sexta-feira, 20 de agosto de 2010

NOSSA CAMA, de J. G. de Araujo Jorge






Olho nossa cama. Palco vazio


Sem o drama, sem a comédia


Do nosso amor.

A nossa cama branca,


Branca página, em silêncio,


De onde tudo se apagou...

(Meu Deus! Quem poderia ler aquelas ânsias, aqueles gemidos, aqueles carinhos, que a mão do tempo raspou, como nos velhos pergaminhos?...)


A nossa cama


Imensa, como a tua ausência,


Tão ampla, tão lisa, tão branca, tão simplesmente cama,


E era, entretanto, um mundo,


De anseios, de viagens, de prazer,

– oceano, que teve ondas e gritos encapelados,


e nele nos debatemos tantas vezes como náufragos


a andar... e a morrer...

Olho a nossa cama, palco vazio,


Em nosso quarto – teatro fechado –


Que não se reabrirá nunca mais...

Nossa cama, apenas cama, nada mais que cama


Alva cama, em sua solidão


Em seu alvor...

Nossa cama:


– campa (sem inscrição)


do nosso amor.



(Ilustração: Cecily Bbrown – justify my love)

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