quinta-feira, 29 de outubro de 2026

ANOTAÇÕES DE BIÁ: SÓ NÓS ACENDEMOS UM CIGARRO DEPOIS, de Carla Madeira


Sexo não é opcional para a humanidade. Tem a força das coisas que precisam acontecer. Foi preciso fazê-lo espetacular, nós dois sabemos o quanto ele é. E depois do sexo, seja como for, com ou sem amor ou moral, a vida continua, e aí está nossa miséria. Uma orgasmática miséria.

Somos animais, Teo.

Passamos perfume e achamos que não fedemos.

Sentamos em vasos de louça e tampa com duchas ao lado e civilizamos a merda. Mas somos animais. Se perdermos o controle dos esfíncteres, não haverá inteligência que nos salve. Só as fraldas, não sem antes nos humilhar. Nos humilha nossa matéria orgânica desenfreada, porque nos esfrega na cara que não controlamos tudo. Somos homens capazes de acabar com o mundo, mas animais incapazes de controlá-lo. A merda, Teo, tem claros propósitos didáticos: é o projeto somos-todos-iguais-diante-de-Deus. Já o sexo, somos nós diante de nós mesmos, todos-capazes-de-alguma-merda. É onde o pecado encontra fluidos em quantidades suficientes para se esbaldar. É a correnteza com a qual não se deve brincar. Você sabe que não sou religiosa, falo do ato de pecar como parte de nossa natureza propensa a tropeços, talvez metáfora dos momentos em que somos só animais, irracionais, puro sangue, animais sós. Mas animais nós somos, e nossa pitada de consciência não poderá cancelar essa condição. Nem a civilização ou os mandamentos. Nem nosso senso estético ou nossa sensibilidade poética. Ficamos ali naquelas posições deselegantes, nos lambendo, nos cheirando, nos sacudindo e fazendo sons de animais. Adoramos aquilo, não é, Teo? Como a gata faz com o gato, a cadela com o cachorro, a égua com o cavalo. Eu com você. E nos agride ouvir que fazemos como eles fazem. Por isso, nos chamam de cadela, nós, as mulheres, quando querem nos destruir. Alguém há de dizer, ofendido, que fazemos amor. Mas também fazemos sem amor, e, portanto, não está aí o que nos humaniza. Só nós acendemos um cigarro depois. E algum pensamento há de vir enquanto a fumaça enche o ar de bolinhas. Para nós, e para nenhum outro animal, existe o depois. Depois de nos lambuzarmos, quem sabe ao lavar a alma, quem sabe ao sujar as mãos, virão os pensamentos. E é com eles que seguiremos. Mesmo se tudo não passar de um sonho.



(A natureza da mordida)



(Ilustração: escultura de Edgar Tolson - Adam and Eve – 1979)

Nenhum comentário:

Postar um comentário