quarta-feira, 27 de maio de 2009

O DUELO, de Dalton Trevisan









José foi morar na velha casa desabitada há muitos anos, o quintal cheio de gatos. Ele não gostava de bichos. Nos cantos espalhava à noite iscas de carne envenenada. Descobriu uma ninhada de gatinhos, meteu-os no saco e, com as costas do machado, malhou os pobres diabos. Furada de unhas, a bola de estopa arrastava-se pelo chão, espirrando de sangue as paredes. Quando acertava numa cabeça ela explodia feito laranja podre ao cair do galho.

Acabou com os gatos do quintal, menos um – era afeiçoado à casa, não antigo dono.

Preparou bolinhas de carne com arsênico, o gato não comeu. Por muitos dias não viu o inimigo. Seguia seu rastro: a cabeça crua de galinha, ali a seus pés, roubada da lata de lixo. José ia lidar nas roseiras e, na terra fofa, a maldição dos cocos enterrados. De noite, chegava da rua; na lata de lixo avistou o bichano: espantoso, negro, belo.

Deitado na cama, reconhecia as unhas lá na tampa da lata – engordava às suas custas. O gato bebia a sua água do balde, enrolado no seu tapete da porta. José era o terror da família, achou-se desafiado por um vagabundo, que o considerava seu dono. Se estalasse a língua, viria se arrastando, pelo chão a roçar-lhe a perna... Ah, esmagar-lhe a cabeça que nem uma ponta de cigarro. Planejando assassiná-lo, não dormia. A mulher comentou: “Você parece louco, José. O gato não lhe fez mal. É bicho de Deus”.

Antes do gato, ela não se atreveria a falar naquele tom. José tossia: os pêlos do outro no ar... Certa feita encurralou-o no canto da casa. Avançou de cacete em riste, o diabo agarrou-se à parede e foi ao chão, de unhas quebradas. A pancada rebentou um dos quadris obscenos. Mal ferido, ainda se arrastava pelo jardim.

Na noite seguinte ele esperou o homem, a perna aleijada, arrimado na lada de lixo. José teve azar nos negócios. Um filho adoeceu. A carne estragou na geladeira.

No verão, José cobria a cabeça com o lençol para não ouvir os gritos de uma gata amorosa. Eram muitos bichanos, reconhecia a voz do seu entre todos. Uns olhos fosfóreos alumiavam o quarto. Garras subiam-lhe pela roupa, enterravam-se na carne e o despertavam com um miado horrendo.

A casa era pequena para os dois. Bebia no botequim noite após noite. Ao outro a mulher elegera campeão da família. Com a mão na porta, ele ainda escutara um dos filhos: “Mamãe, o pai tem raiva do nosso gato?”

Cantando, voltou de madrugada. Não o encontrava há três dias; deveria estar morto, no fundo de algum porão, um bico de galinha enterrado na negra garganta. Ao pé da escada, olhou para cima: duas luas no último degrau. Era o gato, vivo, comendo...

Atirou-se para estripar com unhas e dentes. O maldito fugiu. José tropeçou e rolou pela escada. Choramingava, de pescoço quebrado, a boca mergulhada no lixo.

A porta da cozinha não se abriu. A família escolhera o partido do outro, que miava em torno do moribundo – o gato da casa a carpir o dono querido.


(Desastres do amor)


(Ilustração: Aldemir Martins)



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