terça-feira, 28 de julho de 2009

HISTÓRIA DE BEM-TE-VIS, de Cecília Meireles









Com estas florestas de arranha-céus que vão crescendo, muita gente pensa que passarinho é coisa só de jardim zoológico; e outros até acham que seja apenas antiguidade de museu. Certamente, chegaremos lá... mas, por enquanto, ainda existem bairros afortunados, onde haja uma casa, casa que tenha um quintal, quintal que tenha uma árvore. Bom será que essa árvore seja a mangueira: pois nesse vasto palácio verde podem morar muitos passarinhos.

Os velhos cronistas encantaram-se com canindés e araras, tuins e sabiás, maracanãs e “querejuás todos azuis de cor finíssima...” Nós esquecemos tudo: quando um poeta menciona um pássaro, o leitor pensa que é literatura...

Pois há um passarinho chamado bem-te-vi. Creio que está para acabar. E é pena, pois, com esse nome que tem, e que é a sua própria voz, devia estar em todas as repartições públicas (e em muitos outros lugares), numa elegante gaiola, para no momento oportuno anunciar sua presença. Seria um sobressalto providencial e sob forma tão inocente e agradável que ninguém, decerto, se aborreceria.

Mas o que me leva a crer no desaparecimento do bem-te-vi são as mudanças que começo a observar na sua voz. O ano passado, aqui nas mangueiras dos meus simpáticos vizinhos, apareceu um bem-te-vi caprichoso, muito moderno, que se recusava a articular as três sílabas tradicionais do seu nome. Limitava-se a gritar: “...te vi! ...te vi!...” com a maior irreverência gramatical. Como dizem que as últimas gerações andam muito rebeldes e novidadeiras, achei natural que também os passarinhos estivessem contaminados pelo novo estilo humano.

Mas logo a seguir, o mesmo passarinho – ou seu filho, ou seu irmão, como posso saber, com a folhagem cerrada da mangueira? – animou-se a uma audácia maior. Não quis saber das duas sílabas, e gritava apenas, daqui, dali, invisível e brincalhão: ...vi!... vi!...”– o que me pareceu ainda mais divertido.

O tempo passou. O bem-te-vi deve der viajado; talvez seja cosmonauta, talvez tenha voado com seu team de futebol... Afinal tudo pode acontecer com bem-te-vis tão progressistas, que rompem com o canto da família e mudam os lemas dos seus brasões. Talvez tenha sido atacado por esses crioulos fortes que agora saem do mato de repente e disparam sem razão nenhuma contra o primeiro vivente que encontram.

Mas hoje tornei a ouvir um bem-te-vi cantar. E cantava assim: “Bem-bem-bem-...te-vi!” Pensei: “É uma nova escola poética que se eleva das mangueiras!...” Depois o passarinho mudou. E fez: “Bem-te-te-te...vi!” Tornei a refletir: “Deve ser pequenino e estuda a sua cartilha...” E o passarinho: “Bem-bem-bem-te-te-te-vi-vi-vi...!”

Os ornitólogos devem saber se isso é caso comum ou raro. Eu jamais tinha ouvido coisa igual. Mas as crianças, que sabem mais do que eu, e vão direitas aos assuntos, ouviram, pensaram, e disseram: “Que engraçado! Um bem-te-vi gago!” Então, talvez seja mesmo só gagueira...


(Quadrante 2)


(Ilustração: Aldemir Martins - pássaro)




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