sexta-feira, 4 de setembro de 2009

AS TREVAS, de Lord Byron







Tive um sonho que em tudo não foi sonho!...


O sol brilhante se apagava: e os astros,

Do eterno espaço na penumbra escura,

Sem raios, e sem trilhos, vagueavam.

A terra fria balouçava cega

E tétrica no espaço ermo de lua.

A manhã ia, vinha... e regressava...

Mas não trazia o dia! Os homens pasmos

Esqueciam no horror dessas ruínas

Suas paixões: E as almas conglobadas

Gelavam-se num grito de egoísmo

Que demandava "luz". Junto às fogueiras

Abrigavam-se... e os tronos e os palácios,

Os palácios dos reis, o albergue e a choça

Ardiam por fanais. Tinham nas chamas

As cidades morrido. Em torno às brasas

Dos seus lares os homens se grupavam,

P'ra à vez extrema se fitarem juntos.

Feliz de quem vivia junto às lavas

Dos vulcões sob a tocha alcantilada!


Hórrida esp'rança acalentava o mundo!

As florestas ardiam! ... de hora em hora

Caindo se apagavam; crepitando,

Lascado o tronco desabava em cinzas.

E tudo... tudo as trevas envolviam.

As frontes ao clarão da luz doente

Tinham do inferno o aspecto... quando às vezes

As faíscas das chamas borrifavam-nas.

Uns, de bruços no chão, tapando os olhos

Choravam. Sobre as mãos cruzadas — outros —

Firmando a barba, desvairados riam.

Outros correndo à toa procuravam

O ardente pasto p'ra funéreas piras.

Inquietos, no esgar do desvario,

Os olhos levantavam p'ra o céu torvo,

Vasto sudário do universo — espectro —,

E após em terra se atirando em raivas,

Rangendo os dentes, blásfemos, uivavam!


Lúgubre grito os pássaros selvagens

Soltavam, revoando espavoridos

Num vôo tonto co'as inúteis asas!

As feras 'stavam mansas e medrosas!

As víboras rojando s'enroscavam

Pelos membros dos homens, sibilantes,

Mas sem veneno... a fome lhes matavam!

E a guerra, que um momento s'extinguira,

De novo se fartava. Só com sangue

Comprava-se o alimento, e após à parte

Cada um se sentava taciturno,

P'ra fartar-se nas trevas infinitas!

Já não havia amor! ... O mundo inteiro

Era um só pensamento, e o pensamento

Era a morte sem glória e sem detença!

O estertor da fome apascentava-se

Nas entranhas ... Ossada ou carne pútrida

Ressupino, insepulto era o cadáver.

Mordiam-se entre si os moribundos

Mesmo os cães se atiravam sobre os donos,

Todos exceto um só... que defendia

O cadáver do seu, contra os ataques

Dos pássaros, das feras e dos homens,

Até que a fome os extinguisse, ou fossem

Os dentes frouxos saciar algures!

Ele mesmo alimento não buscava ...

Mas, gemendo num uivo longo e triste,

Morreu lambendo a mão, que inanimada

Já não podia lhe pagar o afeto.

Faminta a multidão morrera aos poucos.

Escaparam dous homens tão-somente

De uma grande cidade. E se odiavam.

...Foi junto dos tições quase apagados

De um altar, sobre o qual se amontoaram

Sacros objetos p'ra um profano uso,

Que encontraram-se os dous... e, as cinzas mornas

Reunindo nas mãos frias de espectros,

De seus sopros exaustos ao bafejo

Uma chama irrisória produziram! ...

Ao clarão que tremia sobre as cinzas

Olharam-se e morreram dando um grito.

Mesmo da própria hediondez morreram,

Desconhecendo aquele em cuja fronte

Traçara a fome o nome de Duende!


O mundo fez-se um vácuo. A terra esplêndida,

Populosa tornou-se numa massa

Sem estações, sem árvores, sem erva.

Sem verdura, sem homens e sem vida,

Caos de morte, inanimada argila!

Calaram-se o Oceano, o rio, os lagos!

Nada turbava a solidão profunda!

Os navios no mar apodreciam

Sem marujos! os mastros desabando

Dormiam sobre o abismo, sem que ao menos

Uma vaga na queda alevantassem,

Tinham morrido as vagas! e jaziam

As marés no seu túmulo... antes delas

A lua que as guiava era já morta!

No estagnado céu murchara o vento;

Esvaíram-se as nuvens. E nas trevas

Era só trevas o universo inteiro.





(Tradução de Castro Alves, in Espumas Flutuantes)





(Ilustração: Gustave Doré - chuva de brasas)






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