quarta-feira, 23 de junho de 2010

GIOVANNI, de James Baldwin





Conheci Giovanni em meu segundo ano em Paris, quando estava sem dinheiro. Na manhã daquele dia, em que nos conhecemos, eu fora expulso de meu quarto. Não tinha um montão de dinheiro comigo, apenas perto de seis mil francos, mas o hoteleiros parisienses têm faro aguçado para a pobreza, e quando o mesmo acusa alguma coisa, eles fazem o que faz qualquer outra pessoa que sinta um mau cheiro – atiram para fora o que esteja fedendo.

Meu pai tinha, em sua conta bancária, dinheiro que me pertencia, mas mostrava-se muito relutante em enviá-lo para mim, pois queria que eu regressasse para casa – voltasse para casa, como dizia, e me estabelecesse, e sempre que ele dizia isso eu pensava no fundo lodoso de um poço estagnado. Àquela altura eu não conhecia muitas pessoas em Paris, e Hella encontrava-se na Espanha. A maioria dos que eu conhecia em Paris era, como às vezes os parisienses dizem, gente de le milieu, e embora esse meio certamente estivesse pronto a me chamar, eu me encontrava decidido a provar, tanto a eles quanto a mim próprio, que não pertencia à sua companhia. Fazia isso estando em companhia deles bastante tempo e manifestando para com todo os seu componentes uma tolerância que supunha situar-me acima de qualquer desconfiança. Escrevera pedindo dinheiro a amigos, é claro, mas o Oceano Atlântico é coisa bem profunda e larga, e o dinheiro não se apressa em vir da outra margem.

Assim é que percorri meu caderninho de endereços, sentado diante de uma xícara, num café de bulevar, e resolvi chamar um velho conhecido que sempre me pedia que o chamasse, um businessman norte-americano, nascido na Bélgica, madurão e chamado Jacques. Tinha um apartamento grande e confortável, muita coisa para beber e dinheiro em quantidade. Manifestou surpresa ao receber meu telefonema, como eu sabia que ia acontecer, e antes que essa surpresa e seu sabor se dissipassem, dando-lhe tempo para acautelar-se, já me convidara para jantar. Podia estar xingando quando desligava, e pondo a mão na carteira, mas era tarde demais. Jacques não é criatura das piores. Talvez seja um idiota e um covarde, mas quase todos são uma coisa ou outra, e a maioria incorre em ambas as categorias. Por certos aspectos, eu gostava dele. Era um bobo, mas vivia muito solitário. Seja como for, compreendo agora que o desdém que sentia por ele estava preso ao desdém que sinto por mim mesmo. Podia mostrar-se incrivelmente generoso, e sabia ser inenarravelmente sovina. Embora quisesse confiar em todos, não conseguia confiar em pessoa alguma, e para compensar isso gastava o dinheiro com os outros, seguindo-se daí que era invariavelmente esbulhado. Tendo ocorrido isso, abotoava a carteira, fechava a porta e retirava-se para aquela forte autocomiseração que talvez constituísse a única coisa realmente sua. Por muito tempo achei que ele, com seu apartamento enorme, suas promessas de boa intenção, seu uísque, sua maconha, suas orgias, ajudara a matar Giovanni. E talvez tenha, mesmo. Mas é certo que as mãos de Jacques não estão mais manchadas de sangue do que as minhas.

A bem da verdade, vi Jacques logo depois de Giovanni ser condenado. Estava sentado no terraço de um café, envolto em seu sobretudo, tomando um vin chaud, e inteiramente sozinho naquele lugar. Quando passei por ali, ele me chamou.

Não tinha bom aspecto, seu rosto estava mosqueado e os olhos por trás dos óculos pareciam os de um homem à morte, que procura salvação em toda parte.

- Já soube – disse em murmúrio, quando me sentei à sua mesa – a respeito de Giovanni?

Com a cabeça, fiz que sim. Lembro-me do sol de inverno, brilhando no céu, e lembro também que me sentia tão frio e distante quanto ele.

- É terrível, terrível, terrível! – disse Jacques entre gemidos. – Terrível!

- Sim – respondi, incapaz de dizer outra coisa.

- Por que será que ele fez uma coisa dessas? – insistiu Jacques. – Por que não pediu ajuda aos amigos?

Olhou para mim, e sabíamos ambos que na última vez em que Giovanni pedira dinheiro Jacques o negara. Fiquei em silêncio, e ele prosseguiu:

- Dizem que ele começara a tomar ópio, que precisava de dinheiro para o ópio. Você ouviu falar nisso?

Eu ouvira, sim. Tratava-se de uma especulação apresentada em jornal, mas eu tinha motivos para crer nela, lembrando a a medida do desespero de Giovanni, sabendo até onde ele fora levado por aquele terror, tão grande que simplesmente se transformara em vácuo. “Eu quero fugir”, dissera-me. “Je veux m’evader deste mundo sujo, deste corpo sujo. Nunca mais quero amar com outra coisa além do corpo”.

Jacques aguardava minha resposta, e eu fiquei de olhos presos na rua. Estava começando a pensar em Giovanni morrendo – e onde Giovanni estivera, não haveria mais coisa alguma.

- Espero que não tenha sido por minha culpa – disse Jacques, finalmente. – Não lhe dei o dinheiro que me pedia. Se eu soubesse... teria dado tudo quanto possuo.

Mas nós dois sabíamos que isso não era verdade.

- Vocês dois juntos... – sugeriu Jacques – Não eram felizes juntos?

- Não – respondi e levantei-me. – Talvez fora melhor que ele ficasse lá naquela aldeia dele, na Itália, plantasse suas oliveiras e tivesse filhos, e espancasse a mulher. Ele, antes, gostava muito de cantar – recordei de repente. – Talvez pudesse ter ficado por lá e cantado por toda a vida, e morrido na cama.

Foi então que Jacques disse alguma coisa surpreendente. As pessoas estão cheias de surpresas, até para si mesmas, quando agitadas o suficiente.

- Ninguém pode ficar no jardim do Paraíso – disse Jacques, aduzindo em seguida: - Por que será?



(Giovanni – tradução de Affonso Blacheyre)



(Ilustração: Matisse – luxe calme et volupté)


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