domingo, 16 de agosto de 2009

O DOM SUPREMO, de Adolfo Bioy Casares










Se dentro de alguns anos quiser imaginar Margot, a memória, fatalmente seletiva, omitirá alguma circunstância molesta e exaltará os anéis de ouro, a pele rosada e branca, os olhos misteriosamente iluminados, o talhe que não vacilo em classificar de duro, o peito de pomba, a imarcescível frescura de sua inocência e as enormes nádegas; mas antes de entrar de cheio na história galante que a concerne, permita-se-me umas breves considerações morais. 

Primeiro, a verdade, depois o amor.

Mais que faculdade, eu diria que a imaginação é virtude. Na origem de todo ato cruel, não há uma pobreza de imaginação que impede a menor corridinha simpática, a mudança, sequer momentânea, para a situação do próximo? O egoísmo provém de idêntico defeito. Com visão clara de nossa futilidade, poríamos tanto empenho em nos promover e em nos homenagear?

A mente humana, máquina bastante simples, trabalha com poucas idéias. O parágrafo anterior registra uma das que habitualmente me ocupam. Aqui vai outra: as viagens, porque nos enriquecem de lembranças, engrandecem a vida.

Despachado o ideário, apresso-me a declarar que minha conduta é livre. Aqueles que aplicam com excessiva literalidade os princípios da conduta – não recordo que autor famoso o sustentou – nos parecem excêntricos, até mesmo incongruentes. A respeito da imaginação e das viagens, deixo que a primeira durma a sesta, e se o acaso não descarrega seu providencial empurrãozinho, pra mim não se rompe o tecido dos dias e a hora da partida não chega. Por sorte, hoje funcionou o acaso, recebi um empurrão e antes que seja tarde me transformarei em viajante, pelos poeirentos caminhos que mais além da Bahía Blanca penetram a despida e desmedida Patagônia, para concluir nas galerias do Sul: o mais provável, por certo, é que não passe de Três Arroyos.

Sem dúvida, sentirei falta do Club Atlético, sobretudo agora que voltava a freqüentá-lo depois de um afastamento que durou um mês inteiro, em que trabalhei na editora da manhã à noite; mudamos os escritórios e, como diz o gerente, se não estou eu lá para pôr um pouco de ordem, acontece sabe-se lá o quê. Em tempos normais, boa parte de minha vida transcorre no clube. Este, por que negá-lo, não é o mesmo de antes. Para compensar o aumento de gastos, a temida espiral inflacionária de que todos falamos, a diretoria apela a manobras extremamente duvidosas, inclusive a de admitir, na condição de sócios!, damas e cavalheiros, naturalmente de honorabilidade irrepreensível, mas que por toda credencial esgrimem um requerimento apadrinhado e o pagamento de uma exorbitante quota de ingresso. O pretexto está bem justificado, mas a amarga verdade é que, agora ao menor descuido, a gente topa com caras novas. Como velho sócio, sou dos primeiros a proclamar a necessidade de pôr um limite a este avanço e retempero meu espírito em conversas com os homens do meu grupo, fraternalmente solidários no clamor: bola preta para os de fora. Apesar disso, confessarei – nestas páginas as omissões ou ocultações não teriam sentido – que a atual situação pessoalmente me favorece. De um lado, como quer o refrão, pescar em águas turvas, e de outro, recorde-se que o setor feminino do nosso clube – as pobres meninas da velha guarda – nunca foi extraordinário e que de uns vinte tantos anos para cá clama por renovação.

Na sexta-feira eu disputava, em uma das quadras do fundo, uma interminável partida com esse Mac Dougall, que parece pintado com zarcão. Meu adversário, cada vez que perdia uma jogada, levava a mão ao ombro direito e prorrompia em lamentos.

- Que é? – perguntei.

- Quebrei a clavícula – respondeu.

- Quando? Como?

Sem a menor dissimulação ele passou por alto a explicação, mas a vergonha o traiu e o zarcão da cara subiu de tom a olhos vistos. Por que tanto mistério? Compreendi que o gordo Mac Dougall engrossava o número dos jogadores aos quais a derrota dói moral e fisicamente. Vocês já notaram a infinidade mancos e inválidos de todo tipo que começam a aparecer logo que a partida se apresenta desfavorável? A nossa, muito parelha, acabou com uma bola duvidosa, que me apressei em dar por boa em favor do adversário. A essa hora me importava menos o resultado que um final imediato. Meu único desejo era de paredes e teto, porque o sol caía, o ar perdia calor, e eu, ao engolir, sentia na garganta uma dorzinha que desembocaria, não viesse logo uma enérgica ducha e um chá bem quente, em uma calamitosa dor de garganta. Entre as pessoas que acompanhavam nossa partida – em sua ignorância inaudita o sócio novo assiste interessado a encontros como o nosso – divisei Margot, uma sócia nova vermelha demais, loira e balofa, para que a passasse por alto. Pensei que estaria tomando sol, mas devia estar acompanhando a partida, porque me deteve com a observação:

- Essa bola foi fora.

- Meu adversário acreditou que era boa.

Eu queria pôr a mão em pulôveres e outros agasalhos que tinha deixado no banco. Consegui discretamente me aproximar dela.

- Não lhe importa perder?

- Imagino que a ele importa é ganhar.

- Para que ele ganhasse você deu por boa aquela bola?

- É claro.

- Que generosidade. Que espírito esportivo.

De um redemoinho de mangas eu a olhei. Pensei que falava brincando; falava sério. Dos grandes olhos azuis brotavam lágrimas e um dedo experiente corrigia os deploráveis efeitos do rímel corrido.

Com ela saí da quadra. Mac Dougall – um desses bobos que se vêem a gente acompanhado retiram-se com manifesta delicadeza – murmurou:

- Com licença.

Partiu célere. Margot caminhava devagar, porque devia imaginar que a seu tipo de beleza convinha um andar majestoso; eu me apressava, porque o suor esfriava em minhas costas e no meu peito. Irritado e arrependido sucessivamente, ao longo do trajeto deixava-a para trás e a aguardava. Margot não notava a irregularidade; continuava emocionada com minha atitude.

- No último ponto! – exclamou. – Em seu lugar, a mim não me bastaria o meu próprio aplauso. Eu buscaria reconhecimento universal e algum prêmio.

- Não exagere – disse.

- Não exagero – respondeu. – Merece-o. Um bom perdedor. Um esportista.

De novo pensei que zombava de mim, mas esqueci a suspeita, perturbado pela mera confrontação ocular com aquele busto. Seu aspecto mais interessante era o volume. Quando chegamos à sede do clube, Margot me garantiu que a ausência de espírito cavalheiresco se fazia notar nos campos de futebol. Estando minha saúde em jogo sou capaz de resoluções drásticas, de modo que murmurei, em tom de desculpa, palavras pouco inteligíveis e corri, escada acima, rumo ao vestiário dos sócios. Lá dentro estava a salvo. Não olhei para trás; bastou-me a suposição de que a pobre senhora se mostraria desconcertada para me divertir um pouco.

Despi-me, não dei confiança aos amigos, dispostos a me reter por ali (para que suado e nu me resfriasse?) com variadas explicações de partidas que nem bem acabadas já ingressavam na categoria do que não aconteceu, corri aos chuveiros, me submeti à grata proteção da água quente, não escutei advertência do galego – “Tarifa tripla para os que ficam mais de três minutos” -, discuti com Mac Dougall, de ducha a ducha, através de nuvens de vapor e diálogos gritados, de consócios, as alternativas de partidas que tínhamos jogado. Inesperadamente Mac Dougall vociferou:

- Felicito-o, irmão. Levantou a gorda.

Em qualquer terreno desaprovo as vulgaridades da camaradagem masculina, mas é fato que esse comentário me lisonjeou.

Já vestido e pronto, procurei Mac Dougall para que fôssemos tomar chá.

- Vou demorar – disse. – Não me espere.

Pelo visto se mantinha em seu papel de senhor delicado. Não disse nada, por preguiça de protestar e explicar.

Desci ao restaurante, sentei-me em uma das mesas pequenas (por acaso, livre), pedi um chá bem forte, bem quente, torradas, doce de leite. A primeira taça difundia no meu organismo seu efeito reparador, quando uma pressão no ombro interrompeu a quarta ou quinta seleção de torradas.

- Incomodo? – perguntou Margot, com extrema seriedade.

A boa-fé desta moça suscitava em mim alternados impulsos de protegê-la e de maltratá-la. O pequeno psicólogo diletante em que todos hoje em dia nos desdobramos opinou que naquilo andava misturado, por incrível que parecesse, o sexo. Facilmente representei Margot como uma redonda fruta dourada, uma grande ameixa ou, talvez, um grande pêssego ou damasco sexual.

Sua companhia não me incomodou. No espinhoso momento do chá da tarde harmonizamos; coincidimos em reclamar reforços de doce, torradas, chá e tudo devoramos em admirável harmonia (eu, por aquele preceito de alimentar o resfriado; ela, por sua inata voracidade moça gorda).

Nós nos refestelamos, cada qual em sua cadeira, ofegantes ainda pelo muito comer, quando passou, junto á mesa, o Moduño. Porque sabe cantar, de itálico modo, acarameladas canções paraguaias ou do Caribe, ele se imagina um portentoso Dom Juan, o autêntico galo do Club Atlético. Ia metido em uma espécie de escafandro branco, engessado até o nascimento do pescoço ou mais abaixo. Não me perguntes como, apesar dessa bola fantasmagórica e do pescoço esticado, eu o identifiquei. O engraçado desse caso é que ele não me reconheceu. Pelo menos passou sem me olhar. Que não cumprimentasse a senhora que estava comigo é, talvez, perdoável, por se tratar de uma sócia nova, mas a mim? Mal contive a tentação de soltar uma sandice do teor de “Está todo mundo louco”.

- Vou embora – anunciei.

- Tem carro? – perguntou Margot. – Me leva?

Se promete não furá-lo, disse para os meus botões. Quando saímos as conversas se interromperam e todo o clube nos olhava. Em acesso de orgulho viril pensei: “Vou pelo braço de uma rainha”.

Bastou uma ínfima demora em aquecer o motor para que baixassem, em nossas barbas, as barreiras da passagem de nível. Tomei o caminho do bosque. O elogio de meu carrinho – “Não é preciso maior”, repetia Margot, com a cabeça achatada no teto – nos entreteve durante um minuto. Segundo todas as previsões, na zona do arvoredo e realmente escura, a moça me garantiu que eu merecia uma recompensa. Virei-me para ela. Meu velhaco sorriso de cúmplice vacilou ante sua desprevenida ingenuidade. Não me acovardei. Cobri-a de beijos. Gemeu como se já estivéssemos na cama. Este clamor, que no momento oportuno gratifica, me assustava pelo rápido e espontâneo. Estaria eu à altura? Também desta vez me acovardei, e porque era tão loira, tão grande e tão suave, levei-a a um motel, atrás da Exposição Rural.

Sem coragem de me atribuir façanhas inverossímeis afirmo que no processo lá dentro registrado, só comparável a um desmedido e sui generis banho de imersão, olvidei o famoso resfriado. Olvidei-o completamente e devo ter cometido mais de uma imprudência, pois à noite, embora me rejubilasse de engolir com facilidade, tinha trocado minha voz, habitualmente límpida, por uma afonia das boas. Se para me desabafar joguei as culpas em Margot, procedi corretamente; culpar-se a si próprio não parece natural nem satisfatório. Entretanto, ao identificar Margot com um demônio especialmente enviado para me afundar no resfriado e ao aborrecê-la por isso, tendi à injustiça. A novidade que me esperava na garagem estimularia a má vontade. Meu carro estava um pouco ladeado para a direita. Comentei, festivamente, sem compreender ainda a situação: “Companheirinho metido à besta”. Tive que levá-lo à oficina, onde o mecânico diagnosticou:

- Suspensão liquidada. Precisa ficar aqui para o conserto.

No sábado o telefone da casa me manteve em contínuo sobressalto. Margot ligava, não ouvia minha resposta, cortava a ligação, chamava de novo. Tentei explicar àquela boba que um afônico, por mais que grite, não dispõe de muita voz. Esforço inútil: cortou a ligação, como se eu não falasse.

Esta manhã acordei melhor e consegui que me ouvisse. Rapidamente declarou:

- Queria dizer que naquela tarde você esteve sublime.

- Bem – exclamei. – Você não ficou atrás.

- Não estou falando nisso – respondeu. – Na quadra, ao ceder a vitória. Acho que não dei a você um prêmio à altura.

- Não acredite nisso. Você foi generosa.

“Em arrobas de loira”, pensei.

- Quando o vejo? – perguntou.

As escusas não a desanimaram e ela me ganhou no cansaço.

- Bem, poderíamos ir ao Tigre – concedi finalmente, e acrescentei: - Para tomar um trago.

- Onde nos encontramos?

- Hoje estou sem carro – repliquei zangado. – Não sei o que houve: o carro está com a suspensão quebrada e eu com afonia – encorajado concluí: - O preço da glória.

Como ela nasceu muitos anos depois da estréia do filme, minha ironia caiu no vazio.

- Vamos de trem? – perguntou.

“Agora veremos se tão firme sua decisão de me premiar”, pensei.

- De trem ou como lhe agradar, mas cada qual por seu lado – pertinentemente marquei as sílabas nas últimas palavras. – Você se senta em uma mesinha ao ar livre, em qualquer das confeitarias à beira do rio Luján e sem pressa, como uma boa menina, me espera. À hora do chá, apareço.

Não admitiu imprecisões; trabalhosamente determinou lugar e hora. Com profética lucidez eu me disse: “Pobre Margot”.

À tarde a garganta não estava para se ventilar junto ao rio. Entre a saúde pela gorda ou um banho no clube não vacilei. Esclareço que olhei o relógio, mas simplesmente para confirmar que não havia mais tempo para lhe telefonar.

No vestiário, um numeroso grupo de consócios despidos comemorava com gargalhadas as histórias de namoros e conquistas. Rondando como chacal que não se atreve a intervir no festim das feras, um sócio novo, um dos tantos pobres-diabos que nunca entra na verdadeira vida do clube, ocupava-se com sua bolsa enquanto prestava atenção à conversa. Compadecido eu o observei: as dimensões desse chacal correspondiam melhor a um elefante, ou pelo menos a um gorila. Entrei no grupo não por vã ostentação – todos me conhecem no clube –, mas por tendência gregária. Não falei porque devo cuidar da garganta. No diálogo de mais alta espiritualidade, se a gente não fala, se aborrece. Optei por um banho.

À saída o sócio novo me perguntou:

- Senhor, tem carro?

Os indivíduos desta espécie jamais omitem o tratamento de senhor. Mexi negativamente a cabeça. O gigantão propôs:

- Posso levá-lo, senhor?

Às nossas costas um grupo de malandros fazia toda sorte de gestos típicos de colegiais. Uns me diziam que não com a mão, outros sugeriam mimicamente acidentes e castigos. Como se por causa de uma carona fosse eu renegar minhas convicções.

No carro, o sócio novo me disse:

- O que me diz daqueles senhores lá em cima? Não os qualifico para não fazer uso de um palavrão. Pobres mulheres, pensar que estão na boca dos homens. Não dos homens de verdade, como o senhor, que não disse uma só palavra para não se envolver na difamação.

Acometeu-me uma inexplicável urgência em demonstrar que não era mudo. Dissimulando o que foi possível a afonia, observei:

- É a pura verdade, mas seria preciso ver como elas falam de nós.

- A idéia é um consolo. Apesar disso, nada desculpa aquela linguagem. Falar assim das mulheres, que merecem nosso respeito e proteção! Eu também falarei de uma mulher. Não com sarcasmos baratos. Com o coração na mão! Quando lá em cima o vi tão digno, eu me disse: “Se mal o conheço, melhor. Será um conselheiro imparcial. Vou consultá-lo”.

Porque a barreira estava fechada, encaminhou-se pelo bosque. Onde beijei Margot, o sócio novo parou o carro, que estacionou, em seguida, no fim de uma longa e espaçada fila pontilhada de luzinhas. Nos outros carros havia casais.

Cravando os olhos em mim murmurou:

- Maricas infames.

Arrisquei:

- Talvez conviesse um lugar melhor iluminado.

Não me ouviu.

- Não sabem que é próprio dos maricas falar assim das mulheres? Bem, vamos esquecê-los – entrou rapidamente em uma comoção. – Um assunto da maior importância me ocupa: minha senhora. Eu e minha senhora nos adoramos. Nossos familiares nos chamam de gigantes unidos. Jocosamente, acredite-me, senhor. Uma alusão ao nosso tamanho. Minha senhora é de uma generosidade de alma, de uma seriedade, de uma pureza. Para ela, acima do amor não há nada! Quando eu lhe falo de pessoas que fazem vida em comum por interesse ou costume, ela não entende. Simplesmente não entende, como se cometessem uma misteriosa profanação. Por seu próprio sexo ela professa respeito, uma genuína reverência. Nada a induziria a malbaratá-lo. Conto-lhe agora um aspecto engraçado? Prometa-me que não me interpretará mal. Se alguma vez, com propósito didático, referi a minha senhora histórias de grandes cortesãs, cobertas de jóias e de luxo, seus olhinhos brilhavam. O senhor adivinha o motivo? Eu a conheço, eu sei perfeitamente o que pensa quando seus olhinhos brilham. Pensa que essas mulheres fizeram valer seu sexo. Não lhe atribua, eu lhe rogo, a menor intenção de imitá-las. Ela nunca esquece que é uma senhora e ocupa seu lugar, mas paradoxalmente, acredite-me, se malbarata. Já lhe falei de sua generosidade de alma. Suponha, então, meu bom senhor, que alguém realiza uma ação heróica, não desinteressada, vamos chamá-la nobre. Minha senhora acode a premiá-lo. A fascinação de um belo gesto acaba sendo para ela uma espécie de opressão. Naturalmente todas, no sonho dourado de sua vaidade, parecem-lhe dignas de conferir o dom supremo. Mas minha senhora põe em prática essa convicção.O senhor há de me entender: a ocasião não falta e a coitada se prodigaliza em uma forma que nem para sua saúde convém. Minha posição é delicada. Ela sabe que a compreendo e procura minha simpatia. Por nada deste mundo quero desiludi-la. Pour la noblesse: o conceito me amarra de pés e mãos, o que tem seu lado, como direi?, desesperador. Naturalmente, colho satisfações. Ao cabo de um mês ou dois, minha senhora me dá conta de suas quixotadas uma por uma, e eu, quando o cavalheiro não se comportou como tal, imediatamente procedo a castigá-lo com toda essa força que Deus me deu: ao fulano quebro o pescoço, ao beltrano a clavícula e ao sicrano, se for o caso, três costelas.

Disponho de uma imaginação intuitiva e rápida, de modo que a esta altura do diálogo previ a tremenda surpresa que se preparava.

- Acalento o sonho de que a fama destas reprimendas – continuou meu interlocutor – levante um dia, em torno de minha Margot, uma barreira infranqueável. O senhor, que me aconselha?

Divisei longe uma luzinha que em evoluções pelo espaço incidia na fileira de luzes. Em seguida entendi com pavor: era a lanterna de algum policial que examinava os carros para ver o que faziam os casais.

- A polícia – exclamei. – Podem até nos confundir.

- Não faltava mais nada – disse com seriedade.

Disse em tom de súplica:

- Eu evitaria o momento desagradável.

Sem pressa retomou a marcha e me exortou a que lhe desse um conselho franco. Pedi um momento para meditá-lo.

- Onde mora? – perguntou. – Levo-o até sua casa.

- De modo nenhum – respondi.

Deixou-me na entrada do metrô de Agüero. Em casa preparei a toda velocidade uma mala, e já no hotel onde estou passando a noite falei por telefone com o gerente da editora para lhe explicar que tirarei uma licença por um mês e que ninguém é insubstituível. Amanhã o carro está pronto e vou viajar. Com que ânimo, com que garantias, regressarei finalmente? Ignoro-o. Neste momento me atenho às palavras de um pregador: “Basta ao dia seu afã”.




(Histórias de Amor, tradução de Remy Gorga Filho)


(Ilustração: Ada Breedveld)





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