terça-feira, 4 de maio de 2010

PREÂMBULO DE ZARATUSTRA – II, de Friedrich Nietzsche






Zaratustra desceu sozinho das montanhas sem encontrar ninguém. Ao chegar aos bosques deparou-se-lhe de repente um velho de cabelos brancos que saíra da sua santa cabana para procurar raízes na selva. E o velho falou a Zaratustra desta maneira:


“Este viandante não me é desconhecido: passou por aqui há anos. Chamava-se Zaratustra, mas mudou. Nesse tempo levava as suas cinzas para a montanha. Quererá levar hoje o seu fogo para os vales? Não terá medo do castigo que se reserva aos incendiários? Sim; reconheço Zaratustra. O seu olhar, porém, e a sua boca não revelam nenhum enfado. Parece que se dirige para aqui como um bailarino! Zaratustra mudou, Zaratustra tornou-se menino, Zaratustra está acordado. Que vais fazer agora entre os que dormem? Como no mar vivias, no isolamento, e o mar te levava. Desgraçado! Queres saltar em terra? Desgraçado! Queres tornar a arrastar tu mesmo o teu corpo?”


Zaratustra respondeu: “Amo os homens”.


“Pois por que — disse o santo — vim eu para a solidão? Não foi por amar demasiadamente os homens? Agora, amo a Deus; não amo os homens. O homem é, para mim, coisa sobremaneira incompleta. O amor pelo homem matar-me-ia”.


Zaratustra respondeu: “Falei de amor! Trago uma dádiva aos homens”.


“Nada lhes dês — disse o santo. — Pelo contrário, tira-lhes qualquer coisa e eles logo te ajudarão a levá-la. Nada lhes convirá melhor, de que quanto a ti te convenha. E se queres dar não lhes dês mais do que uma esmola, e ainda assim espera que ta peçam”.


“Não — respondeu Zaratustra; — eu não dou esmolas. Não sou bastante pobre para isso”.


O santo pôs-se a rir de Zaratustra e falou assim: “Então vê lá como te arranjas para te aceitarem os tesouros. Eles desconfiam dos solitários e não acreditam que tenhamos força para dar. As nossas passadas soam solitariamente demais nas ruas. E, ao ouvi-las perguntam assim como de noite, quando, deitados nas suas camas, ouvem passar um homem muito antes do alvorecer: Aonde irá o ladrão? Não vás para os homens! Fica no bosque! Prefere à deles a companhia dos animais! Por que não queres ser como eu, urso entre os ursos, ave entre as aves?”.


“E que faz o santo no bosque?” — perguntou Zaratustra.


O santo respondeu: “Faço cânticos e canto-os, e quando faço cânticos rio, choro e murmuro. Assim louvo a Deus. Com cânticos, lágrimas, risos e murmúrios louvo ao Deus que é meu Deus. Mas, deixa ver: que presente nos trazes?”.


Ao ouvir estas palavras, Zaratustra cumprimentou o santo e disse-lhe: “Que teria eu para vos dar? O que tens a fazer é deixar-me caminhar, correndo, para vos não tirar coisa nenhuma”.


E assim se separaram um do outro, o velho e o homem, rindo como riem duas criaturas.


Quando, porém, Zaratustra se viu só, falou assim, ao seu coração: “Será possível que este santo ancião ainda não ouvisse no seu bosque que Deus já morreu?”



(Assim Falava Zaratustra, tradução de José Mendes de Souza)




(Ilustração: tentazione di santo Antonio, de Gottardo Ciapanna)




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