segunda-feira, 30 de agosto de 2010

PAGAR OU MORRER, de Álvaro Dias Cuba






Pensando que um pasto deve ser grande, se pretende suportar a vaca, Marcelino sentou-se para estudar as dimensões do risco. Ficou à espera de um sentimento, mas enquanto não chegava, descascou duas laranjas que lhe espirravam, vingativas, jatos de vitamina C nos olhos. Depois, traçou o território no papel e determinou algumas medidas.


– Avião.



Quem jamais falou pelos cotovelos, uma vez nascido em Fevereiro, mês dos aéreos. Apenas uma palavra curta sussurrada no fundo da boca, bem antes do siso, quase garganta. Quando não havia mais via. Só havia avião. Enorme objeto plano dos desejos antigos, em que todo menino quer voar naquele que passa perto da pipa.



É que às 23h a maioria dos universitários daqui se põe a caminho de suas casas, exaustos de teorias e mensalidades. Entre os quais Marcelino, atento aos pormenores do céu, sejam eles as nuvens, os bichos voadores, a lua, todos muito pequenos deslizando no azul escuro. Sendo apenas duas formas de ascender aos céus: através de avião ou anjos. Pensava, claro, em balões, em zepelins, em helicópteros, em anões-bomba. Mas como Marcelino nenhum rapaz de iluminações práticas, qual possível tão e só pagar ou morrer.



Bem antes da palavra curta explodida em PLIN! de bolinha de sabão, não estivera na aula portuguesinha de minutos e minutos dentro de si mesmo, lugar alto. Ia subindo a Santa Maria Egipcíaca, que assim que lá fora, um rapaz alado ancorado pela mochila curvado, em fuga.



– E aí? Vai querer carona hoje?



– Valeu, Gil. Vou pegar o metrô.



O apartamento distante estaria distante, no sentido vertical de sua ambição. Porque caminhava até ele, e nunca. Havia via de novo, como parte horizontal de uma régua L. Esta sim, um prédio, única forma concreta de subir.



Descer era uma escada rolante após dois trombadinhas na superfície: um lusco-fusco no chão agarrado à fralda chupando o dedo com violência escorrendo verde a partir do nariz, outro inconformado pedindo-lhe dinheiro amarelo num blusão furta-cor sujo de cidade.



Se quando Marcelino já embaixo olha para cima e sacode a mão respingando o catarro do trombadinha a que não deu moeda, o pequenino às gargalhadas por mais uma vítima do corrimão molhado abre os braços, decola, é um avião.





(Narrativa e uma couve na horta e outros contos)






(Ilustração: João Ruas – scowrers)




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