quarta-feira, 30 de março de 2016

QUASE, de Mário de Sá Carneiro








Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo ... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que, desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...



(Ilustração: Johnny Palacios Hidalgo)




domingo, 27 de março de 2016

O REI BURGUÊS, de Rubén Darío










Meu amigo! O céu está opaco, o ar frio, o dia triste. Um conto alegre... assim como para divertir as brumosas e cinzentas melancolias, eis aqui:


Havia numa cidade imensa e brilhante um rei muito poderoso, ele possuía trajes pretensiosos e ricos, escravas nuas, brancas e pretas, cavalos de longas crinas, armas novíssimas, galgos rápidos e monteiros com chifres de bronze que enchiam o vento com suas fanfarras. Era um rei poeta? Não, meu amigo: era o Rei Burguês.


Era muito afeiçoado às artes o soberano, e favorecia com grande generosidade os seus músicos, os seus fazedores de ditirambos, pintores, escultores, boticários, barbeiros e mestres de esgrima.



Quando ia à floresta, junto ao cervo ou javali ferido e sangrento, fazia com que seus professores de retórica improvisassem canções alusivas; os criados enchiam as taças com vinho de ouro borbulhante, e as mulheres batiam palmas com movimentos rítmicos e galhardos. Era um rei sol, na sua Babilônia repleta de músicas, de gargalhadas e de ruídos de festim. Quando se fartava da algazarra da cidade, saía à caça aturdindo o bosque com seus tropéis; e fazia sair dos ninhos as aves assustadas, e o vozerio ecoava no recôndito mais escondido das cavernas. Os cachorros de pés elásticos iam quebrando o ervaçal na corrida, e os caçadores, inclinados sobre o pescoço dos cavalos, faziam ondular os mantos purpúreos com seus rostos flamejantes e as cabeleiras ao vento.



O rei tinha um palácio soberbo onde acumulara riquezas e objetos de arte maravilhosos. Chegava a ele cruzando plantações de lírios e extensos lagos sendo saudado pelos cisnes de pescoço branco, antes do que pelos arrogantes lacaios. Bom gosto. Subia pela escada cheia de colunas de alabastro, que tinha aos lados leões de mármore como nos tronos salomônicos. Refinamento. Além dos cisnes, tinha um grande aviário, como amante da harmonia, do arrulho, do trinado; e perto dele ia alargando seu espírito, lendo romances de M. Ohnet, os belos livros que tratam das questões gramaticais, ou críticas graciosas. Isto sim: defensor tenaz da correção acadêmica nas letras, e do modo usual nas artes; alma sublime amante da exatidão e da ortografia!



Japonerias! Chinerias! Por moda e mais nada. Bem que podia se dar ao luxo de uma sala digna do gosto de um Goncourt e dos milhões de um Creso: quimeras de bronze com as goelas abertas e os rabos enroscados, em grupos fantásticos e maravilhosos; lacas de Kioto com incrustações de folhas e galhos de uma flora monstruosa, e animais de uma fauna desconhecida, borboletas de raras asas junto às paredes; peixes e galos coloridos; máscaras de gestos infernais e com olhos como se fossem vivos; alabardas de folhas antiquíssimas e empunhaduras com dragões devorando flores de lótus; túnicas de seda amarela, tecidas com teias de aranha, semeadas de garças vermelhas e de verdes ramalhetes de arroz; e jarros, porcelanas de muitos séculos, daquelas que exibem guerreiros tártaros com uma pele que os cobre até os rins, e que levam arcos esticados e ramos de flechas.



Além disso, tinha a sala grega, cheia de mármores: deusas, musas, ninfas e sátiros; a sala dos tempos galantes, com quadros do grande Watteau e do Chardin; dois, três, quatro, quantas salas?



E Mecenas passeava por todas, com o rosto inundado de certa majestade, a barriga feliz e a coroa na cabeça, como os reis do baralho.



Um dia levaram-lhe uma rara espécie de homem perante o seu trono, onde se encontrava cercado de cortesãos, de retóricos e de mestres de equitação e de dança.



— O que é isso? — perguntou.



— Senhor, é um poeta.



O rei tinha cisnes no lago, canários, beija-flores no aviário: um poeta era algo novo e estranho.



— Deixai-o aqui.



E o poeta:



— Senhor, eu não tenho comido.




E o rei:




— Fala e comerás.




Começou:



— Senhor, há muito tempo que canto o verbo do porvir. Estendi minhas asas ao furacão; nasci no tempo do amanhecer; procuro a raça escolhida que deve esperar, com o hino na voz e a lira na mão, a saída do grande sol. Abandonei a inspiração da cidade malsã, a alcova cheia de perfumes, a musa de carne que enche a alma de pequenez e o rosto de pó-de-arroz. Quebrei a harpa lisonjeira das cordas frágeis, contra as taças de Boêmia e as jarras onde borbulha o vinho que embriaga sem dar fortaleza; joguei o manto que me fazia parecer bufo, ou mulher, e tenho me vestido de maneira selvagem e esplêndida: meu farrapo é de púrpura. Fui à floresta, onde me fiz vigoroso e farto de leite fecundo e licor de nova vida; e na beira do mar áspero, sacudindo a cabeça embaixo da forte e negra tempestade, como um anjo soberbo, ou como um semideus olímpico, ensaiei o verso grego atirando ao esquecimento o madrigal.



Acarinhei a grande natureza, procurei no calor do ideal o verso que está no astro no fundo do céu, e o que está na pérola do profundo oceano. Tentei ser pujante! Porque vem o tempo das grandes revoluções, com um Messias todo luz, todo agitação e potência, e é necessário receber seu espírito com o poema que seja arco triunfal, de estrofes de aço, de estrofes de ouro, de estrofes de amor.



Senhor, a arte não está nas frias coberturas do mármore, nem nos quadros pálidos, nem no excelente senhor Ohnet! Senhor! A arte não se veste de calças, nem fala burguês, nem coloca os pontos em todos os is. Ela é augusta, tem mantos de ouro ou de chamas, ou anda nua, e amassa a greda com febre, e pinta com luz, e é opulenta, e bate asas como as águias, ou lança farpadas como os leões. Senhor, entre um Apolo e um ganso, prefere o Apolo, ainda que um seja de terracota, e o outro de marfim.



Oh, a Poesia!



Muito bem! Os ritmos prostituem-se, cantam-se as pintas das mulheres, e fabricam-se xaropes poéticos. Além disso, Senhor, o sapateiro critica meus decassílabos, e o senhor professor de farmácia põe os pontos e vírgulas na minha inspiração. Senhor, e vós autorizais tudo isso!... O ideal, o ideal...


O rei interrompeu:



— Já ouvistes. O que fazer?



E um filósofo que estava disponível:



— Se vós o permitis, senhor, ele pode ganhar a comida com uma caixa de música; podemos colocá-la no jardim, perto dos cisnes, para quando passeardes por lá.



— Sim — disse o rei, e dirigindo-se ao poeta:



— Dareis voltas a uma manivela. Fechareis a boca. Fareis soar uma caixa de música que toca valsas, quadrilhas e galopas, se não preferis morrer de fome. Peça de música por pedaço de pão. Nada de geringonças, nem de ideais. Ide.



E desde aquele dia pôde-se ver, à beira do lago dos cisnes, o poeta faminto que dava voltas à manivela: tiriririn, tiriririn... envergonhado sob os olhares do grande sol! Passava o rei pelas proximidades? Tiriririn, tiriririn...! Tinha que encher o estômago? Tiriririn! Tudo em meio às gozações dos pássaros livres, que chegavam para beber o orvalho dos lírios em flor; entre o zunido das abelhas, que lhe mordiam o rosto e enchiam seus olhos de lágrimas, tiriririn...! Lágrimas amargas que rolavam por suas bochechas e caíam na terra preta!



E o inverno chegou, e o pobre sentiu frio no corpo e na alma. E seu cérebro estava como petrificado, e os grandes hinos estavam esquecidos, e o poeta da montanha coroada de águias não era senão um pobre-diabo que dava voltas à manivela, tiriririn.



E quando a neve caiu esqueceram-se dele, o rei e seus vassalos; aos pássaros deram-lhes abrigo, e a ele deixaram-no ao léu glacial que lhe mordia as carnes e lhe açoitava o rosto, tiriririn!



E numa noite em que caía do alto uma chuva branca de peninhas cristalizadas, no palácio havia um festim, e a luz dos lustres ria alegre sobre os mármores e sobre as túnicas dos mandarins das velhas porcelanas. E aplaudiam-se até a loucura os brindes do senhor professor de retórica, perplexo de dátilos, de anapestos e de pirríquios, enquanto nas taças cristalinas fervia o champanhe com seu borbulhar luminoso e fugaz. Noite de inverno, noite de festa! E o desgraçado coberto de neve, perto do lago dando voltas à manivela para esquentar-se tiriririn, tiriririn! Tremendo e paralisado, insultado pelo vento, sob a brancura implacável e gelada, na noite sombria, fazendo ressoar entre as árvores sem folhas a música louca das galopas e quadrilhas; e ficou morto, tiriririn... pensando no sol do dia seguinte que nasceria, e com ele o ideal, tiriririn... e na arte que não ia vestir calças e sim mantos de chamas, ou de ouro... Até que, no dia seguinte, acharam-no o rei e seus cortesãos ao pobre-diabo de poeta, como beija-flor que mata o gelo, com um sorriso amargo nos lábios, e ainda com a mão na manivela.



Oh, meu amigo! O céu está opaco, o ar frio, o dia triste. Flutuam brumosas e cinzentas melancolias...



Mas como esquenta a alma uma frase, um aperto de mãos a tempo! Até logo!






(Contos Latino-Americanos Eternos, tradução de Alicia Ramal)



(Ilustração: Antoine Watteau)


quinta-feira, 24 de março de 2016

OFERTA - AOS NOVOS QUE POETIZAM, de Cora Coralina





Poeta, poetiza teu caminho,
pega, segura com os dedos
da velha musa
o que resta de poesia
na transição da hora que passa.

Cuida bem da inspiração
que se despede por inútil.
Cuidado com o adjetivo:
traiçoeiro, corriqueiro,
se insinua libidinoso,
nu, esfarrapado, sem pudor.

Olha a rima indigente, forçada,
forçando tropeçante.
O verso desvalido, maltrapilho.
A palavra truncada.
O palavrão da moda. O jargão.
A frase feita.
O advérbio desgastado
pedindo esquecimento
e posterior recuperação.

Atenção, muita atenção !
Sem ser chamada - a palavra vulgar,
esmolambada, sabereta
vem, e vem para ficar.

A palavra pobre...
(coitadinha da palavra pobre !)
Também tem o seu direito
de figurar no verso.

Tudo isso, mais um
conteúdo miúdo que seja
e serás Poeta.




(Ilustração: Dino Valls - Mutus Liber)


segunda-feira, 21 de março de 2016

PERU DE NATAL, de Mário de Andrade







O nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai acontecida cinco meses antes, foi de consequências decisivas para a felicidade familiar. Nós sempre fôramos familiarmente felizes, nesse sentido muito abstrato da felicidade: gente honesta, sem crimes, lar sem brigas internas nem graves dificuldades econômicas. Mas, devido principalmente à natureza cinzenta de meu pai, ser desprovido de qualquer lirismo, duma exemplaridade incapaz, acolchoado no medíocre, sempre nos faltara aquele aproveitamento da vida, aquele gosto pelas felicidades materiais, um vinho bom, uma estação de águas, aquisição de geladeira, coisas assim. Meu pai fora de um bom errado, quase dramático, o puro-sangue dos desmancha-prazeres.


Morreu meu pai, sentimos muito, etc. Quando chegamos nas proximidades do Natal, eu já estava que não podia mais pra afastar aquela memória obstruente do morto, que parecia ter sistematizado pra sempre a obrigação de uma lembrança dolorosa em cada gesto mínimo da família. Uma vez que eu sugerira à mamãe a ideia dela ir ver uma fita no cinema, o que resultou foram lágrimas. Onde se viu ir ao cinema, de luto pesado! A dor já estava sendo cultivada pelas aparências, e eu, que sempre gostara apenas regularmente de meu pai, mais por instinto de filho que por espontaneidade de amor, me via a ponto de aborrecer o bom do morto.


Foi decerto por isto que me nasceu, esta sim, espontaneamente, a ideia de fazer uma das minhas chamadas "loucuras". Essa fora aliás, e desde muito cedo, a minha esplêndida conquista contra o ambiente familiar. Desde cedinho, desde os tempos de ginásio, em que arranjava regularmente uma reprovação todos os anos; desde o beijo às escondidas, numa prima, aos dez anos, descoberto por Tia Velha, uma detestável tia; e principalmente desde as lições que dei ou recebi, não sei, duma criada de parentes: eu consegui no reformatório do lar e na vasta parentagem, a fama conciliatória de "louco". "É doido, coitado!" falavam. Meus pais falavam com certa tristeza condescendente, o resto da parentagem buscando exemplo para os filhos e provavelmente com aquele prazer dos que convencem de alguma superioridade. Não tinham doidos entre os filhos. Pois foi o que me salvou, essa fama. Fiz tudo o que a vida me apresentou e o meu ser exigia para se realizar com integridade. E me deixaram fazer tudo, porque eu era doido, coitado. Resultou disso uma existência sem complexos, de que não posso me queixar um nada.


Era costume sempre, na família, a ceia de Natal. Ceia reles, já se imagina: ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da Missa do Galo. Empanturrados de amêndoas e nozes (quanto discutimos os três manos por causa dos quebra-nozes...), empanturrados de castanhas e monotonias, a gente se abraçava e ia pra cama. Foi lembrando isso que arrebentei com uma das minhas "loucuras".


– Bom, no Natal, quero comer peru.


Houve um desses espantos que ninguém não imagina. Logo minha tia solteirona e santa, que morava conosco, advertiu que não podíamos convidar ninguém por causa do luto.


– Mas quem falou de convidar ninguém! Essa mania... Quando é que a gente já comeu peru em nossa vida! Peru aqui em casa é prato de festa, vem toda essa parentada do diabo...


– Meu filho, não fale assim... 


– Pois falo, pronto!


E descarreguei minha gelada indiferença pela nossa parentagem infinita, diz-que vinda de bandeirantes, que bem me importa! Era mesmo o momento pra desenvolver minha teoria de doido, coitado, não perdi a ocasião. Me deu de supetão uma ternura imensa por mamãe e titia, minhas duas mães, três com minha irmã, as três mães que sempre me divinizaram a vida. Era sempre aquilo: vinha aniversário de alguém e só então faziam peru naquela casa.


Peru era prato de festa: uma imundície de parentes já preparados pela tradição, invadiam a casa por causa do peru, das empadinhas e dos doces. Minhas três mães, três dias antes já não sabiam da vida senão trabalhar,trabalhar no preparo de doces e frios finíssimos de bem feitos, a parentagem devorava tudo e inda levava embrulhinhos pros que não tinham podido vir.


As minhas três mães mal podiam de exaustas. Do peru, só no enterro dos ossos, no dia seguinte, é que mamãe com titia inda provavam um naco de perna, vago, escuro, perdido no arroz alvo. E isso mesmo era mamãe quem servia, catava tudo pro velho e pros filhos. Na verdade ninguém sabia de fato o que era peru em nossa casa, peru resto de festa.


Não, não se convidava ninguém, era um peru pra nós, cinco pessoas. E havia de ser com duas farofas, a gorda com os miúdos, e a seca, douradinha, com bastante manteiga. Queria o papo recheado só com a farofa gorda, em que havíamos de ajuntar ameixa preta, nozes e um cálice de xerez, como aprendera na casa da Rose, muito minha companheira. Está claro que omiti onde aprendera a receita, mas todos desconfiaram. E ficaram logo naquele ar de incenso assoprado, se não seria tentação do Dianho aproveitar receita tão gostosa. E cerveja bem gelada, eu garantia quase gritando. É certo que com meus "gostos", já bastante afinados fora do lar, pensei primeiro num vinho bom, completamente francês. Mas a ternura por mamãe venceu o doido, mamãe adorava cerveja.


Quando acabei meus projetos, notei bem, todos estavam felicíssimos, num desejo danado de fazer aquela loucura em que eu estourara. Bem que sabiam, era loucura sim, mas todos se faziam imaginar que eu sozinho é que estava desejando muito aquilo e havia jeito fácil de empurrarem pra cima de mim a... culpa de seus desejos enormes. Sorriam se entreolhando, tímidos como pombas desgarradas, até que minha irmã resolveu o consentimento geral:


– É louco mesmo!...


Comprou-se o peru, fez-se o peru, etc. E depois de uma Missa do Galo bem mal rezada, se deu o nosso mais maravilhoso Natal. Fora engraçado: assim que me lembrara de que finalmente ia fazer mamãe comer peru, não fizera outra coisa aqueles dias que pensar nela, sentir ternura por ela, amar minha velhinha adorada. E meus manos também, estavam no mesmo ritmo violento de amor, todos dominados pela felicidade nova que o peru vinha imprimindo na família. De modo que, ainda disfarçando as coisas, deixei muito sossegado que mamãe cortasse todo o peito do peru. Um momento aliás, ela parou, feito fatias um dos lados do peito da ave, não resistindo àquelas leis de economia que sempre a tinham entorpecido numa quase pobreza sem razão.


– Não senhora, corte inteiro! só eu como tudo isso!


Era mentira. O amor familiar estava por tal forma incandescente em mim, que até era capaz de comer pouco, só pra que os outros quatro comessem demais. E o diapasão dos outros era o mesmo. Aquele peru comido a sós, redescobria em cada um o que a cotidianidade abafara por completo, amor, paixão de mãe, paixão de filhos. Deus me perdoe mas estou pensando em Jesus... Naquela casa de burgueses bem modestos, estava se realizando um milagre digno do Natal de um Deus. O peito do peru ficou inteiramente reduzido a fatias amplas.


– Eu que sirvo!


"É louco, mesmo!" pois por que havia de servir, se sempre mamãe servira naquela casa! Entre risos, os grandes pratos cheios foram passados pra mim e principiei uma distribuição heroica, enquanto mandava meu mano servir a cerveja. Tomei conta logo dum pedaço admirável da "casca", cheio de gordura e pus no prato. E depois vastas fatias brancas. A voz severizada de mamãe cortou o espaço angustiado com que todos aspiravam pela sua parte no peru:


– Se lembre de seus manos, Juca! Quando que ela havia de imaginar, a pobre! que aquele era o prato dela,
da Mãe, da minha amiga maltratada, que sabia da Rose, que sabia meus
 crimes, a que eu só lembrava de comunicar o que fazia sofrer! O prato ficou sublime.


– Mamãe, este é o da senhora! Não! não passe não!


Foi quando ela não pôde mais com tanta comoção e principiou chorando. Minha tia também, logo percebendo que o novo prato sublime seria o dela, entrou no refrão das lágrimas. E minha irmã, que jamais viu lágrima sem abrir a torneirinha também, se esparramou no choro. Então principiei dizendo muitos desaforos pra não chorar também, tinha dezenove anos... Diabo de família besta que via peru e chorava! coisas assim. Todos se esforçavam por sorrir, mas agora é que a alegria se tornara impossível. É que o pranto evocara por associação a imagem indesejável de meu pai morto. Meu pai, com sua figura cinzenta, vinha pra sempre estragar nosso Natal.


Fiquei danado.


Bom, principiou-se a comer em silêncio, lutuosos, e o peru estava perfeito. A carne mansa, de um tecido muito tênue boiava fagueira entre os sabores das farofas e do presunto, de vez em quando ferida, inquietada e redesejada, pela intervenção mais violenta da ameixa preta e o estorvo petulante dos pedacinhos de noz. Mas papai sentado ali, gigantesco, incompleto, uma censura, uma chaga, uma incapacidade. E o peru, estava tão gostoso, mamãe por fim sabendo que peru era manjar mesmo digno do Jesusinho nascido.


Principiou uma luta baixa entre o peru e o vulto de papai. Imaginei que gabar o peru era fortalecê-lo na luta, e, está claro, eu tomara decididamente o partido do peru. Mas os defuntos têm meios visguentos, muito hipócritas de vencer: nem bem gabei o peru a imagem de papai cresceu vitoriosa, insuportavelmente obstruidora.


– Só falta seu pai...


Eu nem comia, nem podia mais gostar daquele peru perfeito, tanto que me interessava aquela luta entre os dois mortos. Cheguei a odiar papai. E nem sei que inspiração genial, de repente me tornou hipócrita e político. Naquele instante que hoje me parece decisivo da nossa família, tomei aparentemente o partido de meu pai. Fingi, triste:


– É mesmo... Mas papai, que queria tanto bem a gente, que morreu de tanto trabalhar pra nós, papai lá no céu há de estar contente... (hesitei, mas resolvi não mencionar mais o peru) contente de ver nós todos reunidos em família.


E todos principiaram muito calmos, falando de papai. A imagem dele foi diminuindo, diminuindo e virou uma estrelinha brilhante do céu. Agora todos comiam o peru com sensualidade, porque papai fora muito bom, sempre se sacrificara por nós, fora um santo que "vocês, meus filhos, nunca poderão pagar o que devem a seu pai", um santo. Papai virara santo, uma contemplação agradável, uma inestorvável estrelinha do céu. Não prejudicava mais ninguém, puro objeto de contemplação suave. O único morto ali era o peru, dominador, completamente vitorioso.


Minha mãe, minha tia, nós, todos alagados de felicidade. Ia escrever "felicidade gustativa", mas não era só isso não. Era uma felicidade maiúscula, um amor de todos, um esquecimento de outros parentescos distraidores do grande amor familiar. E foi, sei que foi aquele primeiro peru comido no recesso da família, o início de um amor novo, reacomodado, mais completo, mais rico e inventivo, mais complacente e cuidadoso de si. Nasceu de então uma felicidade familiar pra nós que, não sou exclusivista, alguns a terão assim grande, porém mais intensa que a nossa me é impossível conceber.


Mamãe comeu tanto peru que um momento imaginei, aquilo podia lhe fazer mal. Mas logo pensei: ah, que faça! mesmo que ela morra, mas pelo menos que uma vez na vida coma peru de verdade!


A tamanha falta de egoísmo me transportara o nosso infinito amor...


Depois vieram umas uvas leves e uns doces, que lá na minha terra levam o nome de "bem-casados". Mas nem mesmo este nome perigoso se associou à lembrança de meu pai, que o peru já convertera em dignidade, em coisa certa, em culto puro de contemplação.


Levantamos. Eram quase duas horas, todos alegres, bambeados por duas garrafas de cerveja. Todos iam deitar, dormir ou mexer na cama, pouco importa, porque é bom uma insônia feliz. O diabo é que a Rose, católica antes de ser Rose, prometera me esperar com uma champanha. Pra poder sair, menti, falei que ia a uma festa de amigo, beijei mamãe e pisquei pra ela, modo de contar onde é que ia e fazê-la sofrer seu bocado. As outras duas mulheres beijei sem piscar. E agora, Rose!...



(Ilustração: Cezanne - father)










quinta-feira, 17 de março de 2016

LEILÃOZINHO, de Ana Elisa Ribeiro







escambo:
meus olhos míopes
pelos seus dedos lancinantes

meus sóis de hoje
pelos seus carinhos de antes

um beijo de língua
pelo meu amor à míngua




(Ilustração: Liu Yuanshou) 



segunda-feira, 14 de março de 2016

PERCEVEJOS, PULGAS E PERNILONGOS A CAMINHO DE ROMA, de André Gide







Os percevejos têm hábitos especiais: esperam que a gente apague a vela e, logo que se pilham no escuro, investem. Não se dirigem ao acaso; vão diretamente  ao pescoço, ponto preferencial; às vezes procuram os pulsos; alguns, mais raros, preferem os tornozelos. Não se sabe por quê, introduzem sob a pele da pessoa adormecida um óleo sutil, urticante, cuja virulência se exaspera com a menor fricção.

A coceira que despertou Fleurissoire era tão forte, que ele acendeu de novo a vela e correu para o espelho, a contemplar, sob o maxilar inferior, uma confusa vermelhidão crivada de pontinhos brancos, indistintos; mas a candeia clareava pouco; o espelho era de estanho sujo, e o seu olhar estava enevoado de sono... Deitou-se outra vez, coçando sempre; apagou a luz; acendeu-a cinco minutos depois, porque a dor estava intolerável; pulou até o lavatório, molhou o lenço no jarro e aplicou-o sobre a zona inflamada; esta, cada vez mais extensa, já atingia a clavícula. Amédée pensou que estava ficando doente, e rezou; depois apagou a luz novamente. O alívio obtido com a compressa teve duração curta demais para que o paciente readormecesse; agora, a atrocidade da urticária estava acrescida pelo incômodo do colarinho ensopado, que continuava a molhar com lágrimas. E subitamente estremeceu de horror. "Percevejos! São percevejos!" Admirou-se de não ter pensado nisso antes; mas só conhecia o inseto de nome; como poderia ter ligado a ideia de uma mordidela, que sempre imaginara precisa, com aquela queimadura indefinida? Saltou da cama e pela terceira vez acendeu a vela.

Teórico e nervoso, tinha, como muita gente, ideias erradas sobre os percevejos; gelado de nojo, começou por procurá-los em si mesmo; deles não viu sombra, julgou estar enganado, e já começava a imaginar-se doente outra vez. Em cima dos lençóis, nada, também. Mas, antes de se deitar, veio-lhe a ideia de levantar o travesseiro. Viu então três minúsculas pastilhas pardacentas que, rapidamente, se alojaram numa dobra do lençol. Eram eles!

Pôs a vela em cima da cama, cercou-os, abriu a dobra. Surpreendeu cinco percevejos e, com repugnância, não os querendo esmagar de encontro à unha, jogou-os no vaso noturno, onde urinou. Durante alguns instantes, contente, feroz, ficou a vê-los debaterem-se, e logo se sentiu um pouco aliviado. Deitou-se: soprou a vela.

Quase imediatamente redobraram as coceiras, agora novas, na nuca. Exasperado, reacendeu a luz, levantou-se de novo, arrancou a camisa para examinar bem o colarinho. Afinal distinguiu, rente com a costura, a correrem, imperceptíveis pontos vermelho-claros, que esmagou contra a fazenda, onde deixaram marcas de sangue. Bichinhos asquerosos, tão pequenos, custava a crer que já fossem percevejos! Mas, pouco depois, ao levantar de novo o travesseiro, desanimou um enorme: com certeza a mãe de todos. Então, encorajado, excitado, quase divertido, tirou o travesseiro, desmanchou a cama, e começou a pesquisa com método. Agora parecia-lhe que os via em toda parte; mas afinal só pegou quatro. Deitou-se outra vez e pôde gozar uma hora de tranquilidade.

Depois, as queimaduras recomeçaram. Mais uma vez atirou-se à caça. Afinal, esgotado, entregou os pontos e reparou que a queimadura, quando não se coçava, passava logo. Ao amanhecer, os últimos inimigos, fartos, deixaram-no em paz. Dormia um sono profundo quando o criado veio acordá-lo para que não perdesse o trem.

Em Toulon foram as pulgas. Com certeza as recolhera no trem. Durante a noite toda se coçou, virou-se e revirou-se, sem dormir. Sentia-as correr ao longo das pernas, faziam-lhe cócegas nos rins, dando-lhe febre. Como tinha a pele delicada, as mordidelas lhe produziam pápulas exuberantes, que inchavam porque ele se coçava com um meio prazer. Acendeu algumas vezes a vela; levantava-se, tirava a camisa, punha-a de novo, sem ter conseguido matar nenhuma; mal as avistava um instante: escapavam à sua sanha, e, mesmo se chegava a pegá-las, quando as julgava mortas, esmagadas sob o dedo, elas engordavam outra vez, e pulavam, salvas do mesmo jeito. Chegou a ter saudades dos percevejos. Ficou louco de raiva, e com o nervosismo dessa busca inútil acabou por comprometer de uma vez o sono.

E durante todo o dia seguinte as picadas lhe produziram comichões, ao mesmo tempo que outras coceiras lhe provavam que continuava a ser frequentado. O calor excessivo aumentava consideravelmente o seu mal-estar. O trem regurgitava de operários que bebiam, fumavam, cuspiam, arrotavam, e comiam um chouriço tão malcheiroso que Fleurissoire, por várias vezes, esteve a ponto de vomitar. Entretanto, só teve coragem de sair desse compartimento na fronteira, pois temia que os operários, vendo-o tomar outro, supusessem que o estavam incomodando. No compartimento que tomou então, uma volumosa ama de leite trocava as fraldas do seu bebê. Contudo, fez esforços para dormir; mas o chapéu que trazia não lhe dava conforto algum. Era um desses chapéus rasos, de palha branca, com fita preta, chamados comumente palhetas. Quando Fleurrisoire o deixava na posição ordinária, a borda, rígida, afastava sua cabeça do tabique. Se, para se apoiar, erguia um pouco o chapéu atrás, o tabique, com os solavancos, o precipitava para frente; quando, pelo contrário, prendia o chapéu atrás, a borda ficava entre o tabique e a nuca, e o chapéu se erguia sobre a cabeça, como uma válvula. Resolveu tirá-lo duma vez e cobrir a cabeça com o lenço, que, por causa da claridade, deixava caído sobre os olhos. Ao menos para aquela noite, já tomara precauções: tinha comprado em Toulon, de manhã, uma caixa de pó inseticida e, por mais caro que fosse, não hesitaria em procurar um dos melhores hotéis; porque, se essa noite também não dormisse, em que estado de miséria fisiológica não iria chegar a Roma? À mercê do mais insignificante mação.

Diante da estação de Gênova faziam ponto os ônibus dos principais hotéis; dirigiu-se logo para um dos mais elegantes, sem se deixar intimidar pelo ar caçoísta do criado que se apossou da sua lamentável malinha, da qual porém não quis se separar; negou-se a consentir que a pusessem em cima do carro, e fez questão de a levar ao seu lado, no banco. No vestíbulo do hotel, ouvindo o porteiro falar francês, sentiu-se à vontade; já mais confiante, e não contente com pedir "um quarto muito bom", perguntou o preço de todos, resolvido a ver inconvenientes nos que custassem menos de doze francos.

O quarto de dezessete francos, pelo qual se decidiu depois de visitar muitos, era vasto, asseado, elegante sem exagero: a cama adiantava-se no quarto, uma cama de cobre, limpa, com toda a certeza inabitada, para a qual o píretro seria uma injúria. Dentro duma espécie de armário enorme, estava dissimulado o toalete. Duas grandes janelas davam para o jardim; Amédée, debruçando-se dentro da noite, contemplou longamente as folhagens sombrias e indistintas, deixando que o ar morno lhe acalmasse a febre e o persuadisse a ir dormir. Em cima do leito, um véu de tule caía, como um nevoeiro, exatamente de três lados; pequenos cordéis, semelhantes a raízes de vela, o erguiam na frente, fazendo uma curva graciosa. Fleurissoire reconheceu naquilo um mosquiteiro - coisa que sempre desprezara.

Depois de se lavar, estendeu-se com delícia nos lençóis frescos. Deixara a janela aberta; naturalmente não de todo, por medo ao resfriado e à oftalmia, mas com um dos batentes descido, de modo que os eflúvios não o alcançassem diretamente; fez as contas e as orações, depois apagou a luz. (A iluminação era elétrica, para apagar virava-se a cravelha dum interruptor da corrente.)

Fleurissoire ia adormecendo quando um cantinho fino lhe veio relembrar a precaução, que não tomara, de só abrir a janela depois de apagar a luz; porque esta atrai os mosquitos. Também se lembrou de ter lido, em algum lugar, agradecimentos ao bom Deus por haver dotado o inseto volátil com aquela musiquinha particular, apropriada para avisar o dorminhoco do instante em que vai ser picado. Depois, fez cair ao redor de si o cortinado intransponível. "Afinal", pensou ele ao adormecer, "isto é bem melhor do que aqueles cones de erva seca, com o esquisito nome de fidibus, que o  pai de Blafaphas vende; a gente os acende num pires de metal; eles se consomem, espalhando abundante fumaceira narcótica; mas, antes de tontear os mosquitos, quase asfixiam a gente. Fidibus! Que nome esquisito! Fidibus..." Já estava adormecendo, quando, de repente, na aba esquerda do nariz, sentiu uma picada aguda. Levou a mão até lá ; e, enquanto apalpava delicadamente a ardida inchação da carne, outra picada no pulso. Depois, junto da orelha, um zum-zum caçoísta... Que horror! Tinha aprisionado o inimigo dentro da cidadela! Alcançou a cravelha da luz, restabelecendo a corrente.

Sim! Lá estava o pernilongo, pousado bem no alto do mosquiteiro. Um pouco presbita, Amédée o distinguia muito bem, absurdamente fino, pousado sobre quatro pés e com o outro par de patas, longo e como que encaracolado, atirado para trás: insolente! Amédée ergueu-se no leito. Mas como esmagar o inseto de encontro a um tecido fugidio e vaporoso?... Não faz mal! Bateu com a palma da mão, tão forte e rapidamente, que julgou ter arrebentado o cortinado. Com toda a certeza o mosquito estava por ali; procurou o cadáver com o olhar; nada viu; mas sentiu nova picada no tornozelo.

Então, para proteger o máximo da sua pessoa, voltou de novo para a cama; ficou um quarto de hora, atoleimado, sem coragem de apagar a luz. Depois, tranquilizado, não vendo nem ouvindo o inimigo, apagou. E imediatamente recomeçou a música.

Tirou para fora um braço, deixando a mão perto do rosto, e, às vezes, quando julgava sentir algum pousado na testa ou na bochecha, aplicava vasta bofetada. Mas, logo depois ouvia o inseto cantar.

Teve ideia de cobrir a cabeça com o lençol, o que perturbou consideravelmente sua volúpia respiratória e não impediu que fosse picado no queixo.

Então o pernilongo, com certeza satisfeito, ficou quieto; pelo menos Amédée, vencido pelo sono, cessou de ouvir; já tinha arrancado o lenço do pescoço e dormia um sono de febre, coçando-se enquanto dormia. No dia seguinte, o nariz, de seu natural aquilino, assemelhava-se ao de um bêbado; a inchação do tornozelo tinha crescido como um prego e a do queixo tomara um aspecto vulcânico - que ele recomendou à solicitude do barbeiro, quando, antes de deixar Gênova, foi fazer a barba, para chegar decente em Roma.



(Os subterrâneos do Vaticano; tradução de Miroel Silveira e Isa Leal)



(Ilustração: Paul Cadmus; sleeping nude)



sábado, 12 de março de 2016

O AMOR, de Eugénio de Andrade








Estou a amar-te como o frio
corta os lábios.

A arrancar a raiz
ao mais diminuto dos rios.

A inundar-te de facas,
de saliva esperma lume.

Estou a rodear de agulhas
a boca mais vulnerável.

A marcar sobre os teus flancos
itinerários da espuma.

Assim é o amor: mortal e navegável.





(Ilustração: Bruno Schmeltz)



quarta-feira, 9 de março de 2016

O PÁLIDO PONTO AZUL, de Carl Sagan






O Pálido Ponto Azul é uma fotografia do planeta Terra tirada pela nave espacial Voyager 1 em 14 de fevereiro de 1990, quando ela se encontrava a 6 bilhões de quilômetros da Terra, saindo dos limites do sistema solar. Na fotografia, o tamanho aparente da Terra é menor que o de um pixel, e assemelha-se a um minúsculo ponto contra a vastidão do espaço.

Aquilo lá é aqui. Aquela é nossa casa. Aquilo somos nós.

Nela, todos os que você amou, todos os que você conhece, todos de quem você sempre ouviu falar, todos os seres humanos que já existiram viveram suas vidas. O conjunto de nossas alegrias e sofrimentos, as incontáveis e confiantes religiões, ideologias e doutrinas econômicas, todos os caçadores e saqueadores, todos os heróis e covardes, todos os criadores e destruidores de civilizações, todos os reis e camponeses, todos os jovens casais que se amam, todos os pais e mães, as crianças otimistas, os inventores e exploradores, todos os professores de moral, todos os políticos corruptos, todas as celebridades, todos os líderes supremos, todos os santos e pecadores da História de nossa espécie viveram lá - naquele grão de poeira suspenso num raio de sol.

A Terra é um palco muito pequeno numa imensa arena cósmica. Pense nos rios de sangue derramado por todos os generais e imperadores para que em glória e triunfo pudessem ser os senhores efêmeros de uma fração de um ponto. Pense nas infindáveis crueldades afligidas pelos habitantes de um canto desse pixel aos quase indistinguíveis habitantes de algum outro canto. Quão frequentes seus desentendimentos, quão ávidos eles são em se matarem uns aos outros, quão fervorosos seus ódios. Nossas atitudes, nossa pretensa presunção, a ilusão de que ocupamos uma posição privilegiada no Universo, tudo isso é questionado por esse ponto de luz pálida. Nosso planeta é um minúsculo ponto solitário na grande escuridão cósmica que nos envolve. Em nossa obscuridade - em meio a toda essa vastidão - não há indício de que de algum lugar virá o socorro que nos salve de nós mesmos.

A Terra é o único mundo conhecido até agora que abriga a vida. Não há nenhum outro lugar, pelo menos no futuro próximo, para onde nossa espécie possa migrar. Visitar, sim. Habitar, ainda não. Goste-se ou não, por enquanto a Terra é onde nós estamos para o que vier. Já se disse que a Astronomia é uma experiência formadora do caráter e da humildade. Talvez não haja melhor comprovação da insensatez das vaidades humanas do que essa imagem do nosso minúsculo mundo. A meu ver ela realça nossa responsabilidade de nos relacionarmos com mais gentileza uns com os outros, de preservar e amar o pálido ponto azul, o único lar que sempre conhecemos.



(Tradução de Wagner Mourão Brasil)



(Ilustração: Earth from space - NASA - moon in background: preferimos esta ilustração, porque a foto a que se refere o texto, embora magnífica, quando em alta resolução, aqui seria apenas um borrão negro com minúsculos pontinhos brilhantes).