quarta-feira, 14 de outubro de 2026

DEZ PARA AS DUAS, OU: SOBRE A ESTETIZAÇÃO DO MUNDO, de Horácio Costa





Dizem especialistas, dizem

que nunca Maria Callas cantou

como naquela semaninha de 1958

em Lisboa. Nunca.

Este é um poema prosaico.

Bela não era mas jovem então:

e magra e alguns de seus maravilhosos

diamantes brilhavam

na cadência do suave arfar de seu peito

enquanto transformava-se na Casta Diva

ideal de todos os cognoscenti. O

YouTube traz em preto e branco

essa apresentação lendária

que já conta com um milhão

de visualizações: Voz e diva

frescas como uma alface recém colhida

em alguma vegana horta da vida.



O São Carlos nunca foi tido

entre os grandes palcos da Europa:

pequeno – a Ópera do Tejo ruiu

em 1755 – coube-lhe a honra

de conhecer o pináculo da glória

da Prima Donna Assoluta. La Callas

foi recebida com dúzias de jornalistas

e de abundantes rosas no pequeno aeroporto

da capital de Salazar. Confira-se

a filmagem no YouTube.

Recomendo.



Ora, aquele era um mundo

outro, o de nossa infância, minha

e a do Zé Horácio. Em São Paulo,

meus pais foram ver e ouvir

Marlene Dietrich: Cantou em alemão

e francês no Teatro Paramount:

Osório queria conferir de perto o famoso

par de pernas assegurado na Lloyd’s

por um milhão de dólares.

Aficionados espanhóis

escaparam de Madri a Lisboa

para ouvir o Mito. Terá valido a pena:

uma voz perfeita! Revejo

o vídeo: perfeita.



Com o tempo, contudo

tanto ou mais do que a Callas

& seu colar

& Bellini

passou a fascinar-me não só

a esqualidez do décor mas o vetusto

da humanidade que o habita:

extraída do tempo, suspensa a imagem

como o rendez-vous vintage

que significa, alegórica e muito

do que se passou nesses 60

quase anos. O coro português

acompanha bem os trinados da musa:

afinal, além de belíssima, difícil

não é a melodia: honra

aos portugueses! Saem bem

na oitiva. Não assim na foto.

Este é um poema humorístico

que avança em adagio.



Justo atrás da Callas

uma cantora do coro feminino

tem os pés em forma bem dez

para as duas: As saias são discretas

e também os sapatos de todas, do

tipo Anabela com uma cruz de couro

cujo efeito é realçar joanetes.

Na filmagem evidenciam-se uma

de suas pernas e pés, inchados demais.

Teria àquela altura tal anônima

membro do coro problemas

de circulação, talvez

de nefrite, até elefantíase:

não o saberemos jamais.



Com seu volumoso pé direito

em notável posição dez pras duas

sobrevive singular e digna

nesse documento de época:

memorabilia de um tempo da arte

na qual defeitos, assimetrias,

aparências dos seres e seus pés

significavam bem menos: afinal,

o que para cantar importa é a voz

treinada e sublime se possível for;

não se os pés inclinados para fora

comprometem o visual

que a produção e seu gosto-sibila

dita como essencial. Como se daria

hoje o comportamento do ou da

profissional de imagem

frente a tais características? Apenas

em caráter de excepcionalidade assoluta

seriam permitidas. Seriam?



O mundo se estetizou. Foi uma indubitável

vitória da tal da beleza no capitalismo:

impor-se por completo da cabeça aos pés.

Por isto esta tristeza tão funda

quando está a sós a gente? e

tantos espelhos de selfies?



Saúdo la Callas no seu auge

que aconteceu quando aconteceu

em Lisboa num palco com menor pedigree

e assim saúdo a anônima cantora

do coro que a acompanhou:

com pés dez pras duas

como os de Carlitos.



PS. 1: Está factualmente equivocado

este poema. Como um relato de JLB,

transtroca e atraiçoa os fatos mais nímios:

sim em Lisboa esteve Maria Callas

e talvez seu pináculo vocal se tenha dado

no Teatro Nacional de São Carlos. FP

nasceu em um dos edifícios que dão

ao parvis fronteiro: Há uma placa de bronze

comemorativa. Dois cafés bem europeus

permitem-nos o desfrutar sentados

da correta fachada neoclássica da mole.

Na rua da direita há uma hamburgueria

bem boa. Também recomendo.

Este ensaio é o que é

e não se ilumina:

a ópera que responde pelo mito em seu auge

Norma não era mas a montagem da Traviata

na qual contracenaram Callas e

Alfredo Kraus (q.v). Única vez

em que tais celebridades líricas

cantaram juntas. Illo tempore!

Não está na Britannica e sim

no YouTube. Há mais de 6 horas

não o sabia: Quando escrevi este poema

verossímil mas não verdadeiro e que,

aristotelicamente, mente.



PS. 2: Para lá de monstros sagrados em seu entorno,

também se inspira este texto em L’esthétisation du monde

– vivre à l’âge du capitalisme artiste. De Lipovetsky e Serroy.



Osasco 17 VI 23



(Ilustração: Ulisse Sartini - Maria Callas; foto de Andrea Matzker)

Nenhum comentário:

Postar um comentário