quarta-feira, 1 de setembro de 2010

VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA, de Manuel Bandeira







Vou-me embora pra Pasárgada


Lá sou amigo do rei


Lá tenho a mulher que eu quero


Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada




Vou-me embora pra Pasárgada


Aqui eu não sou feliz


Lá a existência é uma aventura


De tal modo inconsequente


Que Joana a Louca de Espanha


Rainha e falsa demente


Vem a ser contraparente


Da nora que nunca tive



E como farei ginástica


Andarei de bicicleta


Montarei em burro brabo


Subirei no pau-de-sebo


Tomarei banhos de mar!


E quando estiver cansado


Deito na beira do rio


Mando chamar a mãe-d'água


Pra me contar as histórias


Que no tempo de eu menino


Rosa vinha me contar


Vou-me embora pra Pasárgada



Em Pasárgada tem tudo


É outra civilização


Tem um processo seguro


De impedir a concepção


Tem telefone automático


Tem alcalóide à vontade


Tem prostitutas bonitas


Para a gente namorar



E quando eu estiver mais triste


Mas triste de não ter jeito


Quando de noite me der


Vontade de me matar


— Lá sou amigo do rei —


Terei a mulher que eu quero


Na cama que escolherei


Vou-me embora pra Pasárgada.




(Ilustração: Anthony Christian – l’aprés midi d’un fornicator)


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