sexta-feira, 15 de maio de 2009

O POMBO ENIGMÁTICO, de Paulo Mendes Campos







Na inelutável necessidade do amor (era quase primavera) pombo e pomba marcaram um encontro galante quando voavam e revoavam no azul do Rio de Janeiro. Era bem de manhãzinha.


- Às quatro em ponto me casarei contigo no mais alto beiral – disse o pombo.



- Candelária? – perguntou a noiva.



- Do lado norte – respondeu ele.



Pois, às quatro azul em ponto, a pomba pontualíssima pousava pensativamente no beiral. O pombo? O pombo não.



A pombinha, que era branca sem exagero, arrulhava, humilhada e ofendida com o atraso, contemplando acima do campanário todas as possibilidades da rosa-dos-ventos. Mas na paisagem do céu voavam só velozes andorinhas garotas porque as andorinhas mais velhas enfileiravam-se nas cornijas, pensando na morte, como gente fina, lá dentro nos dias solenes de missa de réquiem.



Quatro e dez. Quatro e um quarto. Uma pomba sozinha, à mercê quem sabe de um gavião, lendário mas possível. Sol e sombra. Como custa a passar um quarto de hora para uma noiva que espera o noivo no mais alto beiral. Como a brisa é triste. Como se humilha em revolta a noiva branca.



Ah, arrulhou de repente a pomba, quando distinguiu, indignada, o pombo que chegava, o pombo que chegava caminhando pelo beiral mais alto, do outro lado, lá onde, um pouco além, gritavam esganadas as gaivotas do mar pardo do mercado. Irônica, perguntou a pomba:



- Perdeste a noção do tempo?



- Perdão, por Deus, perdão – respondeu o pombo: - Tardo mas ardo. Olha que tarde...



- Que tarde? – perguntou a pomba.



- Que tarde! Que azul! Que tarde azul!



- Mas e eu?! – disse a pomba. – Sozinha aqui em cima!



- A tarde era tão bonita – disse o pombo gravemente – a tarde era tão bonita, que era um crime voar, vir voando...



- Mas e eu?! Eu?! – queixava-se a pomba.



- A tarde era tão bonita – explicou o pombo com doce paciência – que eu vim andando, que eu tinha de vir andando, meu amor.



(Ilustração: Orlando de Sant'anna - Corcovado)


20 comentários:

  1. Olá, Isaias.
    Aqui é bem melhor!
    Se precisar de qualuer ajuda, conte comigo.
    Abraço.

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  2. Eu adoro esse texto ...
    Muito lindo ... Fico so imaginando a paisagem do Rio de Janeiro, ótima para a ocasião.
    O texto também é engraçado, do tipo comédia...
    Valeu Paulo Mendes Campos!

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  3. a primeira vez que eu vi este texto eu tina 12 anos,cursava a 6ª serie e me apaixonei por ele. É simplesmente maravilhoso....

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  4. Adorei o texto.Eu acho que esse teexto vai cair na minha prova de portugues!

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  5. há muito tempo procuro esse texto! um dos mais lindos q ja li.Me traz ótimas recordações. Muito lindo msm.!!!!!

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  6. Obrigada por trazer à tona um dos mais lindos textos da literatura brasileira!
    Há muito tempo eu procurava por ele, e, por acaso encontrei aqui!
    Valeu sempre Paulo Mendes Campos e vai valer pela eternidade.
    PS.Li esse texto há mais de 50 anos atrás!!!

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  7. Este texto é delicadeza só. Caiu na minha prova de Portugues no concurso do Instituto de Educação em 1968. Adorei. Lembro que tirei otima nota na interpretação.
    Grata pela lembrança.
    Edir Leite

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  8. eu amo esse texto desde a primeira vez que li nunca mais me equeci dele

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  9. Esta crônica é uma das lindas que li...Talvez pela época: juventude, faculdade, amores, amigos... A sensação que se ocupa do meu coração é a mesma de trinta e cinco anos atrás...
    Foi o melhor do meu dia, obrigada!

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  10. Eu li esse texto lindo, maravilhoso na quinta serie, todo mundo olhando pra mim na sala rsrs. boas lembranças.

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  11. Li esse texto no meu livro de Língua Portuguesa da 6ª série. Eu tinha 12 anos e me apaixonei pelo pombo. Tenho cópia do texto até hoje.
    E também mencionei "O pombo enigmático" no meu blog http://acromegalicasp.blogspot.com

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  12. Porque o autor relacionaa primavera com o mar?

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  13. Walther

    Este texto me lembra o prf Sinval, do Colegio Pitagoras em BH MG, em 1981 ; deste esta epoca admiro os dois o texto e o prf.

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    1. Também conheci o Sinval, já que fui seu colega de magistério, até um pouco antes dessa época, em BH: grande coincidência!

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  14. A primeira vez que li esse texto eu tinha uns 12 anos, tinha ele no meu livro de Língua portuguesa, é maravilhoso, Eu lia e relia várias vezes tanto que eu sei ele decorado ou quase isso.

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  15. "Tardo, mas ardo!(O Pombo Enigmático) É uma maravilha, não é?

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  16. Este texto é muito lindo mesmo, delicado e poético... Mas no texto original a pombinha pergunta: " Perdeste a noção do templo?" E creio que aí está o fato de caracterizá-la irônica: templo: espaço X tempo:hora... Ainda o templo como marcação do sagrado... É isto.
    Grande abraço
    Elidamares

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  17. Respostas
    1. Sim, Gabriel, uma crônica de um de nossos mais celebrados cronistas. Embora, tenha estrutura muito próxima de conto.

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