sexta-feira, 23 de outubro de 2026
UMA SOCIEDADE VIOLENTA, de Marilena Chauí
Conservando as marcas da sociedade colonial escravista, a sociedade brasileira é determinada pelo predomínio do espaço privado (ou os interesses econômicos) sobre o público e, tendo o centro na hierarquia familiar, é fortemente hierarquizada em todos os seus aspectos: nela, as relações sociais e intersubjetivas são sempre realizadas como relação entre um superior, que manda, e um inferior, que obedece. As diferenças e assimetrias são sempre transformadas em desigualdades, que reforçam a relação mando-obediência. O outro jamais é reconhecido como sujeito nem como sujeito de direitos, jamais é reconhecido como subjetividade nem como alteridade. As relações, entre os que julgam iguais, são de “parentesco”, isto é, de cumplicidade; e, entre os que são vistos como desiguais, o relacionamento toma a forma do favor, da clientela, da tutela ou da cooptação, e, quando a desigualdade é muito marcada, assume a forma da opressão. Há, assim, a naturalização das desigualdades econômicas e sociais, do mesmo modo que há naturalização das diferenças étnicas (consideradas desigualdades raciais entre superiores e inferiores), religiosas e de gênero, bem como naturalização de todas as formas visíveis e invisíveis de violência.
A violência está de tal modo interiorizada nos corações e mentes que alguém pode usar a frase "um negro de alma branca" e não ser considerado racista. Pode referir-se aos serviçais domésticos com a frase "uma empregada ótima: conhece seu lugar” e considerar-se isento de preconceito de classe. Pode dizer, como disse certa vez Paulo Maluf, “a professorinha não deve gritar por salário, mas achar um marido mais eficiente” e não ser considerado machista.
Podemos resumir, simplificadamente, os principais traços de nossa violência social considerando a sociedade brasileira oligárquica, autoritária, vertical, hierárquica, polarizada entre a carência e o privilégio e com bloqueios e resistências à instituição dos direitos civis, econômicos, sociais e culturais.
Nossa sociedade conheceu a cidadania através de uma figura inédita: o senhor (de escravos)-cidadão, e concebe a cidadania com privilégio de classe, fazendo-a ser uma concessão da classe dominante às demais classes sociais, podendo ser-lhes retirada quando os dominantes assim o decidirem. O caso da mídia contra a Ministra Matilde [*] exprime exatamente essa ideia de cidadania concedida e retirada ao sabor dos interesses dos dominantes. Pelo mesmo motivo, no caso das camadas populares, os direitos, em lugar de aparecerem como conquistas dos movimentos sociais organizados, são sempre apresentados como concessão e outorga feitas pelo Estado, dependendo da vontade pessoal ou do arbítrio do governante.
Em nossa sociedade, as diferenças e assimetrias sociais e pessoais são imediatamente transformadas em desigualdades, e estas, em relação de hierarquia, mando e obediência. Os indivíduos se distribuem imediatamente em superiores e inferiores, ainda que alguém superior numa relação possa tornar-se inferior em outras, dependendo dos códigos de hierarquização que regem as relações sociais e pessoais. Todas as relações tomam a forma da dependência, da tutela, da concessão e do favor. Isso significa que as pessoas não são vistas, de um lado, como sujeitos autônomos e iguais, e, de outro, como cidadãs e, portanto, como portadoras de direitos. É exatamente isso que faz a violência ser a regra da vida social e cultural. Violência tanto maior porque invisível sob o paternalismo e o clientelismo, considerados naturais e, por vezes, exaltados como qualidades positivas do "caráter nacional".
Nela, as leis sempre foram armas para preservar privilégios e o melhor instrumento para a repressão e a opressão, jamais definindo direitos e deveres concretos e compreensíveis para todos. Essa situação é claramente reconhecida pelos trabalhadores quando afirmam que "a justiça só existe para os ricos". O Poder Judiciário é claramente percebido como distante, secreto, representante dos privilégios das oligarquias e não dos direitos da generalidade social. Para os grandes, a lei é privilégio; para as camadas populares, repressão. A lei não figura o polo público do poder e da regulação dos conflitos, nunca define direitos e deveres dos cidadãos porque, em nosso país, a tarefa da lei é a conservação de privilégios e o exercício da repressão. Por este motivo, as leis aparecem como inócuas, inúteis ou incompreensíveis, feitas para serem transgredidas e não para serem transformadas - situação violenta que é miticamente transformada num traço positivo, quando a transgressão é elogiada como “o jeitinho brasileiro”.
Em nossa sociedade, não existem nem a ideia nem a prática da representação política autêntica. Os partidos políticos tendem a ser clubes privados das oligarquias locais e regionais, sempre tomam a forma clientelística na qual a relação é de tutela e de favor. É uma sociedade, consequentemente, na qual a esfera pública nunca chega a constituir-se como pública, pois é definida sempre e imediatamente pelas exigências do espaço privado (isto é, dos interesses econômicos dos dominantes). A indistinção entre o público e o privado não é uma falha acidental que podemos corrigir, pois é a estrutura do campo social e do campo político que se encontra determinada por essa indistinção.
É uma sociedade que por isso bloqueia a esfera pública da opinião como expressão dos interesses e dos direitos de grupos e classes sociais diferenciados e/ou antagônicos. Esse bloqueio não é um vazio ou uma ausência, mas um conjunto de ações determinadas que se traduzem numa maneira determinada de lidar com a esfera da opinião: os mass media monopolizam a informação, e o consenso é confundido com a unanimidade, de sorte que a discordância é posta como ignorância ou atraso.
As disputas pela posse da terra cultivada ou cultivável são resolvidas pelas armas e pelos assassinatos clandestinos. As desigualdades econômicas atingem a proporção do genocídio. Os negros são considerados infantis, ignorantes, safados, indolentes, raça inferior e perigosa, tanto assim, que numa inscrição gravada até há pouco tempo na entrada da Escola de Polícia de São Paulo dizia: "Um negro parado é suspeito; correndo, é culpado". Os índios, em fase final de extermínio, são considerados irresponsáveis (isto é, incapazes de cidadania), preguiçosos (isto é, mal adaptáveis ao mercado de trabalho capitalista), perigosos, devendo ser exterminados ou, então, "civilizados" (isto é, entregues à sanha do mercado de compra e venda de mão-de-obra, mas sem garantias trabalhistas porque "irresponsáveis"). Os trabalhadores rurais e urbanos são considerados ignorantes, atrasados e perigosos, estando a polícia autorizada a parar qualquer trabalhador nas ruas, exigir a carteira de trabalho e prendê-lo "para averiguação", caso não esteja carregando identificação profissional (se for negro, além de carteira de trabalho, a polícia está autorizada a examinar-lhe as mãos para verificar se apresentam "sinais de trabalho" e a prendê-lo caso não encontre os supostos "sinais"). Há casos de mulheres que recorrem à Justiça por espancamento ou estupro, e são violentadas nas delegacias de polícia, sendo ali novamente espancadas e estupradas pelas “forças da ordem". Isto para não falarmos da tortura, nas prisões, de homossexuais, prostitutas e pequenos criminosos. Numa palavra, as classes populares carregam os estigmas da suspeita, da culpa e da incriminação permanentes. Essa situação é ainda mais aterradora quando nos lembramos de que os instrumentos criados durante a ditadura (1964-1975) para repressão e tortura dos prisioneiros políticos foram transferidos para o tratamento diário da população trabalhadora e que impera uma ideologia segundo a qual a miséria é causa de violência, as classes ditas "desfavorecidas" sendo consideradas potencialmente violentas e criminosas.
É uma sociedade na qual a estrutura da terra e a implantação da agroindústria criaram não só o fenômeno da migração, mas figuras novas na paisagem dos campos: os sem-terra, volantes, boias-frias, diaristas sem contrato de trabalho e sem as mínimas garantias trabalhistas. Boias-frias porque sua única refeição - entre as três da manhã e as sete da noite - consta de uma ração de arroz, ovo e banana, já frios, pois preparados nas primeiras horas do dia. E nem sempre o trabalhador pode trazer a boia-fria, e os que não trazem se escondem dos demais, no momento da refeição, humilhados e envergonhados.
É uma sociedade na qual a população das grandes cidades se divide entre um "centro" e uma "periferia", o termo periferia sendo usado não apenas no sentido espacial-geográfico, mas social, designando bairros afastados nos quais estão ausentes todos os serviços básicos (luz, água, esgoto, calçamento, transporte, escola, posto de atendimento médico). Condição, aliás, encontrada no "centro", isto é, nos bolsões de pobreza, os cortiços e as favelas. População cuja jornada de trabalho, incluindo o tempo gasto em transportes, dura de 14 a 15 horas, e, no caso das mulheres casadas, inclui o serviço doméstico e o cuidado com os filhos.
É uma sociedade que não pode tolerar a manifestação explícita das contradições, justamente porque leva as divisões e desigualdades sociais ao limite e não pode aceitá-las de volta, sequer através da rotinização dos "conflitos de interesses" (à maneira das democracias liberais). Pelo contrário, a classe dominante exorciza o horror às contradições produzindo uma ideologia da indivisão e da união nacionais, a qualquer preço. Por isso recusa perceber e trabalhar os conflitos e contradições sociais, econômicas e políticas enquanto tais, uma vez que conflitos e contradições negam a imagem mítica da boa sociedade indivisa, pacífica e ordeira. Contradições e conflitos não são ignorados e sim recebem uma significação precisa: são considerados sinônimo de perigo, crise, desordem e a eles se oferece uma única resposta: a repressão policial e militar.
Nela vigora o fascínio pelos signos de prestígio e de poder, como se observa no uso de títulos honoríficos sem qualquer relação com a possível pertinência de sua atribuição, o caso mais corrente sendo o uso de "Doutor" quando, na relação social, o outro se sente ou é visto como superior ("doutor" é o substituto imaginário para os antigos títulos de nobreza); ou como se observa na importância dada à manutenção de criadagem doméstica, cujo número indica aumento de prestígio e de status etc.
A desigualdade salarial entre homens e mulheres, entre brancos e negros, a exploração do trabalho infantil e dos idosos são consideradas normais. A existência dos sem-terra, dos sem-teto, dos desempregados é atribuída à ignorância, à preguiça e à incompetência dos "miseráveis". A existência de crianças de rua é vista como "tendência natural dos pobres à criminalidade". Os acidentes de trabalho são imputados à incompetência e ignorância dos trabalhadores. As mulheres que trabalham (se não forem professoras, enfermeiras ou assistentes sociais) são consideradas prostitutas em potencial e as prostitutas são tidas como degeneradas, perversas e criminosas, embora, infelizmente, indispensáveis para conservar a santidade da família.
A sociedade brasileira está polarizada entre a carência absoluta das camadas populares e o privilégio absoluto das camadas dominantes e dirigentes, bloqueando a instituição e a consolidação da democracia.
Nota do blog:
[*] A autora se refere a Matilde Ribeiro, ativista política do PT, ministra-chefe da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, no governo Lula que, em 2027, declarou: “Não é racismo quando um negro se insurge contra um branco. Racismo é quando uma maioria econômica, política ou numérica coíbe ou veta direitos de outros. A reação de um negro de não querer conviver com um branco, ou não gostar de um branco, eu acho uma reação natural, embora eu não esteja incitando isso. Não acho que seja uma coisa boa. Mas é natural que aconteça, porque quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou”. Apesar de todas as ressalvas que buscou frisar em sua resposta, a declaração da ministra está repercutindo na maior parte dos órgãos da grande imprensa como sendo uma declaração de incentivo ao racismo.
(Portal do Partido dos Trabalhadores; março de 2007)
(Ilustração: Nivaldo Rosa - sede de vida)
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Marilena Chauí - Uma sociedade violenta
terça-feira, 20 de outubro de 2026
NOTES FOR A SPEECH / NOTAS PARA UM DISCURSO, de Amiri Baraka (LeRoy Jones)
African blues
does not know me. Their steps, in sands
of their own
land. A country
in black & white, newspapers
blown down pavements
of the world. Does
not feel
what I am.
Strength
in the dream, an oblique
suckling of nerve, the wind
throws up sand, eyes
are something locked in
hate, of hate, of hate, to
walk abroad, they conduct
their deaths apart
from my own. Those
heads, I call
my “people.”
(And who are they. People. To concern
myself, ugly man. Who
you, to concern
the white flat stomachs
of maidens, inside houses
dying. Black. Peeled moon
light on my fingers
move under
her clothes. Where
is her husband. Black
words throw up sand
to eyes, fingers of
their private dead. Whose
soul, eyes, in sand. My color
is not theirs. Lighter, white man
talk. They shy away. My own
dead souls, my, so called
people. Africa
is a foreign place. You are
as any other sad man here
american.
Tradução de Luci Collin:
O blues africano
não me conhece. Seus passos, em areias
de seu próprio
solo. Um país
em preto & branco, jornais
lançados nas calçadas
do mundo. Não
sentem
o que eu sou.
Resistência
no sonho, um oblíquo
sugar do vigor, o vento
levanta areia, os olhos
estão algo fechados no
ódio, do ódio, do ódio, para
perambularem, eles conduzem
suas mortes em separado
da minha. Aquelas
cabeças, que chamo de
meu “povo”.
(E quem são. Povo. Pra interessar
a mim, homem feio. Quem é
você, para se preocupar com
os estômagos lisos e vazios
das donzelas, morrendo
dentro das casas. Negras. Luar despido
sobre os movimentos
dos meus dedos por baixo
das roupas dela. Cadê
seu marido. Negras
palavras jogam areia
nos olhos, dedos de
seus mortos particulares. Cujas
almas, olhos, na areia. Minha cor
não é a deles. Mais clara, papo de
branco. Eles recuam assustados. Minhas próprias
almas mortas, meu, assim chamado,
povo. A África
é o estrangeiro. Você é
como qualquer outro infeliz aqui
does not know me. Their steps, in sands
of their own
land. A country
in black & white, newspapers
blown down pavements
of the world. Does
not feel
what I am.
Strength
in the dream, an oblique
suckling of nerve, the wind
throws up sand, eyes
are something locked in
hate, of hate, of hate, to
walk abroad, they conduct
their deaths apart
from my own. Those
heads, I call
my “people.”
(And who are they. People. To concern
myself, ugly man. Who
you, to concern
the white flat stomachs
of maidens, inside houses
dying. Black. Peeled moon
light on my fingers
move under
her clothes. Where
is her husband. Black
words throw up sand
to eyes, fingers of
their private dead. Whose
soul, eyes, in sand. My color
is not theirs. Lighter, white man
talk. They shy away. My own
dead souls, my, so called
people. Africa
is a foreign place. You are
as any other sad man here
american.
Tradução de Luci Collin:
O blues africano
não me conhece. Seus passos, em areias
de seu próprio
solo. Um país
em preto & branco, jornais
lançados nas calçadas
do mundo. Não
sentem
o que eu sou.
Resistência
no sonho, um oblíquo
sugar do vigor, o vento
levanta areia, os olhos
estão algo fechados no
ódio, do ódio, do ódio, para
perambularem, eles conduzem
suas mortes em separado
da minha. Aquelas
cabeças, que chamo de
meu “povo”.
(E quem são. Povo. Pra interessar
a mim, homem feio. Quem é
você, para se preocupar com
os estômagos lisos e vazios
das donzelas, morrendo
dentro das casas. Negras. Luar despido
sobre os movimentos
dos meus dedos por baixo
das roupas dela. Cadê
seu marido. Negras
palavras jogam areia
nos olhos, dedos de
seus mortos particulares. Cujas
almas, olhos, na areia. Minha cor
não é a deles. Mais clara, papo de
branco. Eles recuam assustados. Minhas próprias
almas mortas, meu, assim chamado,
povo. A África
é o estrangeiro. Você é
como qualquer outro infeliz aqui
(Ilustração: Jacob Lawrence - painel 27, 1956)
sábado, 17 de outubro de 2026
CHRISTINE DE PIZAN: UMA ESCRITORA PIONEIRA EM PLENA EUROPA MEDIEVAL, de Isabelle Anchieta de Melo
“Propus a mim mesma decidir, em sã consciência,
se os argumentos reunidos por tantos varões insignes poderiam estar equivocados.”
Christine de Pizan
Quando li A Cidade das Mulheres, livro escrito entre 1404 e 1405 pela franco-italiana Christine de Pizan, considerada a primeira mulher escritora profissional do Ocidente, fiquei profundamente impactada e logo pensei: essa obra instigante precisa ser mais conhecida no Brasil. Não só pelo pioneirismo, mas pela combinação rara entre erudição, ironia fina e uma capacidade incomum de pensar por si mesma em uma defesa justa, forte e equilibrada das mulheres. Depois, busquei pelas demais obra nos arquivos da Biblioteca Nacional da França, onde se encontram os originais, indisponíveis para consulta direta, mas digitalizados. São 15 livros manuscritos, além de baladas, poemas e tratados de educação e política. Ainda que seja difícil a leitura dos manuscritos, em sua maioria em francês, pude observar as iluminuras que acompanham algumas edições.
Christine de Pizan é conhecida, traduzida e estudada na Europa; o mesmo não se pode dizer por aqui. Um dos primeiros esforços foi feito pela pesquisadora Luciana Calado, em 2006, ao produzir uma tese sobre a obra da autora pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), e depois pela pesquisadora Lucimara Leite, em 2015, ao publicar uma biografia de Pizan (Christine de Pizan: Uma Resistência; Chiado Editora). Em outubro deste ano, um importante passo foi dado pela Editora 34, que lançou no Brasil o livro A Cidade das Mulheres. Com tradução do jornalista e editor Jorge Henrique Bastos e introdução de Eric Hicks e Thérèse Moreau, a edição contempla notas cuidadosas para a compreensão da obra e dá, enfim, acesso mais amplo a um dos livros mais irreverentes, criativos e eruditos da autora. Mas o que uma obra escrita há mais de seiscentos anos tem a nos dizer hoje?
Antecipo: mais do que imaginam. Christine de Pizan não é uma mulher do passado: ela suscita questões e respostas que sequer formulamos hoje.
Pizan nasceu em Veneza, em 1364, mas ficou pouco na Itália. O pai, Thomas de Pizan, um ilustre professor da cidade de Bolonha, foi convidado pelo então rei da França, Carlos V, para fazer parte de sua corte. Um parêntese: a cidade de Bolonha foi sede da universidade mais antiga da Europa e ficou conhecida por ser uma sociedade progressista em relação às mulheres. Não sem razão, muitas bolonhesas destacaram-se profissional e artisticamente, revelando a entrelaçada relação entre educação, liberdade de gênero e excelência profissional. A informação não me parece menor, na medida em que explica, sociologicamente, as razões que levaram o pai de Christine a incentivá-la a estudar, na contramão da maioria dos homens de sua época (e mesmo a contragosto de sua mãe).
Pizan mudou-se com a família para Paris, quando tinha apenas quatro anos. Lá cresceu em uma das cortes mais ilustradas da França e teve acesso à famosa biblioteca de Carlos V. Aos 15 anos, casou-se com o jovem Etienne Castel, escolhido por seu pai. Apesar do arranjo matrimonial (comum naquela época), a relação foi muito bem-sucedida. Provavelmente, o pai escolheu Etienne tendo em vista a abertura dele às tendências intelectuais de sua filha. Etienne era um jovem ilustrado e inteligente, e ascendeu socialmente tornando-se secretário do rei Carlos V.
Assim como o pai, o marido incentiva Pizan a seguir a sua paixão. Ávida por conhecimento, Pizan dominou cinco idiomas (grego, latim, francês, italiano e um pouco de inglês). Leu quase todos os clássicos dessas línguas e tornou-se a primeira defensora pública das mulheres ao publicar, em 1405, Le Livre de la Cité des Dames, que agora temos a oportunidade de ler em português.
Porém, a transição para a escrita não foi pacífica. Ocorreu, aliás, no momento mais difícil de sua vida. Seu pai morre em 1386 e, três anos depois, ela perde o marido, com quem vivera ao longo de uma década. Com apenas 25 anos de idade, três filhos e sem recursos financeiros, Pizan encontra na escrita uma forma de expressar sua dor e um meio de sustentar sua família. Em uma balada diz: “Diversas vezes com rosto choroso/ Desde o dia que a alegria me foi retirada/ Quando me levaste o belo e bom e sábio/ A morte abandonou-me em tormento tal/ Que muitas vezes desejo, furiosa/ Que meus males queixosos sejam por ti aliviados/” (Balada IX). A dor penosa do luto reverbera nos leitores das suas baladas, e ela continuou escrevendo outras, como aquela em que manifesta o desinteresse por sua existência, dizendo: “Maldita vida que dura tanto/ Pois, nada mais me apetece/ Apenas morrer, continuar a viver não tem mais sentido/ Depois que morreu aquele que me deixava em vida/” (Balada XV).
O luto, que perdurou por cinco anos, foi, aos poucos, acolhido e amenizado pela dedicação à escrita e pelo retorno dos leitores. Pizan recebe encomendas de nobres, inclusive do rei. Os textos, que até então foram a via encontrada para manifestar seu insuportável sofrimento, passam a ser também a sua fonte de sustento. Quando escreve A Cidade das Mulheres, entre 1404 e 1405, já era uma reconhecida e respeitada escritora de sua época — e se autoafirmava como tal. Dois indícios disso são, primeiro, a sua inserção no texto, como uma escritora profissional. Já na abertura, relata: “Sentada um dia em meu gabinete, cercada por inúmeros livros, conforme meu hábito, já que o estudo das artes liberais é um costume que rege a minha vida (…). Abandonei os textos difíceis que lia, e procurei espairecer com a leitura de algum poeta”.
Um segundo indício são as luxuosas iluminuras, em geral três imagens, que passam a integrar as edições a partir da terceira, publicada ainda em 1405, seguindo até 1414. Na primeira iluminura, vemos a própria Christine de Pizan, vestida luxuosamente de azul, em seu gabinete de leitura, rodeada de livros. Uma imagem que servia não só para ilustrar, mas para reafirmar sua posição como uma intelectual.
Pizan, porém, não está a sós na imagem. Diante dela, apresentam-se três mulheres ou alegorias: a Razão, a Justiça e a Retidão. Ao lado dessa imagem, como em uma sequência narrativa, vemos Pizan e uma das damas, a Razão, carregando tijolos e construindo um muro de uma futura cidade: A Cidade das Mulheres. Essa foi a maneira inventiva com que Pizan arquitetou o livro. Narra a misteriosa aparição das entidades que surgem para dar-lhe uma missão e responder a uma inquietação intelectual da autora, que é também a questão central do livro: Por que os homens maldizem as mulheres? Quais são as razões da misoginia? O erro está mesmo nas mulheres ou são os homens que erram?
A partir de então, o livro apresenta uma série de inteligentes (e mesmo irônicos) diálogos entre a autora e as três damas, que refutam, com exemplos e reflexões muito originais, a misoginia. A começar pela invocação da dúvida. A Razão provoca Pizan: “Certamente, pareces acreditar que tudo o que afirmam os filósofos é artigo de fé e não podem errar. (…) Não sabes que são as melhores coisas aquelas sobre as quais mais se discute e debate?”.
Essa, aliás, é uma impressionante capacidade de Pizan: diante de tantos autores que atacaram as mulheres — e “a lista é demasiado longa” —, ela não se intimida e mostra as contradições de grandes autores e filósofos como Ovídio, Cícero e Aristóteles (pelo qual ela lamenta, afirmando como um homem tão culto escreveu tantas “asneiras” sobre a mulher). A Razão — que fala no livro como uma espécie de superego da própria autora — demonstra como os filósofos, teólogos e eruditos discordaram entre si sobre muitos assuntos. Tal capacidade de observar as contradições e mesmo elaborar uma crítica sobre os textos é fruto não só da erudição de Pizan mas do seu genuíno talento de pensar por si mesma. O que fica evidente quando diz: “propus a mim mesma decidir, em sã consciência, se os argumentos reunidos por tantos varões insignes poderiam estar equivocados”.
Guiando-se pela razão, justiça e retidão, ela consegue enfrentar todas as questões, mesmo as de cunho religioso (tão caras a ela, uma católica). Eva? Nasceu da costela de Adão e não de seu pé. Deus indicava assim que “ela permaneceria ao seu lado como a sua companheira, não [para] estar aos seus pés como uma escrava, e que ele haveria de amá-la como à sua própria carne”.
Sobre a defesa do célebre orador romano Marco Túlio Cícero, segundo o qual as mulheres deveriam servir aos homens, ela rebate: “o maior é aquele ou aquela que detém mais méritos. A superioridade ou a inferioridade de alguém não está no corpo, não atende ao seu sexo, mas na perfeição de seus hábitos e qualidades”.
Na sequência, ela questiona a Razão: se as mulheres são tão capazes, por que não podem ser juízas ou governantes? Ela afirma que se trata mais de um impedimento dos homens do que de uma incapacidade das mulheres. Pois “as mulheres são bastante inteligentes para estudar direito (…). Como poderemos ver adiante, a história gerara muitas mulheres (…) que foram grandes filósofas, suscetíveis de reger disciplinas muito mais complexas, requintadas e altivas (…). Por outro lado, se se quer afirmar que as mulheres não possuem nenhuma disposição natural para a política e o exercício do poder, citaria o exemplo de muitas mulheres ilustres que reinaram no passado”. E o faz, narrando as trajetórias de mulheres como Semíramis, que reina na Pérsia, na Ásia e no Egito (sendo comparada a Alexandre, o Grande). Zenóbia (rainha da Síria no século II a.C.), Artemísia (rainha da Ásia Menor no século V a.C.), Fredegunda (rainha da França no ano 597 d.C.). Dentre várias outras citadas que demonstram, na prática, e em reinados bem-sucedidos, que “a mulher inteligente pode desempenhar qualquer tarefa”.
Não só nos altos postos como também na ciência, identificando como principal entrave o impedimento social imposto pelos homens de que elas estudem. Então, Pizan indaga: “Por que eles fazem isso?”. A dama Retidão responde com imparcialidade: “Nem todos os homens, sobretudo os mais cultos, acham mal que as mulheres estudem. Se é verdade que pensam assim os que possuem uma formação inferior, é porque não gostariam de ver que muitas mulheres sabem mais do que eles”.
Pizan percebe no diálogo com as três virtudes que alguns homens (não todos) são movidos por sentimentos mesquinhos e não só por nobres princípios. O que fica patente quando a Razão enumera as diversas e múltiplas razões que levam os homens a odiarem as mulheres: “Alguns foram impelidos pelos seus vícios, outros devido à invalidez do corpo [cita a impotência sexual de Ovídio e a deformação física de Aristóteles], outros por pura inveja e numa medida maior, porque gostam de vituperar as pessoas. Por fim, há outros que, querendo demonstrar o quanto leram, baseiam-se no que encontraram nos livros e limitam-se a citar tais autores, repetindo o que já foi dito”.
Nem os clérigos estão isentos. Eis que Pizan muda de tom no livro. Passa das perguntas ingênuas e da ignorância para uma sensação de revolta. Grita: “Que se calem, pois! Que se calem daqui por diante, esses clérigos que difamam as mulheres! Que se calem, todos os cúmplices e aliados que falam mal delas (…)! Que baixem os olhos de vergonha por terem ousado mentir tanto em seus livros, quando se vê que a verdade contradiz o que eles dizem (…)”.
Eis que os argumentos e os exemplos de mulheres ganham forma. O livro — a cidade — está pronto, edificado no “Campo das Letras”. Usando a “enxada da inteligência”, Christine de Pizan não só cavou fundo, mas também edificou a muralha e as casas utilizando como “tijolos” uma série de mulheres exemplares. Guiada pela Razão, a Justiça e a Retidão, oferece às mulheres de ontem, de hoje e de amanhã uma obra atemporal, uma fortaleza, para que elas não só se refugiem, mas se inspirem e avancem sem medo de buscar prestígio e aprimoramento intelectual.
(Ilustração: A cidade das mulheres - iluminura retrata Pizan e, diante dela, a Razão, a Justiça e a Retidão. Ao lado, com uma das damas, carrega os tijolos da Cidade das Mulheres).
quarta-feira, 14 de outubro de 2026
DEZ PARA AS DUAS, OU: SOBRE A ESTETIZAÇÃO DO MUNDO, de Horácio Costa
Dizem especialistas, dizem
que nunca Maria Callas cantou
como naquela semaninha de 1958
em Lisboa. Nunca.
Este é um poema prosaico.
Bela não era mas jovem então:
e magra e alguns de seus maravilhosos
diamantes brilhavam
na cadência do suave arfar de seu peito
enquanto transformava-se na Casta Diva
ideal de todos os cognoscenti. O
YouTube traz em preto e branco
essa apresentação lendária
que já conta com um milhão
de visualizações: Voz e diva
frescas como uma alface recém colhida
em alguma vegana horta da vida.
O São Carlos nunca foi tido
entre os grandes palcos da Europa:
pequeno – a Ópera do Tejo ruiu
em 1755 – coube-lhe a honra
de conhecer o pináculo da glória
da Prima Donna Assoluta. La Callas
foi recebida com dúzias de jornalistas
e de abundantes rosas no pequeno aeroporto
da capital de Salazar. Confira-se
a filmagem no YouTube.
Recomendo.
Ora, aquele era um mundo
outro, o de nossa infância, minha
e a do Zé Horácio. Em São Paulo,
meus pais foram ver e ouvir
Marlene Dietrich: Cantou em alemão
e francês no Teatro Paramount:
Osório queria conferir de perto o famoso
par de pernas assegurado na Lloyd’s
por um milhão de dólares.
Aficionados espanhóis
escaparam de Madri a Lisboa
para ouvir o Mito. Terá valido a pena:
uma voz perfeita! Revejo
o vídeo: perfeita.
Com o tempo, contudo
tanto ou mais do que a Callas
& seu colar
& Bellini
passou a fascinar-me não só
a esqualidez do décor mas o vetusto
da humanidade que o habita:
extraída do tempo, suspensa a imagem
como o rendez-vous vintage
que significa, alegórica e muito
do que se passou nesses 60
quase anos. O coro português
acompanha bem os trinados da musa:
afinal, além de belíssima, difícil
não é a melodia: honra
aos portugueses! Saem bem
na oitiva. Não assim na foto.
Este é um poema humorístico
que avança em adagio.
Justo atrás da Callas
uma cantora do coro feminino
tem os pés em forma bem dez
para as duas: As saias são discretas
e também os sapatos de todas, do
tipo Anabela com uma cruz de couro
cujo efeito é realçar joanetes.
Na filmagem evidenciam-se uma
de suas pernas e pés, inchados demais.
Teria àquela altura tal anônima
membro do coro problemas
de circulação, talvez
de nefrite, até elefantíase:
não o saberemos jamais.
Com seu volumoso pé direito
em notável posição dez pras duas
sobrevive singular e digna
nesse documento de época:
memorabilia de um tempo da arte
na qual defeitos, assimetrias,
aparências dos seres e seus pés
significavam bem menos: afinal,
o que para cantar importa é a voz
treinada e sublime se possível for;
não se os pés inclinados para fora
comprometem o visual
que a produção e seu gosto-sibila
dita como essencial. Como se daria
hoje o comportamento do ou da
profissional de imagem
frente a tais características? Apenas
em caráter de excepcionalidade assoluta
seriam permitidas. Seriam?
O mundo se estetizou. Foi uma indubitável
vitória da tal da beleza no capitalismo:
impor-se por completo da cabeça aos pés.
Por isto esta tristeza tão funda
quando está a sós a gente? e
tantos espelhos de selfies?
Saúdo la Callas no seu auge
que aconteceu quando aconteceu
em Lisboa num palco com menor pedigree
e assim saúdo a anônima cantora
do coro que a acompanhou:
com pés dez pras duas
como os de Carlitos.
PS. 1: Está factualmente equivocado
este poema. Como um relato de JLB,
transtroca e atraiçoa os fatos mais nímios:
sim em Lisboa esteve Maria Callas
e talvez seu pináculo vocal se tenha dado
no Teatro Nacional de São Carlos. FP
nasceu em um dos edifícios que dão
ao parvis fronteiro: Há uma placa de bronze
comemorativa. Dois cafés bem europeus
permitem-nos o desfrutar sentados
da correta fachada neoclássica da mole.
Na rua da direita há uma hamburgueria
bem boa. Também recomendo.
Este ensaio é o que é
e não se ilumina:
a ópera que responde pelo mito em seu auge
Norma não era mas a montagem da Traviata
na qual contracenaram Callas e
Alfredo Kraus (q.v). Única vez
em que tais celebridades líricas
cantaram juntas. Illo tempore!
Não está na Britannica e sim
no YouTube. Há mais de 6 horas
não o sabia: Quando escrevi este poema
verossímil mas não verdadeiro e que,
aristotelicamente, mente.
PS. 2: Para lá de monstros sagrados em seu entorno,
também se inspira este texto em L’esthétisation du monde
– vivre à l’âge du capitalisme artiste. De Lipovetsky e Serroy.
Osasco 17 VI 23
(Ilustração: Ulisse Sartini - Maria Callas; foto de Andrea Matzker)
domingo, 11 de outubro de 2026
A CIDADE DAS MULHERES, de Christine de Pizan
I
Aqui começa o livro A Cidade das Mulheres,
cujo primeiro capítulo narra como surgiu esta obra
e com que propósito foi escrita.
Sentada um dia em meu gabinete, cercada por inúmeros livros, conforme meu hábito, já que o estudo das artes liberais é um costume que rege a minha vida, encontrava-me com a mente um pouco fatigada, após ter refletido sobre as ideias de vários autores. Abandonei os textos difíceis que lia, e procurei espairecer com a leitura de algum poeta. Sob tal ânimo, caiu em minhas mãos um opúsculo insólito, que não era meu, mas que me havia sido emprestado. Abri-o e vi que tinha por título Les Lamentations de Mateolo [1]. Sorri, pois, embora nunca o tivesse visto, sabia que esse livro tinha certa reputação de falar muito bem das mulheres!… Pensei, então, que poderia ler algumas páginas para me divertir. Mas minha leitura mal havia começado quando minha boa mãe veio me chamar para a mesa, pois já era hora de jantar. Fechei o livro, para retomá-lo no dia seguinte.
Ao regressar ao meu gabinete, na manhã seguinte, como de costume, recordei que precisava ler a obra de Mateolo. Adentrei o texto, mas como me pareceu que o assunto era pouco grato para quem não se compraz com a hipocrisia nem contribuía em nada para o cultivo de qualidades morais, além das grosserias do estilo e da argumentação, depois de ler uma página e outra, fui até o final e deixei-o para voltar aos estudos mais sérios e apropriados. Ainda que tal obra não tenha nenhuma autoridade, a sua leitura deixou-me perturbada, e com profunda perplexidade. Interrogava-me sobre que motivos inspiravam tantos homens, clérigos e laicos, a vituperar as mulheres, a criticá-las tanto em escritos e tratados. Não se trata de um homem ou dois, tampouco se tratava desse Mateolo, pois jamais obterá admiração, já que o seu opúsculo não passa de uma anedota, e não há texto que esteja isento de misoginia. Pelo contrário, filósofos, poetas, moralistas, todos — a lista é demasiado longa — parecem falar em coro para concluir que a mulher é fundamentalmente má e dada ao vício.
Debruçando-me sobre tais coisas em minha mente, eu que nasci mulher, pus-me a refletir sobre o meu caráter e a minha conduta, assim como a de outras mulheres que tive a possibilidade de frequentar, tanto princesas e ilustres senhoras como mulheres de medianas e modestas condições, que me confiaram seus pensamentos mais íntimos. Propus a mim mesma decidir, em sã consciência, se os argumentos reunidos por tantos varões insignes poderiam estar equivocados. No entanto, por mais que tentasse refletir sobre isso, avaliando as ideias como quem monda uma fruta, não compreendia nem admitia como tendo fundamento o juízo dos homens sobre a natureza e a conduta das mulheres. Ao mesmo tempo, aplicava-me em atribuir culpa a elas, porque pensava que seria improvável que homens tão preclaros, doutores de tão profundo entendimento e clarividência universal — dir-se-ia que todos desfrutavam de tais capacidades —, discorreriam de maneira tão contundente em inúmeras obras, e para mim seria quase impossível encontrar um texto acerca da moral, seja qual fosse tal autor, sem chocar-me, antes de chegar ao término, com algum parágrafo ou capítulo a acusar ou depreciar as mulheres. Bastava esse argumento para concluir que tudo era verdade, ainda que a minha mente, em sua ingenuidade e ignorância, não chegasse a reconhecer os grandes defeitos que eu provavelmente compartilhava com as outras mulheres. De tal maneira, cheguei a acreditar mais no juízo alheio do que naquilo que sentia e percebia como mulher.
Estava tão intensa e profundamente imersa em tais pensamentos tristes, que me pareceu ter caído num estado de catalepsia. Como que a brotar de uma fonte, um grande número de autores surgiu em minha mente; eu os examinava um a um e, por fim, concluí que Deus havia feito algo verdadeiramente desprezível ao criar a mulher. Não deixava de me espantar que tão grande Criador houvesse consentido em gerar obra tão abominável, já que, ao se acreditar em tais autores, a mulher seria um receptáculo capaz de conter todos os vícios e males. Inteiramente entregue a tais reflexões, fui tomada pelo desgosto e pela consternação, desprezando a mim mesma e a todo o sexo feminino, como se a Natureza houvesse engendrado monstros. Assim eu me lamentava:
“Ah, Senhor! Como poderá ser, como crer sem cair no erro de que a tua sabedoria infinita e a tua perfeita benevolência puderam gerar algo que não fosse bom? Acaso a mulher não foi criada de maneira deliberada, a incutir-lhe todas as qualidades que eram semelhantes às tuas? Como seria possível tal equívoco? Contudo, aí se encontram graves acusações, juízos e condenações contra as mulheres. Não consigo compreender tamanha aberração. Se for verdade, Senhor, que tanta abominação exista na mulher, como muitos afirmam — e se afirmas que a concordância de muitos testemunhos sirva para dar fé, há de ser verdade —, ah, Deus meu, por que não me fizera nascer varão para melhor servir-te com todas as minhas disposições, para não me equivocar com nada e ter tão grande perfeição que dizem ter os homens! Como não quiseste que assim fosse, e não estendeste até mim a tua benevolência, perdoa a minha perfídia, e consinta em recebê-la, porque o servo que menos recebe do seu senhor é o que mais merece.” Dessa maneira, desfazia-me em lamentações a Deus, angustiada pela tristeza, a ponto de desesperar-me pelo Senhor ter me feito nascer num corpo de mulher.
II
Como três Senhoras apareceram diante de Christine,
e como a primeira se dirigiu a ela
para consolá-la de sua tristeza.
Abatida por esses tristes pensamentos, baixara a cabeça, envergonhada, os olhos cheios de lágrimas, sentara-me em minha cadeira, o rosto apoiado na mão, quando subitamente desceu sobre o meu peito um raio de luz, como se o sol atingisse aquele ponto — embora o meu quarto de estudo seja escuro e o sol não o penetrasse nessas horas —, e me surpreendi como se despertasse de um sonho profundo. Ergui a cabeça para olhar de onde partira a luz e vislumbrei diante de mim três Senhoras coroadas, de estirpe altiva. O esplendor que manava dos seus rostos refletia em mim e banhava todo o cômodo. Escusado será explicar o meu sobressalto, já que as três Senhoras entraram, estando as portas fechadas. Assustara-me de tal maneira que me benzera, a temer que tal acontecimento fora causado por algum demônio.
Então, a primeira das três Senhoras sorriu e dirigiu-se a mim com tais palavras: “Minha querida filha, não temas, não viemos aqui para te causar mal ou prejuízo, mas sim para te consolar. Tivemos piedade do teu desespero e queremos te livrar dessa ignorância, que te cega a tal ponto que rejeitas o que sabes com toda certeza para te aliares a uma opinião que não acreditas, não conheces e que fundamentas apenas na acumulação dos preconceitos alheios. Pareces aquele tolo cuja história é bem conhecida: que, tendo adormecido no moinho, foi vestido com roupas de mulher e, ao despertar, acreditou nas mentiras daqueles que zombavam dele, afirmando que havia se transformado em mulher, ao invés de confiar em sua própria experiência. Minha querida filha, onde está o teu discernimento? Acaso te esqueceste de que é no cadinho que se purifica o ouro fino; ele não se altera nem perde suas virtudes, mas, ao contrário, quanto mais trabalhado, mais refinado se torna. Não sabes que são as melhores coisas aquelas sobre as quais mais se discute e se debate? Reflete sobre as Ideias, ou seja, as coisas celestes, que são as mais sublimes; não vês que até os maiores filósofos, aqueles cujos testemunhos citas contra o teu próprio sexo, não conseguiram discernir o verdadeiro do falso, mas se refutam uns aos outros e discutem sem fim? Aprendeste isso por ti mesma na Metafísica de Aristóteles, que critica e refuta igualmente as opiniões de Platão e de outros filósofos ao citá-los. E observa ainda que Santo Agostinho e outros doutores da Igreja fizeram o mesmo em relação a certos trechos de Aristóteles, que, no entanto, é chamado de o Príncipe dos Filósofos e a quem devemos as mais elevadas doutrinas da filosofia natural e moral.
“Certamente, pareces acreditar que tudo o que afirmam os filósofos é artigo de fé e não podem errar. Quanto aos poetas a que fazes referência, não sabes que se amparam numa linguagem figurada, e que, às vezes, é necessário interpretar o contrário do sentido literal? Dessa forma, admite-se utilizar a figura retórica chamada antífrase, cujo significado é — como bem sabes —, se por exemplo disseres que algo é mau, dever-se-á compreender o contrário. Aconselho-te a reinterpretar os escritos que depreciam as mulheres, e tirar proveitos para ti, seja quais forem as suas intenções. É provável que aquele que se chama Mateolo tenha tentado em seu livro dizer isso, porque nele há coisas que, interpretadas de maneira literal, seriam pura heresia. Por exemplo, no que se refere à diatribe em relação ao matrimônio — algo bom e digno, segundo a Lei de Deus — a experiência demonstra com clareza que a verdade é o contrário do que se afirma ao tentar impor às mulheres todos os males. Não é só esse Mateolo, mas muitos outros, em particular no Roman de la Rose [2], de Jean de Meung, que desfruta de crédito pela grande unanimidade do autor. Na verdade, onde se encontraria um marido que tolerasse que sua mulher detivesse tal poder sobre ele e pudesse lançar-lhe insultos e injúrias que, conforme os autores, são característicos de todas as mulheres? Seja o que for que tenhas lido, duvido que tenhas interpretado com os teus olhos, porque não são mais do que falatório vergonhoso e mentiras perceptíveis. Para concluir, querida Christine, dir-te-ia que foi a tua ingenuidade que te levou a essa ideia de agora. Volta a ti, resgata o teu vigor e não te preocupes com tais necessidades. Tens que entender que as mulheres não podem se deixar levar por tal difamação, que por fim se voltará contra o seu autor.”
NOTAS:
[1] Les Lamentations de Matheolus (As lamentações de Mateolo) é obra do clérigo e poeta Mathieu de Boulogne, escrita em latim por volta de 1295 e vertida para o francês no final do século XIV. O texto, que é um longo poema satírico em quatro livros, critica duramente as mulheres e o casamento, refletindo um ponto de vista misógino, frequente na literatura medieval. A Cidade das Mulheres é escrito em grande parte para se contrapor a essa obra. (N. da E.)
[2] Le Roman de la Rose (O Romance da Rosa) é uma obra alegórica, muito difundida na Europa medieval, escrita em dois momentos distintos: a primeira parte, redigida por Guillaume de Lorris nos anos de 1230, celebra o amor cortês em tom idealista. A segunda, de autoria de Jean de Meung, adota uma abordagem satírica, apresentando as mulheres de maneira lasciva e depreciativa. Em 1401, Christine de Pizan publicou Le Livre des epistres sur Le Roman de la Rose em que denunciava o conteúdo misógino da segunda parte do livro. (N. da E.)
(A cidade das mulheres; tradução de Jorge Henrique Bastos)
(Ilustração: A cidade das mulheres - iluminura do livro original)
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Christine de Pizan - A cidade das mulheres
quinta-feira, 8 de outubro de 2026
A DREAM / UM SONHO, de Edgar Allan Poe
In visions of the dark night
I have dreamed of joy departed —
But a waking dream of life and light
Hath left me broken-hearted.
Ah! what is not a dream by day
To him whose eyes are cast
On things around him with a ray
Turned back upon the past?
That holy dream — that holy dream,
While all the world were chiding,
Hath cheered me as a lovely beam
A lonely spirit guiding.
What though that light, thro' storm and night,
So trembled from afar —
What could there be more purely bright
In Truth's day-star?
Tradução de Oscar Mendes e Milton Amado:
Sonhei, entre visões da noite escura,
com a alegria morta, mas meu sonho
de vida e luz me despertou, tristonho,
com o coração partido de amargura.
Ah! que não vale um sonho à luz do dia
para aquele que os olhos traz cravados
nas coisas que o rodeiam e os desvia
para tempos passados?
Aquele santo sonho, sonho santo,
enquanto o mundo repelia o pária,
deu-me o conforto, como luz de encanto
a conduzir uma alma solitária.
E embora a luz, por entre a tempestade
e a noite, assim tremesse, tão distante,
que poderia haver de mais brilhante
no claro sol da estrela da Verdade?
(Ficção completa, poesias & ensaios)
(Ilustração: Nicoletta Ceccoli - castello di cuori)
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Edgar Allan Poe - A dream / Um sonho
segunda-feira, 5 de outubro de 2026
A PAISAGEM DOS MEUS DIAS…, de Marguerite Yourcenar
[…]
A paisagem dos meus dias parece compor-se, como as regiões montanhosas, de materiais diversos acumulados desordenadamente. Encontro aí a minha natureza, já compósita, formada em partes iguais de instinto e cultura. Aqui e ali afloram os granitos do inevitável; por toda a parte, os desmoronamentos do acaso. Esforço-me por voltar a percorrer a minha vida a fim de encontrar um plano, seguir um veio de chumbo ou de ouro, ou o escoamento de um rio subterrâneo, mas este plano inteiramente fictício não é mais que uma aparência enganosa da lembrança. De tempos a tempos julgo reconhecer uma fatalidade num encontro, num pressentimento, numa série definida de acontecimentos, mas os caminhos de mais não conduzem a parte alguma, somas excessivas não se adicionam. Distingo perfeitamente nesta diversidade, nesta desordem, a presença de uma pessoa, mas a sua forma parece quase sempre traçada pela pressão das circunstâncias; os seus traços tornam-se confusos como uma imagem reflectida na água. Não sou daqueles que dizem que as suas acções se lhes não assemelham. É preciso que elas se pareçam comigo, porque são a minha única medida e o único meio de me desenhar na memória dos homens ou mesmo na minha própria, pois que a impossibilidade de continuar a exprimir-se e a modificar-se pela acção constitui talvez a diferença entre o estado de morto e o de vivente. Mas entre mim e esses actos de que sou feito existe um hiato indefinível. E a prova é que sinto constantemente a necessidade de os pesar, de os explicar, de dar conta deles a mim mesmo. Alguns trabalhos que duraram pouco são certamente desprezíveis, mas ocupações que se prolongaram durante toda a vida não têm maior significado. Por exemplo, no momento em que escrevo isto, o facto de ter sido imperador parece-me fracamente essencial.
Os três quartos da minha vida escapam, aliás, pelos actos a esta definição: a soma das minhas verdades, dos meus desejos, dos meus próprios projectos mantém-se tão nebulosa e tão fugidia como um fantasma. O resto, a parte palpável, mais ou menos autenticada pelos factos, é pouco mais distinta, e a sequência dos acontecimentos tão confusa como a dos sonhos. Tenho a minha cronologia muito minha, impossível de conciliar com a que se baseia na fundação de Roma ou com a era das Olimpíadas. Quinze anos nos exércitos duraram menos que uma manhã de Atenas; há pessoas com quem convivi toda a minha vida e que não reconhecerei nos Infernos. Os planos do espaço cavalgam também: o Egipto e o vale de Tempe ficam muito próximos e eu não estou sempre em Tíbure quando aqui me encontro. Umas vezes a minha vida parece-me vulgar a ponto de não valer a pena não só escrevê-la mas comtemplá-la um tanto longamente, sem mais importância, mesmo a meus olhos, que a de outra pessoa qualquer. Outras vezes parece-me única, e por isso mesmo sem valor, inútil por ser impossível reduzi-la à experiência do comum dos homens. Coisa alguma me explica: os meus vícios e as minhas virtudes são absolutamente insuficientes para isso; a minha felicidade fá-lo melhor, mas com intervalos, sem continuidade, e sobretudo sem causa aceitável. Mas repugna ao espírito humano aceitar-se das mãos do acaso, não ser mais que o produto passageiro de probabilidades a que nenhum deus preside, nem sobretudo ele próprio. Uma parte de cada vida, e mesmo de cada vida muito pouco digna de ser notada, passa-se à procura das razões de existir, dos pontos de partida, das origens. Foi a minha impotência para os descobrir que me fez por vezes inclinar para as explicações mágicas, procurar nos delírios do oculto o que o senso comum me não dava. Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros.
(Memórias de Adriano; tradução de Maria Lamas)
(Ilustração: Arch of Hadrian, northwest side (towards the Acropolis), Athens)
Nota:
On the northwest side (towards the Acropolis), the inscription was: ΑΙΔ' ΕIΣΙΝ ΑΘΗΝΑΙ ΘΗΣΕΩΣ Η ΠΡΙΝ ΠΟΛΙΣ (this is Athens, the ancient city of Theseus).
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