terça-feira, 28 de julho de 2026

UMA POÉTICA, de Ana Costa dos Santos




A vida dos lepidópteros,

a solidão dos astronautas,

os guarda-chuvas quebrados depois da tempestade,

um sem-teto estendendo roupas ao sol,

a hora do almoço dos operários,

os erros ortográficos nas cartas de amor,

as fotos dos desaparecidos,

os peixes sufocados.



As coisas perdidas ou deixadas a um canto,

o primeiro cão, a primeira morte,

as casinhas à beira da estrada

e quem dorme dentro delas,

as abóboras que não viraram carruagens douradas,

as últimas palavras de pessoas comuns,

a última dança de Kazuo Ohno,

a canção mais triste de Sérgio Sampaio.



A paz dos amnésicos e dos recém-nascidos,

meu destino nas cartas de tarô,

cada sístole e diástole,

o fato de dizermos sempre “até amanhã”

ou “parece que foi ontem”,

o susto dos telefones tocando fora de hora,

o milagre de chegarmos quase intactos à noite,

as aves-do-paraíso apaixonadas,

tudo o que escrevo quando tentava escrever outra coisa

e tudo o que jamais caberá neste poema.



(Voo Breve sob o Sol; 2025)



(Ilustração: Marc Chagall - Liebende mit Vogel)

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