domingo, 30 de novembro de 2014

VENHO DE LONGE, TRAGO O PENSAMENTO, de Paulo Bonfim

      



Venho de longe, trago o pensamento
Banhado em velhos sais e maresias;
Arrasto velas rotas pelo vento
E mastros carregados de agonia.

Provenho desses mares esquecidos
Nos roteiros de há muito abandonados
E trago na retina diluídos
Os misteriosos portos não tocados.

Retenho dentro da alma, preso à quilha
Todo um mar de sargaços e de vozes,
E ainda procuro no horizonte a ilha

Onde sonham morrer os albatrozes...
Venho de longe a contornar a esmo,
O cabo das tormentas de mim mesmo.


(Transfiguração)



(Ilustração: Érika Cardoso - caça-dores)



quinta-feira, 27 de novembro de 2014

PERDOEM A ESSE VELHO FILÓLOGO, de Friedrich Nietzsche







Perdoem a esse velho filólogo que sou, se não renuncia a abdicar do maligno prazer que representa pôr o dedo na chaga das explicações errôneas, de vossas fraquezas filológicas. Porque, em verdade, esse mecanismo das "leis da natureza", de que vós, físicos, falais com tanto orgulho, não é um fato nem um texto, mas uma composição ingenuamente humana dos fatos, uma deturpação do sentido, uma adulação servil à habilidade dos instintos democráticos da alma moderna. "Em todas as partes, igualdade diante da lei, a este respeito, a natureza, não foi melhor tratada que nós". Sedutora segunda intenção que encobre mais uma vez o ódio da plebe contra toda marca de privilégio e de tirania, bem como uma segunda forma mais sutil de ateísmo. "Ni Dieu, ni maitre". Vós também desejais que assim seja e por isso gritais: "Vivam as leis da natureza!" Porém, repito, isto é interpretação e não texto. Poderia surgir alguém com intenções opostas e com muitos outros artifícios de interpretação que decifrasse, nesta própria natureza e partindo dos mesmos fenômenos, o mistério do triunfo brutal e desapiedado de vontades tirânicas, quando este novo intérprete nos revelaria a "vontade de potência" em sua realidade e em sua força absoluta até que todas as palavras seriam inutilizáveis e inclusive a palavra “tirania” pareceria um eufemismo. Este filósofo acabaria, contudo, por afirmar, relativamente a este mundo, o mesmo que vós, isto é, que tem um curso "necessário", "previsível" não pelo fato de estar submetido a leis, mas pela absoluta inexistência de leis e porque a força, a cada instante, vai até a última de suas consequências. Mas como isso não é mais que uma interpretação, já sei que objetareis: pois bem, tanto melhor!




(Além do bem e do mal ou prelúdio de uma filosofia do futuro; tradução de
Márcio Pugliesi)



(Ilustração: Giger)







segunda-feira, 24 de novembro de 2014

AO LONGE OS BARCOS DE FLORES, de Camilo Pessanha



  


Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila,
— Perdida voz que de entre as mais se exila,
— Festões de som dissimulando a hora.



Na orgia, ao longe, que em clarões cintila
E os lábios, branca, do carmim desflora...
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila,


E a orquestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,
Cauta, detém. Só modulada trila
A flauta flébil... Quem há de remi-la?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?
Só, incessante, um som de flauta chora...



(Clepsidra)




(Ilustração: Eros Kara - nue au clair de lune)



quinta-feira, 20 de novembro de 2014

TEJE LIVRE!, de Maria Lucia Montes







Era uma rede clandestina extremamente organizada. Ramificava-se em vários setores da sociedade para tramar investidas ilegais contra o patrimônio privado. Armava sequestros, rebeliões e fugas em massa. Seu líder, ex-juiz e ex-delegado de polícia, conhecia as artimanhas do poder e tinha o suporte de influentes figuras da elite. Também contava com apoio popular. As ousadas investidas de seu grupo desestabilizaram a economia da época. Os caifazes – assim eles eram chamados – causavam pânico e despertavam ódio nos senhores da terra.

Mas esta era uma milícia do bem. Sua missão: libertar escravos, escondê-los, prover seu sustento e arranjar-lhes emprego assalariado. Assim como Caifás, o personagem bíblico que inspirou o nome do grupo, sua “traição” se destinava a um fim nobre. No Evangelho está escrito que Caifás pagou Judas para que entregasse Jesus Cristo. O resultado foi a salvação da Humanidade. Já os caifazes de Antonio Bento formaram uma inédita força abolicionista no final do século XIX, em São Paulo.

Com o fim da Guerra do Paraguai, em 1870, cresciam as rebeliões escravas no estado. Em seis anos, o conflito dizimara milhares de soldados brasileiros – e entre eles os negros eram tantos que formavam, segundo a propaganda racista paraguaia, “um exército de macacos”. Eram os “Voluntários da Pátria”, escravos alforriados pelo imperador para irem lutar na guerra, ou mandados para o combate em lugar dos filhos de gente abastada, que assim escapava à “recoluta”, o temido recrutamento militar. A eles era prometida a liberdade quando retornassem. Promessa não cumprida: o fim da guerra os devolvera à amarga realidade da chibata e do tronco nas fazendas de café, a base do novo poder econômico paulista.

Agitações e fugas de escravos tornaram-se frequentes, e cada vez mais numerosos os seus apoiadores. Entre estes destacou-se Antonio Bento de Souza e Castro (1843-1898). Filho de uma abastada família paulistana, ele era visto como excêntrico por seus modos e sua aparência. “Magro, estreitado, do tornozelo à orelha, no longo capote preto como num tubo, chapéu alto, cabeça inclinada, mãos nos bolsos, quebrando contra o peito pela fenda da gola o rijo cavaignac de arame, o olhar disfarçado nos óculos azuis como uma lâmina no estojo, marcha retilínea de passo igual tirado sobre articulações metálicas...”, como foi descrito pelo escritor Raul Pompeia.

Formado bacharel em Direito em 1868, Antonio Bento logo assumiu a promotoria pública da comarca de Botucatu, sendo em seguida transferido para a de Limeira. Três anos depois já era juiz municipal em Atibaia. Tinha então 29 anos. Acumulando as funções de juiz e delegado de polícia, tornou-se figura controversa na cidade – em meio a disputas políticas de conservadores, liberais e republicanos –, especialmente por seus despachos favoráveis aos escravos, sustentando que era ilegal manter nessa condição os africanos introduzidos no país após as leis de 1831 e 1850, que proibiram o tráfico. Também costumava nomear abolicionistas para arbitrar o preço das cartas de alforria. Eram motivos suficientes para desencadear contra o juiz a fúria das elites locais, dos escravocratas e de magistrados favoráveis a seus interesses. Antonio Bento chegou a sofrer tentativas de assassinato, e em 1875 acabou demitido, “a bem do serviço público”, por pressão dos desafetos. Mal sabiam que, longe de suas funções oficiais, o ex-juiz cairia nos braços da militância abolicionista mais aguerrida. E se tornaria célebre por isso.

Radicado em São Paulo desde 1877, dedicando-se à advocacia e ao jornalismo – como editor, entre outros, do jornal A Redenção –, conheceu o abolicionista Luiz Gama em 1880. Dois anos depois, juraria diante do túmulo do amigo ocupar seu lugar à frente da luta contra a escravidão. Mas estava disposto a agir por métodos distintos da batalha jurídica travada por Gama. Nascia ali a ideia de organizar seus caifazes.

Negando o instrumento legal da alforria como única via de emancipação, o grupo valia-se da força e da astúcia para atacar diretamente a propriedade escrava. Para isso, contava com centenas de colaboradores anônimos. Organizados em pequenos grupos de ação nas cidades ou disfarçados de caixeiros-viajantes no interior – os chamados “cometas” –, promoviam fugas em massa das fazendas, roubavam escravos em casas de família e realizavam mirabolantes resgates em estações ferroviárias. Depois ajudavam os fugitivos a chegar a refúgios seguros, como o Quilombo do Jabaquara, organizado e mantido por abolicionistas santistas a partir de 1882, e por onde se calcula que passaram cerca de 10 mil escravos fugidos.

Um dos segredos de Antonio Bento para costurar sua vasta rede de solidariedade era circular por diferentes setores sociais. Se por um lado era integrante da Maçonaria, filiado à loja Piratininga, e provedor da poderosa Irmandade de Nossa Senhora dos Remédios, convivendo de perto com membros da elite, também participava ativamente das confrarias religiosas negras de Nossa Senhora do Rosário, Santa Ifigênia e Santo Elesbão. O movimento dos caifazes contava assim com a ação de magistrados, advogados, chefes de polícia, parlamentares, jornalistas, comerciantes, donos de armazéns, controladores da Alfândega, empregados em serviços de navegação costeira e de longo curso e até mesmo membros de famílias de fazendeiros e corretores de café, mantendo também, ao mesmo tempo, uma vigorosa rede de apoio popular. 

Os mais abastados bancavam os deslocamentos dos caifazes e “cometas”, a fuga e o refúgio aos escravos foragidos e até as custas dos processos para conseguir sua libertação ou a compra das cartas de alforria. Tratavam também de conseguir para os escravos resgatados colocações como trabalhadores livres em fazendas de café de outras regiões, no porto ou em pequenos serviços urbanos, como carregadores, carroceiros, pedreiros ou vendedores.

Por sua vez, a arraia miúda do povo, organizada em torno das irmandades negras, dava ao movimento um apoio invisível, mas vital. Era o caso dos modestos empregados das estradas de ferro – ironicamente, a última novidade destinada a incrementar a exportação do café. Graças àqueles caifazes, os trens se tornaram o principal meio para as fugas de escravos, que eram conduzidos clandestinamente até a capital ou o porto de Santos. Cocheiros e carroceiros das estações eram outros a favorecer escapadas espetaculares, em resgates feitos em plena luz do dia. Houve mesmo um caso em que se juntaram a cerca de 500 populares na astuciosa armação de um conflito de rua, onde destemidos capoeiras desbarataram um grupo de policiais e capitães do mato para impedir que dez escravos por eles recapturados, depois de chegarem a Santos escondidos em tonéis de vinho, fossem embarcados no trem que iria conduzi-los de volta a fazendas do interior.

Em Santos, gente do povo e até imigrantes se encarregavam de cuidar das necessidades cotidianas da população flutuante de fugitivos do Quilombo do Jabaquara. Era o caso da negra Brandina, uma dona de pensão, e seu amásio, Santos “Garrafão”, português empregado numa casa de comércio de um influente abolicionista. Juntos, Brandina e o português mantinham um pequeno quilombo na Ponta da Praia e forneciam alimentos e cuidados de saúde na Santa Casa de Misericórdia para os refugiados no Jabaquara. “Garrafão” era um dos principais articuladores entre os caifazes de Antonio Bento em São Paulo e os abolicionistas santistas.

Ao confiscar a mão de obra escrava e inserir os recém-libertos no mercado de trabalho assalariado, Antonio Bento e seus caifazes conseguiram desarticular as bases da economia cafeeira paulista na década de 1880. Suas ações refletiam um sentimento que cada vez mais se generalizava entre todas as classes sociais: o repúdio à escravidão. Quando as próprias forças de segurança começaram a se recusar a perseguir os escravos fugidos tal o seu número, não era difícil antever a proximidade da abolição. Muito mais que uma concessão do poder imperial, ela foi, em São Paulo, uma conquista do povo e dos próprios escravos.





(Debret - tropeiros pobres de São Paulo)



segunda-feira, 17 de novembro de 2014

ESCOICEADOS, de Donizete Galvão




       
Meu pai e eu
nunca subimos
num alazão
que galopasse
ao vento.
Tínhamos
um burro
cinza-malhado:
o Ligeiro.
Foi apanhado
de um conhecido
por ninharia.
Chegou com fama
de sistemático,
cheio de refugos.
De trote tão curto
que dava dor
nas costelas.
De certa vez,
caímos do burro.
Meu pai e eu.
Eu e meu pai.
Embolados.
Joelhos esfolados
no pedregulho.
Levamos
bons coices.
Meu pai e eu.
Os dois
nunca subimos
na vida.


(Ruminações)



(Ilustração: John Keaton - father and son)



sexta-feira, 14 de novembro de 2014

A NORA, de Yara Maria Camillo


     






– Chegaram, Juliana!

A Mãe corre até a janela: o filho vem com a nova mulher, que nem de longe condiz com sua expectativa.

Pequena, magra, cabelos rebeldes, olhos muito vivos – deve ser por conta deles o sorriso que brilha.

Desconcertante: é a palavra que ocorre, à Mãe, para explicar a decepção. Tanta moça em São Paulo e ele foi se engraçar com essa, pensa, tomando fôlego para ir à sala.

Chega a tempo de ver o Pai abraçando o filho e recebendo a nora:

– Seja bem-vinda. E que sorriso bonito! Foi assim que você pescou esse caboclo?

Pronto, lá vai o Pai, com a corda toda. E ela, a Mãe, como fica? Não tem vocação para rapapés, o máximo que consegue é ser educada.

– Gostei dessa menina, Juliana, porque quando entrou, em vez de reparar nos móveis, olhou para as pessoas.

Que pessoas? – a Mãe suspira. Faz tempo que só restam ela e ele, na casa.

– Muito prazer – ela diz, num esforço.

– Oi – diz a Moça.

Oi? Isso é jeito de se cumprimentar? Pensa a Mãe, abraçando o filho.

– Venha tomar um café, menina – o Pai convida, esbanjando o encanto que só ele tem, quando lhe dá na veneta. – Aqui o café a gente mói na hora, quer ver?

Por insegurança, ou porque gostou mesmo do Pai, a Moça se desmancha em sorrisos e, justiça seja feita, ela sorri com os olhos também. A mãe concede o veredicto: Simpática. Não digo encantadora, mas simpática.

O café saiu amargo, pensa a Mãe. A Moça parece ignorá-la, condescender a cada pergunta que ela faz, enquanto, com o Pai, nossa, até parece que os dois se conhecem há anos.

Quero só ver essa menina, lá no sítio.

Pois o Pai já começou a falar do sítio, que ele conserva à moda antiga, na base do lampião e fogão de lenha, horta, cafezal, passarinhos como já quase não há por essas bandas, morcego, cobra, tatu…

A surpresa da Moça é tudo que o Pai precisa para se espalhar, pensa a Mãe. Quando ele se cansar, talvez ela possa oferecer os presentes que separou para a Moça, para o filho: roupas de cama, mesa e banho; é o mínimo que se pode dar a quem se casou assim, sem avisar a família.

A Moça surpreende, fica muito à vontade no sítio, prova as frutas, acompanha o Pai num passeio pela horta, pelo cafezal, pergunta de tudo e vai repetindo o nome das plantas, dos passarinhos… À tardinha, se deslumbra com o pôr-do-sol, já ganhou uma cor, parece mais assentada, agora.

A Mãe acende o lampião, mostra o álbum com fotos das antigas terras da família. A Moça admira as paisagens, os detalhes:

– Qual dessas fazendas era do seu avô?

– Todas – responde a Mãe, feliz pela primeira vez, no dia que se finda.

– Meus avós eram colonos numa fazenda assim.

A simplicidade das palavras, sem revolta nem pejo, confirma a impressão da Mãe: a nora é, decididamente, desconcertante.

– Moça esquisita, não? – ela comenta com o Pai, antes de dormir. – Magrinha, espevitada, vai ver nem tem boa saúde.

– O que lhe falta em corpo, sobra em alma – diz o Pai.

– Sabe o que eu acho?

– Sei, Juliana, sei.

A Mãe fecha os olhos. Não era isso que queria, para o filho. Mas nessa noite sonha com a filha que nunca teve: as duas de mãos dadas, fugindo da chuva para o rancho à margem do Tietê. No tempo do sonho resumem-se os dias e os anos, Natal, São João, uma festa noite adentro, um café ao amanhecer. Nos cabelos rebeldes da filha, o primeiro fio de prata: Olha só, mãe! As duas riem, se olham. Mas aquele rosto não é o da filha, é o da nora.

– Será? – pensa a Mãe, ao acordar.

Já na cozinha, passando o café, vê a nora junto à porta:

– Quer ajuda, Dona Juliana?

– Quero, filha.



(Ilustração: Edward Munch - melancolia)






terça-feira, 11 de novembro de 2014

LÍMITES / LIMITES, de Juan Gelman




  


¿Quién dijo alguna vez: hasa aquí la sed,
hasta aquí el agua?

¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí el aire,
hasta aquí el fuego?

¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí el amor,
hasta aquí el odio?

¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí el hombre,
hasta aquí no?

Sólo la esperanza tiene las rodillas nítidas.
Sangran.



Tradução de Antonio Miranda:



Quem disse alguma vez:  até aqui a sede,
até aqui a água?

Quem disse alguma vez: até aqui o ar,
até aqui o fogo?

Quem disse alguma vez: até aqui o amor,
até aqui o ódio?

Quem disse alguma vez: até aqui o homem,
até aqui não?

Somente a esperança tem joelhos nítidos.
 Sangram.




(Ilustração: Érika Cardoso)


sábado, 8 de novembro de 2014

O PREÇO DO CONFLITO DE 1939-1945, de Max Hastings



  



Grande parte dos alemães achou que suas cidades arrasadas, suas indústrias destroçadas e seus milhões de mortos pagavam pelos crimes do nazismo. Os jovens sentiram um misto de aturdimento e de revolta pelo fato de os mais velhos, em quem confiavam, os colocarem naquela situação. "Eu não sabia o que devia sentir", disse Helmut Lott, um adolescente em 1945. "Determinado mundo - um mundo em que eu crescera e em que acreditara - foi destruído." Muitos alemães entraram em conluio para que antigos nazistas se mesclassem, impunes, à sociedade pós-guerra. "Hoje, ninguém acredita num alemão decente", disse com amargura Hildergard Trutz, mulher de um antigo oficial das SS, em 1947, "mas qualquer coisa que aqueles judeus imundos dizem se torna o evangelho." A América do Sul tornou-se um destino popular para os intransigentes e para muitos dos mais odiosos criminosos de guerra. Alguns chegaram a receber a proteção da Igreja Católica durante a viagem pela Europa.

Apenas uma minúscula fração dos culpados por crimes de guerra foi processada, em parte porque os vitoriosos não tinham estômago para a escala de execuções, na casa de centenas de milhares, que seriam necessárias se fosse aplicada rigorosa justiça contra cada assassino do Eixo. Menos de mil execuções punitivas ocorreram nas zonas de ocupação ocidental. Cerca de 920 japoneses foram executados, mais de trezentos pelos holandeses, por crimes cometidos nas Índias Orientais. Os Aliados preferiram tratar a Áustria como vítima, e não como parceira na culpa alemã na guerra, por isso não houve ali nenhum processo sério de "desnazificação". O antigo oficial da Wehrmacht Kurt Waldheim foi um dos muitos austríacos cúmplices de crimes de guerra - em seu caso, o assassinato de prisioneiros britânicos nos Bálcãs. Com pleno conhecimento desses fatos, seus compatriotas o elegeram chanceler.

Muitos alemães condenados por assassinatos em massa cumpriram penas de prisão por apenas alguns anos ou livraram-se pagando uma multa de cinquenta Reichmarks, valor insignificante. Os alemães e os japoneses não estavam totalmente errados ao considerar os julgamentos internacionais por crimes de guerra de 1945 e 1946 como "a justiça dos vitoriosos". Alguns britânicos e americanos, e muitos russos, eram culpados de crimes contra a lei internacional, notavelmente a matança de prisioneiros, mas poucos enfrentaram sequer a corte marcial. Pertencer ao lado vitorioso era suficiente para garantir anistia; os crimes de guerra cometidos pelos Aliados raramente foram reconhecidos. O comandante britânico de submarino "Gamp" Miers, por exemplo, que em 1941 afligiu até mesmo seus próprios tripulantes ao insistir que os soldados alemães que tentavam sobreviver no Mediterrâneo depois do afundamento de seus caíques fossem metralhados, recebeu uma Victoria Cross e, mais tarde, foi promovido a almirante. Soldados americanos, canadenses e britânicos que de forma rotineira executavam atiradores de elite e prisioneiros das Waffen SS no campo de batalha, em suposta retaliação por atos similares, nunca foram formalmente acusados. Os julgamentos e as sentenças de Tóquio e de Nuremberg representaram não a injustiça, mas uma justiça parcial.

Tanto na Europa quanto na Ásia, a partir de 1945, o confronto com a União Soviética criou novos imperativos estratégicos, que exigiriam o alistamento de milhares de criminosos de guerra alemães e japoneses em organizações de inteligência e em estabelecimentos de pesquisa científica americanos, britânicos e russos. Com notável cinismo, os americanos anistiaram o comandante japonês da Unidade 731 de guerra biológica, tenente-general Shiro Ishii, em troca de seus segredos. Depois de uma investigação, cientistas americanos em Camp Detrick declararam que os dados fornecidos por Ishii eram inúteis. Porém, como resultado de uma decisão pessoal do comandante supremo general Douglas MacArthur, muitos dentre os vinte mil cientistas e físicos envolvidos no programa japonês de guerra biológica puderam retomar confortavelmente carreiras na vida civil, apesar de responderem por horrendos assassinatos na China. O único castigo por suas atrocidades foi aplicado pelos russos, que condenaram doze dos principais membros da Unidade 731 num julgamento em Khabarovsk, em 1949. Os culpados receberam longas sentenças de prisão; o quartel-general de MacArthur em Tóquio denunciou como propaganda tanto os julgamentos quanto as fundamentadas alegações soviéticas de um acobertamento americano aos crimes de guerra biológica do Japão.

Quem seria responsabilizado pela catástrofe que desabou sobre o Japão? O suboficial de marinha Kisao Ebisawa não deu muita importância ao assunto: "Os chefes militares... As pessoas do comando." Mas, então, acrescentou: "A rigor, porém, é preciso incluir o país inteiro, porque seu estado de espírito havia muito tempo nos arrastava para a guerra. Houve uma inevitabilidade horrível na maneira como mergulhamos cada vez mais fundo no atoleiro." Depois de 1945, o povo japonês rejeitou seus militaristas, e até mesmo os soldados que combateram na guerra, com um fervor que angustiou os veteranos do país, muitos dos quais nunca se arrependeram. O coronel Hattori Takushiro, ex-secretário militar do ministro Daurer no Japão, escreveu, com orgulho, em 1956: "O exército japonês não teve rival em sua incrível capacidade de luta, o que é uma questão separada do fato de perder a guerra." O povo japonês abraçou os Estados Unidos do pós-guerra com um entusiasmo que conquistou o coração de grande parte dos americanos que serviram no exército de ocupação. As campanhas de conquista japonesas, e o modo como tratavam os povos subjugados, especialmente os chineses, foram assuntos banidos do debate político ou social, e até dos currículos escolares. Hiroshima e Nagasaki dominaram a perspectiva japonesa depois da guerra; o imperador Hirohito manteve o trono, ainda que tenha conduzido o país à guerra, o que tornava menos plausível que seus súditos reconhecessem uma culpa coletiva.

O escritor japonês Kazutoshi Hando, sobrevivente dos incêndios em Tóquio, disse, em 2007: "Depois da guerra, atribuiu-se culpa exclusivamente ao exército e à marinha japoneses. Parecia justo, porque a população civil sempre fora enganada pelas forças armadas sobre o que era feito. O Japão civil não tinha um sentimento de culpa coletiva - e era isso que queriam os americanos, que ganharam a guerra e ocuparam o país. Da mesma forma, foram os americanos que insistiram para que a história moderna japonesa não fosse ensinada nas escolas. A consequência é que poucas pessoas com menos de cinquenta anos têm qualquer conhecimento sobre a invasão japonesa à China ou a colonização da Manchúria." No começo do século XXI, Hando fez uma palestra numa faculdade para mulheres sobre a era Showa: "Pedi a cinquenta alunas que listassem os países que não haviam lutado contra o Japão nos tempos modernos: onze delas incluíram os Estados Unidos."

"É importante discutir francamente o que aconteceu na Segunda Guerra Mundial", acrescentou Hando, "porque as relações atuais entre a China e o Japão são muito fracas. Porém, uma dificuldade para iniciar essa discussão é que pouquíssimos jovens japoneses conhecem os fatos. Muitas pessoas não apoiam nossos militantes nacionalistas, mas, ainda assim, sentem-se ofendidas com as infindáveis críticas vindas da China e da Coreia. Não gostam que esses países metam o nariz em assuntos que, para elas, dizem respeito ao povo japonês. Muitos acham que já nos desculpamos pela guerra: um ex-primeiro-ministro foi responsável pelo mais exagerado pedido de desculpas. Por mim, já pedimos desculpas suficientes." O assunto ainda não é ponto pacífico, e alguns britânicos e americanos discordam veementemente de Hando. Em 2007, por exemplo, o chefe da força aérea japonesa foi obrigado a renunciar ao cargo depois de publicar um artigo em que ressaltava a natureza filantrópica das atividades japonesas na China entre 1937 e 1945.

A Palestina está entre as regiões mais conspicuamente influenciadas pelo resultado do conflito. Por mais de duas décadas de mandato britânico, seu futuro foi intensamente debatido. O capitão David Hopkinson estava entre as centenas de milhares de soldados britânicos que passaram pela "Terra Santa" durante a guerra, e meditou sobre seu legítimo destino. Hopkinson tinha um interesse especial pela questão, porque sua mulher era em parte judia. E em 1942, ele escreveu-lhe uma carta, em Haifa, manifestando hostilidade ao sionismo, com base em sua crença de que "os judeus têm enorme valor nos países onde se estabeleceram há muito tempo. Estou tão impressionado quanto qualquer um deve ficar com as realizações técnicas e culturais dos judeus na Palestina, mas que uma minoria intensamente nacionalista tente esculpir para si um estado independente em territórios que outros também reivindicam me parece incoerente com os elevados ideais de paz e de humanidade em que os europeus civilizados acreditam".

Porém, em 1945, essas visões moderadas foram solapadas pelas horrendas revelações sobre o Holocausto. É importante enfatizar que, mesmo depois que os documentários com cenas dos campos libertados de Belsen e Buchenwald escandalizaram o mundo civilizado, a dimensão do genocídio dos judeus só foi apreendida lentamente, meso pelos governos ocidentais. Contudo, tornou-se evidente que os judeus da Europa haviam sido vítimas de um programa de assassinato em massa particularmente satânico, que deixou muitos sobreviventes sem teto e sem recursos. O comissário de Imigração dos Estados Unidos, Earl Harrison, visitou os acampamentos para Deslocados de Guerra na Europa e horrorizou-se com o que encontrou ali. Em agosto de 1945, ele informou ao presidente Truman: "Parece que estamos tratando os judeus como os nazistas fizeram, com a diferença de que não os exterminamos." Por uma enorme ironia da história, a perseguição de Hitler aos judeus transformou a sorte desse povo no mundo inteiro, dando ao sionismo um ímpeto que pareceu, a muitos ocidentais, moralmente irresistível. Nunca mais o antissemitismo seria socialmente aceito nas sociedade democráticas ocidentais; ao mesmo tempo, a matança de judeus europeus precipitou a criação do estado de Israel em 1948. Ainda assim, se o Holocausto produziu um impacto devastador e duradouro sobre a cultura ocidental, muitas outras sociedades ao redor do mundo jamais se identificaram com seu significado e, em alguns casos, até negam sua existência. Um ressentimento generalizado persiste por as potências ocidentais terem aliviado sua culpa quanto a destino dos judeus na guerra fazendo um grande gesto histórico em terras identificadas pelos mulçumanos como legitimamente árabes.

Há uma questão mais ampla: alguns historiadores modernos, cidadãos de países que foram, um dia, possessões europeias, veem seus povos como vitimas de exploração durante a guerra e sugerem que a Grã-Bretanha, em especial, os envolveu numa luta em que não tinham qualquer interesse, por uma causa que, propriamente, não era deles. Tais argumentos representam pontos de vista, mais do que conclusões probatórias, mas parece importante que os ocidentais reconheçam esses sentimentos como contraponto à noção instintiva de que nossos avós combateram "a Boa Guerra".

Na cultura ocidental, é claro, o conflito continua a exercer fascínio extraordinário para gerações que nem eram nascidas quando ele ocorreu. A explicação óbvia é ter sido o maior e mais terrível evento na história humana. No vasto escopo da luta, alguns indivíduos escalaram picos de coragem e de nobreza, enquanto outros rolaram para as profundezas do mal de um modo que impressiona a posteridade. Para cidadãos pertencentes à democracias modernas, que desconhecem grandes dificuldades e perigos coletivos, as atribulações que centenas de milhões suportaram entre 1939 e 1945 quase escapam à compreensão. Praticamente todos aqueles que participaram, países ou indivíduos, fizeram concessões morai. É impossível dignificar a luta como uma simples contenda entre o bem e o mal ou comemorar racionalmente uma experiência, e até um desfecho, que impôs tanto sofrimento a tantas pessoas. A vitória aliada não trouxe paz, prosperidade, justiça ou liberdade universais - trouxe apenas uma fração desses elementos a uma parcela daqueles que participaram do conflito. O que parece certo é que a vitória aliada salvou o mundo de um destino muito pior que se seguiria ao triunfo da Alemanha e do Japão. É com essa certeza que aqueles que buscam a virtude e a verdade devem se contentar.


(Inferno - o mundo em guerra 1939-1945; tradução de Berilo Vargas)



(Ilustração: Jen Leon Gerôme - la verité)







quarta-feira, 5 de novembro de 2014

INFÂNCIA, de Paulo Mendes Campos



   




Há muito, arquiteturas corrompidas,
Frustrados amarelos e o carmim
De altas flores à noite se inclinaram
Sobre o peixe cego de um jardim.
Velavam o luar da madrugada
Os panos do varal dependurados;
Usávamos mordaças de metal
Mas os lábios se abriam se beijados.
Coados em noturna claridade,
Na copa, os utensílios da cozinha
Falavam duas vidas diferentes,
Separando da vossa a vida minha.
Meu pai tinha um cavalo e um chicote;
No quintal dava pedra e tangerina;
A noite devolvia o caçador
Com a perna de pau , a carabina.
Doou-me a pedra um dia o seu suplício.
A carapaça dos besouros era dura
Como a vida — contradição poética —
Quando os assassinava por ternura.
Um homem é, primeiro, o pranto, o sal,
O mal, o fel, o sol, o mar — o homem.
Só depois surge a sua infância-texto,
Explicação das aves que o comem.
Só depois antes aparece ao homem.
A morte é antes, feroz lembrança
Do que aconteceu, e nada mais
Aconteceu; o resto é esperança.
O que comigo se passou e passa
É pena que ninguém nunca o explique:
Caminhos de mim para mim, silvados,
Sarçais em que se perde o verde Henrique.
Há comigo, sem dúvida, a aurora,
Alba sanguínea, menstruada aurora,
Marchetada de musgo umedecido,
Fauna e flora, flor e hora, passiflora,

Espaço afeito a meu cansaço, fonte,
Fonte, consoladora dos aflitos,
Rainha do céu, torre de marfim,
Vinho dos bêbados, altar do mito.
Certeza nenhuma tive muitos anos ,
Nem mesmo a de ser sonho de uma cova,
Senão de que das trevas correria
O sangue fresco de uma aurora nova.
Reparte-nos o sol em fantasias
Mas à noite é a alma arrebatada.
A madrugada une corpo e alma
Como o amante unido à sua amada .

O melhor texto li naquele tempo,
Nas paredes, nas pedras, nas pastagens,
No azul do azul lavado pela chuva,
No grito das grutas, na luz do aquário,
No claro-azul desenho das ramagens,
Nas hortaliças do quintal molhado
( Onde também floria a rosa brava )
No topázio do gato, no be-bop
Do pato, na romã banal, na trava
Do caju, no batuque do gambá,
No sol-com-chuva, já quando a manhã
Ia lavar a boca no riacho.
Tudo é ritmo na infância, tudo é riso,
Quando pode ser onde, onde é quando.

A besta era serena e atendia
Pelo suave nome de Suzana.
Em nossa mão à tarde ela comia
O sal e a palha da ternura humana.
O cavalo Joaquim era vermelho
Com duas rosas brancas no abdômen;
À noite o vi comer um girassol;
Era um cavalo estranho feito um homem.
Tínhamos pombas que traziam tardes
Meigas quando voltavam aos pombais;
Voaram para a morte as pombas frágeis
E as tardes não voltaram nunca mais.
Sorria à toa quando o horizonte
Estrangulava o grito do socó
Que procurava a fêmea na campina.
Que vida a minha vida! E ria só.

Que âncora poderosa carregamos
Em nossa noite cega atribulada!
Que força do destino tem a carne
Feita de estrelas turvas e de nada!
Sou restos de um menino que passou.
Sou rastos erradios num caminho
Que não segue, nem volta, que circunda
A escuridão como os braços de um moinho.




(Ilustração: F. Morgan - colin-maillard)