domingo, 4 de outubro de 2009

INOCÊNCIA DO (DE)LEITE, de Sonia Pereira









O sol adivinha-lhe a nudez e espreita pelas frestas da veneziana. Lambe-lhe os seios e o ventre, bafeja-lhe a nuca, roça os cabelos em desalinho.



Parado diante da porta, o garoto assiste, atônito, à cena. Falta-lhe a respiração: ela aconchega-se sob os lençóis, preguiçosamente, permitindo que se lhe adivinhe o calor das carnes.



O sangue lateja nas veias do menino, o suor brota pelos poros da testa, das costas e um incontrolável torpor toma-lhe os membros. Já não consegue reagir, muito menos, virar as costas e ir embora, conforme o plano inicial. A pequena jia espera, quieta em sua mão, pelo instante da liberdade.



O pacto com os companheiros fora esquecido completamente: “soltar o bicho sob os lençóis e fugir”... não! S ó mais uma olhadela e... será que ela acorda? E daí? O que será de mim? Serei expulso, serei preso? – no meio desses pensamentos, o garoto não consegue mover um músculo sequer.



De repente, ela acorda; passa os dedos muito brancos pelos cabelos curtos, levemente cacheados.



Levanta-se e caminha até a cômoda onde, de uma bacia velha, leva um pouco d’água até a testa, os ombros, refresca a nuca. Gotas percorrem-lhe os seios e ele imagina que a água, escorrendo assim, languidamente pelas curvas recém-descobertas, obedecem ao seu pensamento.



‘Vontade de sorver, gota a gota, todo aquele frescor...’ – esconde-se na sombra do largo batente da porta de madeira maciça,olhos negros muito abertos, respiração suspensa: ela abre a veneziana.



O sol, agora, entra por inteiro pela janela, envolvendo aquele corpo com todo o vigor de sua luz e doura a pela clara, os pelos, as costas.



Em sua ingenuidade, jamais poderia supor que ela dormisse nua, ou que possuísse um corpo assim, igual ao de qualquer outra menina. Como aquelas que moravam no sítio ao lado do orfanato e que ele e seus companheiros, sempre que podiam, espiavam durante o banho no ribeirão.



Bem, não era assim tão igual... talvez mais cheio... mais belo, mais... branco... céus! Muito mais branco!



Um tremor espalha-se por seus inconclusos músculos, o peito arfa. A mão abre-se num espasmo, libertando a pequena rã que, rápida, esconde-se atrás da pesada porta



O badalar de um sino, ao longe, como se alguém o tocasse em surdina, desperta subitamente o garoto de seu torpor.



Assustado, roda sobre os calcanhares e vai, silencioso, ao encontro daquele som metálico.



Cada recanto do seu pequeno ser tinha a certeza de que nada mais seria como antes...



Já era dia.



No refeitório, irmã Serena, já em seus trajes impecavelmente sóbrios, iria desejar-lhe bom dia, servindo-lhe um pão dourado como a luz do sol e copo de leite branco... muito branco...



(Fantasia de Eros)


(Yanqun Xue)


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