sábado, 11 de abril de 2026

UNS & OUTROS, de Waly Salomão




Onde ouro e palmeiral, paisagens, mesas de altos manjares

Onde solares e ilusão, fazendas, castelos, pastagens

Onde braceletes, carrões, piscinas azul-turquesa

Nada melhor de se mirar

Neste rico mundo — para uns.

Onde, para mim, é conjugar contigo o verbo AMAR,

MARTA,

E, os dois, incarnar as pessoas, os tempos e os modos deste verbo.

Em contente união.

Uns

Outros

Tenho dito a mim mesmo repetidas vezes:

"E foi para isso que tu, ó Poeta, ouviste os profetas

Do Oriente e os hinos dos Gregos

E ainda há pouco o roncar dos trovões, para colocares

O Espírito em uso servil e ultrapassares em escárnio

A presença do bom, e negares o simples,

Sem coração e em jogo mercenário

Tangê-lo como animal cativo?"

Tenho dito.

E foi para isso que aprendes de cor e salteado, que decoraste

Que gravaste no coração as baladas de Villon, o Vagabundo

E pregaste nas paredes as canções de amor de Safo?

Tenho dito.

Tenho dito e aqui repito.

Que sou nefelibata nato.

Que antanho me supus uma máscara inscrita: "GIGOLÔ DE BIBELÔS".

Que sempre serei surrupiador de souvenirs.

E é assim, Poeta, que te indefines?

Assim te desenrolas das peçonhas e as malhas de lei não podem te

pescar.

Quem és, afinal? A qual espécie de peixe pertences?

Um mero embaralhador de cartas.

Um mero embaralhador de cartas pousadas sobre o veludo da mesa

deste profuso cassino.



(Ilustração: Pablo Picasso - the poet)

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