quinta-feira, 14 de maio de 2020

BURGUESES / BURGUESES, de Nicolás Gillén



No me dan pena los burgueses vencidos.

Y cuando pienso que van a dar me pena,

aprieto bien los dientes, y cierro bien los ojos.



Pienso en mis largos días sin zapatos ni rosas,

pienso en mis largos días sin sombrero ni nubes,

pienso en mis largos días sin camisa ni sueños,

pienso en mis largos días con mi piel prohibida,

pienso en mis largos días Y



No pase, por favor, esto es un club.

La nómina está llena.

No hay pieza en el hotel.

El señor ha salido.

Se busca una muchacha.

Fraude en las elecciones.

Gran baile para ciegos.

Cayó el premio mayor en Santa Clara.

Tómbola para huérfanos.

El caballero está en París.

La señora marquesa no recibe.



En fin Y

Que todo lo recuerdo y como todo lo recuerdo,

¿qué carajo me pide usted que haga?

Además, pregúnteles,

estoy seguro de que también

recuerdan ellos.




Tradução de Gilfrancisco Santos:




Não me dão pena os burgueses

vencidos. E quando penso que vão a dar-me pena,

aperto bem os dentes e fecho bem os olhos.

Penso em meus longos dias sem sapatos nem rosas.

Penso em meus longos dias sem abrigos nem nuvens.

Penso em meus longos dias sem camisas nem sonhos.

Penso em meus longos dias com minha pele proibida.

Penso em meus longos dias.



- Não passe, por favor. Isto é um clube.

- A relação está cheia.

- Não há vaga no hotel.

- O senhor saiu.

- Deseja uma mulher.

- Fraude nas eleições.

- Grande baile para cegos.

- Caiu o Prêmio Maior em Santa Clara.

- Loteria para órfãos.

- O cavalheiro está em Paris.

- A senhora marquesa não recebe.



Enfim, toda recordação.

E como toda recordação,

que droga me pede você para fazer?

Além disso, pergunte-lhes.

Estou seguro

de que também recordam eles.



(Ilustração: Leszek Sokol)



segunda-feira, 11 de maio de 2020

APARÊNCIA E REALIDADE, de Bertrand Russell




Há algum conhecimento tão certo que nenhum homem razoável possa dele duvidar? Esta questão, que à primeira vista parece fácil, é na realidade uma das mais difíceis que se podem fazer. Quando tivermos compreendido as dificuldades com que se defronta uma resposta clara e segura, estaremos bem lançados no estudo da filosofia — uma vez que a filosofia é apenas a tentativa de responder a estas questões fundamentais, não descuidadamente e dogmaticamente, como fazemos na vida quotidiana e mesmo nas ciências, mas criticamente, após termos explorado tudo o que torna estas questões embaraçosas e termos compreendido toda a vagueza e confusão que subjazem às nossas ideias vulgares. 

Na vida quotidiana assumimos como certas muitas coisas que, se as examinarmos melhor, descobrimos serem tão contraditórias que só uma reflexão demorada permite que saibamos em que acreditar. Na busca da certeza é natural que comecemos pelas nossas experiências imediatas e, num certo sentido, sem dúvida que o conhecimento deriva delas. É, no entanto, possível que esteja errada qualquer afirmação acerca do que as nossas experiências imediatas nos permitem conhecer. Parece-me que estou agora sentado numa cadeira, diante duma mesa com determinada forma, sobre a qual vejo folhas de papel manuscritas ou impressas. Se virar a cabeça, vejo pela janela alguns edifícios, as nuvens e o Sol. Acredito que o Sol está a cerca de cento e cinquenta milhões de quilômetros da Terra; que é um globo quente muitas vezes maior do que esta; que, devido à rotação terrestre, nasce todas as manhãs, e continuará no futuro a fazê-lo por um tempo indeterminado. Acredito que, se outra pessoa normal entrar nos meus aposentos, verá as mesmas cadeiras, as mesmas mesas, livros e papéis que eu vejo, e que a mesa que vejo é a mesma cuja pressão sinto no meu braço. Tudo isto parece ser tão evidente que nem merece a pena referi-lo, exceto em resposta a quem duvide de que conheço alguma coisa. Apesar disso, tudo o que afirmei pode ser submetido a uma dúvida razoável e exige uma discussão cuidadosa antes que possamos estar absolutamente certos da sua verdade. 

Para tornar óbvias estas dificuldades, concentremos a nossa atenção na mesa. Para a vista a mesa é oval, castanha e brilhante, enquanto para o tacto é lisa, fria e dura e, quando se lhe bate, emite um som a madeira. Qualquer pessoa que a veja, sinta e ouça estará de acordo com esta descrição e, por conseguinte, poderá parecer que não existe aqui a mais pequena dificuldade; no entanto, assim que tentemos ser mais precisos, os nossos problemas começarão. Embora eu acredite que toda a mesa é “realmente” da mesma cor, as partes que refletem a luz parecem mais brilhantes que as outras e algumas, devido à luz refletida, chegam a parecer brancas. Sei que se me mover, as partes que refletirão a luz não serão as mesmas e que a distribuição aparente das cores na mesa mudará. Por conseguinte, se várias pessoas estiverem a olhar para a mesma mesa no mesmo momento, nenhuma delas verá exatamente a mesma distribuição de cores, porque nenhuma delas a poderá ver exatamente do mesmo ponto de vista e, qualquer mudança de ponto de vista, provoca mudanças na forma como a luz é refletida. 

Para a maior parte das nossas finalidades práticas estas diferenças não são importantes, embora o sejam para o pintor. O pintor tem de perder o hábito de pensar que as coisas parecem ter a cor que o senso comum diz que “realmente” têm e aprender a ver as coisas como aparecem. Eis aqui a origem duma das distinções que mais dificuldades causa em filosofia: a distinção entre “aparência” e “realidade”, entre o que as coisas parecem ser e o que são. O pintor quer saber o que as coisas parecem ser, enquanto o homem prático e o filósofo desejam saber o que são. Contudo, o desejo do filósofo por este saber é mais forte que o do homem prático e igualmente mais afetado pelo conhecimento das dificuldades em responder à questão. 

Voltemos à mesa. O que vimos torna claro que não existe nenhuma cor que apareça distintamente como sendo a cor da mesa, ou mesmo de uma qualquer parte da mesa. De pontos de vista diferentes a mesa parece ser de cores diferentes e não há qualquer razão para que consideremos uma delas como sendo realmente a sua cor. Sabemos também que mesmo dum dado ponto de vista, sob luz artificial, para uma pessoa daltônica, ou para uma pessoa que use óculos com lentes azuis, a cor parecerá diferente, enquanto no escuro não existirá de todo cor, embora a mesa se mantenha imutável ao tacto ou à audição. A cor, portanto, não é inerente à mesa, mas depende dela, do observador e da forma como a luz nela incide. Na vida quotidiana, quando falamos da cor da mesa, aludimos apenas à cor que parecerá ter a um observador normal, dum ponto de vista habitual e em condições de luz vulgares. No entanto, as cores que aparecem sob outras condições têm idêntico direito a serem consideradas reais e, por conseguinte, para evitar qualquer favoritismo, somos levados a negar que, em si mesma, a mesa tenha uma qualquer cor em particular. 

O mesmo se passa com a textura da mesa. Podemos ver a olho nu os veios da madeira, mas com exceção disso, a mesa parece lisa e uniforme. Contudo, se a observássemos por intermédio de um microscópio veríamos rugosidades, altos e baixos, e todo o gênero de irregularidades imperceptíveis a olho nu. Qual destas é a mesa “real”? Temos, como é natural, a tentação de dizer que o que vemos através do microscópio é mais real, mas isso, por sua vez, seria alterado por um microscópio ainda mais poderoso. Se, portanto, não podemos confiar no que vemos a olho nu, porque deveremos confiar no que vemos por intermédio de um microscópio? Deste modo, uma vez mais abandona-nos a confiança que tínhamos nos sentidos ao começar. 

Não estamos em melhor situação no que respeita à forma da mesa. Temos todos o hábito de fazer juízos acerca das formas “reais” das coisas, e fazemo-los de forma tão irrefletida, que acabamos por pensar que vemos efetivamente as formas reais. Mas, de fato, como teremos todos de aprender se a tentarmos desenhar, uma mesma coisa parece ter, de pontos de vista diferentes, formas diferentes. Se a nossa mesa é “realmente” retangular, irá parecer, de quase todos os pontos de vista, como se tivesse dois ângulos agudos e dois ângulos obtusos. Se os lados opostos são paralelos, irão parecer convergir num ponto afastado do observador; se são de extensão idêntica, o lado mais próximo irá parecer maior. Geralmente não nos apercebemos destas coisas quando olhamos para uma mesa porque a experiência ensinou-nos a construir a forma “real” a partir da forma aparente e, como homens práticos, o que nos interessa é a forma “real”. Mas a forma “real” não é o que vemos, é algo inferido do que vemos. E o que vemos, à medida que nos movemos na sala, muda constantemente de forma, pelo que, uma vez mais, parece que os sentidos não nos mostram a verdade sobre a própria mesa, mas apenas sobre a aparência da mesa. 

Deparamo-nos com dificuldades análogas quando examinamos o sentido do tato. Não há dúvida que a mesa produz sempre em nós uma sensação de dureza e que sentimos a sua resistência à pressão. No entanto, a sensação que temos depende da força e da parte do corpo com que pressionamos a mesa. Não se pode supor, portanto, que as sensações diferentes que resultam das pressões diferentes ou das partes do corpo diferentes, revelem diretamente uma propriedade específica da mesa, mas que, na melhor das hipóteses, sejam sinais de alguma propriedade que talvez cause todas as sensações, embora não apareça efetivamente em nenhuma delas. E o mesmo se aplica de forma ainda mais óbvia aos sons produzidos percutindo a mesa. 

Torna-se desta forma evidente que a mesa real, se existe, não é idêntica à de que temos experiência imediata pela visão, pelo tato ou pela audição. Da mesa real, se existe, não temos qualquer conhecimento imediato, embora deva ser obtida por inferência a partir daquilo de que temos conhecimento imediato. Isto dá origem simultaneamente a duas questões bastante difíceis, a saber: 1) Existe uma mesa real? 2) Se sim, que espécie de objeto pode ser? 

A posse de alguns termos simples, cujo significado seja definido e claro, ajudar-nos-á a examinar estas questões. Chamaremos “dados dos sentidos” às coisas de que temos conhecimento imediato na sensação: coisas como cores, sons, cheiros, durezas, rugosidades, etc. Chamaremos “sensação” à experiência de ter imediatamente consciência destas coisas. Assim, sempre que vemos uma cor, temos uma sensação da cor, mas a própria cor é um dado dos sentidos, não uma sensação. A cor é aquilo de que estamos imediatamente conscientes, e a própria consciência é a sensação. É evidente que se viermos a saber algo acerca da mesa, deve ser por intermédio dos dados dos sentidos — a cor castanha, a forma oval, a lisura, etc. — que associamos com a mesa; mas pelas razões já expostas, não podemos dizer que a mesa é os dados dos sentidos, ou mesmo que os dados dos sentidos são propriedades diretas da mesa. Surge deste modo o problema da relação entre os dados dos sentidos e a mesa real, supondo que existe uma tal coisa. 

Chamaremos à mesa real, se existe, “objeto físico”. Por conseguinte, temos de examinar a relação entre os dados dos sentidos e os objetos físicos. À coleção de todos os objetos físicos chama-se “matéria”. Assim, as nossas duas questões podem ser reafirmadas da seguinte forma: 1) Existe matéria? 2) Se sim, qual é a sua natureza? 

O Bispo Berkeley (1685-1753) foi o primeiro filósofo a dar destaque às razões para que neguemos a existência independentemente dos objetos imediatos dos nossos sentidos. A sua obra Três Diálogos entre Hylas e Philonous, em Oposição aos Cépticos e Ateus procura provar que não existe matéria e que o mundo é constituído apenas pelas mentes e as suas ideias. Hylas tinha até esse momento acreditado na matéria, mas não é adversário para Philonous, que o leva inexoravelmente a cair em contradições e paradoxos, e faz a negação da matéria parecer, no fim, quase senso comum. Os argumentos usados são de valor muito desigual: alguns são importantes e corretos; outros são confusos ou cavilosos. Mas Berkeley possui o mérito de ter mostrado que se pode negar sem absurdo a existência da matéria, e que, se há coisas que existem independentemente de nós, não podem ser os objetos imediatos das nossas sensações. 

O problema da existência da matéria envolve duas questões diferentes que é importante distinguir com clareza. Normalmente entendemos por “matéria” algo oposto a “mente”, algo que ocupa espaço e é completamente incapaz de qualquer espécie de pensamento ou consciência. É principalmente neste sentido que Berkeley nega a matéria; isto é, ele não nega que os dados dos sentidos que normalmente consideramos como sinais da existência da mesa sejam realmente sinais da existência de algo independente de nós, mas nega que este algo seja não mental, que não seja a mente ou as ideias concebidas por uma mente. Ele admite que deve haver algo que continue a existir quando abandonamos o aposento ou fechamos os olhos, e que aquilo a que chamamos ver a mesa nos dá razões para crermos em algo que persiste mesmo quando não o estamos a ver. Mas pensa que este algo não pode ter uma natureza radicalmente diferente daquilo que vemos, e que não pode ser completamente independente da visão, embora deva ser independente da nossa visão. É assim levado a olhar a mesa “real” como uma ideia na mente de Deus. Esta ideia tem a permanência e a independência em relação a nós exigidas, sem ser — como de outro modo a matéria seria — algo totalmente incognoscível, no sentido em que a podemos apenas inferir mas nunca podemos ter diretamente e imediatamente consciência dela. 

Houve outros filósofos depois de Berkeley a afirmar também que, embora a existência da mesa não dependa dela ser vista por mim, depende de ser vista (ou de algum modo apreendida na sensação) por uma mente — não necessariamente a mente de Deus, mas com maior frequência a mente coletiva do universo. Como Berkeley, defendem esta posição principalmente porque pensam que não pode existir nada real — ou, em todo o caso, nada que se saiba sê-lo — exceto as mentes com os seus pensamentos e sentimentos. Podemos formular o argumento com que sustentam a sua posição mais ou menos assim: “Tudo o que pode ser pensado é uma ideia na mente da pessoa que a pensa; portanto, só ideias nas mentes podem ser pensadas; portanto, qualquer outra coisa é inconcebível, e o que é inconcebível não pode existir.” 

Em minha opinião este argumento é falacioso; e, obviamente, aqueles que o empregam não o expressam de forma tão concisa ou grosseira. Mas válido ou não, o argumento com uma ou outra forma tem sido amplamente usado, e muitos filósofos, talvez a maioria, sustentaram que só as mentes e as suas ideias são reais. A estes filósofos chama-se “idealistas”. Quando explicam a matéria, ou dizem, como Berkeley, que a matéria é de fato apenas uma coleção de ideias, ou dizem, como Leibniz (1646-1716), que o que aparece como matéria é de fato uma coleção de mentes mais ou menos rudimentares. 

Mas estes filósofos, embora neguem a matéria enquanto oposta à mente, admitem-na, contudo, noutro sentido. Recordemos as duas questões que fizemos: 1) Existe uma mesa real? 2) Se sim, que espécie de objeto pode ser? Ora, tanto Berkeley como Leibniz admitem que existe uma mesa real, mas Berkeley diz que ela consiste em certas ideias na mente de Deus e Leibniz diz que é uma colônia de almas. Portanto, ambos respondem pela afirmativa à primeira questão e divergem da visão das pessoas comuns apenas na resposta à segunda. Na verdade, quase todos os filósofos parecem concordar com a existência de uma mesa real; quase todos concordam que, por muito que os nossos dados dos sentidos — a cor, a forma, a lisura, etc. — possam depender de nós, a sua ocorrência é, todavia, um sinal de algo que existe independentemente de nós, algo que talvez difira completamente dos nossos dados dos sentidos e, apesar de tudo, seja olhado como a causa desses dados dos sentidos sempre que estamos numa relação apropriada com a mesa real. 

Obviamente, este ponto em que os filósofos concordam — a posição de que existe uma mesa real, qualquer que seja a sua natureza — é de importância vital, e vale a pena examinar que razões temos para aceitar esta posição antes de abordarmos a questão da natureza da mesa real. Por este motivo, o próximo capítulo tratará das razões para supormos que existe uma mesa real. 

Antes de avançarmos será bom que examinemos brevemente o que descobrimos até agora. Vimos que, se investigarmos um objeto vulgar, do gênero que os sentidos conhecem, o que os sentidos imediatamente nos dizem não é a verdade acerca do objeto em si mesmo, mas apenas a verdade acerca de determinados dados dos sentidos que, tanto quanto podemos ver, dependem das relações entre nós e o objeto. Por consequência, o que vemos e sentimos diretamente é apenas uma “aparência”, que acreditamos ser o sinal de uma “realidade” escondida. Mas, se a realidade não é o que aparece, temos maneira de saber se existe uma realidade? E, se sim, temos maneira de descobrir a que é que se assemelha? 

Estas questões são desconcertantes e é difícil provar que não são verdadeiras mesmo as hipóteses mais estranhas. Assim, a mesa, que até agora só provocou em nós pensamentos triviais, tornou-se num problema com muitas e surpreendentes possibilidades. A única coisa que sabemos a seu respeito é que não é o que parece. Até agora, além deste modesto resultado, temos toda a liberdade para conjeturar. Leibniz diz-nos que é uma comunidade de almas; Berkeley uma ideia na mente de Deus; a ciência, não menos maravilhosa, uma vasta coleção de cargas elétricas dotadas de movimento violento. 

No meio destas possibilidades surpreendentes, a dúvida sugere que talvez não exista nenhuma mesa. Embora a filosofia não possa responder a tantas questões quanto desejaríamos, pode colocar questões que tornam o mundo mais interessante e mostram o estranho e maravilhoso que existe mesmo nas coisas mais vulgares da vida quotidiana. 



(Tradução de Álvaro Nunes) 



(Ilustração: David Mazza - sans titre)



sexta-feira, 8 de maio de 2020

RITUAL, de Lilian Aquino


 


No mesmo dia

em que o filho deixou

a casa

(se afastando de costas

para olhá-la nos olhos)

ela resolveu plantar

um ipê



na sala



Num ato solene

quebrou o chão

e

revirou o solo

e

chafurdou-se toda

contente



E do desfeito

pelo rebento

ficou aquela cicatriz

na barriga

a estranheza do ser

livre

e o olhar aquela árvore

ainda sem flores

e se perguntar:



roxo ou amarelo? 



(Ilustração: 
Manabu Mabe - maternidade)



terça-feira, 5 de maio de 2020

SE UM DIA VANDA VOLTAR, de Dóris Fleury




Eliane casou no sábado, com flores na igreja e festa num bufê. No domingo, Vanda já estava tocando a sua campainha. 

-- Eliane, abre! Eliane, quero falar com você - e batia as mãos no portão. 

O casal, lá dentro, se entreolhou. 

-- ABRE, ELIANE, PORRA! - berrou Vanda, esmurrando o portão, que devolveu um som metálico. A casa ficava numa vila. A vizinhança era conservadora. Eliane resolveu atender. 

-- Vanda, querida... - Aproximou-se, sorrindo, mas não abriu o portão. 

-- Eu quero falar com você - repetia Vanda, transtornada. 

-- Meu amor, é melhor a gente não se ver mais. 

-- Abre, Eliane, por favor! 

Eliane olhou para a outra. Estava pálida, com olheiras, a boca grande e polpuda quase sem cor. Abriu o portão. 

-- O que você quer? 

Vanda tremia. 

-- Falar com você. 

-- A gente não tem nada pra conversar. 

-- Mas por que você fez isso, Eliane? 

-- Eu mudei de ideia, Vanda. É um direito meu, certo? 

Ela estava cabisbaixa, humilde feito um mendigo. "Está mais calma", pensou a outra, aliviada. 

-- Você não me aguentou, é isso. 

Não seria melhor dizer a verdade? "É isso mesmo, Vanda, não aguentei. Cansei dos teus escândalos, dos beijos na rua, das pessoas olhando. Cansei até da bateria, Vanda." 

-- É melhor você ir embora - disse. 

-- Você não gosta dele. 

Eliane abriu a boca para responder, mas não disse nada. 

-- Não dá a mínima pra ele! - insistiu a outra. A recém-casada não respondeu; era sua vez de ficar calada, com os olhos pregados no chão. 

Vanda, então, entrou na casa, e quebrou tudo o que viu pela frente. 

Três meses depois, ela estava saindo de um hospital psiquiátrico. 

Mais uma vez, os médicos haviam fracassado. Não conseguiam nem lhe colocar um rótulo, os incompetentes. Procuravam um nome que os deixasse sossegados, com a segurança de pisar em terra conhecida. Esquizofrenia? Psicose? Nenhum rótulo colava bem. 

Bel, a irmã de Vanda, a trouxe para casa. Já tinha um quarto reservado para ela. Vanda não perguntou se estava incomodando. 

-- Quando ele volta? - perguntou, depois de atirar a mochila no chão. 

-- Ele quem? 

-- O Luís. Estou com saudades dele. 

Bel comoveu-se. 

-- Ele está trabalhando, Vanda. Volta no fim da tarde. - Abraçou a irmã, que correspondeu, enterrando a cabeça no seu ombro. Bel aspirou fundo: Vanda tinha um cheiro cálido e reconfortante. Cheiro das brincadeiras na infância. Da amarelinha na calçada. Do quarto que dividiam. 

Com o rosto ainda enterrado em seu ombro, a outra perguntou: 

-- E a banda? 

Bel soltou-a: 

-- Vai indo. Mês passado, a gente fez uns três shows... - e continuou a falar. A irmã tinha uma expressão distante, mas Bel sabia que ela estava ouvindo. 

-- E a bateria? - perguntou. 

-- O Marcinho ficou na bateria. Eu canto. Mas está uma droga -- confessou -- Ainda bem que você voltou. 

Quando Luís chegou, no fim da tarde, Vanda estava sentada à mesa, com a cabeça enterrada nos braços. Ele retirou-se cautelosamente para a sala, e perguntou à mulher: 

-- Faz tempo que ela está assim? 

-- Uns minutos. Ela levanta logo. 

Desde a infância, Bel acostumara-se a explicar a irmã ao mundo; "Ela está triste, ela quer comer, ela tem vergonha de falar." Luís resignou-se. 

-- O pessoal da banda já sabe que ela voltou? 

-- Já. Telefonei pro Marcinho e pro Gênio. Eles vão avisar o Cacau. 

Só Deus sabe como a banda sobrevivera, na ausência da Vanda. Ela era a grande atração: uma baterista fantástica, sem falar nas canções que compunha e cantava. 

Enfim, Marcinho pegara um bico no estúdio, Cacau fora morar com a mãe, e o Gênio -- bem, o Gênio sempre se arranjava. E Bel tinha Luís, que segurava a barra. 

-- Você acha que ela já pode tocar? - perguntou ele. 

Antes que Bel pudesse responder, Vanda soltou um grito selvagem. A sobrinha, Dandara, chegara da escola, e as duas rolaram pelo chão, rindo. 

A banda se reconstituiu, os shows recomeçaram. Bel vigiava o telefone. Eliane ligou, mas ela bateu o telefone na sua cara. Não sem antes dizer um monte de desaforos. 

-- Vaca. Chamar a polícia pra prender minha irmã. Mau-caráter! 

-- Calma, Bel - dizia o marido. 

Luís não perguntava quanto tempo Vanda ia ficar. Todas as tardes, ela se instalava na cama do casal. Deixava atrás de si um rastro de papeizinhos, que o cunhado recuperava depois. 

-- O que diz aí? - perguntava Bel, curiosa, espiando sob o ombro do marido. Luís lia alguns versos. -- Bel guardava os papéis numa caixinha; depois os passava ao Marcinho, o outro compositor da banda. 

Alguns críticos diziam que a Simples Veneno era a melhor coisa que surgira no rock paulista dos últimos anos. Principalmente as letras. Uma grande banda. Merecia ser mais conhecida. 

Mas Bel, Marcinho, Gênio e Cacau sabiam que a banda tinha um problema. 

-- Quer um fuminho, Vanda? 

Bel já tinha ido embora, e Vanda estava sozinha em frente à bateria, parada, olhando para o infinito. Não respondeu à pergunta. Cacau insistiu: 

-- Uma vodca, então? 

Ela ergueu os olhos do seu instrumento. O show terminara há quarenta minutos. O resto da banda tinha ido embora. O bar estava fechando, e o barman lavava os últimos copos. 

-- Uma vodca - concordou ela. E, antes mesmo que Cacau pudesse fazer o pedido, o barman já abria a garrafa e vinha trazer a dose. 

Por Vanda, as pessoas saltavam dos seus lugares. Afobavam-se para servi-la, amá-la, protegê-la. Por quê? - pensou Cacau. Ela não é bonita, não é simpática, nunca se preocupou em conquistar ninguém. A única coisa que sabe fazer é tocar a porra da bateria. É ou não é? 

Vanda entornou a dose de vodca; no minuto seguinte, estava de pé. 

-- Vamos sair daqui, Cacau. Já encheu. 

Cacau seguiu-a, obedientemente. Duas horas depois, estavam de pé, encostados ao parapeito de uma das pontes da Marginal. Eram cinco da manhã. Cacau detestava amanhecer na rua. 

-- Vou puxar o carro, Vandinha - disse. 

-- Não - contestou ela, sem ênfase na voz -- Vamos ficar aqui. 

-- Mas está fedendo... 

-- Eu adoro olhar o rio. 

-- Essa porcaria aí? 

-- É bonito. Todo preto. 

Ficaram em silêncio por alguns minutos. Fazia frio, e Cacau estava cansado, doido por uma cama. Mas não conseguia tirar Vanda dali, e também não tinha coragem de deixá-la sozinha. Ficou olhando para o seu rosto: o cabelo preto caído na testa, eternamente despenteado e oleoso; os olhos pequenos e afundados; a boca grande. Não estava cansada. Vanda nunca ficava cansada. 

-- Sabe o que eu queria, Cacau? Um barco. 

-- Um barco? Ué, pra quê? 

-- Pra andar com ele nesse rio. 

-- Nossa, que nojo. 

-- Eu pegava o barquinho de noite - continuou ela, absorta - e ia passear pelo rio inteiro... 

-- É, vai ver à noite fede menos - caçoou ele. Mas ela não prestava atenção: 

-- O meu barco não ia ter luz. Só velas. Velas acesas, entende? 

-- Entendo. 

-- Imagina que bonito, Cacau. Você aqui, encostado na ponte, olhando lá pra baixo. Aí de repente vê um barquinho cheio de velas, no meio do escuro... 

-- E aí? 

-- E aí, você sabe que sou eu, lá em embaixo. 

"Você sabe que sou eu"? -- pensou Cacau, fechando os olhos, presa de uma momentânea tontura. Vanda nascera tão estranha, num mundo cheio de gente tão igual... Não precisava do barco. Não precisava de velas. 

Abriu os olhos e viu que ela ainda o olhava, a mecha de cabelos despenteada pelo vento. Tentou beijá-la. Vanda lhe deu um empurrão: 

-- Pára, Cacau - disse, com voz neutra. 

Bel queria que a irmã seguisse um tratamento, fizesse terapia. Mas o psiquiatra chateava Vanda, que largou o tratamento em três sessões. 

Quando estava em casa, Bel tentava vigiá-la. Não queria que saísse, que ficasse sozinha por muito tempo. Mas, numa noite sem show, Vanda brigou com a irmã e foi passear. 

Ela não pegava ônibus. Não gostava dos veículos cheios de gente, dos olhares maldosos das pessoas que sentavam ao seu lado. Andou vários quilômetros, até chegar à vila onde Eliane morava. 

Fazia seis meses agora. Vanda ficou olhando o sobrado pequeno, o Gol guardado na garagem. Das casas da vila vinha o cheiro de comida, os gritos das crianças. Homens e mulheres voltavam do trabalho, entravam apressados, sem olhar para ela. 

O marido de Eliane saiu na calçada. Gritou alguma coisa, e uma voz feminina respondeu, dentro da casa. Vanda estremeceu. 

O homem entrou no carro, deu a partida e saiu. 

Várias horas se passaram. A rua estava deserta e quase às escuras. A luz da sala do sobrado continuou acesa. Através do vidro, Vanda podia ver a tela colorida da TV. Um ou outro cachorro latia. De repente, a luz se apagou, e logo depois a janela do primeiro andar - um quarto, provavelmente - se acendeu. 

Vanda, que estivera chorando baixinho, fixou a janela iluminada. Ficou olhando a silhueta que passeava pelo quarto. Para lá e para cá. Para lá e para cá. 

Ela colocou a mão dentro das calças, e começou a se acariciar. Seguia o ritmo da figura lá em cima: para lá e para cá. Depois de alguns minutos, gemeu alto, dolorosamente. E ficou agachada na calçada, molhada de suor, esperando que a luz se apagasse. 

Nunca antes Vanda estivera bem por tanto tempo. A banda começou a fazer planos. Marcaram shows com meses de antecedência. 

Só Bel não estava contente. Preocupava-se com as saídas noturnas da irmã, cada vez mais frequentes e prolongadas. Percebia também que às vezes, em pleno show, ela se ausentava. Cantava, tocava a bateria, mas não estava lá. Os olhos, vazios, se fixavam no nada. Será que só Bel notava? Os outros não percebiam? 

As horas que Vanda passava no quarto do casal também aumentavam. A cama transbordava de papeizinhos. 

A mãe de Bel e Vanda ligou, no fim de semana: 

-- Como é que ela está? 

-- Tá bem, mãe. 

-- Bem como? 

-- Bem. Pode acreditar em mim. 

Houve um longo silêncio. Depois, veio o choro do outro lado da linha. 

-- Mãe, não fica assim - disse Bel - Por favor. 

Vanda passou muitas noites em frente à casa de Eliane. Via o marido sair. Depois, ficava horas olhando a sombra que se movimentava, dentro do sobrado. 

No fim de abril, quando as noites começaram a esfriar, Vanda finalmente conseguiu ver Eliane. Ela saiu na garagem do sobradinho para receber o marido, que dava aulas à noite. Quando abriu a porta, avistou Vanda na calçada em frente. 

As duas ficaram se olhando. 

Mesmo na luz fraca da entrada, Vanda pôde ver o quanto ela mudara. Tinha engordado, e seu rosto tomara um ar calmo e satisfeito. Plácido. Vanda achou-a repulsiva. 

Não voltou mais ali. 

Na cama de casal, os papeizinhos transbordavam. Bel os recolhia, classificava (tentativamente), e depois os dava a Marcinho. Marcinho sentava na cozinha, e começava a compor a música. 

O som da guitarra viajava até o quarto de Vanda, que emergia do corredor, despenteada e emburrada. Com os braços cruzados, ficava escutando Marcinho. De repente, interrompia-o, no meio de um acorde: 

-- Tá uma merda. 

E arrancava a guitarra das suas mãos. (Marcinho não ficava zangado). Mudava vários trechos da música. Os dois ficavam trabalhando até altas horas da noite; no dia seguinte, Bel os encontrava desmaiados na sala. Marcinho dormia no sofá. Vanda, no chão duro. Tinha os punhos fechados, como os de um bebê. 

No final de junho, a dupla já tinha composto trinta músicas novas para a Simples Veneno. Foram convidados a lançar o seu segundo CD por uma grande gravadora. Era quase uma estreia. O primeiro CD não contava -- tiragem muito pequena. 

Trinta músicas eram demais para um só álbum. Foi então que a Simples Veneno recebeu uma proposta da gravadora: gravar tudo já, lançar um CD com quinze faixas, e um segundo dali a seis meses, com o material que sobrara do primeiro. Todos ficaram entusiasmados com a ideia - menos Vanda. 

-- Nem pensar - disse ela. 

-- Nem pensar como, Vanda? - perguntou Marcinho. 

-- A gente não vai gravar as trinta músicas. Só dez prestam. 

Houve um murmúrio de revolta. 

-- Isso na sua opinião - disse Cacau, aborrecido. A discussão se esquentou, as vozes subiram de tom. Bel concordava com a irmã. Marcinho estava confuso. O resto do grupo queria agarrar aquela oportunidade de qualquer jeito. As músicas estavam todas ótimas, por que Vanda era tão insegura? Por que não caía na real? Pensava que uma proposta daquelas pintava todo dia? 

Vanda estava irredutível: 

-- Não gravo esse lixo. 

Finalmente, chegou-se a um acordo provisório. As trinta músicas seriam gravadas. Depois, o grupo decidiria o que fazer delas. 

As gravações duraram três semanas. No último dia, Bel encontrou a irmã num canto, inconsolável: 

-- Ficou tudo uma bosta. 

-- Que é isso, Vanda? Você estava ótima, os meninos... 

-- Ficou horrível, Bel. 

A irmã olhou-a, alarmada: Vanda não estava bem. Emagrecera, e o seu rosto pálido parecia sofrer de um inchaço invisível. Articulava as palavras com dificuldade. Bel falou de novo em terapia, mas Vanda gemeu, impaciente. 

No dia seguinte, ela passou a tarde toda no quarto do casal. Mas não deixou nenhum papelzinho. 

Naquele domingo, a Simples Veneno tinha um show ao ar livre, num dos parques da cidade. Quando chegaram, de manhã cedo, ficaram surpresos com o tamanho do público. 

-- Vamos arrasar -- previa Cacau, excitado, com uma risadinha maníaca. 

A plateia era a melhor possível. Naquela pequena multidão, quem não conhecia a Simples Veneno dos bares, estava ansioso para conhecê-la. A gravadora colocara duas músicas para tocar na rádio (justamente as que Vanda considerava mais fracas). 

A cada canção, ouviam-se mais aplausos. Finalmente, a banda chegou à melhor coisa que tinham gravado -- uma música longa, de harmonias dissonantes e ásperas. Os instrumentos todos foram se calando, até que sobrou apenas a voz de Vanda, dialogando com a bateria. 

De repente, calou-se; e, num improviso que assustou o grupo, arrancou num longo solo de bateria. Decolou como um pássaro e manteve-se por um longo tempo nas alturas, arrastando o público atrás de si numa sucessão interminável de saltos mortais. 

Os minutos iam passando. A plateia continuava muda, presa ao som da bateria. Mas o grupo começou a se entreolhar, preocupado. Não só temiam que o solo cansasse o público, como também se alarmaram com o rosto desfigurado de Vanda, debruçada sobre a bateria. Cacau olhou para Gênio e Marcinho. Eles acenaram de leve. E então o guitarrista começou a tocar, interrompendo bruscamente o solo de Vanda. 

A baterista acordou, parou as baquetas ainda no ar, e olhou para Cacau. Tinha uma expressão dolorosa no rosto. Cacau desviou os olhos. 

No fim do show, ninguém conseguia encontrar Vanda. Bel voltou para casa, já com um mau pressentimento. Vanda também não estava lá. E não voltou no dia seguinte. Bel chamou a polícia. 

Todos acharam bobagem, precipitação. Não era a primeira vez que Vanda sumia. Voltaria no máximo em uma semana. 

Mas duas semanas se passaram, e ela continuava desaparecida. Desesperada, Bel telefonou para Eliane. 

-- Nunca mais vi aquela louca -- disse Eliane. -- Graças a Deus, aliás. A sua irmã precisa de internação, sabia? 

Bel controlou-se para não xingá-la. Em vez disso pediu, humildemente, que ela a avisasse, se Vanda aparecesse. 

Mas a verdade é que ninguém, nunca mais, viu Vanda. E não foi por falta de procurá-la: a família espalhou cartazes pela cidade inteira e pelo interior. Até um detetive foi contratado, e voltou de mãos abanando, meses depois. 

Agora já faz três anos que ela sumiu. E é como se nunca tivesse existido. Só Cacau, às vezes, depois de muito beber e cheirar, vai terminar a noite encostado a uma certa ponte de Rio Tietê. Talvez ele espere ver, de repente, um barco cheio de velas, descendo pelo leito negro e fétido do rio. 

Bel não sabe disso, porque não fala mais com ninguém da Simples Veneno. Rompeu com a banda, depois que eles gravaram os dois CDs, um atrás do outro -- exatamente como Vanda não queria. 

Em todo caso, ela ainda conserva a velha bateria no quarto que era da irmã. Agora que Dandara tem oito anos, de vez em quando vem brincar com as baquetas. Escondida. Bel quer que a bateria continue sempre no mesmo lugar, para que, quem sabe, um dia... 

Enfim: se um dia Vanda voltar. 



(Ilustração:  Edvard Munch - the escape - 1886)






sábado, 2 de maio de 2020

DOS PÁTRIAS / DUAS PÁTRIAS, de José Martí




Dos patrias tengo yo: Cuba y la noche.

¿O son una las dos? No bien retira

su majestad el sol, con largos velos

y un clavel en la mano, silenciosa

Cuba cual viuda triste me aparece.

¡Yo sé cuál es ese clavel sangriento

que en la mano le tiembla! Está vacío

mi pecho, destrozado está y vacío

en donde estaba el corazón. Ya es hora

de empezar a morir. La noche es buena

para decir adiós. La luz estorba

y la palabra humana. El universo

habla mejor que el hombre.

Cual bandera

que invita a batallar, la llama roja

de la vela flamea. Las ventanas

abro, ya estrecho en mí. Muda, rompiendo

las hojas del clavel, como una nube

que enturbia el cielo, Cuba, viuda, pasa…



Tradução de Olga Savary:



Duas pátrias eu tenho: Cuba e a noite.

Ou as duas são uma? Nem bem retira

sua majestade o sol, com grandes véus

e um cravo à mão, silenciosa

Cuba qual viúva triste me aparece.

Eu sei qual é esse cravo sangrento

que na mão lhe estremece! Está vazio

meu peito, destruído está e vazio

onde estava o coração. Já é hora

de começar a morrer. A noite é boa

para dizer adeus. A luz estorva

e a palavra humana. O universo

fala melhor que o homem.

Qual bandeira

que convida a batalhar, a chama rubra

das velas flameja. As janelas

abro, já encolhido em mim. Muda, rompendo

as folhas do cravo, como uma nuvem

que obscurece o céu, Cuba, viúva, passa. . .




(Poesia completa; Madrid; 2001)



(Ilustração: Amelia Peláez, Mujeres tocando piano, ca. 1940)




quarta-feira, 29 de abril de 2020

OS OCIOSOS, de Bustos Domecq (Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares)



A era atômica, a cortina que cai sobre o colonialismo, a luta de interesses encontrados, a postulação comunista, a alta do custo de vida e a retratação dos meios de pagamento, o chamado do papa à concórdia, o progressivo debilitamento do nosso signo monetário, a prática do trabalho sem vontade, a proliferação de supermercados, a extensão de cheques sem fundos, a conquista do espaço, despovoamento do agro e o auge correlativo das favelas compõem todo um panorama inquietante que dá o que pensar. Diagnosticar os males é uma coisa; prescrever sua terapêutica é outra. Sem aspirar ao título de profetas, atrevemo-nos, no entanto, a insinuar que a importação de Ociosos no país, com vistas à sua fabricação, contribuirá não pouco para diminuir, à maneira de sedativo, o nervosismo hoje tão generalizado. O reino da máquina é um fenômeno que já ninguém disputa; o Ocioso comporta um passo a mais de tão inelutável processo.

Qual foi o primeiro telégrafo, qual o primeiro trator, qual a primeira Singer são perguntas que põem o intelectual em apuros; o problema não se coloca com relação aos Ociosos. Não há no orbe um iconoclasta que negue que o primeiro de todos obrou em Mulhouse e que seu incontestável progenitor foi o engenheiro Walter Eisengardt (1914-1941). Duas personalidades lutavam nesse valioso teutão: o incorrigível sonhador que publicou as duas monografias ponderáveis, hoje esquecidas, em torno das figuras de Molinos e do pensador de raça amarela Lao-tsé, e o sólido metódico de realização tenaz e de cérebro prático que, depois de arquitetar uma porção de máquinas claramente industriais, deu à luz, em 3 de junho de 1939, ao primeiro Ocioso de que se tem notícia. Falamos do modelo que se conserva no Museu de Mulhouse: apenas um metro e vinte e cinco de longitude, setenta centímetros de altura e quarenta de largura, mas nele quase todos os detalhes, desde os recipientes de metal até os condutos.

O segundo é de uso em toda localidade fronteiriça, uma das avós maternas do inventor era de cepa gaulesa e o mais notável da vizinhança a conhecia pelo nome de Germaine Baculard. O folheto no qual nos baseamos para este trabalho de fôlego intui que essa elegância, que é a marca da obra de Eisengardt, tem fonte de origem naquela irrigação de sangue cartesiano. Não regateamos nosso aplauso a esta amável hipótese que, além do mais, é adotada por Jean-Christophe Baculard, continuador e divulgador do mestre. Eisengardt faleceu mediante um acidente de automóvel da marca Bugatti; não lhe foi dado ver os Ociosos que hoje triunfam em usinas e escritórios. Prega que os contemple do céu, diminuídos pela distância e, por isso, mais de acordo com o protótipo que ele mesmo rematara!

Aqui vai agora um esboço do Ocioso, para aqueles leitores que ainda não tiveram o escrúpulo de ir examiná-lo em San Justo, na fábrica de Pistões Ubalde. O monumental artefato cobre a largura do terraço que centra o ponto da usina. Assim, a olho, lembra um linotipo desmesurado. É duas vezes mais alto que o capataz; seu peso se computa em várias toneladas de areia; a cor é de ferro pintado de preto; o material, de ferro.

Uma passarela em escadaria permite que o visitante o escrute e toque. Sentirá lá dentro como um leve pulsar e, se aplicar o ouvido, detectará um longínquo sussurro. De fato, há em seu interior um sistema de condutos pelos quais corre água na escuridão e uma que outra pedra. Ninguém pretenderá, no entanto, que são as qualidades físicas do Ocioso as que redundam na massa humana que o rodeia; é a consciência de que em suas entranhas palpita algo silencioso e secreto, algo que brinca e dorme.

A meta perseguida pelas românticas vigílias de Eisengardt foi plenamente alcançada; onde quer que haja um Ocioso, a máquina descansa e o homem, reanimado, trabalha.



(Crônicas de Bustos Domecq Novos Contos de Bustos Domecq; Tradução de Maria Paula Gurgel Ribeiro)



(Ilustração: Manabu Mabe - sem título)



domingo, 26 de abril de 2020

TOPO, de Ruy Proença





subo até o ponto

mais alto do vale

onde a grama e o capim

sabem a ouro

porque o sol oblíquo

deita sobre eles

um lençol de luz



como se é grande

quando se sobe ao ponto

mais alto do vale!



as coisas à vista

os maiores problemas

viram miniaturas



tenho por companhia

um cachorro

um caderno

uma caneta tinteiro

uma câmera fotográfica



o cachorro é dócil

e selvagem



escava o chão

com as patas traseiras

come ervas brutas

que depois expele

em sucessivas golfadas



por que sofrer assim?



na metrópole

alguém me ama

pensa em mim

enquanto penso nela

e escrevo

sem parar



ano passado

um incêndio

devastou o verde

dessa paisagem



mas a natureza

que há na terra

é teimosa

sabe se reinventar



nuvens brancas

por trás de árvores secas chamuscadas

navegam

tangidas pelo vento



estou sentado

sobre um resto

de banco de madeira

que a intempérie e o fogo

destruíram



trago a ruína no estômago

como o cachorro e suas ervas



estou sentado

sobre um banco de areia

de quarenta metros de profundidade

outrora praia de mar

que a força tectônica

ergueu comigo

ao ponto mais alto do vale



além de meus pertences

trago um chapéu de palha

sobre a cabeça

um amor no imo

e um silêncio de brisa

que me atravessa

como uma canção



o cachorro descansa em minha sombra



cachorro sombra sol silêncio abelhas

minha alma pastando




(Ilustração: Cândido Portinari - Brodwski 1934)



quinta-feira, 23 de abril de 2020

O SEIO NU, de Italo Calvino








O senhor Palomar caminha ao longo da praia solitária. Encontra raros banhistas. 

Uma jovem está estendida na areia tomando banho de sol com os seios à mostra. Palomar, homem discreto, volve o olhar para o horizonte marinho. Sabe que, em tais circunstâncias, a aproximação de um desconhecido leva não raro as mulheres a se cobrirem depressa, e isso não lhe parece bom: porque é desagradável para a banhista que tomava seu sol tranquila; porque o homem que passa se sente um elemento perturbador; porque o tabu da nudez fica implicitamente confirmado; e porque as convenções respeitadas pela metade propagam insegurança e incoerência no comportamento em vez de liberdade e franqueza. 

Por isso é que ele, mal vê esboçar-se ao longe o perfil brônzeo rosado de um torso feminino nu, apressa-se em assumir com a cabeça uma postura tal que a trajetória de seu olhar permaneça suspensa no vazio e garanta seu respeito civil pela fronteira invisível que circunda as pessoas. 

“Contudo”, pensa, seguindo adiante e, mal o horizonte se desobstrui, readquirindo o livre movimento do bulbo ocular, “eu, assim procedendo, ostento uma recusa em ver, ou seja, também acabo por reforçar a convenção que torna ilícita a vista de um seio, ou melhor, instituo uma espécie de sutiã mental suspenso entre os meus olhos e aquele seio que, do deslumbramento surgido dos confins de meu campo visual, pareceu-me jovem e agradável à vista. Em suma, o meu não olhar pressupõe que eu esteja pensando naquela nudez, que me preocupe com ela, e isto é, no fundo, ainda uma atitude indiscreta e retrógrada.” 

Voltando de seu passeio, Palomar passa de novo em frente à banhista, e desta vez tem o olhar fixo diante de si, de modo que este aflore com uniformidade equânime a espuma das ondas que se retraem, os cascos dos barcos puxados para o seco, o lençol de espuma estendido sobre a areia, a lua transbordante de pele mais clara com o halo moreno do mamilo e o perfil da costa no embaciamento da distância, acinzentada contra o céu. 

“Muito bem”, reflete, satisfeito consigo mesmo, prosseguindo o caminho, “consegui fazer com que o seio fosse absorvido completamente na paisagem, e também que meu olhar não pesasse mais que o olhar de uma gaivota ou de um peixe.” 

“Mas será realmente justo proceder assim?”, reflete ainda, “ou não passa de um achatamento da pessoa humana ao nível das coisas considerá-la um objeto, e o que é pior, considerar objeto aquilo que na pessoa é específico do sexo feminino? Não estarei talvez perpetuando o velho hábito da supremacia masculina, endurecida com o passar dos anos numa insolência consuetudinária?” 

Volta e torna a voltar sobre seus passos. Ora, ao fazer com que seu olhar deslize sobre a praia com objetividade imparcial, procede de maneira que, mal o seio da moça penetre em seu campo de vista, perceba-se uma descontinuidade, um desvio, quase um sobressalto. O olhar avança até quase aflorar a pele estendida, retrai-se, como que avaliando com um leve estremecimento a consistência diversa da visão e o valor especial que essa adquire, e por um momento permanece a meia altura, descrevendo uma curva que acompanha o relevo do seio a uma certa distância, elusivamente mas também protetoramente, para depois retomar seu curso como se nada houvesse acontecido. 

“Creio que assim minha posição se manifestará bem clara”, pensa Palomar, “sem mal-entendidos possíveis. Mas esse sobrevoo do olhar não poderia afinal de contas ser compreendido como uma atitude de superioridade, uma supervalorização daquilo que um seio é e significa, um modo de mantê-lo de certa maneira à parte, à margem ou entre parêntesis? Eis que então volto a relegar o seio à penumbra em que o mantiveram durante séculos a pudicícia sexomaníaca e a concupiscência como pecado...” 

Essa interpretação vai contra as melhores intenções de Palomar, que embora pertencendo a uma geração madura, para a qual a nudez do peito feminino se associava à ideia de uma intimidade amorosa, aceita de maneira favorável essa mudança nos costumes, seja pelo que isso representa como reflexo de uma mentalidade mais aberta na sociedade, seja porque tal vista lhe resulte particularmente agradável. É esse encorajamento desinteressado que gostaria de exprimir em seu olhar. 

Faz meia-volta. Em passos decisivos avança mais uma vez em direção à moça estendida ao sol. Agora o seu olhar, lambendo voluvelmente a paisagem, deter-se-á no seio com especial cuidado, mas apressando-se em envolvê-lo num impulso de benevolência e gratidão por tudo, pelo sol e o céu, pelos pinheiros recurvos e a duna e a areia e os escolhos e as nuvens e as algas, pelo cosmo que gira em torno daquelas cúspides aureoladas. 

Isso deveria bastar para tranquilizar devidamente a banhista solitária e desobstruir o campo das ilações desviadoras. Porém, mal ele volta a aproximar-se, eis que a moça se levanta de um salto, cobre-se, e esbaforida afasta-se com um aborrecido sacudir de ombros como se fugisse das insistências molestas de um sátiro. 

“O peso morto de uma tradição de maus costumes impede-a de apreciar em seu justo mérito as intenções mais esclarecidas”, conclui amargamente Palomar. 



(Palomar; tradução de Ivo Barroso) 



(Ilustração: Javier Arizabalo García)