quinta-feira, 24 de setembro de 2009

AOS 16 ANOS MATEI MEU PROFESSOR DE LÓGICA, de Campos de Carvalho








Aos 16 anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa – e qual defesa seria mais legítima? – logrei ser absolvido por cinco votos contra dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris.



Deixei crescer a barba em pensamento, comprei um par de óculos para míope, e passava as noites espiando o céu estrelado, um cigarro entre os dedos. Chamava-me então Adilson, mas logo mudei para Heitor, depois Ruy Barbo, depois finalmente Astrogildo, que é como me chamo ainda hoje, quando me chamo.



A primeira mulher que possuí foi sob a ponte do Sena, em pleno coração do meu Paris imaginário; e ainda me lembro de que ela me sorria com uns dentes que refletiam as estelas e as lâmpadas do cais adormecido, dizia-me coisas numa língua que eu não conheci. Paguei-lhe à vista, se subi eufórico em direção a uma rua de onde vinham sons de uma mandolinata inenarrável, e que se esvanecia à medida que eu me aproximava, e que acabou por desaparecer de todo. Sentei-me no chão, aturdido, acendi um cigarro e deixei que ele fumasse por si mesmo, de pois morrei tranquilamente dentro da noite calma.



Quando despertei, já um gari me estendia o último jornal da tarde, e pude ler então que uma grande hecatombe havia acontecido sobre a cidade de Melbourne, na Austrália,justamente enquanto eu dormia. Lavei meu rosto com o pranto, entreguei o jornal a um menino cego e saí correndo pela primeira rua que encontrei pela frente, até deparar com a estátua do marechal Joffre montado a cavalo.



No dia seguinte, como a guerra houvesse rebentado, apresentei-me a um general de divisão que encontrei espairecendo pelo Bois de Boulogne, e ele foi muito gentil para comigo, dando-me uma corneta e cinco mil francos para comprar um uniforme. Com a corneta toquei o Danúbio azul, mas em surdina, e com os cinco mil francos fui a uma sessão de cinema (um filme de Clara Bow, se não me engano) e dei o resto a um mendigo que me pareceu mais honesto do que os outros – ou do que eu, pelo menos. À margem do Sena pus-me a pensar sobre as incertezas da vida e o absurdo da guerra recém-deflagrada entre o Japão e a China, até que o sono me jogasse de novo de encontro às pedras, as mãos espalmadas como as de um cadáver.



Tudo isso do meu passado eu conto para que se possa ter uma ideia exata da minha situação presente, depois que me deram por excêntrico e me jogaram neste hotel de luxo onde os garçons, o gerente e o subgerente andam todos de branco, e têm também os dentes brancos e não vermelhos ou amarelos como toda gente. Conto, também, porque o dia aqui para mim tem 72 horas, e às vezes mais até, e eu necessito ocupar-me com qualquer coisa que não sejam os mosquitos da sala ou a minha coleção de palitos de fósforo, de há muito superada e já vendida a um nababo hindu que mora no quarto ao lado. Descobri que, escrevendo a história da minha vida, antes que a escrevam os outros ou que a não escreva ninguém, estarei prestando um serviço enorme não só à cultura, por isso que - - -



(Fui obrigado a interromper estas lucubrações para tomar um prato de sopa que me trouxe a gentil senhora do gerente ou do subgerente do hotel – de qualquer forma uma senhora respeitável e vesga, que às vezes me toma a temperatura pelo simples prazer de me ser agradável. Mas a sopa estava bastante amarga, ou assim me pareceu pelo menos.)



Mas eu dizia, se não e estou equivocado, que, finda a guerra sino-filandesa, fui preso como espião moscovita por causa de minhas barbas patriarcais e malcheirosas, e fui submetido a um conselho de guerra composto de 15 mil generais, todos eles fardados, que me absolveram unanimemente e me repatriaram ao meu país de origem. Qual esse país fosse, nem eles nem eu sabíamos, de forma que voltei tranquilamente a dormir sob as pontes de diversos rios da Europa, os quais eu já conhecia de vista através das aulas de geografia que me dava o meu professor de ginásio, ao tempo em que eu ainda teimava em aprender as coisas. Dniester, Reno, Vístula, Guadalquivir, Elba, Nitra, Ródano etc. etc. são nomes que se tronaram familiares aos meus ouvidos de tanto eu ouvi-los murmurar eles mesmos, e não pobres mestres escolas diante de ensebados mapas grudados à parede; a sua cantilena por muito tempo substituiu o doce acalanto de minha mãe na pátria desconhecida, que de resto nunca cheguei a conhecer, pois nunca fui criança.



Foi por essa época que aprendi a tocar berimbau com um professor do Conservatório de Varsóvia, herr Hepsteimm, e quando também resolvi fazer a minha primeira comunhão, por absoluto estado de fome. Desse aprendizado resultou-me a oportunidade de vir a ser mais tarde nomeado conselheiro musical na corte de Luís II da Baviera, o mesmo que tinha vários castelos assombrados e era dado a práticas de ocultismo, às quais aliás eu não era de todo alheio.



(Mas confesso que o lápis já me pesa na mão como se fora o mastro de um circo ou o próprio eixo da terra, o que me leva a parar de súbito essas reminiscências tão históricas e para mim tão caras, que um dia mostrarei aos meus companheiros de hotel para eles vejam até onde chega a fabulosa aventura humana, desde que - - -





(A Lua Vem da Ásia)




(Ilustração: Sergey Reznichenko)





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