segunda-feira, 14 de setembro de 2009

SERÃO DO MENINO POBRE, de Ascânio Lopes









Na sala pobre da casa da roça
papai lia os jornais atrasados.
Mamãe cerzia minhas meias rasgadas.
A luz frouxa do lampião iluminava a mesa
e deixava nas paredes um bordado de sombras.
Eu ficava a ler um livro de histórias impossíveis
— desde criança fascinou-me o maravilhoso.
Às vezes, Mamãe parava de costurar
— a vista estava cansada, a luz era fraca,
e passava de leve a mão pelos meus cabelos,
numa carícia muda e silenciosa.

Quando Mamãe morreu
o serão ficou triste, a sala vazia.
Papai já não lia os jornais
e ficava a olhar-nos silencioso.
A luz do lampião ficou mais fraca
e havia muito mais sombra pelas paredes...

E, dentro em nós, uma sombra infinitamente maior.



(Suplemento Literário do Jornal de Cataguases, MG, nº4, de 20/04/1977)


(Ilustração: Georges Seurat)


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