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quinta-feira, 6 de agosto de 2026
WAKEFIELD, de Nathaniel Hawthorne
Numa velha revista ou jornal, lembro haver lido uma história, contada como verdadeira, de um homem – vamos chamá-lo de Wakefield – que se afastou voluntariamente por um longo tempo de sua esposa. O fato, visto assim de maneira abstrata, não é propriamente incomum e nem deve – sem uma conveniente distinção de circunstâncias – ser condenado por maldade ou por disparate. Seja como for, ainda que distanciado de outros piores, este é talvez o mais estranho exemplo, em registro, de delinquência marital; e, além do mais, um capricho entre os mais notáveis que se possa encontrar na lista das extravagâncias humanas. O casal vivia em Londres. O marido, a pretexto de ter que viajar, alugou um aposento em rua próxima de sua própria casa, e ali, sem que a esposa e os amigos o percebessem, e sem qualquer justificativa para o autodesterro, viveu afastado por mais de vinte anos. Durante esse período, ele olhava o seu lar a cada dia, e com frequência avistava a abandonada senhora Wakefield. E depois de tão grande vazio na sua felicidade matrimonial – quando sua morte já era dada por certa, sua herança dividida, seu nome apagado das memórias, e sua esposa há longo, longo tempo resignada à outonal viuvez – ele entrou pela porta uma noite, tranquilamente, como se houvesse estado ausente apenas um dia, e se tornou um esposo dedicado até morrer. Este resumo é tudo que lembro. Mas o incidente, ainda que da mais pura originalidade, sem precedentes, e que provavelmente nunca virá a ser repetido, é daqueles que, penso eu, despertam a geral simpatia da humanidade. Sabemos, cada um por si, que nenhum de nós seria capaz de cometer tal loucura, entretanto sentimos como se alguns outros pudessem fazê-lo. Em minhas próprias reflexões, pelo menos, o assunto tem voltado muitas vezes, sempre prodigioso, mas com uma sensação de que a história deve ser verdadeira e com um conceito do caráter de seu herói. Sempre que temas tão envolventes afetam a mente, o tempo não é perdido quando se pensa neles. Se o leitor quiser escolher, poderá fazer suas próprias meditações; mas se preferir divagar comigo ao longo dos vinte anos de excentricidade de Wakefield, eu lhe dou as boas-vindas; confiando que, ainda que falhemos em encontrá-los, haverá uma moral e um espírito penetrante sinceramente elaborados e sintetizados na sentença final. O pensamento sempre tem sua eficácia, e todo incidente notável sua moral
Que tipo de homem era Wakefield? Somos livres para dar forma à nossa própria ideia e chamá-la pelo nome dele. Estava agora no meridiano da vida; as afeições conjugais, nunca violentas, permaneciam serenas, num sentimento calmo e habitual. De todos os maridos, é provável que fosse o mais constante, pois uma certa indolência mantinha o seu coração em repouso, onde quer que estivesse. Era intelectual, mas de modo não ativo; ocupava a mente em demorados e preguiçosos devaneios, sem propósito definido ou sem vigor para atingi-lo. Seus pensamentos só raras vezes tinham energia para estruturarem-se em palavras. A imaginação, na significação própria do termo, não alcançava os dons de Wakefield.
Tendo um coração frio, mas não corrompido nem errático e um espírito nunca afetado por pensamentos tumultuosos, nem aturdido por originalidades, quem poderia prever que o nosso amigo iria posicionar-se num lugar de destaque entre os realizadores de façanhas excêntricas? Se fosse perguntado a seus conhecidos quem era, em Londres, o homem mais certo para não fazer algo hoje que pudesse ser recordado amanhã, eles teriam pensado em Wakefield. Só a esposa de seu coração teria hesitado. Ela, sem necessidade de analisar seu caráter, estava parcialmente consciente de um silencioso egotismo incrustado na mente passiva – de uma peculiar espécie de vaidade, seu atributo mais embaraçoso – de uma disposição para a astúcia, que raramente produzia efeitos mais positivos do que guardar insignificantes segredos, demasiado triviais para serem revelados – e, finalmente, do que ela chamava “uma pequena esquisitice”, às vezes, no bom homem. Esta última qualidade é indefinível e talvez não existente.
Vamos agora imaginar Wakefield despedindo-se de sua esposa. É o crepúsculo de uma tarde de outubro. Sua bagagem se compõe de um sobretudo pardacento, um chapéu de oleado, botas altas, um guarda-chuva numa das mãos e uma maleta na outra. Informa à senhora Wakefield que pegará o coche noturno para o campo. De boa vontade, ela deveria indagar sobre a duração da viagem, o objetivo dela, e o tempo provável para o retorno; no entanto, tolerante com o inocente amor do marido pelo mistério, interroga-o apenas com o olhar. Ele lhe diz que não espere com certeza pela volta do coche, nem ficasse alarmada se ele tiver que se demorar por três ou quatro dias; mas que, em todo caso, podia contar com ele para o jantar na sexta-feira à noite. O próprio Wakefield, isto deve ser levado em consideração, não tem a menor suspeita do que vai acontecer. Ele adianta as mãos; ela estende as suas próprias e recebe o beijo de despedida ao modo rotineiro de um casamento de dez anos. E o senhor Walkfield, de meia-idade, segue em frente, quase decidido a desnortear sua boa esposa com uma ausência de uma semana inteira. Depois de fechada a porta atrás dele, a senhora Wakefield percebe que esta se entreabre novamente e uma visão do rosto de seu marido reaparece através da abertura, sorrindo para ela, e isso dura apenas um momento. Em suas múltiplas meditações ela circunda esse sorriso original com uma profusão de fantasias, que o fazem estranho e terrível. Se, por exemplo, ela imagina o marido num ataúde, aquele olhar de despedida mantém-se gélido no rosto pálido; ou, se acaso sonha que ele está no céu, o abençoado espírito ainda mostra um sorriso tranquilo e astucioso. Contudo, no seu interesse, quando todos os demais o têm julgado morto, ela às vezes duvida se é uma viúva.
Mas, o nosso assunto é com o marido. Devemos correr ao seu encontro, acompanhá-lo pelas ruas, antes que perca a individualidade e se desvaneça na grande massa da vida de Londres. Seria inútil procurá-lo aí. Por isso, vamos segui-lo bem de perto, até que, após vários giros e voltas supérfluos, o encontramos confortavelmente instalado à frente da lareira, no pequeno aposento já mencionado. Ele está na rua seguinte à de sua própria casa e no final de sua viagem.
Dificilmente pode atribuir à boa sorte o fato de haver chegado ali sem ser visto – recordando que, em dada ocasião, foi retardado pela turba, ao ficar sob o foco de luz de uma lanterna; e, de outra feita, escutou pisadas que pareciam segui-lo, pisadas diferentes do caminhar habitual da multidão ao redor; e, logo depois, ouviu uma voz distante que gritava e ele imaginou que chamava pelo seu nome. Sem dúvida, uma dúzia de pessoas apressadas e curiosas deveria tê-lo visto e ido contar tudo para a esposa. Pobre Wakefield! Quão pouco sabes do brilho de tua própria insignificância neste vasto mundo! Nenhum olho mortal, exceto o meu, seguiu tuas pegadas. Vá tranquilamente para a cama, homem insensato; e, pela manhã, se fores sábio, retorna para casa, para a boa senhora Wakefield e conta a ela a verdade. Não te afastes, nem mesmo por uma semana, do lugar que ocupas em seu puro coração. Se por um único momento, tivesse ela te julgado morto, ou perdido, ou definitivamente afastado dela, terias com aflição tomado consciência de uma mudança irreversível na lealdade dela. É perigoso abrir uma fenda nas afeições humanas; não porque se rompa ou alargue em demasia - mas porque se fecha de novo, rapidamente.
Quase arrependido de sua maluquice, ou qualquer que seja o termo que a denomine, Wakefield deita-se cedo, e acordando depois da primeira soneca, estende os braços no largo e solitário espaço restante da cama inabitual. “Não” – pensa ele, ajeitando o corpo sob as cobertas – “Não dormirei mais sozinho uma única noite.”
Pela manhã, levanta mais cedo que de costume, e se põe a considerar o que realmente deseja fazer. Tão vago e desconexo é o seu modo de pensar, que ele tem consciência de haver dado aquele passo singular com um propósito, é certo, mas acha-se incapaz de defini-lo com suficiente clareza. A vaguidade do projeto e o desordenado esforço empregado na sua execução, caracterizam de modo igual um homem de personalidade débil. Wakefield, entretanto, examina as suas ideias tão minuciosamente quanto pode, e sente-se curioso em saber como vai o curso das coisas em sua casa – como sua esposa exemplar suportará a viuvez de uma semana; e, em síntese, como a pequena esfera de pessoas e situações, na qual ele era um objeto central, será afetada pela sua ausência. Uma vaidade mórbida, por isso, jaz muito próxima do fundo desse caso. Mas, o que fazer para alcançar os seus fins? Não, por certo, manter-se enclausurado neste alojamento confortável, onde, embora tivesse dormido e acordado na rua seguinte à de sua casa, ele efetivamente sente-se tão distante como se tivesse viajado toda a noite numa carruagem. Contudo, se reaparecesse, o projeto inteiro desabaria sobre sua cabeça. Com o pobre cérebro embaraçado nesse dilema sem esperança, ele finalmente aventura-se a atravessar parcialmente a esquina da rua e a lançar um olhar rápido na direção do domicílio abandonado. O hábito – pois ele é um homem de hábitos – segura-o pela mão e o conduz, sem que ele tenha a menor consciência, até a frente da própria porta, onde, justo no momento crítico, ele é despertado pelo arrastar de seus pés sobre o degrau. Wakefield, aonde você vai?
Nesse momento, o seu destino estava girando em torno de um centro. Pouco imaginando sobre a fatalidade que o primeiro passo de retorno proporcionava, sai dali apressado, mal podendo respirar ante a agitação nunca sentida até agora, e apenas ousa virar a cabeça ao chegar na esquina distante. Será que alguém o havia visto? Não teria o pessoal da casa – a honesta senhora Wakefield, a esperta empregada, e o sujo garotinho de recados – feito um alvoroço e saído pelas ruas de Londres, em busca de seu fugitivo senhor e amo? Milagrosa escapada! Ainda arranja coragem para deter-se e olhar na direção da casa, mas é desconcertado pela sensação de mudança que lhe transmite o familiar edifício, assim como somos todos afetados, quando após uma separação de meses ou anos, vemos de novo alguma colina ou lago, ou obra de arte, dos quais, antes, gostávamos especialmente. Nos casos normais, essa impressão indescritível é causada pela comparação e contraste entre as nossas lembranças imperfeitas e a realidade. Em Wakefield, a mágica de uma simples noite produziu uma transformação semelhante, porque, nesse breve período, houve uma forte mudança moral. Mas ele próprio não sabe disso. Antes de deixar o local, percebe um longínquo e momentâneo relance de sua esposa, que passa pela janela da frente, com o rosto voltado para a extremidade da rua. O ingênuo matreiro então foge do local, apavorado com a ideia de que os olhos dela o tenham reconhecido, tal como ele se considera, entre os milhares de átomos mortais. Quando se encontra diante do calor da lareira, em seu alojamento, o coração está alegre, embora o cérebro se ache meio aturdido.
É o suficiente para o começo desta longa extravagância. Depois da ideia inicial, e da incitação do caráter lerdo do nosso personagem para colocá-lo em atividade, todo o assunto desenvolve-se num curso natural. Podemos presumi-lo, como resultado de profunda deliberação, comprando uma nova peruca, de cabelos avermelhados, e escolhendo diversos artigos no baú de liquidação de roupas de um judeu, num estilo diferente de seu costumeiro terno marrom. Está completo.
Wakefield é outro homem. Estabelecido agora o novo sistema de vida, um movimento retrógrado para o antigo seria quase tão difícil quanto a circunstância que o colocou na presente posição sem paralelos. Além disso, ele se obstina num mau humor, ocasionalmente peculiar a seu temperamento, mas que agora se deve à sensação inadequada que ele concebe haver sido produzida no íntimo da senhora Wakefield. Não retornará para casa enquanto não a considerar mortalmente assustada. Bem, ela já passara duas ou três vezes ante seus olhos, a cada vez com um passo mais pesado, um rosto mais pálido, um aspecto mais ansioso; e, na terceira semana de seu desaparecimento, ele nota um presságio do mal a entrar na casa, na figura de um farmacêutico. No dia seguinte, a aldrava da porta traz uma cobertura para abafar o barulho. Ao cair da noite, surge a carruagem de um médico e deposita, à porta da casa de Wakefield, a sua carga solene, de grande peruca, de onde, após um quarto de hora de visita, emerge, talvez o arauto de um funeral. Querida mulher! Estará para morrer?
Então, Wakefield é excitado por algo como uma energia de sentimento, mas ainda permanece afastado do leito de sua esposa, argumentando com sua consciência que não deve perturbá-la em tal conjuntura. Se outra coisa o retém, ele não sabe. No curso de poucas semanas, ela gradualmente se restabelece; a crise passa; o coração é triste, talvez, mas tranquilo; e, volte o marido cedo ou tarde, ela jamais ficará febril por ele de novo. Tais pensamentos bruxuleiam através das névoas da mente de Wakefield, e fazem-no indistintamente consciente de que um quase intransponível abismo divide o seu apartamento alugado de sua antiga casa. “Mas se fica apenas na outra rua!”, diz, às vezes. Tolo! fica num outro mundo. Até agora tem adiado o regresso de um particular dia para outro. De agora em diante fica indeterminado o dia preciso. Não será amanhã – provavelmente na próxima semana – o mais breve possível. Pobre homem! Os mortos têm aproximadamente tantas probabilidades de revisitarem seus lares terrestres quanto o autodesterrado Wakefield.
Pudesse eu escrever um livro, em vez de um artigo de doze páginas! Seria possível então exemplificar como uma influência, que vai além do controle, coloca a sua mão forte em cada ação que cometemos, e tece as suas consequências em férreo tecido de necessidade. Wakefield está enfeitiçado. Devemos deixá-lo, por dez anos ou mais, vaguear em torno de sua casa, sem uma vez sequer traspor o limiar, e ser fiel à sua esposa com todo o afeto de que é capaz seu coração, enquanto vagarosamente vai desvanecendo o dela.
Há muito tempo, deve acentuar-se, que ele perdeu a percepção da singularidade de sua conduta.
Agora, uma cena! Em meio à multidão de uma rua de Londres podemos distinguir um homem, já idoso, com poucas características que possam atrair observadores desatentos, entretanto mostrando em todo seu aspecto, aos que tiverem a habilidade para tal leitura, a caligrafia de um destino incomum. É magro; sua testa estreita e baixa tem vincos profundos; seus olhos, pequenos e sem brilho, às vezes passeiam apreensivos ao redor, mas, na maioria das vezes, parecem olhar para dentro. Abaixa a cabeça, mas se movimenta com uma obliquidade indescritível no jeito de andar, como se não quisesse mostrar-se de frente para o mundo. Observe-o, o tempo suficiente para ver o que descrevi, e irá concordar que as circunstâncias – que muitas vezes produzem homens notáveis a partir de matéria comum da natureza - aqui produziram um deles. Depois disso, deixando-o a andar obliquamente pelas calçadas, lance o olhar na direção oposta, onde uma mulher corpulenta, visivelmente no declínio da vida, dirige-se a uma igreja que fica lá adiante, levando na mão um livro de orações. Tem a plácida aparência da viuvez assumida. Suas tristezas, ou foram embora, ou se fizeram tão essenciais ao seu coração, que dificilmente seriam trocadas por alegrias. No exato instante em que o homem magro e a mulher robusta estão passando um pelo outro, ocorre um rápido incidente, que põe as duas figuras diretamente em contato. Suas mãos se tocam; a pressão da multidão faz roçar o peito dela sobre o ombro dele; estão de pé, cara a cara, olhando cada um nos olhos do outro. Depois de dez anos de separação, é assim que Wakefield encontra-se com sua esposa!
O torvelinho da multidão não deixa de fluir, arrastando-os, separados, em seu curso. A circunspecta viúva retoma o passo anterior e prossegue na direção da igreja, mas se detém no portal, e lança um olhar rápido e perplexo ao longo da rua. Segue adiante, contudo, abrindo o livro de orações. E o homem? Com um rosto tão exaltado que a atarefada e egoísta Londres permite-se parar e olhar para ele, corre para o seu alojamento, aferrolha a porta e joga-se sobre a cama. Os sentimentos latentes de anos irrompem de súbito; sua mente febril imprime um efêmero vigor em suas forças; toda a infeliz esquisitice de sua vida lhe é revelada num relance; e ele grita desesperadamente: “Wakefield! Wakefield! Estás louco?”
Talvez o estivesse. A singularidade de sua conduta modelou-o de tal forma a si mesma, que, examinando-o em relação a seus companheiros e aos afazeres da vida, não se podia dizer que tivesse o juízo perfeito. Ele havia imaginado (ou antes, as coisas haviam acontecido), separar-se do mundo, sumir, abandonar a sua posição e privilégios entre os vivos, sem que fosse admitido entre os mortos. De nenhum modo a vida de um eremita pode ser posta em paralelo com a sua. Ele estava, como outrora, em plena agitação da cidade; mas a multidão movia-se impetuosa e indiferente, ignorando-o. Estava, podemos dizer figuradamente, sempre ao lado da esposa, e junto da lareira, entretanto sem nunca sentir o calor desta, nem a afeição daquela. O destino sem precedentes de Wakefield foi o de conservar a sua parte original de simpatia humana, e estar ainda envolvido nos interesses dos homens, enquanto havia perdido a recíproca influência sobre eles. Seria uma especulação bastante curiosa traçar o efeito de tais circunstâncias em seu coração e intelecto, separadamente, ou em conjunto. Todavia, transformado como estava, raras vezes se dava conta disso, julgando-se o mesmo homem de sempre. Lampejos da verdade, de fato, surgiam, mas só por alguns instantes; e ainda assim teimava em dizer: “Logo estarei de volta”, sem refletir que vinha dizendo isso há vinte anos.
Penso também que, em retrospecto, esses vinte anos deviam parecer a Wakefield um tempo pouca coisa maior que a semana que ele havia definido para sua ausência. Devia olhar a aventura como não mais que um interlúdio no tema principal de sua vida. Quando, após um outro curto espaço de tempo, ele achasse que era o momento de reentrar no salão, sua esposa bateria palmas de alegria, ao rever o homem de meia-idade, Senhor Wakefield. Que infeliz ilusão! Pudesse o Tempo esperar até o final de nossas loucuras preferidas, então seríamos jovens até o Dia do Juízo.
Uma noite, transcorridos os vinte anos de seu desaparecimento, Wakefield faz a caminhada costumeira na direção da residência que ainda diz ser dele. É uma noite de outono, de forte vento. Frequentes pancadas d’água caem, tamborilando sobre as calçadas, e cessam repentinas, antes que alguém possa abrir seu guarda-chuva. Detendo-se próximo da casa, Wakefield vislumbra, através das janelas da sala do segundo andar, o brilho rubro, o tremeluzir, os inquietos lampejos de um fogo confortável. Sobre o teto, aparece a sombra grotesca da boa senhora Wakefield. O barrete, o nariz e o queixo, e a larga cintura, desenham uma admirável caricatura, que dança, além disso, em movimentos variados, de acordo com as oscilações das labaredas, numa jovialidade quase excessiva para a sombra de uma idosa viúva.
Nesse momento, cai uma pancada de chuva que, dirigida sem piedade pelo vento, atinge em cheio o rosto e o peito de Wakefield. O frio outonal penetra-o por todo o corpo. Deverá ficar parado naquele lugar, encharcado e tiritando, quando sua própria lareira tem um bom fogo para aquecê-lo, e sua própria esposa correrá para ir buscar o casaco cinza e as roupas de baixo que, sem dúvida, guardou cuidadosamente no armário de seu quarto? Não! Wakefield não chega a ser tão tolo! Ele sobe os degraus – com grande esforço! – pois vinte anos haviam-lhe enrijecido as pernas, desde que descera por ali da última vez –, mas não se dá conta disso. Espera, Wakefield! Estás indo para o único lugar que te resta? Então, podes subir para a tua sepultura! A porta abre. Enquanto ele a transpõe, temos uma rápida visão de despedida de seu rosto, e reconhecemos o sorriso astucioso, precursor do pequeno gracejo que desde aí vem representando à custa de sua esposa. Como zombou desumanamente da pobre mulher! Bem, que ele tenha uma boa noite!
Esse feliz evento – supondo-o assim – só podia ter ocorrido num momento não premeditado. Não seguiremos o nosso amigo além do umbral. Ele nos deixou alimento suficiente para reflexão, parte da qual emprestará sua sabedoria para uma moral, que pode ser modelada numa imagem. Em meio à aparente confusão de nosso mundo misterioso, as pessoas estão ajustadas a um sistema de modo tão preciso, e os sistemas ajustados uns aos outros, e a um todo, que, ao afastar-se disso por um momento, um homem expõe-se ao risco terrível de perder o seu lugar para sempre. Tal como Wakefield, pode tornar-se, por assim dizer, o Pária do Universo.
(Contos contados duas vezes; tradução de Vinícius Santos Loureiro)
(Ilustração: Robyn Burgess - o homem solitário)
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