terça-feira, 14 de abril de 2026
DIÁLOGO SOBRE A NATUREZA DO UNIVERSO, de Albert Einstein e Rabindranath Tagore
[...] duas conversas que poderiam ser facilmente classificadas como os maiores duelos intelectuais do século XX. Essa colisão épica de duas visões de mundo distintas começou no dia 14 de julho de 1930, quando o poeta, filósofo e prêmio Nobel de Literatura Rabindranath Tagore visitou Albert Einstein em Berlim. Durante o encontro, o seguinte diálogo foi registrado:
EINSTEIN: Existem duas concepções distintas sobre a natureza do universo: 1) o mundo como entidade dependente da humanidade e 2) o mundo como realidade independente do fator humano.
TAGORE: Quando o universo está em harmonia com o homem, o eterno, referido por nós como a Verdade, nós o experimentamos como beleza.
EINSTEIN: Essa é a concepção puramente humana do universo.
TAGORE: Não pode haver outro tipo de concepção. Este é um mundo humano – a visão científica dele também é a do homem científico. Existe um padrão de razão e prazer que nos dá a Verdade, o padrão do Homem Eterno cujas experiências são experimentadas pelas nossas experiências. EINSTEIN: Essa é a realização da entidade humana.
TAGORE: Sim, uma entidade eterna. Devemos percebê-la através das nossas emoções e atividades. Percebemos o Homem Supremo que não tem limitações individuais com as nossas próprias limitações. A ciência se preocupa com aquilo que não se restringe aos indivíduos; o mundo humano impessoal de verdades. A religião percebe essas verdades e as liga com as nossas necessidades mais profundas; a nossa consciência individual da Verdade ganha significância universal. A religião aplica valores para a Verdade, e nós reconhecemos esta Verdade como sendo boa por meio da nossa harmonia com ela.
EINSTEIN: A Verdade, então – ou a Beleza –, não é independente do homem?
TAGORE: Não.
EINSTEIN: Se não houvesse mais nenhum ser humano, o Apollo de Belvedere não seria mais belo.
TAGORE: Não.
EINSTEIN: Concordo no que diz respeito ao conceito de beleza, mas não com o que se refere à Verdade.
TAGORE: Por que não? A Verdade é percebida pelo homem.
EINSTEIN: Eu não posso provar que a minha concepção é verdadeira, mas essa é a minha religião.
TAGORE: A beleza é o ideal de perfeita harmonia que está presente no Ser Universal; a Verdade como a perfeita compreensão da Mente Universal. Nós, como indivíduos, a abordamos através de erros e enganos, através de experiências acumuladas, de consciência iluminada – como, de outra forma, reconheceríamos a Verdade?
EINSTEIN: Não posso provar cientificamente que a Verdade deve ser concebida como uma Verdade válida independentemente da humanidade; mas acredito nisso firmemente. Acredito, por exemplo, que o teorema de Pitágoras em estados geométricos é aproximadamente verdadeiro, independentemente da existência do homem. De qualquer forma, se existe uma realidade independente do homem, deve existir também uma Verdade relativa a essa realidade – e, da mesma forma, a negação da primeira levaria à negação da existência da segunda.
TAGORE: A Verdade, que é uma com o Ser Universal, deve essencialmente ser humana, de outra forma qualquer coisa que nós, indivíduos, percebemos como verdadeira não pode ser chamada de Verdade – pelo menos a Verdade que é descrita como científica e que somente pode ser alcançada pelo processo da lógica; em outras palavras, pelo órgão do pensamento (cérebro), que também é parte do ser humano. De acordo com a filosofia indiana, existe o Brahman, a Verdade absoluta, que não pode ser concebido pelo isolamento da mente individual nem descrito pelas palavras, somente pode ser experimentado com a completa imersão do indivíduo no seu infinito. E essa Verdade não pode pertencer à ciência. A natureza da Verdade que estamos discutindo é apenas uma aparência – quer dizer, aquilo que parece ser verdadeiro para a mente humana e, portanto, é humano e pode ser chamado maya, ou “ilusão”.
EINSTEIN: Assim, de acordo com a sua concepção, que pode ser considerada a concepção indiana, essa ilusão não é algo individual, mas da humanidade como um todo.
TAGORE: A espécie também pertence a uma unidade, à humanidade. Portanto, a mente humana coletiva percebe a Verdade; a mente indiana ou a europeia se encontram em uma percepção comum.
EINSTEIN: A palavra “espécie” é usada em alemão para descrever todos os seres humanos; na realidade, os símios e os sapos pertenceriam a ela também.
TAGORE: Na ciência, utilizamos o processo de eliminar as limitações da nossa mente individual para, então, alcançar a compreensão da Verdade que é a mente do Homem Universal.
EINSTEIN: O problema começa quando a Verdade independe da nossa consciência.
TAGORE: O que chamamos de “verdade” se encontra na harmonia racional entre os aspectos subjetivos e objetivos da realidade, e ambos pertencem ao homem superpessoal.
EINSTEIN: Mesmo na vida diária, nós nos sentimos compelidos a atribuir uma realidade independente do homem aos objetos que utilizamos. Fazemos isso para conectar as experiências dos nossos sentidos de forma razoável. Por exemplo, se ninguém se encontra nesta casa, a mesa permanece onde está.
TAGORE: Sim, ela permanece fora da mente individual, mas não da mente universal. A mesa que percebo é perceptível pelo mesmo tipo de consciência que eu possuo.
EINSTEIN: Contudo, se ninguém estivesse na casa, a mesa ainda existiria da mesma forma – e isso já é ilegítimo sobre o seu ponto de vista –, porque não podemos explicar o que significa que a mesa está lá, independente de nós. O nosso ponto de vista natural no que tange à existência de uma Verdade independente da humanidade não pode ser explicado ou provado, mas é uma crença que ninguém pode deixar de ter – nem mesmo seres primatas. Atribuímos a Verdade a uma objetividade superhumana; ela nos é indispensável, essa realidade independente da nossa existência e da nossa experiência e da nossa mente – embora não possamos dizer o que ela significa.
TAGORE: A ciência provou que a mesa como objeto sólido é uma aparência e, portanto, algo que a mente humana percebe como uma mesa não existiria se todas as mentes não existissem. Ao mesmo tempo, deve-se admitir que o fato de que a realidade física não passa de uma grade variedade de centros rotatórios de força elétrica também pertence à mente humana. Na compreensão da Verdade, existe um conflito eterno entre a mente universal e a mesma mente confinada em um indivíduo. O processo perpétuo de reconciliação está sendo executado pela nossa ciência, pela nossa filosofia e pela nossa ética. De qualquer forma, se existisse qualquer Verdade absolutamente dissociada da humanidade, para nós ela seria totalmente inexistente. Não é difícil imaginar uma mente em que a sequência das coisas acontece não no espaço, mas somente no tempo, como a sequência de notas de uma música. Para tal mente, essa concepção de realidade é semelhante à realidade musical na qual a geometria piTAGOREana não tem significado algum. Existe a realidade do papel, que é infinitamente diferente da realidade da literatura. Pois, para a mente de uma traça que come o papel, a literatura contida em uma folha é totalmente inexistente, enquanto para a mente do homem a literatura tem um valor muito maior de Verdade que o papel em que ela foi escrita. De forma similar, se existisse uma Verdade que não guardasse relação racional ou sensual com a mente humana, ela permaneceria sendo um nada irreconhecível enquanto formos seres humanos.
EINSTEIN: Então sou mais religioso que você.
TAGORE: A minha religião é a reconciliação do Homem Superpessoal, o espírito universal humano, no meu próprio ser.
Em um segundo encontro, no dia 19 de agosto de 1930, o diálogo extraordinário continuou:
TAGORE: Eu estava discutindo… Hoje as descobertas matemáticas, que nos dizem que, no mundo dos átomos infinitesimais, a chance tem o seu papel, o drama da existência não é predestinado de uma forma absoluta.
EINSTEIN: Os fatos que fazem com que a ciência se mova nessa direção não dizem adeus à causalidade.
TAGORE: Talvez não, mas parece que a ideia de causalidade não está nos elementos, e sim que outra força constrói com eles o universo organizado.
EINSTEIN: Tentamos entender como a ordem se estabelece no plano superior. A ordem está lá, onde os grandes elementos se combinam e guiam a existência; nos elementos diminutos, todavia, essa ordem não é perceptível.
TAGORE: Essa dualidade está na profundeza da existência – as contradições do impulso livre e o desejo direcionado que se impõem sobre ele e criam um esquema ordenado das coisas.
EINSTEIN: A física moderna não diz que eles são contraditórios. As nuvens parecem de uma forma a distância, mas, ao observá-las de perto, elas se apresentam como gotas de água desordenadas.
TAGORE: Identifico um paralelo na psicologia humana. As nossas paixões e os nossos desejos são indisciplinados, mas o nosso caráter submete esses elementos em um todo harmonioso. Seriam os elementos rebeldes, dinâmicos, com o impulso individual? Existe algum princípio no mundo físico que os domina e os coloca em uma organização estruturada?
EINSTEIN: Nem mesmo os elementos existem sem ordem estatística; os elementos do radium sempre mantêm a sua ordem específica, da mesma forma como o fizeram anteriormente. Existe, então, uma ordem estatística dos elementos.
TAGORE: Senão o drama da existência seria por demais desordenado. É a harmonia constante da chance e do determinismo que faz com que ela seja eternamente nova e vivível.
EINSTEIN: Acredito que tudo o que fazemos ou vivemos tem uma causa por trás; é melhor, todavia, que possamos olhar através dela.
(O Verdadeiro Criador de Tudo; Miguel Nicolelis)
(Ilustração: Rabindranath Tagore and Albert Einstein in 1930)
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