segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O PÉ DE LARANJA-LIMA, de Oswaldo França Júnior







Junto à montanha as galinhas dormiam empoleiradas nos galhos de um pé de laranja-lima. Entre elas havia uma diferente. Ela se acostumara com o espaço de tempo que permanecia dormindo e, também, com o espaço de tempo que andava pelo mato. Tanto é assim que, no dia do eclipse do sol, todas as galinhas, às duas da tarde, foram para seus poleiros, exceto a que se acostumara com os espaços de tempo. E, quando o sol parou no horizonte, apenas a galinha diferente foi para o poleiro. As outras permaneceram pelo mato até que o sol voltou a se movimentar e se escondeu.

Um dia esta galinha ficou cega. Mas, como durante todos os dias de sua vida havia subido para o mesmo galho do pé de laranja-lima, a falta de visão não a impediu de continuar dormindo no seu poleiro. E, na hora em que o sol despontava, ela abria os olhos sem vida, descia da sua árvore e ia para o mato. E na hora em que o sol se escondia, ela, que se acostumara com os espaços de tempo, subia para seu galho.

Veio o progresso e os homens, construtores de estradas, cortaram o pé de laranja-lima.

Ninguém avisou à galinha cega que haviam cortado a árvore de seu poleiro. E é por isso que ao pé da montanha, à margem da estrada, pode-se ver entre o pôr e o nascer do sol uma galinha no ar, dormindo em sua posição de empoleirada.




(Ilustração: Aldemir Martins - galo)



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