quinta-feira, 9 de julho de 2026

CANTO OBSCURO ÀS RAÍZES, de Conceição Lima



Em Libreville [1]

não descobri a aldeia do meu primeiro avô.



Não que me tenha faltado, de Alex,

A visceral decisão.

Alex, obstinado primo

Alex, cidadão da Virgínia

que ao olvido dos arquivos

e à memória dos GRIOTS Mandinga [2] [3]

resgatou o caminho para Juffure,[4]

a aldeia de Kunta Kinte – [5]

seu último avô africano

primeiro na América.



Digamos que o meu primeiro avô

meu último continental avô

que da margem do Ogoué [6]foi trazido

e à margem do Ogoué não tornou decerto



O meu primeiro avô

que não se chamava Kunta Kinte

mas, quem sabe, talvez Abessole

O meu primeiro avô

que não morreu agrilhoado em James Island [7]

e não cruzou, em Gorée, a porta do inferno



Ele que partiu de tão perto, de tão perto

Ele que chegou de tão perto, de tão longe



Ele que não fecundou a solidão

nas margens do Potomac



Ele que não odiou a brancura dos algodoais



Ele que foi sorvido em chávenas de porcelana

Ele que foi compresso em doces barras castanhas

Ele que foi embrulhado em chiques papéis de prata

Ele que foi embalado para presente em caixinhas



O meu concreto avô

que não se chamava Kunta Kinte

mas, talvez, quem sabe, Abessole



O meu oral avô

não legou aos filhos

dos filhos dos seus filhos

o nativo nome do seu grande rio perdido.



Na curva onde aportou

a sua condição de enxada

no húmus em que atolou

a sua acossada essência

no abismo que saturou

de verde a sua memória

as águas melancolizam como fios

desabitadas por pirogas e hipopótamos.



São assim os rios das minhas ilhas

e por isso eu sou a que agora fala.



Brotam como atalhos os rios

da minha fala

E meu trazido primeiro avô

(decerto não foi Kunta Kinte,

Porventura seria Abessole)

não pode ter inventado no Água Grande [8]

o largo leito do seu Ogoué.



Disperso num azul sem oásis

talvez tenha chorado meu primeiro avô

um livre, longo, inútil choro.



Terá confundido com um crocodilo

a sombra de um tubarão.



Terá triturado sem ilusão

a doçura de um naco de mandioca.

circunvagou nas asas de um falcão.



Terá invejado a liquidez de caudas e barbatanas

enquanto o limo dos musgos sequestrava os seus pés

e na impiedosa lavra de um vindouro tempo

emergia uma ambígua palavra

para devorar o tempo do seu nome.



Aqui terá testemunhado

o esplendor do pôr-do-sol, o luar, o arco-íris.

Decerto terá pressentido a calidez dos pingos

nas folhas das bananeiras

E terá sofrido no Equador o frio da Groenlândia.



Mas não legou aos estrangeiros filhos

e aos filhos dos filhos dos estrangeiros filhos

o nativo nome do seu grande rio perdido.



Por isso eu, a que agora fala,

não encontrei em Libbreville o caminho para a aldeia de Juffure.



Perdi-me na linearidade das fronteiras.



E os velhos GRIOTS

os velhos GRIOTS que detinham os segredos

de ontem e de antes de ontem



Os velhos GRIOTS que pelas chuvas contavam

a marcha do tempo e os feitos da tribo



Os velhos GRIOTS que dos acertos e erros

forjavam o ténue balanço



Os velhos GRIOTS que da ignóbil saga

guardavam um recto registo



Os velhos GRIOTS que na íris da dor

plantaram a raiz do micondó [9]

partiram

levando nos olhos o horror

e a luz da sua verdade e das suas palavras.



Por isso eu que não descobri o caminho para Juffure

eu que não dançarei sobre o pó da aldeia do meu primeiro avô

meu último continental avô

que não se chamava Kunta Kinte mas, talvez, quem sabe, Abessole



Eu que em cada porto confundi o som da fonte submersa

encontrei em ti, Libreville, o injusto património a que chamo casa:

estas paredes de palha e sangue entrançadas,

a fractura no quintal, este sol alheio à assimetria dos prumos,

a fome do pomar intumescida nas gargantas.



Por isso percorri os becos

as artérias do teu corpo

onde não fenecem arquivos

sim palpita um rijo coração, o rosto vivo

uma penosa oração, a insana gesta

que refunda a mão do meu pai

transgride a lição de minha mãe

e narra as cheias e gravanhas [10], os olhos e os medos

as chagas e desterros, a vez e a demora

o riso e os dedos de todos os meus irmãos e irmãs.



Que nenhum idioma nos proclame ilhéus de nós próprios

vocábulo que não és

Mbanza Congo [11]

mas podias ser

Que não és Malabo [12]

poderias ser

Que não és

Luanda

e podias ser

Que não és

Kinshasa

nem Lagos

Monróvia não és, podias ser.



Nascente e veia, profundo ventre

conheces a estrutura que sabota os ponteiros:

novos sobas [13], barcos novos, o conluio antigo.



E consomes a magreza dos celeiros

num bazar de retalhos e tumultos

Petit Paris!

onde tudo se vende, se anuncia

onde as vidas baratas desistiram de morrer.



Medram quarteirões de ouro

nos teus poros – diurnos, desprevenidos.

Medra implacável o semblante das mansões

Medram farpas na iníqua muralha

E um taciturno anel de lama em seu redor.



A chuva tem agora a cadência de um tambor

outro silêncio se ergue

no vazio dos salões das coiffeuses.



E no rasto do tam-tam revelarei

o medo adolescente encolhido nas vielas

beberei a sede da planta no teu grão.



Eu que trago Deus por incisão em minha testa

e nascida a 8 de Dezembro

tenho de uma madona cristã o nome.



A neta de Manuel da Madre de Deus Pereira dos Santos Lima

que enjeitou santos e madre

ficou Manuel de Deus Lima, sumu sun Malé Lima

Ele que desafiou os regentes intuindo nação –

descendente de Abessole, senhor de abessoles. [14]



Eu que encrespei os cabelos de san Plentá, minha três vezes avó

e enegreci a pele de san Nôvi, a soberana mãe de meu pai. [15]



Eu que no espelho tropeço

na fronte dos meus avós.



Eu e o temor do batuque da puíta

o terror e fascínio do cuspidor de fogo



Eu e os dentes do pawen [16] que da costa viria me engolir

Eu que tão tarde descobri em minha boca os caninos do antropófago.



Eu que tanto sabia mas tanto sabia

de Afonso V o chamado Africano

Eu que drapejei no promontório do Sangue

Eu que emergi no paquete Império

Eu que dobrei o Cabo das Tormentas

Eu que presenciei o milagre das rosas

Eu que brinquei a caminho de Viseu

Eu que em Londres, aquém de Tombuctú [17]

decifrei a epopeia dos fantasmas elementares.



Eu e minha tábua de conjugações lentas

Este avaro, inconstruído agora

Eu e a constante inconclusão do meu porvir



Eu, a que em mim agora fala.



Eu, Katona [18], ex-nativa de Angola

Eu Kalua[19], nunca mais em Quelimane [20]

Eu, nha Xica [21], que fugi à grande fome

Eu que libertei como carta de alforria

Este dúbio canto e sua turva ascendência.



Eu nesta lisa, escarificada face

Eu e nossa vesga, estratificada base

Eu e a confusa transparência deste traço.



Eu que degluti a voz do meu primeiro avô

que não se chamava Kunta Kinte

mas, talvez, quem sabe, Abessole



Meu sombrio e terno avô

Meu inexorável primeiro avô

Que das margens do Benin foi trazido

e às margens do Benin [22] não tornou decerto



Na margem do Calabar [23] foi colhido

e às águas do Calabar não voltou decerto



Nas margens do Congo foi caçado

e às margens do Congo não tornou decerto



Da nascente do Ogoué chegou um dia

e a foz do Ogoué não voltou jamais.



Eu que em Libreville não descobri a aldeia

do meu primeiro avô

meu eterno continental avô



Eu, a peregrina que não encontrou o caminho para Juffure

Eu, a nómada que regressará sempre a Juffure.



(A Dolorosa Raiz do Micondó; 2006)



Notas do blog:

[1] Libreville ou Librevile[1][nota 1] é a capital e a maior cidade do Gabão. Oficialmente, sua população é estimada em 703.904 habitantes (estimativa de 2013).

[2] Os griots (ou griôs) são guardiões da tradição oral na África Ocidental. Desde o século XI, atuam como historiadores, músicos e conselheiros, preservando a genealogia, mitos e canções de geração em geração. Eles utilizam instrumentos como o corá e o balafon para manter viva a identidade de seus povos.

[3] Mandinga refere-se originalmente a um grupo étnico do antigo Império de Mali e à sua língua. Com a escravidão, o termo passou a designar feitiços, simpatias e amuletos de proteção. Na capoeira, o termo descreve o jogo malicioso, o gingado e a simulação de golpes.

[4] Jufureh, Juffureh ou Juffure é uma povoação da Gâmbia, situada na margem direita do rio Gâmbia, frente à ilha James, a 30 km da foz. Encontra-se atualmente ligada à povoação de Albreda.

[5] Kunta Kinte é o protagonista do famoso romance "Raízes: A Saga de uma Família Americana", escrito por Alex Haley e lançado em 1976. A obra narra a saga de um guerreiro da etnia mandinga, nascido na Gâmbia por volta de 1750, que foi capturado e levado para os Estados Unidos para viver como escravizado.

[6] O Ogoué (também chamado de Ogooué ou Ogowe) é o principal rio do Gabão, na África centro-ocidental. Com mais de 1.200 km de extensão, nasce na República do Congo, atravessa quase todo o território gabonês e deságua no Oceano Atlântico. O nome também batiza várias províncias do Gabão.

[7] James Island é uma ilha na Carolina do Sul, ao largo da costa de Charleston. A ilha é separada de Charleston pelo rio Ashley . Cerca de metade da ilha está dentro dos limites da cidade de Charleston , e o restante é composto pela cidade de James Island e áreas não incorporadas. A ilha tem uma população de aproximadamente 35.000 pessoas. Diversas escaramuças da Guerra Civil Americana ocorreram na ilha.

[8] Água Grande é um distrito de São Tomé e Príncipe. Sua capital, São Tomé, também é a capital nacional das ilhas equatoriais atlânticas de São Tomé e Príncipe. Cobre 17 quilometros quadrados e é o menor dos 7 distritos em termos de área mas é o maior em população com estimados 54,300 residentes em 2004.

[9] Micondó é o nome dado em São Tomé e Príncipe ao baobá (Adansonia digitata). Esta árvore colossal destaca-se pela sua longevidade, pelo tronco largo (podendo ultrapassar 10 metros de diâmetro) e pela enorme capacidade de armazenamento de água. [1, 2]

[10] Gravanhas (também grafado como gravalhas ou garvalhas) é um regionalismo, principalmente da língua portuguesa europeia, utilizado para designar a caruma seca, ou seja, as folhas e agulhas caídas dos pinheiros.

[11] M'banza Congo,[2] também grafada como M'banza Kongo[3][4] e Mabanza Congo,[5][6] é uma cidade e município angolana, capital da província do Zaire.

[12] Malabo é a capital e principal cidade da Guiné Equatorial. Localizada na costa norte da ilha de Bioko, abriga cerca de 300.000 habitantes. O idioma oficial é o espanhol, e a cidade é conhecida por seu contraste entre a arquitetura colonial e áreas modernas de luxo.

[13] Soba é o chefe tradicional ou líder comunitário em Angola. Ele atua como administrador local, juiz, mediador de conflitos e guardião da cultura e dos valores ancestrais da comunidade.

[14] Abessole (ou Abessolo) é um nome próprio de forte ressonância na África Central e Ocidental continental — muito comum, por exemplo, na etnia Fang (comunidade profundamente ligada à história demográfica e migratória do Golfo da Guiné e do próprio arquipélago de São Tomé e Príncipe).

[15] Em São Tomé e Príncipe, especialmente no contexto da língua crioula local (o forro ou santomense), a palavra "san" (derivada de "senhor" ou "senhora", e muitas vezes associada à ideia de "santo/santa") é um termo de profundo respeito, veneração e senioridade usado para se referir às matriarcas, parteiras, rezadeiras ou mulheres mais velhas da comunidade. Não se trata necessariamente de uma canonização religiosa ocidental, mas de uma sacralização da ancestralidade familiar e comunitária.

[16] No Dicionário do santomense-português, a palavra pawen significa canibal, pessoa voraz ou insaciável.

[17] Tombuctu fica no Mali. Durante os séculos XIV e XVI, no auge do Império do Mali e do Império Songai, a cidade foi a capital intelectual, científica e espiritual de África. Abrigava a célebre Universidade de Sankoré e centenas de milhares de manuscritos que cobriam áreas como astronomia, matemática, medicina e filosofia.

[18] Katona evoca a figura do trabalhador contratado forçado vindo de Angola.

[19] Kalua representa os trabalhadores contratados traficados a partir de Moçambique.

[20] Quelimane é uma importante cidade portuária e capital da província da Zambézia, em Moçambique. Historicamente, foi um dos maiores portos de escoamento de escravizados e, mais tarde, de trabalhadores forçados da África Oriental em direção às ilhas do Atlântico.

[21] Nha Xica (Dona Francisca, onde "Nha" é o termo crioulo respeitoso para "Senhora") evoca a migração forçada dos caboverdianos.

[22] Benin (O Reino da Arte e do Poder), histórico Reino do Benin (localizado no território da atual Nigéria), famoso por sua corte refinada e pelos célebres "Bronzes do Benin". No início da colonização de São Tomé, o arquipélago serviu como um entreposto comercial e de escravos. Os colonos portugueses compravam pessoas escravizadas no Reino do Benin para trabalhar nas primeiras plantações de cana-de-açúcar de São Tomé ou para serem revendidas.

[23] Calabar é uma cidade portuária situada no sudeste da Nigéria (na região do Delta do Níger). Entre os séculos XVI e XIX, Calabar foi um dos portos de escoamento de escravizados mais ativos e violentos de toda a África Ocidental (no Golfo de Biafra). Milhares de pessoas das etnias Efik, Igbos e Ibibios foram capturadas no interior e embarcadas em Calabar. Muitas delas desembarcaram em São Tomé e Príncipe para o trabalho forçado ou morreram na travessia.



(Ilustração: René Tavares (Saint Tome and Principe) - les femmes des iles)

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