domingo, 23 de agosto de 2009

O MASSACRE DOS BULEVARES, de Victor Hugo








De repente uma janela, dando diretamente para o inferno, foi aberta com violência. Estivesse Dante observando através das trevas, e teria reconhecido o oitavo círculo de seu poema no fatídico bulevar Montmartre. Um espetáculo horrendo - Paris nas garras de Bonaparte!



Os homens armados, amontoados no bulevar, foram tomados por um súbito frenesi. Não eram mais homens, mas sim demônios. Para eles não havia mais uma bandeira, nem lei, humanidade ou país. Para eles a França deixara de existir, e a morte percorria violentamente as suas almas. A divisão do ladrão Schinderhannes, as brigadas dos assassinos Mandrim, Cartouche, Poulailler, Trestaillon e Tropmann avançavam pela escuridão, atirando e assassinando por toda parte - pois não podemos atribuir as cenas que estavam se passando naquele melancólico eclipse de fé e honra ao Exército Francês.



A história vem, através dos tempos, nos deixando um legado de vários massacres hediondos, mas havia razão para cada um deles. São Bartolomeu e as perseguições tiveram sua origem em diferenças religiosas. As Vésperas Sicilianas e as Carnificinas de Setembro foram fruto de patriotismo. Em cada um destes casos, esmagaram o inimigo ou afastaram o estrangeiro; mas a matança do bulevar Montmartre foi um crime sem finalidade, ao qual nenhum motivo poderia ser atribuído. E no entanto uma razão, e uma razão muito terrível, existia. Vamos dizer qual era. Existem duas poderosas forças no estado - a lei e o povo. Um homem assassina a lei. Ele vê aproximar-se a hora de pagar, e não há mais nada a fazer senão assassinar o povo.



E ele o faz.



No segundo dia de dezembro, arriscaram-se, e no quarto dia desenvolveram o método para obter a sua segurança.



A indignação que crescia tinha de ser silenciada pelo terror abjeto.



Louis Bonaparte alcançou essa glória, e ao mesmo tempo chegou ao ápice de sua infâmia. Vamos contar como ele fez isso, e lembrar o que a história não viu - o assassinato de um povo por um homem!



Subitamente, a um dado sinal disparado de um mosquete - não importa onde ou por quem - abriu-se um fogo mortal de metralha contra a multidão. A metralha é em si mesma uma multidão; é morte a granel. Não se sabe de onde vem ou para onde vai; mata, e continua. E, no entanto, possui uma espécie de alma. Age premeditadamente e executa um plano. O movimento foi inesperado. Foi como um punhado de raios e trovões arremessados sobre o povo. Nada poderia ser mais fácil. Possuía toda a simplicidade da solução de um quebra-cabeças. A metralha aniquilou o populacho.



O que você está fazendo aí? Morra. Você está passando na rua? Isto é crime. Por que você se opõe ao governo? O governo é um degolador. Disse que faria uma certa coisa: começou a fazê-lo; tem de ir até o fim. Se a sociedade deve ser salva, o povo tem de ser destruído.



Em um instante havia uma série de assassinatos estendendo-se por cerca de quatrocentos metros ao longo do bulevar. Onze canhões destruíram o Hotel Sallandrouze. Um tiro atingiu diretamente vinte e oito casas. Os Banhos de Jouvence foram perfurados. Um quarteirão inteiro de Paris transformou-se em um cenário aterrorizante. O ar estava cheio de gritos de angústia.

Morte, morte repentina, estava por todos os lados. Ninguém esperava nada. Havia gente caindo por todos os lados. De onde vinha?


"De lá de cima", disse um Te-déum de bispos. "Das profundezas!", disse a verdade. "De um lugar pior do que a mais verdadeira profundeza do inferno!"



Xavier Durie veio ao bulevar. Disse ele mais tarde: "Dei sessenta passos, e esbarrei em sessenta cadáveres." Depois compreendera que era um crime grave estar na rua. Também era crime estar em sua própria casa. Os assassinos entravam nas casas e massacravam os moradores.



Adde, da livraria do boulevard Poissonière, estava na entrada de sua casa; mataram-no. No mesmo momento - pois os assassinos estendiam os seus tentáculos por toda parte - bem longe dali, na rue de Lancry, o proprietário do número 5, senhor Thirion de Montauban, estava à porta de sua casa; mataram-no. Na rue Tiquetonne, uma criança de 7 anos de idade, chamada Boursier, vinha passando; mataram-na. Senhorita Soulac, no número 196 da rue du Temple, abria a janela; mataram-na. No número 97 da mesma rua, as senhoras Vidal e Raboisson, costureiras, estavam em sua casa. Mataram-nas. Entre os transeuntes, senhorita Gressier, moradora do número 209 do Faubourg Saint-Martin, senhora Guilard, número 77 do Faubourg Saint-Denis e senhora Garnier, número 6 do boulevar Bonnes-Nouvelles, caíram sob a chuva de metralha - a primeira no boulevard Montmartre, e as demais no boulevard Saint-Denis. Ficaram apenas feridas, e esforçaram-se a ficar de pé; porém os soldados, com gargalhadas diabólicas, deixaram-nas ali, e elas caíram novamente. Desta vez estavam mortas.



Ninguém escapava. Os mosquetes e pistolas eram usados em todas as direções. O Ano Novo estava se aproximando, e havia lojas cheias de presentes. Uma criança de 13 anos, voando diante do fogo dos soldados, refugiou-se numa loja da Árcade Sauveur, e escondeu-se debaixo de uma pilha de brinquedos. Foi agarrada e massacrada, enquanto os assassinos abriam as feridas com seus sabres. Contou-me uma mulher: "Podíamos ouvir os gritos da pequena criatura por toda a arcada". O 75º Regimento da Linha tomou a barricada da Porte Saint-Denis. Não houve resistência, somente carnificina posteriormente.



O massacre espalhava-se (uma palavra terrível mas expressiva) nos bulevares e em todas as ruas. Era como um polvo estendendo os seus tentáculos. Deveriam voar? Para onde? Esconder-se? Em que canto? A morte os perseguia muito além do seu vôo.



Na rue Pagevin um soldado disse a um transeunte: "O que você está fazendo aqui?""Voltando pra casa", foi a resposta.O soldado matou-o.O coronel Espinasse gritava: "Depois da baioneta, a artilharia."O coronel Rochefort berrava: "Penetrar, sangrar, usar o sabre." E acrescentou: "Isto vai economizar barulho e pólvora". Na esquina da rue du Sentier, um oficial de cavalaria balançava a espada no ar e gritava: "Vocês não entenderam as ordens. Atirem nas mulheres!"

Uma mulher grávida vinha do outro lado da rua. Ela caiu, e os soldados, correndo em sua direção, acabaram com ela a coronhada de mosquetes. Uma outra mulher, enlouquecida de medo, acabava de dobrar a esquina da rua. Trazia uma criança em seus braços. Dois soldados dirigiram-se até ela. Um deles gritou: "Na mulher!", e acertou o seu alvo. A criança caiu no chão. Em seguida o outro gritou: "Na criança!", e atirou, matando-a.


Doutor Germain Sée, um homem que gozava de grande renome no mundo científico, declarou que em apenas uma única casa - aquela dos Banhos de Jouvence - havia, debaixo de um alpendre situado no pátio, cerca de oitenta feridos, principalmente homens velhos, mulheres e crianças. O doutor Sée dava-lhes assistência prioritária.



"Havia na rue Mardier", contou uma testemunha ocular, "uma perfeita fileira de cadáveres, que começava na rue Neuve Saint-Eustache. Em frente à Maison Odier havia vinte e seis corpos. Diante do Hotel de Montmorency, trinta. Em frente à Variètés, cinqüenta e dois, dos quais onze eram mulheres. Na rue de la Grange Batelière havia três corpos nus. O número 19 da rue du Faubourg Montmartre estava cheio de mortos e feridos."



Uma mulher que vinha correndo com todas as suas forças, o cabelo desgrenhado e os braços esticados para frente, voava pela rue Poissonière, gritando: "Eles estão nos matando! Estão nos matando!"



Os soldados divertiam-se. "Aposto", disse um, "que eu a derrubo".



Gostaria de saber em que acreditar. Para afirmar que certos crimes haviam sido cometidos, seria necessário que pudessem ser provados. Fui, portanto, ao local do crime. Em determinados estados de agonia, o sentimento morre. Não pensamos, ou se pensamos, é de forma cega, e tudo que esperamos é que aquilo termine, de uma forma ou de outra. A morte alheia nos inspira tanto horror que passamos a desejar o nosso próprio fim, se ao menos nossa própria morte pudesse ser de alguma utilidade. A nossa memória reverte-se àqueles homens cujas mortes causaram comoção popular e levantes, e sentimo-nos como se tivéssemos uma única ambição - ser um corpo morto que serviu para alguma finalidade.



Continuei a andar, portanto, cheio de pensamentos tristes. Encaminhei-me em direção aos bulevares. Divisei uma fornalha ardente. Ouvi os estrépitos do trovão. Jules Simon, um homem que naqueles terríveis dias voluntariamente arriscou a sua valiosa vida, veio em minha direção.

Parou-me.


"Aonde você vai?", perguntou ele. "Você será morto. O que você quer?""Exatamente isto", disse-lhe. Apertamos nossas mãos, e continuei-o meu caminho.



Cheguei ao bulevar. A cena era indescritível. Eu vi este crime. Eu vi esta tragédia, esta carnificina. Eu vi esta cega correnteza de morte, e os corpos de pessoas assassinadas caindo ao meu lado, e é por esta razão que posso assinar este livro como testemunha ocular.



O destino tem os seus desígnios. Cuida misteriosamente do futuro historiador. Deixa-o imiscuir-se em carnificina e destruição, mas não permite que morra, pois quer que ele narre todos esses acontecimentos.



(A Arte da Reportagem, tradução de Edith Zonenschain)


(Ilustração: Fritz Aigner)


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