorante. A pior parte.

Nesse dia eu e a Juliana acordamos meio tarde, umas três da tarde. É que na noite anterior tinha sido o aniversário dela e nós só voltamos pra cabine às 5 da manhã :-o. Ficamos um tempão com a turma de amigos no teatro, que estava vazio. Subimos no palco, dançamos salsa, brincamos e rimos muito, pra variar. Até que a Juliana, deitada e olhando o lustre do tamanho de um carro pendurado no teto do teatro, falou assim: "Nossa, isso deve ter custado caro. Por que eles gastam dinheiro nessas coisas? Se um dia esse navio afunda..." Afff!

Quando a premonição da Juliana começou a se confirmar eu só tive tempo de comer o primo piatto, uma salada, porque o espaguete ao sugo nunca chegou. A primeira coisa estranha foi que de repente o restaurante todo tremeu. Então o navio deu uma inclinadinha. E na hora que uma voz nos alto-falantes disse para mantermos a calma, que tinha acontecido um problema técnico e logo ele seria consertado, já estávamos todos fora do restaurante. Por sorte a nossa mesa era a primeira ao lado da porta de emergência e eu só me lembro de ter pensado, tipo, meu, vamos correr daqui. Então o Costa Concordia inclinou com mais força e tudo começou a despencar. As mesas, as cadeiras, as máquinas da cozinha, panelas. Eu ouvia os pratos quebrando lá dentro.

Saímos pelo lado esquerdo do navio, o que ficou pra cima. Logo encontramos os armários onde guardam os coletes salva-vidas, que vestimos e depois colocamos num monte de crianças pequenas que não iam pra lado nenhum - só ficavam ali paradas, chorando, soluçando. Em volta, o maior empurra-empurra, umas mulheres brigando pra se segurar na grade que circunda o navio, vi um velhinho que estava sentado, coitado, ser atingido por uma coisa bem grande que veio escorregando de dentro do restaurante. Eu olhava pra Juliana e ela estava apavorada. Imagino que ela via a mesma expressão de medo em mim.

Então a gente foi pra frente de um bote pendurado do lado de fora do navio, mas acima do nosso andar. Um mundo de gente estava ali querendo entrar logo, aquela gritaria, e um funcionário não deixava. Nem se mexia. Parecia meio em choque, olhando a escuridão lá fora. Ele precisava apertar um botão pro bote descer e as pessoas entrarem, mas ele não fazia nada! Então eu parei na frente dele e, sem saber que língua falava, gritei em espanhol mesmo: "Eres tonto?! Baja ya el bote!" Ele finalmente apertou o botão.

Só fui chorar quando pisei em terra e peguei o celular da Juliana pra ligar pro meu pai no Brasil. Ele é músico, estava voltando pra casa depois de um trabalho. Acho que o deixei desesperado, porque assim que eu disse, chorando, "pai, o navio afundou", tóin-tóin-tóin: a ligação caiu. Ele me ligou de volta e berrava "o que foi, Luiza?! O que aconteceu?! Onde você está?!" Eu só chorava. E tóin-tóin-tóin: a ligação caiu de novo. Pelo jeito o coração do meu pai é forte, não sei como ele não teve um treco. Na terceira tentativa eu consegui contar mais ou menos pra ele o que tinha acontecido e que, sim, apesar de tudo, estávamos todos bem - eu e a família da Juliana.

Nessa altura, a caminho da igreja da Ilha de Giglio, que recebeu os sobreviventes, garoava e fazia muito frio. Mas pelo menos as minhas roupas - calças jeans, tênis e um moletom fino - estavam secas \o/. E com aquele mundão de gente caminhando pelas ruazinhas da ilha, os moradores começaram a jogar cobertores pelas janelas. Deu até briga, uns homens trocaram socos por causa de cobertor, dá pra acreditar? :-o

O nosso pessoal, em vez da igreja, foi recebido na casa de uma senhora italiana, onde permanecemos até a manhã seguinte, quando fomos levados para Roma e de lá voltamos de avião pra Barcelona. Nessa casa, a dona nos serviu café, chá, sanduíches e croissants. Puxa, eu não lembro o nome dela. Gostaria tanto de agradecer mais... No meio da noite nós ainda voltamos à costa para ver o navio. Parecia um prédio caído, com as luzes acesas refletindo na água. Dessa vez o nosso guuaauuuu saiu bem baixinho e encharcado de tristeza... ttt E ela só aumentou quando vimos dois irmãos gêmeos espanhóis, de nossa idade, ensopados e desesperados. Eles vieram nadando, ainda não tinham encontrado os pais, e lamentavam não ter encontrado o avô antes de deixarem o navio.
Hoje, passada uma semana daquela sexta-feira 13, quando o som dos pratos quebrando permitem, eu penso se gostaria de ter salvado algum dos meus pertences que levei a bordo do Costa Concordia. Porque só fiquei com o meu celular e o cartão chave da porta da cabine. Às vezes eu acho que seria legal ter a minha máquina fotográfica, porque as lembranças boas do cruzeiro - os rostos dos amigos que fiz, as paisagens que vi, os dias ensolarados que passei com a Juliana no deck - estão todas lá, agora embaixo d'água. Aí me dou conta de que tudo bem, melhor assim. Eu não preciso de nada além do abraço do meu pai, da minha mãe e dos meus irmãos. O MEU melhor lugar do mundo ever é onde NÓS estivermos juntos.


(OESP, 22.1.2012)


(Ilustração: Giger - dark water)


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