terça-feira, 4 de agosto de 2009

DAS FAIXAS ETÁRIAS PARA AS MULHERES DE TRINTA, de Tatiana Carlotti









Homens de vinte são lindos, trazem ainda o desejo da aventura, as belas paisagens, o corpo liso de uma tarde espreguiçada na areia. Natureza é palavra mágica, capaz de enlouquecer os homens de vinte. Prepare-se: camping, trilhas, cachoeiras. De repente, você sente aquela leveza, o cheiro da estrada, a prancha de surf e sorri quando ele te conta seus projetos artísticos. Conhecer o mundo é objetivo de vida dos homens de vinte, não ria, eles levam a sério. Prepare-se para as grandes emoções, o telefone sempre vai tocar, a qualquer hora. Não fique chateada se ele ligar só para te contar que ficou com uma menina de quinze na noite passada, isso passa e como você tem mais o que fazer, aos poucos vai achar graça dos encontros e desencontros que ele fará questão de te contar em detalhes, com aquele ar de inspetor de seriado americano: “me perdoa, gata?”. Até que um dia, o coração dispara. Pode ser, no melhor dos casos, ali na praia. É que o homem de vinte vai nadar muito longe no mar, para o seu desespero e também do salva vidas bonitão que vai te olhar com certa malícia, como quem pergunta: o que você está fazendo com esse pirralho? Sim, nesse momento, você vai se pegar de pulseirinha de palha no braço, rabo de cavalo, ao lado dos seus mais recentes grandes amigos, um grupo de malucos chapados que estarão há horas assassinando o violão. É fato, você vai sentir uma baita vontade de silêncio, o desejo forte de ouvir por um momento, nada além do que o barulho das ondas. Não se levante, mesmo sem crenças, reze para que o garotão retorne são e salvo do fundo do mar. Sorria e tope caminhar até as pedras, mesmo que dê aquela preguiça. Afinal, tirando a família e os exames da faculdade, tudo vai bem ao lado dos homens de vinte. Então, contenha a bronca e derreta-se diante do sorriso bonito. Pague os pedágios da volta e não peça para baixar o som do carro. Cante alto e aproveite, a vida é intensa ao lado deles.

Homens de trinta são mais complexos. Já fizeram terapia e estão em fase permanente de mudança. Você reclamou da leveza dos vinte? Caia na densidade dos trinta. Embora digam que não, eles vão querer coisa séria, por isso, se não te ligarem no dia seguinte, não vai dar em nada, pelo menos nos próximos meses. Homens de trinta oscilam entra a vadiagem eterna e a necessidade de tornarem-se homens de verdade. Um conceito inexplicável que você nunca vai entender, mas que cedo ou tarde, traduz-se em profissão, carro, casa e mulher fiel. Sim, não tem jeito, fiel. Terminada a faculdade e diante da primeira perda da inocência (negócio próprio é uma furada, faculdade de humanas é um beco sem saída, carreiras artísticas não dão dinheiro e para ser um executivo é preciso vestir uma camisa de forças), não é a toa que homens de trinta parecem sempre cansados. Leve-os para a praia. A barraca de camping será substituída por uma pousada. Chuveiro elétrico, ausência de pernilongos e jazz farão você se sentir no paraíso. Depois de um certo tempo, pizza será a palavra de ordem. Teatro, exposições, cinema também ajudarão a distrair. Se você der sorte e ele tiver um nível cultural bom, vocês vão trocar altas idéias sobre livros e principalmente, sobre projetos concretos da uma pseudo “vida adulta”. Homens de trinta estão preocupados com isso, há uma certa ansiedade, porque o mundo é especialmente cruel para eles, mas não se esqueça, o mundo é cruel para você também, porque ao lado de um homem desses, entre uma cerveja e outra, a pergunta chega: quais os seus projetos? Mesmo em dúvida, você dirá todos eles e ele dirá todos os dele, mas talvez vocês não consigam se escutar direito. Por isso, recomendo um barzinho à meia luz, uma boa dose de absinto e torradinhas de queijo brie com manjericão, é preciso um clima para rabiscar projetos de vida em guardanapos, mesmo que seja necessário amassá-los depois.

Já os homens de quarenta estão numa encruzilhada. Existem aqueles que conseguiram todas as ambições dos trinta, esses são uns chatos de primeira, fuja. Há os que conseguiram parte dessas ambições e nesse caso, estarão com trabalho, prestação de apartamento e família, repito: família. Se um deles der uma olhada de esguelha para você, é porque está se sentindo um pouco preso, saudades das moças de biquíni dos vinte anos, pânico de acordar com a mesma pessoa até o fim da vida. Ao contrário do que dizem as revistas femininas, os homens de quarenta pensam, portanto, muita ética ao invadir a vida alheia. Aquela ladainha que você dizia para suas amigas malucas, se aplica em doses elevadas aqui. Embora digam que não, eles podem desistir do que construíram e isso não tem nada a ver com você, mas com o grau de insatisfação que carregam dentro de si mesmos. Por isso, cuidado. Caso partam numa viagem para Paraty num fim de semana contigo, as exigências da volta serão altas. E caso não partam, é você quem vai virar uma chata. Confusão é a palavra de ordem com os homens de família aos quarenta, eles veem em você um grande atalho, mas jamais se esqueça, você não tem nada a ver com isso. Já os últimos são aqueles que não conseguiram o que desejavam ou os mais espertos, aqueles que se tocaram que as coisas são como são. Os primeiros são mais amargos e podem ficar durante horas te convencendo sobre a ineficiência do sistema; os segundos são um perigo, ostentam aquela pontada irresistível de tristeza. É que a tomada de consciência de que não há lugar determinado pra ninguém, dá um aspecto errante aos homens de quarenta. Mas não se iluda, eles são muito mais alheios do que supõe a sua filosofia de botequim, e não são bobos. Vão te ligar, caso você não os encha muito. Vão te mimar, caso você os mime de volta. E só vão te dar alguma coisa, caso recebam algo em troca. Homens de quarenta estarão atentos a você, querem saber que tipo de pessoa você é, mas não se engane, mesmo que digam pouco sobre si mesmos, gostam de saber que estão sendo ouvidos a todo momento. Mudanças bruscas de percurso são inevitáveis, acostume-se, noites da mais pura bobagem e do mais delicioso papo se alternam com a monotonia do trabalho incessante. O vinho impera, os queijos satisfazem, as sopas de madrugada acalentam. E você acredita que pode ser absolutamente você mesma, então, desata a falar mais do que a boca e paciência.

Mas paciência, você só vai aprender a ter com um homem de cinquenta. Muita calma nessa hora. Homens de cinquenta são um perigo concreto. Lembre-se de todos os chavões que você já ouviu a respeito dos homens. Eles estarão definitivamente presentes na sua frente. Embora imprevisíveis, homens de cinquenta são simples: eles só querem te comer. E isso é o máximo, porque você, enfim, poderá ser você. Então, você bebe o uísque e até se arrisca a experimentar o charuto. O homem de cinqüenta não estará nem aí para o que você disser. Não vai te idolatrar como os de vinte, nem vai te testar como os de trinta e muito menos te julgar como os de quarenta. O homem de cinquenta vai te ouvir como se fosse seu melhor amigo. Vai te encantar com as histórias que conhece ou já viveu. Vai te levar para bons restaurantes e te ensinar sobre os temperos indianos, sabores chineses, culinária tailandesa. Homens de cinquenta vão te aquecer no frio do Chile e soprar seus ombros em Fernando de Noronha. Vão sorrir das suas piadas, mas nunca vão ligar quando você esperar. Isso é fato, eles só ligarão quando quiserem transar. Motel é a palavra de ordem. E o mais perigoso, o sexo é bom. Homens de cinquenta não possuem mais a leveza dos vinte, há peso no toque deles. Homens de cinquenta não têm mais paciência para as questões existenciais dos trinta, não vão discutir absolutamente nada depois. Homens de cinquenta não cometem as loucuras dos homens de quarenta, embora te façam acreditar que possam cometê-las. Homens de cinquenta querem viver a vida e a liberdade que conquistam nas horas vagas e fazem questão de mostrar que ainda são bons amantes. O único problema é que eles amam a diversidade. Há uma insaciedade no olhar dos homens de cinquenta, o que não impede, de forma alguma, que eles se deitem no seu colo atrás de cafuné um dia desses. Mas nunca se esqueça, cafuné é tudo o que um homem de cinquenta quer de você, depois do sexo, é claro.

Então chegamos aos homens de sessenta ou mais, dependendo do caso. Esses nunca te levarão a sério, desista. Vão te olhar como se você tivesse quinze anos, é inevitável. Mas não se ofenda, você realmente terá quinze anos diante de um homem desses. Ao contrário dos homens de cinquenta, não estarão preocupados em te mostrar as belezas da vida, vez ou outra é que deixam escapar uma história só para testar se você está realmente atenta. Homens de sessenta são vaidosos, e como não ser se o mundo gira em torno deles? Você funcionará sempre, quando estiverem um pouco inseguros, como prova concreta do poder que ainda possuem. Mas acredite, você não vai se importar com isso, nem eles. Porque os homens de sessenta são verdadeiros ladrões de bons momentos. Eles te mostrarão o prazer sem muitas palavras e embora saibam muito mais do que você, vão te olhar como se você fosse um ser de outro planeta e te acharão sempre muito maluca, afinal, se você fosse uma moça normal, não estaria saindo com alguém tão mais velho. Eterna Lolita, sua presença será bem acolhida, doçura para as tardes de angústia íntima, mas sempre muito raras, só quando estiverem ociosos demais, porque homens de sessenta têm sempre algo urgente para fazer. E quando vierem atrás de bons momentos, eles saberão te dar, caso você aja exatamente como esperam, boas lembranças. Mas saiba de antemão, eles não possuem nenhuma paciência para as suas crises existenciais e muito menos, crises de recato. Eles querem sensações, são mais vorazes do que os homens de cinquenta, embora disfarcem a fome com doçura. Homens de sessenta jamais vão te ligar, nem se quiserem; eles esquecem. É certo que vão largar seu número em agendas antigas e vão te deixar deslizar como chuva de verão pelas suas vidas. Então, certo dia, você vai se perguntar: o que esse cara quer? E vai descobrir que homens de sessenta não querem absolutamente nada contigo. Eles te deixarão disponível para quem sabe um dia. Primeiro, porque realmente não precisam de você, suas vidas estão mais do que completas. Segundo, porque mesmo se precisassem, você não valeria um centavo, nessa altura do campeonato.

Evidentemente, essas generalizações são conversa fiada. Se você passou por esses longos parágrafos atrás de uma explicação sobre os homens, talvez a coisa não vá muito bem. Sinto informá-la que essa crônica é fruto de um papo de boteco, regado a cerveja, amendoim e boas risadas. Homens são de uma natureza tão diferente, que levar a sério a tentativa de compreendê-los, é insanidade na certa. A lei universal é bem mais simples: quem deseja, aparece. Não se iluda. Há em cada ser, homem ou mulher, a possibilidade bárbara da loucura, aquela que faz do corpo do outro um ponto de chegada. Muitas vezes, esse ponto é tão breve, que nem percebemos e quando vemos, já se foi. Outras, ele dura anos até que um dia se dissolve. Mas isso também não importa, o fugaz nem sempre é intenso e o intenso nem sempre perdura. Esqueça a velha história do medo que te contaram num dia. Às vezes, a recusa é um motivo tão besta, que é melhor nem saber. E sejamos sinceras, voltemos à velha lei da selva, com tanto receio assim, esse homem realmente, serve pra você?


(Alyssa Monks - the race)


Nenhum comentário:

Postar um comentário