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domingo, 21 de julho de 2013

PHILIMOR, ALMA DE CRIANÇA, de Witold Gombrowicz







 

Em fins do século XVIII, um camponês parisiense teve uma criança; a criança por sua vez, teve uma criança, que teve uma criança por sua vez. Depois, houve outra criança... e a última criança, que se tornara campeã mundial, disputava, certo dia, nas quadras do Racing Club de Paris, em ambiente tenso e sob torrentes de aplausos, uma partida de tênis.

No entanto, (oh, que traições horríveis nos reserva a vida!) um certo coronel dos zuavos, que estava sentado na tribuna lateral, tomou-se de inveja pelo jogo assombroso e impecável dos dois campeões. E, subitamente, querendo mostrar sua capacidade aos seis mil espectadores presentes, - e também à amiguinha que o acompanhava - sacou do revólver e deu um tiro na bola, no momento em que ela voava entre as duas raquetas. A bola estourou e caiu. Privados da bola, os campeões continuaram, par algum tempo, a dar raquetadas no ar, mas, exasperados pelo absurdo daquele momento sem sentido, caíram nos braços um do outro. Uma torrente de aplausos sacudiu a assistência.

O caso poderia ter-se resumido nisso, é claro. Mas, circunstância imprevista, o coronel, em sua excitação, não prestou atenção suficiente (oh, como é preciso ser atento!) aos espectadores que estavam sentados na tribuna em frente. Imaginara, não se sabe por que, que o projétil, depois de ter atravessado a bola de tênis, terminaria sua trajetória; mas infelizmente isso não aconteceu... e, prosseguindo adiante, a bala atingiu o pescoço de um espectador. O sangue jorrou da artéria seccionada. 

A mulher do ferido quis atirar-se sobre o coronel e arrancar-lhe o revólver, mas, vendo que isso seria impossível, pois estava cercada pela multidão, contentou-se em esbofetear seu vizinho da direita. Isso porque não havia outro meio de expandir sua indignação e porque, segundo uma lógica muito feminina, achava (no mais íntimo recanto de seu subconsciente) que, sendo mulher, podia permitir-se qualquer coisa.

Mas, evidentemente, as coisas não se desenrolaram como ela imaginara. Pois o esbofeteado (ah, como nossos cálculos são incertos, e imprevisíveis nossos destinos!) era nada mais nada menos que um epilético em estado de latência. Com o choque do bofetão, o infeliz jorrou de si mesmo um gêiser. A pobre mulher viu-se entre dois homens, um dos quais cuspia sangue e o outro espuma. A multidão explodiu numa torrente de aplausos.

Foi então que, num acesso de pânico, um senhor que estava sentado ali perto atirou-se em cima da cabeça de uma senhora, sentada mais embaixo. Esta se levantou, tomou impulso e pulou para a quadra, carregando-o nas costas, em doida corrida. A multidão explodiu numa torrente de aplausos. E tudo poderia ter-se resumido nisso. Mas aconteceu ainda (tudo! seria preciso prever tudo, pensar em tudo!) que a alguns passos dali estava sentado um pobre-diabo, um obscuro sonhador aposentado que, havia anos, a cada vez que assistia a um espetáculo público, ardia de vontade de pular em cima da cabeça das pessoas sentadas mais embaixo, e só a muito custo conseguia controlar-se. Estimulado pelo exemplo, atirou-se sem mais tardar sobre seu vizinho de baixo que (era uma funcionariazinha chegada havia pouco tempo de Tanger) pensou que era assim mesmo, que era moda, e que essa era a maneira certa de comportar-se nos meios elegantes... Assim sendo, atirou-se também para a quadra, atenta a que seus movimentos não a traíssem, denotando alguma timidez.

O setor mais culto do público pôs-se a aplaudir diplomaticamente, para dissimular o escândalo aos olhos dos representantes das embaixadas e delegações estrangeiras. 

Mas deu-se um mal-entendido, pois outros espectadores menos cultos tomaram esses aplausos como sinal de aprovação... e cada um pôs-se a cavalgar sua dama. Os estrangeiros demonstravam espanto crescente. Que saída restava, portanto, a gente tão fina, diante de tais circunstâncias? Para dissimular o escândalo, puseram-se também eles a cavalgar suas damas.

E tudo poderia ter-se resumido nisso, quase que certamente. Mas então, um certo Marquês de Philimor, sentado na tribuna de honra ao lado de sua esposa e da família desta, achou-se na obrigação de portar-se como um cavalheiro.E, vestido num terno claro de verão, surgiu no centro da quadra, pálido porém decidido, perguntando em tom glacial se alguém, e quem era esse alguém, desejava ofender sua mulher, a Marquesa de Philimor. E atirou à multidão um punhado de cartões de visita, nos quais estava gravado: "Philippe de Philimor" (Ah! Como é preciso prestar atenção, como a vida é difícil e perigosa!) Fez-se um silêncio mortal.

Subitamente, pelo menos trinta e seis senhores, montados em mulheres de raça, de finos jarretes, aproximaram-se da Marquesa, a passo, com a intenção de ofendê-la, para poderem sentir-se tão cavalheiros quanto o Marquês, seu esposo. Mas a Marquesa (oh, quão louca é a existência!), apavorada, deu à luz - ouviu-se, aos pés do Marquês, sob os cascos das mulheres que relinchavam, um vagido de criança!

O Marquês, subitamente apanhado em flagrante criancice, em terrível, completa infantilidade, quando até o presente momento agira de modo muito amadurecido, como um cavalheiro que era, partiu, envergonhado, enquanto os espectadores explodiam numa torrente de aplausos.



(Tradução de Vera Pedroso)


(Ilustração: Jean Bailly)