sábado, 4 de julho de 2026

RECÉM-CASADO, de Lélia Coelho Frota






É pelos corpos que nos perdemos

de nós mesmos, para nos ganharmos.

É pelos beijos que nos despedimos

para nos encontrarmos pelos olhos.

É pela pele que escaldamos

o que em nós havia de secreto:

e é o nosso corpo entregue um corpo

estranho

pois pertence só a quem amamos

por quem morosamente devassamos

o alheamento da carne -

o barqueiro, o pastor que a atravessa

num profundo arremesso vagaroso

levantando ondas, ondas, ondas e

ervas

a subir e descer vagas e montes

levando-me com ele à raia clara

onde água a quebrar-se eu me

constele

na sua barca, conduzida à praia.



(Ilustração: Fernando Botero)

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