quinta-feira, 29 de março de 2012

O AMOR AOS SESSENTA, de Alberto da Costa e Silva









Isto que é o amor (como se o amor não fosse

esperar o relâmpago clarear o degredo):

ir-se por tempo abaixo como grama em colina,

preso a cada torrão de minuto e desejo.

Ser contigo, não sendo como as fases da lua,

como os ciclos de chuva ou a alternância dos ventos,

mas como numa rosa as pétalas fechadas,

como os olhos e as pálpebras ou a sombra dos remos

contra o casco do barco que se vai, sem avanço

e sem pressa de ausência, entre o mito e o beijo.

Ser assim quase eterno como o sonho e a roda

que se fecha no espaço deste sol às estrelas

e amar-te, sabendo que a velhice descobre

a mais bela beleza no teu rosto de jovem.




(Poemas dos Sessenta Anos)



(Ilustração: Liu Yuanshou)


segunda-feira, 26 de março de 2012

UM CINTURÃO, de Graciliano Ramos






As minhas primeiras relações com a justiça foram dolorosas e deixaram-me funda impressão. Eu devia ter quatro ou cinco anos, por aí, e figurei na qualidade de réu. Certamente já me haviam feito representar esse papel, mas ninguém me dera a entender que se tratava de julgamento. Batiam-me porque podiam bater-me, e isto era natural.


Os golpes que recebi antes do caso do cinturão, puramente físicos, desapareciam quando findava a dor. Certa vez minha mãe surrou-me com urna corda nodosa que me pintou as costas de manchas sangrentas. Moído, virando a cabeça com dificuldade, eu distinguia nas costelas grandes lanhos vermelhos. Deitaram-me, enrolaram-me em panos molhados com água de sal - e houve uma discussão na família. Minha avó, que nos visitava, condenou o procedimento da filha e esta afligiu-se. Irritada, ferira-me à toa, sem querer. Não guardei ódio a minha mãe: o culpado era o nó. Se não fosse ele, a flagelação me haveria causado menor estrago. E estaria esquecida. A história do cinturão, que veio pouco depois, avivou-a.



Meu pai dormia na rede, armada na sala enorme. Tudo é nebuloso. Paredes extraordinariamente afastadas, rede infinita, os armadores longe, e meu pai acordando, levantando-se de mau humor, batendo com os chinelos no chão, a cara enferrujada. Naturalmente não me lembro da ferrugem, das rugas, da voz áspera, do tempo que ele consumiu rosnando uma exigência. Sei que estava bastante zangado, e isto me trouxe a covardia habitual. Desejei vê-lo dirigir-se a minha mãe e a José Baía, pessoas grandes, que não levavam pancada. Tentei ansiosamente fixar-me nessa esperança frágil. A força de meu pai encontraria resistência e gastar-se-ia em palavras.



Débil e ignorante, incapaz de conversa ou defesa, fui encolher-me num canto, para lá dos caixões verdes. Se o pavor não me segurasse tentaria escapulir-me: pela porta da frente chegaria ao açude, pela do corredor acharia o pé de turco. Devo ter pensado nisso, imóvel, atrás dos caixões. Só queria que minha mãe, sinhá Leopoldina, Amaro e José Baía surgissem de repente e me livrassem daquele perigo.



Ninguém veio, meu pai me descobriu acocorado e sem fôlego, colado ao muro, e arrancou-me dali violentamente, reclamando um cinturão. Onde estava o cinturão? Eu não sabia, mas era difícil explicar-me: atrapalhava-me, gaguejava, embrutecido, sem atinar com o motivo da raiva. Os modos brutais, coléricos, atavam-me; os sons duros morriam, desprovidos de significação.



Não consigo reproduzir toda a cena. Juntando vagas lembranças dela a fatos que se deram depois, imagino os berros de meu pai, a zanga terrível, a minha tremura infeliz. Provavelmente fui sacudido. O assombro gelava-me o sangue, escancarava-me os olhos.



Onde estava o cinturão? Impossível responder. Ainda que tivesse escondido o infame objeto, emudeceria, tão apavorado me achava. Situações deste gênero constituíram as maiores torturas da minha infância, e as consequências delas me acompanharam.



O homem não me perguntava se eu tinha guardado a miserável correia: ordenava que a entregasse imediatamente. Os seus gritos me entravam na cabeça, nunca ninguém se esgoelou de semelhante maneira.



Onde estava o cinturão? Hoje não posso ouvir uma pessoa falar alto. O coração bate-me forte, desanima, como se fosse parar, a voz emperra, a vista escurece, uma cólera doida agita coisas adormecidas cá dentro. A horrível sensação de que me furam os tímpanos com pontas de ferro.



Onde estava o cinturão? A pergunta repisada ficou-me na lembrança: parece que foi pregada a martelo.



A fúria louca ia aumentar, causar-me sério desgosto. Conservar-me-ia ali desmaiado, encolhido, movendo os dedos frios, os beiços trêmulos e silenciosos. Se o moleque José ou um cachorro entrasse na sala, talvez as pancadas se transferissem. O moleque e os cachorros eram inocentes, mas não se tratava disso. Responsabilizando qualquer deles, meu pai me esqueceria, deixar-me-ia fugir, esconder-me na beira do açude ou no quintal.



Minha mãe, José Baía, Amaro, sinhá Leopoldina, o moleque e os cachorros da fazenda abandonaram-me. Aperto na garganta, a casa a girar, o meu corpo a cair lento, voando, abelhas de todos os cortiços enchendo-me os ouvidos - e, nesse zunzum, a pergunta medonha. Náusea, sono. Onde estava o cinturão? Dormir muito, atrás dos caixões, livre do martírio.



Havia uma neblina, e não percebi direito os movimentos de meu pai. Não o vi aproximar-se do torno e pegar o chicote. A mão cabeluda prendeu-me, arrastou-me para o meio da sala, a folha de couro fustigou-me as costas. Uivos, alarido inútil, estertor. Já então eu devia saber que rogos e adulações exasperavam o algoz. Nenhum socorro. José Baía, meu amigo, era um pobre-diabo.



Achava-me num deserto. A casa escura, triste; as pessoas tristes. Penso com horror nesse ermo, recordo-me de cemitérios e de ruínas mal-assombradas. Cerravam-se as portas e as janelas, do teto negro pendiam teias de aranha. Nos quartos lúgubres minha irmãzinha engatinhava, começava a aprendizagem dolorosa.



Junto de mim, um homem furioso, segurando-me um braço, açoitando-me. Talvez as vergastadas não fossem muito fortes: comparadas ao que senti depois, quando me ensinaram a carta de A B C, valiam pouco. Certamente o meu choro, os saltos, as tentativas para rodopiar na sala como carrapeta eram menos um sinal de dor que a explosão do medo reprimido. Estivera sem bulir, quase sem respirar. Agora esvaziava os pulmões, movia-me, num desespero.



O suplício durou bastante, mas, por muito prolongado que tenha sido, não igualava a mortificação da fase preparatória: o olho duro a magnetizar-me, os gestos ameaçadores, a voz rouca a mastigar uma interrogação incompreensível.



Solto, fui enroscar-me perto dos caixões, coçar as pisaduras, engolir soluços, gemer baixinho e embalar-me com os gemidos. Antes de adormecer, cansado, vi meu pai dirigir-se à rede, afastar as varandas, sentar-se e logo se levantar, agarrando uma tira de sola, o maldito cinturão, a que desprendera a fivela quando se deitara. Resmungou e entrou a passear agitado. Tive a impressão de que ia falar-me: baixou a cabeça, a cara enrugada serenou, os olhos esmoreceram, procuraram o refúgio onde me abatia, aniquilado.



Pareceu-me que a figura imponente minguava - e a minha desgraça diminuiu. Se meu pai se tivesse chegado a mim, eu o teria recebido sem o arrepio que a presença dele sempre me deu. Não se aproximou: conservou-se longe, rondando, inquieto. Depois se afastou.



Sozinho, vi-o de novo cruel e forte, soprando, espumando. E ali permaneci, miúdo, insignificante, tão insignificante e miúdo como as aranhas que trabalhavam na telha negra.



Foi esse o primeiro contato que tive com a justiça.





(Ilustração: Leslie de Chávez)





sexta-feira, 23 de março de 2012

CASO DO VESTIDO, de Carlos Drummond de Andrade






Nossa mãe, o que é aquele
vestido, naquele prego?

Minhas filhas, é o vestido
de uma dona que passou.


Passou quando, nossa mãe?
Era nossa conhecida?

Minhas filhas, boca presa.
Vosso pai evém chegando.

Nossa mãe, esse vestido
tanta renda, esse segredo!

Minhas filhas, escutai
palavras de minha boca.

Era uma dona de longe,
vosso pai enamorou-se.

E ficou tão transtornado,
se perdeu tanto de nós,

se afastou de toda vida,
se fechou, se devorou.

Chorou no prato de carne,
bebeu, gritou, me bateu,

me deixou com vosso berço,
foi para a dona de longe,

mas a dona não ligou.
Em vão o pai implorou,

dava apólice, fazenda,
dava carro, dava ouro,

beberia seu sobejo,
lamberia seu sapato.

Mas a dona nem ligou.
Então vosso pai, irado,

me pediu que lhe pedisse,
a essa dona tão perversa,

que tivesse paciência
e fosse dormir com ele...

Nossa mãe, por que chorais?
Nosso lenço vos cedemos.

Minhas filhas, vosso pai
chega ao pátio. Disfarcemos.

Nossa mãe, não escutamos
pisar de pé no degrau.

Minhas filhas, procurei
aquela mulher do demo.

E lhe roguei que aplacasse
de meu marido a vontade.

Eu não amo teu marido,
me falou ela se rindo.

Mas posso ficar com ele
se a senhora fizer gosto,

só para lhe satisfazer,
não por mim, não quero homem.

Olhei para vosso pai,
os olhos dele pediam.

Olhei para a dona ruim,
os olhos dela gozavam.

O seu vestido de renda,
de colo mui devassado,

mais mostrava que escondia
as partes da pecadora.

Eu fiz meu pelo-sinal,
me curvei... disse que sim.

Saí pensando na morte,
mas a morte não chegava.

Andei pelas cinco ruas,
passei ponte, passei rio,

visitei vossos parentes,
não comia, não falava,

tive uma febre terçã,
mas a morte não chegava.

Fiquei fora de perigo,
fiquei de cabeça branca,

perdi meus dentes, meus olhos,
costurei, lavei, fiz doce,

minhas mãos se escalavraram,
meus anéis se dispersaram,

minha corrente de ouro
pagou conta de farmácia.

Vosso pai sumiu no mundo.
O mundo é grande e pequeno.

Um dia a dona soberba
me aparece já sem nada,

pobre, desfeita, mofina,
com sua trouxa na mão.

Dona, me disse baixinho,
não te dou vosso marido,

que não sei onde ele anda.
Mas te dou este vestido,

última peça de luxo
que guardei como lembrança

daquele dia de cobra,
da maior humilhação.

Eu não tinha amor por ele,
ao depois amor pegou.

Mas então ele enjoado
confessou que só gostava

de mim como eu era dantes.
Me joguei a suas plantas,

fiz toda sorte de dengo,
no chão rocei minha cara,

me puxei pelos cabelos,
me lancei na correnteza,

me cortei de canivete,
me atirei no sumidouro,

bebi fel e gasolina,
rezei duzentas novenas,

dona, de nada valeu:
vosso marido sumiu.

Aqui trago minha roupa
que recorda meu malfeito

de ofender dona casada
pisando no seu orgulho.

Recebei esse vestido
e me dai vosso perdão.

Olhei para a cara dela,
quede os olhos cintilantes?

quede graça de sorriso,
quede colo de camélia?

quede aquela cinturinha
delgada como jeitosa?

quede pezinhos calçados
com sandálias de cetim?

Olhei muito para ela,
boca não disse palavra.

Peguei o vestido, pus
nesse prego da parede.

Ela se foi de mansinho
e já na ponta da estrada

vosso pai aparecia.
Olhou para mim em silêncio,

mal reparou no vestido
e disse apenas: Mulher,

põe mais um prato na mesa.
Eu fiz, ele se assentou,

comeu, limpou o suor,
era sempre o mesmo homem,

comia meio de lado
e nem estava mais velho.

O barulho da comida
na boca, me acalentava,

me dava uma grande paz,
um sentimento esquisito

de que tudo foi um sonho,
vestido não há... nem nada.

Minhas filhas, eis que ouço
vosso pai subindo a escada.



(A Rosa do Povo)


(Ilustração: François-Émilie Barraud - la toilette)



terça-feira, 20 de março de 2012

A MÁQUINA EXTRAVIADA, de José J. Veiga






Você sempre pergunta pelas novidades daqui deste sertão, e finalmente posso lhe contar uma importante. Fique o compadre sabendo que agora temos aqui uma máquina imponente, que está entusiasmando todo o mundo. Desde que ela chegou - não me lembro quando, não sou muito bom em lembrar datas - quase não temos falado em outra coisa; e da maneira que o povo aqui se apaixona até pelos assuntos mais infantis, é de admirar que ninguém tenha brigado ainda por causa dela, a não ser os políticos.


A máquina chegou uma tarde, quando as famílias estavam jantando ou acabando de jantar, e foi descarregada na frente da Prefeitura. Com os gritos dos choferes e seus ajudantes (a máquina veio em dois ou três caminhões) muita gente cancelou a sobremesa ou o café e foi ver que algazarra era aquela. Como geralmente acontece nessas ocasiões, os homens estavam mal-humorados e não quiseram dar explicações, esbarravam propositalmente nos curiosos, pisavam-lhes os pés e não pediam desculpa, jogavam pontas de cordas sujas de graxa por cima deles, quem não quisesse se sujar ou se machucar que saísse do caminho.



Descarregadas as várias partes da máquina, foram elas cobertas com encerados e os homens entraram num botequim do largo para comer e beber. Muita gente se amontoou na porta mas ninguém teve coragem de se aproximar dos estranhos porque um deles, percebendo essa intenção nos curiosos, de vez em quando enchia a boca de cerveja e esguichava na direção da porta. Atribuímos essa esquiva ao cansaço e à fome deles e deixamos as tentativas de aproximação para o dia seguinte; mas quando os procuramos de manhã cedo na pensão, soubemos que eles tinham montado mais ou menos a máquina durante a noite e viajado de madrugada.



A máquina ficou ao relento, sem que ninguém soubesse quem a encomendou nem para que servia. E claro que cada qual dava o seu palpite, e cada palpite era tão bom quanto outro.



As crianças, que não são de respeitar mistério, como você sabe, trataram de aproveitar a novidade. Sem pedir licença a ninguém (e a quem iam pedir?), retiraram a lona e foram subindo em bando pela máquina acima - até hoje ainda sobem, brincam de esconder entre os cilindros e colunas, embaraçam-se nos dentes das engrenagens e fazem um berreiro dos diabos até que apareça alguém para soltá-las; não adiantam ralhos, castigos, pancadas; as crianças simplesmente se apaixonaram pela tal máquina.



Contrariando a opinião de certas pessoas que não quiseram se entusiasmar, e garantiram que em poucos dias a novidade passaria e a ferrugem tomaria conta do metal, o interesse do povo ainda não diminuiu. Ninguém passa pelo largo sem ainda parar diante da máquina, e de cada vez há um detalhe novo a notar.



Até as velhinhas de igreja, que passam de madrugada e de noitinha, tossindo e rezando, viram o rosto para o lado da máquina e fazem uma curvatura discreta, só faltam se benzer. Homens abrutalhados, como aquele Clodoaldo seu conhecido, que se exibe derrubando boi pelos chifres no pátio do mercado, tratam a máquina com respeito; se um ou outro agarra uma alavanca e sacode com força, ou larga um pontapé numa das colunas, vê-se logo que são bravatas feitas por honra da firma, para manter fama de corajoso.



Ninguém sabe mesmo quem encomendou a máquina. O prefeito jura que não foi ele, e diz que consultou o arquivo e nele não encontrou nenhum documento autorizando a transação. Mesmo assim não quis lavar as mãos, e de certa forma encampou a compra quando designou um funcionário para zelar pela máquina.

Devemos reconhecer - aliás todos reconhecem - que esse funcionário tem dado boa conta do recado. A qualquer hora do dia, e às vezes também de noite, podemos vê-lo trepado lá por cima espanando cada vão, cada engrenagem, desaparecendo aqui para reaparecer ali, assoviando ou cantando, ativo e incansável. Duas vezes por semana ele aplica kaol nas partes de metal dourado, esfrega, sua, descansa, esfrega de novo - e a máquina fica faiscando como jóia.


Estamos tão habituados com a presença da máquina ali no largo, que se um dia ela desabasse, ou se alguém de outra cidade viesse buscá-la, provando com documentos que tinha direito, eu nem sei o que aconteceria, nem quero pensar.



Ela é o nosso orgulho, e não pense que exagero. Ainda não sabemos para que ela serve, mas isso já não tem maior importância. Fique sabendo que temos recebido delegações de outras cidades, do estado e de fora, que vêm aqui para ver se conseguem comprá-la. Chegam como quem não quer nada, visitam o prefeito, elogiam a cidade, rodeiam, negaceiam, abrem o jogo: por quanto cederíamos a máquina. Felizmente o prefeito é de confiança e é esperto, não cai na conversa macia.



Em todas as datas cívicas a máquina é agora uma parte importante das festividades. Você se lembra que antigamente os feriados eram comemorados no coreto ou no campo de futebol, mas hoje tudo se passa ao pé da máquina. Em tempo de eleição todos os candidatos querem fazer seus comícios à sombra dela, e como isso não é possível, alguém tem de sobrar, nem todos se conformam e sempre surgem conflitos. Felizmente a máquina ainda não foi danificada nesses esparramos, e espero que não seja.



A única pessoa que ainda não rendeu homenagem à máquina é o vigário, mas você sabe como ele é ranzinza, e hoje mais ainda, com a idade. Em todo caso, ainda não tentou nada contra ela, e ai dele. Enquanto ficar nas censuras veladas, vamos tolerando; é um direito que ele tem. Sei que ele andou falando em castigo, mas ninguém se impressionou.



Até agora o único acidente de certa gravidade que tivemos foi quando um caixeiro da loja do velho Adudes (aquele velhinho espigado que passa brilhantina no bigode, se lembra?) prendeu a perna numa engrenagem da máquina, isso por culpa dele mesmo. O rapaz andou bebendo em uma serenata, e em vez de ir para casa achou de dormir em cima da máquina. Não se sabe como, ele subiu à plataforma mais alta, de madrugada rolou de lá, caiu em cima de uma engrenagem e com o peso acionou as rodas. Os gritos acordaram a cidade, correu gente para verificar a causa, foi preciso arranjar uns barrotes e labancas para desandar as rodas que estavam mordendo a perna do rapaz. Também dessa vez a máquina nada sofreu, felizmente. Sem a perna e sem o emprego, o imprudente rapaz ajuda na conservação da máquina, cuidando das partes mais baixas.



Já existe aqui um movimento para declarar a máquina monumento municipal - por enquanto. O vigário, como sempre, está contra; quer sabe a que seria dedicado o monumento. Você já viu que homem mais azedo?



Dizem que a máquina já tem feito até milagre, mas isso - aqui para nós - eu acho que é exagero de gente supersticiosa, e prefiro não ficar falando no assunto. Eu - e creio que também a grande maioria dos munícipes - não espero dela nada em particular; para mim basta que ela fique onde está, nos alegrando, nos inspirando, nos consolando.



O meu receio é que, quando menos esperarmos, desembarque aqui um moço de fora, desses despachados, que entendem de tudo, olhe a máquina por fora, por dentro, pense um pouco e comece a explicar a finalidade dela, e para mostrar que é habilidoso (eles são sempre muito habilidosos), peça na garagem um jogo de ferramentas, e sem ligar a nossos protestos se meta por baixo da máquina e desande a apertar, martelar, engatar, e a máquina comece a trabalhar. Se isso acontecer, estará quebrado o encanto e não existirá mais máquina.






(Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século)



(Ilustração: Giger - snatch)





sábado, 17 de março de 2012

INFERNO, de Dante Alighieri







Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura
ché la diritta via era smarrita.

Ah quanto a dir qual era è cosa dura
esta selva selvaggia e aspra e forte
che nel pensier rinova la paura!

Tant'è amara che poco è più morte;
ma per trattar del ben ch'i' vi trovai,
dirò de l'altre cose ch'i' v'ho scorte.

Io non so ben ridir com'i' v'intrai,
tant'era pien di sonno a quel punto
che la verace via abbandonai.

Ma poi ch'i' fui al piè d'un colle giunto,
là dove terminava quella valle
che m'avea di paura il cor compunto,

guardai in alto, e vidi le sue spalle
vestite già de' raggi del pianeta
che mena dritto altrui per ogne calle.

Allor fu la paura un poco queta
che nel lago del cor m'era durata
la notte ch'i' passai con tanta pieta.

E come quei che con lena affannata
uscito fuor del pelago a la riva
si volge a l'acqua perigliosa e guata,

così l'animo mio, ch'ancor fuggiva,
si volse a retro a rimirar lo passo
che non lasciò già mai persona viva.

(...)

Tradução de Augusto de Campos:




No meio do caminho desta vida
me vi perdido numa selva escura,
solitário, sem sol e sem saída.

Ah, como armar no ar uma figura
desta selva selvagem, dura, forte,
que, só de eu a pensar, me desfigura?

É quase tão amargo como a morte;
mas para expor o bem que encontrei,
outros dados darei da minha sorte.

Não me recordo ao certo como entrei,
tomado de uma sonolência estranha,
quando a vera vereda abandonei.

Sei que cheguei ao pé de uma montanha,
lá onde aquele vale se extinguia,
que me deixara em solidão tamanha,

e vi que o ombro do monte aparecia
vestido já dos raios do planeta
que a toda gente pela estrada guia.

Então a angústia se calou, secreta,
lá no lago do peito onde imergira
a noite que tomou minha alma inquieta;

e como náufrago, depois que aspira
o ar, abraçado à areia, redivivo,
vira-se ao mar e longamente mira,

o meu ânimo, ainda fugitivo,
voltou a contemplar aquele espaço
que nunca ultrapassou um homem vivo.

(...)



(A DIVINA COMÉDIA - INFERNO -  CANTO I - trecho inicial)



(Ilustração: Gustave Doré - Dante perdido na selva escura)



quarta-feira, 14 de março de 2012

BAR, de Ivan Ângelo






A moça chegou com sapatinho baixo, saia curta, cabelos lisos castanhos arrumados em rabo-de-cavalo, sorriu dentes branquinhos muito pequenos, como de primeira dentição, e falou o senhor me deixa telefonar? de maneira inescapável.

O homem da caixa registradora estava olhando o movimento do bar, tomando conta de macieira meio preguiçosa, sem fixar muito os olhos no que o rapaz do balcão já havia servido aos dois fregueses silenciosos, demorando-os mais no bêbado que balançava-se à porta do botequim ameaçando entrar e afinal parando-os no recheio da blusinha preta sem mangas que estava à sua frente, o que o fez despertar completamente com um e a senhora o que é?

A moça constatou contrariada que havia desperdiçado a primeira carga de charme e mostrou novamente seus pequeninos dentes, agora fazendo a "precisadinha urgente", dizendo eu posso telefonar? com ar de quem entrega ao outro todas as esperanças.

O homem falou pois não e levantou a mão meio gorda do teclado da caixa registradora, abaixou-a olhando para o bêbado que subia o degrau da porta, retirou de uma prateleira debaixo da registradora um telefone preto onde ainda estava gravado no meio do disco o selo da antiga Companhia Telefônica Brasileira e empurrou-o para a moça dizendo não demore por favor que já vamos fechar.

A moça tirou o fone do gancho e murmurou baixinho putz, sopesou ostensivamente o aparelho e disse bajuladora pesadinho hein?
O homem sorriu atingido pela seta da lisonja dizendo éééé antigo. A moça levou o fone ao ouvido e discou 277281 com um dedo bem tratado de unha lilás.

O homem da caixa tirou os olhos do dedo, pegou um lápis enganchado na orelha direita e anotou a milhar explicando é pra o bicho, não se importando se a moça ouvia ou não e devolveu o lápis à orelha enquanto olhava o bêbado que navegava agora à beira do balcão.

A moça falou quer fazer o favor de chamar o Otacílio e ficou esperando.
Um homem chegou ao lado dela cheirando a cigarro, falou para o caixa me dá um minister, olhou intensamente os olhos dela e imediatamente os seios. A moça enrubesceu e se tocou rápida procurando o botão aberto que nem havia e protegeu-se expirando o ar com o diafragma e avançando os ombros para disfarçar o volume do peito.

A caixa registradora fez tlin, um carro freou rangendo pneus e uma voz forte gritou filha da puta com um “u” muito longo.

O homem da caixa deu o troco ao homem que comprara cigarros e falou faz de conta que não ouviu nada menina isso aqui é assim mesmo.

O homem que comprara cigarros afastou-se e foi ver da porta o que estava acontecendo na rua.

A moça voltou-se simpática para o homem da caixa mas parou atenta aos sons do fone, mudou de atenta a decepcionada e falou depois de instantes diz que é a Julinha.

O homem que comprara cigarros parou na porta, abriu o maço de cigarros e acendeu um.

O homem da caixa falou ô José esse ai tem de pagar primeiro e o rapaz do balcão parou de servir a cachaça para o bêbado e falou qualquer coisa com ele enquanto o homem da caixa procurava explicar-se dizendo depois não paga e ainda espanta freguês.

A moça sorriu condescendente.

O homem fumava à porta e olhava as pernas dela.

A moça pôs uma perna na frente da outra defendendo-se cinquenta por cento e falou de repente alegre oi! demorou hein? E procurando um pouco de privacidade virou-se dizendo ficou com raiva de mim?

O homem da caixa fingia-se distraído, mas ouvia o que ela dizia. Pensei. Não me ligou.

O bêbado navegou contornando arrecifes e chegou ao caixa com uma nota de quinhentos na mão.

- Mas não é isso, não é nada disso.

O homem da caixa disse pode servir José. Não sei...

- fiquei com medo, só isso.

O bêbado começou o cruzeiro de volta.

- Não, não. Não é de você. Acho que é assim mesmo, não é? A caixa registradora fez tlin marcando quinhentos cruzeiros.

Poxa, Otacílio, pensa. O tanto de coisa que vem na cabeça da gente numa hora dessas. Vocês acham tudo fácil.

A cara do homem da caixa estava um pouco mais desperta e maliciosa. Claro que é difícil. E só querer ver o lado da gente, pô.

O rapaz do balcão tirou o mesmo copo meio servido e a mesma garrafa e completou a dose do bêbado.

- Tá legal. Eu também acho: vamos esquecer o que aconteceu ontem. Falou.

O bêbado olhou atentamente para o copo como se meditasse mas na verdade apenas esperando o momento certo de conjugar o movimento do navio com o de levar o copo à boca e quando o conseguiu bebeu tudo de uma vez com uma careta e um arrepio.

A moça ouviu com ar travesso o que Otacílio dizia e sorriu excitada seus dentes branquinhos.

O homem da caixa olhou para o homem da porta e a cumplicidade masculina brotou nos olhares.

- Não, sábado não dá. Aí já passou. Ora, como. Passou do dia, Ota, não dá. Não dá pra explicar aqui. Você não entende? Tem dia que dá e tem dia que não dá, pô.

O homem da caixa piscou para o homem que fumava na porta como quem diz você que tava certo.

- Uai, só daqui a uns quinze dias. Lógico que eu me informei.

A moça viu o olhar do homem da porta e virou-lhe as costas. Hoje!? Tá louco?

O homem que fumava ficou olhando-a por trás.

- Papai não vai deixar. Só se... Só se eu falar com a mamãe e ela falar com ele.

Alguém chegou e falou cobra duas cervejas e me dá um drops desse aqui de hortelã.

- Ora, que que eu vou falar. Não sei, pô. Eu dou um jeito. Pode deixar que eu me viro.

A caixa fez tlin e o homem foi embora sem que ela o visse.

- Não, eu vou. De qualquer jeito eu vou. Agora eu que tou querendo. A moça olhou para o homem da caixa e fugiu depressa daquela cara agora debochada.

- Então me espera. Eu vou ai. Chau.

A moça desligou e ficou uns instantes com o olhar baixo tomando coragem e depois falou para o homem posso ligar só mais unzinho?

O homem da caixa falou pode alongando o “o” muito liberal e olhando fixamente de cima a sugestão do decote.

A moça procurou um ponto neutro para olhar e achou o rapaz que lavava copos atrás do balcão, enquanto esperava o sinal do telefone, depois discou 474729 e ficou olhando o ambiente.

Uma armadilha azul fluorescente de eletrocutar moscas aguardava vítimas. O rapaz do balcão olhava-a furtivamente e murmurou gostosa, de dentes trincados.

O bêbado esperava o melhor momento de descer do degrau para a rua com um pé no chão e outro no ar, como alguém inseguro que se prepara para descer de um bonde andando.

O homem da porta juntou os cinco dedos da mão direita e levou-os à boca num beijinho transmitindo ao homem da caixa sua opinião sobre ela.

O homem da caixa respondeu segurando a pontinha da orelha direita como quem diz é uma delícia.

A moça murmurou será que saíram? explicando-se para ninguém.

Os dois homens silenciosos que bebiam cerveja encostados no balcão não estavam mais lá.

A moça ficou de lado e o homem da caixa fez um galeio para ver um pouco mais de peitinho pelo vão lateral da blusinha sem mangas.

A moça emitiu um ah de alívio, puxou o fio até onde dava e meio abaixou-se de costas para dizer mamãe? é Júlia com uma voz abafada por braços e mãos e concentrada no que ia dizer.

O homem da porta, o rapaz do balcão e o homem da caixa se olharam rapidamente.

Olha, eu jantei aqui na cidade com a Marilda. Ora, mamãe, a senhora conhece a Marilda, até já dormiu aí em casa. É, é essa. Olha: agora a gente vai ao cinema, viu? Que tarde, mamãe, tem uma sessão às dez e meia. Se ficar muito tarde eu vou dormir na casa dela. E só porque é mais perto, mamãe, senão a gente ia praí. Não tem. A senhora sabe que não tem. A senhora fala com papai pra mim? Não, eu não vou falar. Tá bom. Eu ligo depois do cinema. Só pra confirmar, hein, porque o mais certo é a gente ir pra lá. Um beijo. Bota a gatinha pra dentro, viu? Chau.

A moça ergueu-se, desligou o telefone e perguntou quanto é.

O homem da caixa não estava mais lá e falou pra você não é nada gostosa, atrás dela.

A moça se voltou rápida e viu que todas as portas do bar estavam fechadas.
Os três homens, narinas dilatadas, formavam um meio circulo em torno dela.




(Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século)



(Ilustração: Anthony Christhian - sleeping beauty)



domingo, 11 de março de 2012

CHANSON D’AUTOMNE / CANÇÃO DE OUTONO / CANCIÓN DE OTOÑO / CANZONE D'AUTUNNO / THE LONG SOBS, de Paul Verlaine








Les sanglots longs

Des violons

De l'automne

Blessent mon coeur

D'une langueur

Monotone.


Tout suffocant

Et blême,quand

Sonne l'heure,

Je me souviens

Des jours anciens

Et je pleure.




Et je m'en vais

Au vent mauvais

Qui m'emporte

Deçà,delà

Pareil à la

Feuille morte.




Tradução de Alphonsus de Guimaraens -1870-1921:



Os soluços graves

Dos violinos suaves

Do outono

Ferem a minh'alma

Num langor de calma

E sono.


Sufocado,em ânsia,

Ai!quando à distância

Soa a hora,

Meu peito magoado

Relembra o passado

E chora.



Daqui, dali, pelo

Vento em atropelo

Seguido,

Vou de porta em porta,

Como a folha morta,

Batido...



Tradução de Nelson Ascher:


Violinos com

seu choro assom-

bram o outono

e eu, corpo mor-

to de torpor,

me abandono.


Quase sem ar,

desmaio ao soar

da hora enquanto,

lembrando em vão

os dias de então,

caio em pranto.


E o vento cruel

leva-me ao léu

pouco importa

aonde, em vaivém,

vago que nem

folha morta.



Tradução de Onestaldo de Pennafort:


Os longos sons

dos violões,

pelo outono,

me enchem de dor

e de um langor

de abandono.


E choro, quando

ouço, ofegando,

bater a hora,

lembrando os dias,

e as alegrias

e ais de outrora.


E vou-me ao vento

que, num tormento,

me transporta

de cá pra lá,

como faz à

folha morta.




Tradução de Guilherme de Almeida:


Estes lamentos

Dos violões lentos

Do outono

Enchem minha alma

De uma onda calma

De sono.


E soluçando,

Pálido, quando

Soa a hora,

Recordo todos

Os dias doidos

De outrora.


E vou à toa

No ar mau que voa.

Que importa?

Vou pela vida,

Folha caída

E morta.



Tradução de Isaias Edson Sidney:


Violões de outono

sangram minha alma;

não me acalma

o som do vento

que traz um lento

sofrimento.


Eu tanto imploro

quando recordo

doce idade

do meu passado

que ainda choro

de saudade.






E não me importa

quanto sofri

por aí:

como a folha morta,

levada ao vento,

também morri.





Tradução de Fábio Malavoglia:



Essas glosas longas


das violas alongam


o outono


e fluem qual licor


de benção, langor


e sono.






Mas sufocante


lívida adiante


soa a hora,


e sei-me em vão


daquele então


quem chora.






E vou me assim


num vento ruim,


que importa?


Vou de cá, de lá,


folha que já


cai morta.





Tradução de Manuel Bandeira:





Estes lamentos


Dos violões lentos


Do outono


Enchem minha alma


De uma onda calma


De sono.






E soluçando,


Pálido, quando


Soa a hora,


Recordo todos


Os dias doidos


De outrora.






E vou à toa


No ar mau que voa.


Que importa?


Vou pela vida,


Folha caída


E morta.






Tradução de Paulo Mendes Campos:






Os longos trinos


Dos violinos


Do outono


Ferem minh'alma


Com uma calma


Que dá sono.






Ao ressoar


A hora, alvar,


Sufocado,


Choro os errantes


Dias distantes


Do passado.






E em remoinho,


O ar daninho


Me transporta


De cá pra lá,


De lá pra cá,


Folha morta.




Tradução para o espanhol de Emilio Carrere:



La queja sin fin

del flébil violín

otoñal

hiere el corazón

de um lángudo son

letal.


S i emp re soñando

Siempre soñando

y febril cuando

suena la hora,

mi alma refleja

la vida vieja

y llora.


Y ar rast ra un c r u e n to

Y arrastra um cruento

perverso viento

a mi alma incierta

aquí y allá

igual que la

hoja muerta.



Tradução para o italiano de Giuseppe Cirigliano:



I lunghi singhiozzi

Dei violini

D'autunno

Mi feriscono il cuore

Con un languore

Monotono.


Tutto affannato

E pallido, quando

Rintocca l'ora,

Io mi ricordo

Dei giorni antichi

E piango;


E me ne vado

Nel vento maligno

Che mi porta

Di qua, di là,

Simile alla

Foglia morta.



Tradução para o inglês de Peter Low:


The long sobs

of autumn's

violins

wound my heart

with a monotonous

languor.


Suffocating

and pallid, when

the clock strikes,

I remember

the days long past

and I weep.


And I set off

in the rough wind

that carries me

hither and thither

like a dead

leaf.


(Ilustração: Henri Fantin-Latour – coin de table: sentados, da esquerda para a direita: Paul Verlaine, Arthur Rimbaud, Léon Valade, Ernest d'Hervilly et Camille Pelletan. De pé: Pierre Elzéar, Emile Blémont et Jean Aicard)





quinta-feira, 8 de março de 2012

A INTRUSA, de Júlia Lopes de Almeida




– Que temporal!

– E um friozinho! Conhecem vocês nada mais gostoso do que ouvir-se o barulho da chuva quando se está agasalhado? Eu estou me regalando...

– Sempre o mesmo egoísta! Como estás em tua casa... mas... desalmado, lembra-te de nós! São quase horas de me ir recolhendo aos meus penates. E ali o padre Assunção, caso não fique pelo caminho, terá também que marchar um bom pedaço a pé. Ao Teles, esse o bonde leva-o até o quarto de dormir! Nasceu empelicado.

Por essa feia noite de chuva, conversavam em casa do advogado Argemiro Cláudio, no Cosme Velho, o seu grande amigo padre Assunção, o deputado Armindo Teles e o Adolfo Caldas, homem de quarenta anos, sem profissão determinada, mas muito bem aceito nas rodas políticas e literárias, que frequentava assiduamente.

Tinham jantado tarde, fumavam agora na biblioteca de Argemiro, sentados à mesa do pôquer.

Menos por virtude que por cansaço, padre Assunção não quisera tomar parte no jogo. Era alto, magro, anguloso, de uma cor pálida; e nas suas feições havia uma tal expressão de candura, que Adolfo Caldas costumava dizer:

– O riso do Assunção cheira a rosas brancas.

O Dr. Argemiro, advogado - conforme rezavam os diários do Rio, dos mais distintos do nosso foro – jogava por jogar, sem vivo interesse, só para pretexto de chamar os amigos à sua casa de viúvo e de lhe dar uma palpitação de alma que lhe ia faltando...

- “Ah! uma casa sem mulher, afirmava ele, é um túmulo com janelas: toda a vida está lá fora...” E lembrar-se que aquilo havia de ser para sempre!

O Dr. Argemiro Cláudio de Menezes, descendente direto dos Menezes, nobres de Portugal, era um homem ainda moço, robusto, de carnes sólidas e uns olhos negros, em que talvez a raça árabe transparecesse ainda, adoçada pelo cruzamento com a lusitana. A barba preta talhada rente ao rosto pálido, tinha já um ou outro fio prateado, e o cabelo muito curto desenhava-lhe a cabeça redonda e forte. Viúvo há sete anos de uma formosa senhora, cujo retrato aparecia em todos os cantos da casa, ele protestara não tornar a casar-se.
A mulher, filha dos Barões do Cerro Alegre, levara-lhe a melhor porção da sua vida. Do primeiro ano do seu casamento, que durara cinco, existia uma filha, Maria da Glória. Vivia esta menina com os avós maternos. Sem interromper a partida, o deputado Armindo Teles gabou-se:

– Foi hoje um dos dias mais belos da minha vida; não preciso de mais nada para julgar-me compensado dos enormes sacrifícios que a deputação me tem custado... de tudo colhi hoje o prêmio. Imaginem se não devo estar satisfeito! Uma vitória política, já o disse Chartrier, embriaga melhor que o mais velho licor.

– Chartrier?... - perguntou com curiosidade o padre Assunção.

Armindo Teles pareceu não ouvi-lo e continuou:

– Infelizmente temos agora na Câmara poucos talentos de combate. Carecemos de mais vivacidade... Eu cruzei as minhas armas nesta porfia com os maiores talentos da Câmara e feri-os a todos sem piedade. Criei inimigos, pouco importa, mas triunfei!

Adolfo Caldas, levantando os olhos das cartas em leque na mão gorducha, indagou, sorrindo:

– Por que feito ilustre glorificaste a pátria?

– Pelo reconhecimento do Simão da Cunha, o meu colega Simão da Cunha, que a Câmara em peso guerreava!

Sob o bigode de Argemiro passou a sombra de um sorriso. Adolfo Caldas impregnou de cândida ingenuidade os seus maliciosos olhos castanhos e disse apenas, como a procurar:

– Cunha?...

E depois:

– Ah! o Simão! sim... é desempenado. Veste-se bem.

– Não é águia - afirmou Teles. - mas é o que se chama uma mediocridade operosa, e é, sobretudo, um homem de bem!

– Isso em política não tem valor... - comentou o dono da casa. – Mas que faz você aí, padre Assunção, remexendo nas estantes?!

– Estou a ver se encontro algum livro de Chartrier...

– Olha, o catálogo dos livros deve estar naquela gaveta, se acaso o Feliciano já o não deitou ao fogo! Eu já nem sei o que tenho...

– O que você deve procurar é os sermões do Padre Vieira! – disse malignamente Armindo Teles.

– Não preciso; sei-os de cor.

– Impinge-os como seus?

– Impingi-los-ia se os deputados fossem à igreja; mas você sabe, aos outros não... tenho medo que percebam!

Riram-se todos. Teles retrucou:

– Ainda o hei de ver na tribuna parlamentar, padre!

– Talvez. Os cilícios fazem os santos... mas eu, humilde padre, encontraria quem se batesse por mim com o mesmo denodo com que você se bateu pelo...?

– Simão da Cunha.

– Por esse senhor?

– Eu mesmo.

– Guarde as suas armas para melhor combate, amigo. Não tenho envergadura senão para um serviço – o divino. Cá tem você um livro precioso, Argemiro.

– Qual é?

– Vida de D. Frei Bertolomeu dos Mártires.

Adolfo Caldas comentou:

– Soleníssimo! Que bela língua, reverendo!

– Formosa! Frei Luiz de Sousa tinha a quem sair...

Padre Assunção ficou de pé, junto à alta estante de jacarandá, folheando o livro, muito atento.

O deputado recolheu as cartas dos parceiros: ganhava o jogo.

– A sabedoria dos provérbios está sendo comprometida... – declarou Argemiro. Você prova que a felicidade em amor é compatível com a do jogo!

Adolfo Caldas acrescentou:

– Leito, tribuna e mesa. Aí está um lema conveniente aos teus triunfos, Armindo!

Teles sorriu, respondendo sem disfarçar a vaidade:

– Leito e tribuna... vá; mas mesa, não sei porquê!

Caldas, baralhando as cartas, concluiu:

– Mesa, empreguei eu na expressão lata, falando como um dicionário. Referi-me à mesa do orçamento, à mesa do bacará e mesmo à do jantar. Jantaste como um homem de boa consciência e magnífico estômago! Fiquei te considerando mais, depois que te vi comer.

Argemiro observou, rindo:

– É o exercício da profissão...

Armindo Teles respondeu:

– Vocês confundem-me como Araújo Braga... que trouxe da pasta a prática da mastigação e leva mesmo a imprudência a ponto de dizer, como disse ontem à porta do Watson, à minha vista: – “Eu hoje só roo subsídios e clientes”.

– Esse tem, ao menos, o mérito da franqueza. A mim então só me aparecem causas péssimas, clientes já esfoladas, em osso. Se eu não tivesse alguns bens, iria esmolar na esquina! – declarou Argemiro.

O jogo chegara a um ponto que requeria a atenção absoluta dos jogadores. Ficaram largo tempo silenciosos, olhos fitos nas cartas, só entreabrindo a boca para a passagem das expressões obrigadas do pôquer.

Padre Assunção continuava a sua leitura, de pé, com o ombro encostado ao ângulo da estante.

Os três jogadores eram de bem diferente aspecto. Em contraste ao todo severo do dono da casa, o deputado Armindo Teles alegrava a sala com os tons claros da sua roupa alvadia e da sua gravata escocesa picada por um rubi fulgurante.
Representante do Paraná, que o tinha como um político hábil, presumia conhecer as coisas e os homens do Rio de Janeiro como os da sua terra. Maleável, imprimia ao seu jornal de Curitiba as cambiantes políticas do seu partido e a vontade soberana do seu chefe, e desta arte equilibrava-se na invejada posição de representante da nação. Falava com sossego, num agradável timbre de voz. Às vezes mesmo Caldas caçoava:

– Na Câmara, quando o Armindo fala, não lhe escutam as palavras; ouvem-lhe a voz. C’est la voix d’or do Congresso!

Em frente dele Adolfo Caldas, gordo e calvo, com um eterno charuto entalado entre os beiços carnudos, que o bigode castanho cobria, movia-se à vontade no seu veston de pano preto, com um bom ar de despretensiosa superioridade.
Adolfo Caldas dizia-se rio-grandense, mas afirmavam alguns que ele era nascido em Montevidéu, de família brasileira. Vivia desde os vinte anos no Rio de Janeiro, sempre na boa roda de financeiros ilustres e ministros afamados, chegando-se para as árvores de substanciosos frutos e boa sombra. Solteirão, intermediário de bons negócios, permitia-se o luxo de uma viagem de longe em longe a Paris, cujos museus de quadros conhecia de cor.

Tinha a paixão da pintura e lia bons livros portugueses, clássicos sobretudo. Era com ele que o padre Assunção conversava às vezes sobre literatura antiga, certo de que os bons livros espirituais, como os profanos, tinham a mesma admiração no juízo competente daquele homem de tão esperta sagacidade.
Houve uma pequena pausa no jogo; o Feliciano entrou com os cálices de Chartreuse. No abrir da porta ouviu-se o barulho da chuva batendo com força nos ladrilhos do terraço, e um arrepio de frio fez voltar-se o dr. Argemiro, que estava de costas para a entrada.

– Ó Argemiro, onde arranjaste tu este Feliciano? – perguntou Caldas, mirando o copeiro, um negro de trinta e poucos anos, esgrouviado e bem vestido.

– Na família da minha sogra... é filho da ama de minha mulher.

– Se não fosse relíquia de família, pedia-to para mim.

Feliciano, servindo a todos como se não tivesse ouvido coisa nenhuma, substituiu por outros os cinzeiros já repletos e tornou a sair, silenciosamente.

– Se me não engano, – observou o Armindo Teles – vi-o outro dia em casa de Lolota...

– Ah! também você?...

– Que! ir à casa da Lolota? Mas toda a gente vai à casa da Lolota!

– Até o Feliciano... murmurou Caldas.

– Não! O Feliciano levava um recado. Ia com uma carta minha, corrigiu Argemiro.

– Por isso ela discutiu leis com tanto apuro! Parabéns. É uma mulher estonteadora...

– Não sei, a minha carta era acerca de negócios; ela é minha cliente.

– Homem puro, que nem sabe se as suas clientes são ou não são bonitas! Eu confesso-me pecador impenitente: quando vejo uma saia levanto logo os olhos para ver se o rosto da dona é feiticeiro! Tape os ouvidos, padre Assunção!

O padre sorriu e não desviou os olhos da leitura.

– Pecar ainda é e será a coisa melhor da vida, – continuou o Armindo – pecado de amor, está claro. Ah, e neste Rio de Janeiro, por melhor que seja a vontade de resistir, ninguém foge à tentação! Você conhece o dr. Aguiar?

– O da Caieira?

– Esse mesmo. Pois quando pretende alguma coisa da Câmara ou dos ministros, manda a mulher às secretarias ou à casa dos deputados. A mim procurou-me ela um dia no hotel, e como o negócio era reservado, tive de falar-lhe no meu quarto. O salão estava cheio. Ia linda!

– E?...

– O Aguiar entrou numa centena de contos; aliás, a pretensão era justa; todavia, se a mulher fosse feia, não digo isto por minha parte, creio que ele não arranjaria nada. O caso não dependia de mim, mas de quem “mais caso faz da formosura alheia”!

Armindo interrompeu o assunto para sorver um gole de Chartreuse. O padre Assunção, talvez para desviar o assunto mal encaminhado, por achar a propósito o trecho ou para fazê-lo notar a Adolfo Caldas, leu alto uma frase:
“... um pecado chama outro pecado, e este outro vem logo acompanhado até criar devassidão e ficarem em estado de se darem por sem remédio. Miserabilíssimo estado que abre as portas de par em par a todo o gênero de vício e apaga toda a memória do Céu e da Eternidade”.

Padre Assunção fechou o volumezinho de Frei Luiz de Sousa, pô-lo na estante e foi sentar-se ao lado de Argemiro. Assunção confessou:

– Estou com medo que o temporal desta tarde tenha quebrado a amendoeira do meu quintal...

Daí a pedaço, já desinteressado do pôquer e prestando atenção à bulha das águas, Argemiro propôs que ficassem todos com ele: a casa tinha quartos para hóspedes.

Nenhum aceitou. Armindo foi afastar as cortinas para olhar para a rua através dos vidros das janelas.

– Chove ainda! E deve estar frio lá fora! Parece-me que estou em Curitiba!
Padre Assunção, voltando-se para o dono da casa, disse:

– Amanhã terei de ir à casa de tua sogra; queres alguma coisa para a nossa Maria?

“Nossa Maria” era como o padre chamava a filha de Argemiro, a quem batizara e adorava.

– Nada... eu irei vê-la no domingo. Quero ver se para a semana ela vem passar uns dois dias comigo.

– Aqui?!

– De que te espantas?

– Ora essa! Com quem a deixarás, quando tiveres de sair?

– Vais-te rir... Botei hoje um anúncio no Jornal, pedindo uma moça para tratar da casa de um viúvo só.

– Estás doido! Não caias nessa asneira... Olha que chamas o perigo para casa.

– Não posso mais aturar o Feliciano; preciso de alguém que me ajude a suportá-lo. Mas a razão vocês sabem. Quero que minha filha não se crie completamente alheia à sua casa, preciso mesmo da sua companhia, ao menos uma vez por mês.

– E confiarás a nossa Maria a qualquer mulher desconhecida?!

– Glória não deixará os avós senão por um dia... É uma consolação fugitiva, a que eu procuro. Estou velho...

Caldas preveniu:

– Olha que essas madamas trazem anzóis nas saias... Quando menos pensares... estás fisgado... E tu que és bom peixe! É uma raça abominável, a das governantas... Verás amanhã que afluência de francesas velhas à tua porta! Feia ou bonita, a mulher é sempre perigosa. Eu deixar-me-ia ficar sossegadinho nos braços do Feliciano!

– Que lembrança, pôr anúncio! – repetia o padre. – Ainda se não tivesses tua filha...

– Preciso de uma mulher em casa, que não seja boçal como uma criada, mas que não tenha pretensões a outra coisa. Saberei indicar-lhe o seu lugar. Nem quero vê-la, mas sentir-lhe apenas a influência na casa. É a minha primeira condição.

– Acho-a acertada! Como já disse, só vêm para esse ofício mulheres aposentadas, pela força da idade, de outros serviços! Feias, mas habilidosas... No fim de algum tempo tu cairás doente, ela será uma enfermeira carinhosa e a comédia acabará quase sem se sentir. É o costume. O Assunção reprova-te. Eu aviso-te.

– Consultaste ao menos tua sogra? – perguntou o padre.

– Não. Ela, com receio de que eu lhe reclame a neta, negou-se sempre a coadjuvar-me nesse sentido.

– Não tires de lá a nossa Glória. Está muito selvagem, mas está muito bem. Realmente, essas senhoras vindas por anúncio para tratarem da casa de um viúvo só devem trazer intenções muito esquisitas. Será preferível uma velha.

– Não! As velhas cheiram a galinha. Quero uma mulher que tenha boa vista, bom olfato e bom gosto. São as qualidades que eu exijo, por essenciais, numa dona de casa. Quero uma moça educada.

Armindo Teles, enfiando o sobretudo, de que levantou a gola até as orelhas, ofereceu-se para vir esperá-la no dia seguinte...

Adolfo Caldas calçou as galochas, augurando que a moça educada teria mais de quarenta anos e não se resignaria a não conhecer monsieur... E concluiu: – Cá estou para espectador da cena. Vamos rir.

Saíram os três calados para a chuva; e o Feliciano, alagando os sapatos nos ladrilhos do vestíbulo, desejou a todos muito boas-noites e fechou a porta.



(A Intrusa)



(Ilustração: Tomasz Kafel)