quinta-feira, 19 de setembro de 2013

ESTRANHOS ITÁLICOS NA BÍBLIA INGLESA, de Henry Miller







Fui à cozinha e iniciei uma carta. "Querida Mara - Todos os nossos problemas estão resolvidos..." Continuei como se tudo estivesse claro e definitivo. Mara me parecia diferente agora. Eu me via debaixo das grandes árvores falando com ela de uma maneira que me surpreendia. Caminhávamos de braços dados através das folhagens densas, conversando como seres humanos. Havia uma grande lua amarela e os cães ganiam atrás de nós. Ela desejava um casal de cisnes para o laguinho dos fundos da casa. Nenhuma conversa de dinheiro, nada de luzes neon ou de comida chinesa. Que maravilha simplesmente respirar com naturalidade, jamais se apressar, jamais ir a parte alguma, jamais fazer algo importante - exceto viver! Ela também pensava assim. Tinha mudado, Mara. Seu corpo estava mais cheio, pesado; movia-se lentamente, falava com calma, guardava silêncio durante longos períodos, tudo com um ar tão real e natural. Se acaso desaparecesse, eu tinha a certeza de que voltaria inalterada, com um aroma ainda mais doce, pisando com maior segurança...

- Será que você percebe, Mara, como vai ser bom?

E lá ia eu, pondo tudo no papel tão sinceramente, quase chorando diante do maravilhoso cenário, quando ouvi Maude caminhando de um lado para outro no vestíbulo. Juntei as folhas de papel e dobrei-as. Botei a mão sobre elas e esperei que ela dissesse alguma coisa.

- Para quem está escrevendo? - perguntou, com toda a objetividade e segurança.

- Uma pessoa conhecida - respondi calmamente.

- Uma mulher, imagino?

- Sim, uma mulher. Uma jovem, para ser mais exato... Eu disse isso pesadamente, solenemente, ainda preso ao transe, à imagem de Mara debaixo das grandes árvores, dos dois cisnes boiando sem rumo no lago sereno. Se ela quiser saber, pensei comigo mesmo, eu acabo contando. Não vejo por que continuar mentindo. Não a odeio, como antigamente. Gostaria que ela pudesse amar como eu amo - as coisas seriam tão mais fáceis. Não quero magoá-la. Só quero que me deixe em paz.

- Você está apaixonado por ela. Não precisa responder: eu sei.

- Sim, é verdade: estou apaixonado. Encontrei alguém que realmente amo.

- Talvez você a trate melhor do que me tratou.

- Espero que sim - disse eu, ainda calmo, ainda esperando que me escutasse até o fim. - Na verdade nunca nos amamos, não é verdade, Maude?

- Você nunca teve o menor respeito por mim, como ser humano - replicou ela. - Insulta-me na frente de seus amigos; sai por aí com outras mulheres; nem chega a mostrar qualquer interesse por sua filha.

- Maude, eu queria que pelo menos uma vez você não falasse assim. Gostaria muito que pudéssemos conversar sobre o assunto sem amargura.

- Você pode, porque é feliz. Encontrou um novo brinquedo.

- Não é isso, Maude. Escute, supondo que tudo o que você diz seja verdade, que diferença faz agora? Supondo que estivéssemos num navio e ele estivesse afundando...

- Não vejo por que a gente tenha que supor coisas. Você vai recomeçar a vida com outra pessoa e eu vou ficar com toda a trabalheira, todas as responsabilidades.

- Eu sei - disse eu encarando-a com ternura sincera. - Quero que você tente me perdoar por isso; seria capaz? Que adiantaria eu ficar? Jamais aprenderíamos a nos amar. Não podemos nos separar como amigos? Não pretendo deixá-la no abandono. Vou tentar contribuir com a minha parte: prometo.

- É fácil dizer isso. Você está sempre prometendo coisas que não é capaz de cumprir. Se esquecerá de nós assim que puser o pé fora desta cada. Eu o conheço bem. Não posso me dar ao luxo de ser generosa com você. Decepcionou-me amargamente desde o início. Você foi egoísta, extremamente egoísta. Nunca pensei que fosse possível a um ser humano tornar-se tão cruel, tão insensível, tão desumano. Mas o reconheço agora. É a primeira vez que age como um...

- Maude, é cruel o que vou dizer, mas tenho que dizer. Quero que você entenda uma coisa. Talvez eu tivesse que atravessar tudo isso com você para aprender como se trata uma mulher. Não sou inteiramente culpado: o destino também teve a ver com isso. Sabe, no momento em que botei os olhos nela eu sabia...

- Onde foi que a conheceu? - disse Maude, cedendo subitamente à sua curiosidade feminina.

- Num salão de danças. É uma taxi-girl. A referência não é boa, eu sei. Mas se você a visse...

- Não quero vê-la. Não quero saber mais nada sobre ela. Só estava um pouco curiosa... Lançou-me um rápido olhar de compaixão. - E você acha que esta é a mulher que o fará feliz?

- Você a chama mulher; não é uma mulher, é apenas uma garota.

- Pior ainda. Meu Deus, como você é bobo!

- Maude, não é nada do que você está pensando. Você não deve julgar, na verdade. Como poderia saber? De qualquer modo, não me interessa. Já tomei minha decisão.

Deixou cair a cabeça. Parecia indescritivelmente triste e cansada, como um farrapo humano pendente de um gancho de carne. Baixei a vista até o chão, incapaz de suportar a visão de seu rosto.

Ficamos sentados assim durante uns poucos minutos carregados, nenhum de nós ousando erguer a vista. Ouvi um choro, e quando levantei os olhos vi o seu rosto contraído pela dor. Botou os braços na mesa e, chorando e soluçando, deitou a cabeça, encostando o rosto contra a madeira. Eu a tinha visto chorar muitas vezes, mas esta era a mais penosa  irresistível forma de derrota. Enervou-me. Inclinei-me sobre ela e pus a mão no seu ombro. Tentei dizer alguma coisa mas as palavras me ficaram presas na garganta. Sem saber o que fazer passei a mão sobre seus cabelos, acariciei-os tristemente, e também de um modo distante, como se fosse a cabeça de um estranho animal ferido que eu encontrasse no escuro.

- Vamos, vamos - consegui balbuciar - isto não vai adiantar nada.

Os soluços redobraram. Eu sabia que tinha dito a coisa erra. Mas não havia nada a fazer. Não importa o que pretendesse fazer: mesmo que quisesse se matar, eu não podia mudar a situação. Esperava as lágrima. Esperava também fazer o que estava fazendo: afagar-lhe os cabelos enquanto chorava e dizer a coisa errada. Se ela quisesse supera a crise e ir para a cama, eu poderia sentar-me e terminar a carta. Poderia acrescentar um post scriptum sobre a cauterização da ferida. Poderia dizer com um misto de alegria e tristeza: "Terminou".

Era o que me passava pela cabeça enquanto acariciava seus cabelos. Nunca estivera tão distante dela. Sentia as convulsões do seu corpo, mas sentia também prazer ao pensar em como estaria serena uma semana depois de minha partida. - Você vai se sentir uma nova mulher - pensava comigo mesmo. - Agora você atravessa toda essa angústia. É natural, e não a censuro por isto: só peço que acabe logo! Acho que lhe dei uma sacudidela para sublinhar o pensamento, pois naquele instante ela subitamente se aprumou e, olhando com olhos selvagens, desesperançados, congestionados pelas lágrimas, abraçou-me e puxou-me para ela num abraço frenético e sentimental. - Diga que não vai me deixar - soluçava ela, beijando-me com lábios salgados e famintos. - Ponha os braços em volta de mim, por favor. Me abrace com força. Meu Deus, sinto-me perdida!... Beijava-me com uma paixão que eu jamais sentira nela. Punha nisso corpo e alma - e todas as mágoas que existiam entre nós. Deslizei as mãos até suas axilas e a botei de pé suavemente. Estávamos unidos como amantes, oscilando como só o animal humano pode oscilar quando se entrega profundamente ao outro. Seu quimono resvalou e estava nua por baixo. Levei a mão a suas costas, a suas nádegas carnudas, mergulhei os dedos até o fundo da grande rachadura, apertando-a contra mim, mordendo seus lábios, mordendo os lóbulos de suas orelhas, o pescoço, lambendo-lhe os olhos, fechando o pensamento. Curvou-se como se fosse cair ao chão. Agarrei-a e levei-a pelo vestíbulo, subindo as escadas e jogando-a na cama. Caí em cima dela, meio entorpecido, e deixei que me arrancasse as roupas. Deitei-me de costas como um morto, com uma só coisa viva, a pica. Senti sua boca engolindo-a e a meia do pé esquerdo saindo lentamente. Passei os dedos por seu longos cabelos, deslizei-os em volta de seus seios, apalpei sua buceta que estava macia como borracha. Ela fazia uma espécie de movimento rotativo no escuro. Suas pernas desceram por cima de meus ombros e a buceta encostou em meus lábios. Manipulei sua bunda sobre minha cabeça, assim como levantaria um balde de leite para mitigar uma sede preguiçosa, e bebi e mordi e me saciei como uma ave de rapina. Ela estava num cio tão violento que seus dentes mordiam perigosamente a cabeça do meu pau. Naquela paixão frenética e lacrimosa a que tinha chegado, eu temia que afundasse mais os dente e me arrancasse a ponta numa só mordia. Tive que lhe faze cócegas para obrigar seus maxilares a relaxarem. Depois disto foi serviço rápido e limpo: nenhuma lágrima, nenhuma história de amor, nenhuma promessa disto ou daquilo. Me ponha no bloco da foda e me foda! - era o que ela pedia. E lá fui eu com uma fúria premeditada. Esta poderia ser a última das fodas. Maude já era uma estranha para mim. Estávamos cometendo adultério, do tipo apaixonado e incestuoso que a Bíblia adora relatar. Abraão aproximou-se de Sarah, ou de Leandra e a conheceu. (Estranhos itálicos na Bíblia inglesa.) Mas a maneira como aqueles velhos patriarcas tesudos trepavam suas esposas novas e velhas, irmãs, vacas e ovelhas, era de profundo conhecimento. Deviam mergulhar de cabeça, com todo o engenho e habilidade de velhos libertinos. Eu me sentia como Isaac fornicando com um coelho no templo. Ela era um coelhinho branco de orelhas compridas. Tinha ovinhos de Páscoa dentro dela e os deixava cair um por um numa cestinha. Eu enfiei uma coisa comprida dentro dela, estudando cada fissura, cada talho e ruptura, cada uma das saliências redondas que tinham crescido até adquirir o tamanho de uma ostra enrugada. Ela se afastou e fez um descanso, lendo o pau como Braille (Ponto Nova Iorque) com seus dedos indagadores. Agachou-se de quatro como um animal-fêmea, tremendo e relinchando com indisfarçado prazer. Nenhuma palavra humana dela, nenhum sinal de que conhecia alguma língua a não ser esta da foda desenfreada a todo vapor. O cavalheiro do Mississípi tinha-se apagado completamente; tinha-se recolhido ao limbo pantanoso que forma a superfície permanente dos continentes. Um cisne permanecia,, um octorum com lábios rubis de pato colados numa cabeça azul-pálido. Cedo estaremos na abundância, as coisas vão jorrar com ameixas e abricós caindo do céu. Um último empurrão, o arrastar de cinzas brancas de calor, abafadas, e então dois lenhos deitados lado a lado esperando pela machadinha. Belo final. Royal flush. Eu a conheci e ela me conheceu. A primavera vai voltar e o verão e o inverno. Ela dançará nos braços de outro, praticará com ele uma foda cega, relinchando, jorrando, agachada e flexionada - mas não comigo. Já cumpri meu dever, ministrando-lhe os últimos rituais. Fechei os olhos e fiz que estava morto para o mundo. Sim, aprenderíamos a viver uma nova vida, Mara e eu. Preciso acordar cedo e esconder a carta no bolso do casaco. Às vezes é estranho como a gente termina um caso. Sempre se pensa em por a última palavra no livro de contas com um floreio largo; nunca se pensa no autômato que fecha a conta enquanto dormimos. Isso acontece segundo o tipo mais rigoroso de lançamento contábil. Dá calafrios na gente, tudo tão bem calculado.

A machadinha está descendo. Últimas ruminações. O Expresso. Lua de Mel e todos a bordo: Memphis, Chattanooga, Nashville, Chickamauga. Passando por campos nevados de algodão... crocodilos bocejando na lama... o último abricó apodrecendo no gramado... a lua está cheia, a vala profunda, a terra é negra, negra, negra.


(Sexus; tradução de Roberto Muggiati)



(Ilustração: Jack Vetriano - the embrace of the spider)



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