segunda-feira, 13 de julho de 2026

COMO O ESTADO NOVO USAVA OBRAS DIDÁTICAS PARA INCUTIR NAS CRIANÇAS O ANTICOMUNISMO, de Felipe Menezes Pinto



Em busca da urdidura de um sentimento de nação, de uma identidade nacional, elegendo suas matrizes constituintes bem como indicando o não-nacional, o regime instituído por Vargas ao final de 1937 investiu com grande afinco em diversos setores, notadamente na educação. Materiais didáticos, palestras educacionais, festividades cívicas e todo um amplo repertório foi mobilizado pelo Estado Novo no afã de conquistar as mentes, estimulando o sentimento nacional e tentando promover a homogeneização da identidade nacional. Nesse processo, não se hesitou em manipular símbolos, amplamente difundidos e cultuados, criar leis e investir em programas de educação em nível nacional. Estava em jogo a construção do projeto cívico do Estado Novo para o Brasil. Projeto que revelou, por um lado, as noções simpáticas ao governo Vargas, como a instituição da família, a religião e o trabalho, mas que, por outro lado, mostrou-se intolerante a determinados grupos e ideias. Os materiais didáticos, instrumentos ativos nessa empreitada da educação durante o Estado Novo, podem ser tomados como testemunhos deste processo.

Em algumas destas obras didáticas destinadas às crianças é possível identificar a questão dos comunistas sendo trabalhada de forma direta, ou seja, citando a palavra “comunista”, sem metáforas ou utilização de termos emprestados dos anticomunistas.

Na História de um menino de São Borja[1], através de uma narrativa bem simples e com linguagem adequada ao público infantil, uma suposta tia Olga conta aos seus sobrinhos a vida do presidente Getúlio Vargas, desde os tempos de São Borja até o advento do Estado Novo. Em uma dessas passagens, a narradora da história debruça-se sobre os primórdios da república no Brasil, caracterizando esse período como a época da “Senhora Política”, ou seja, a personificação da primeira república como uma senhora gananciosa, ambiciosa, senhora das intrigas e da politicagem vil, pouco preocupada com o rumo do Brasil. Após essa desqualificação do período anterior à Revolução de 1930, assim continua a narrativa:

[...] O menino de São Borja, desde os tempos da infância, começou a estudar de longe essa Senhora Dona emproada e todo-poderosa. [...] Presidente do Rio Grande do Sul, ele botou de lado tal:

-Tem paciência, Fulustrequíssima, você aqui não me põe as mãos. E a Fulustréca não pôs as mãos, mas ficou louca da vida com a ousadia do Presidente.

E o Presidente do Rio Grande do Sul passou a ser Presidente da República: e a Fulustréca, louquinha da vida, começou a armar novos planos para se vingar do atrevido.

“Você me paga!”


E foi assim que, por diversas vezes, a Senhora Dona Política tentou passar rasteiras no Presidente, sem resultado.

Deu ela o braço até a amigos perigosos como o Comunismo – mas o Presidente aparou o golpe e jogou os dois por terra.

Que tombo monumental!

Os vermelhinhos foram obrigados a entregar os pontos e a deixar o campo livre.[2]

Em seguida, após discorrer sobre as manobras em torno da eleição que se aproximava, em 1937 a “Senhora Política” agiu de novo e, segundo a narrativa,

[...] os vermelhinhos aproveitaram-se da confusão e começaram de novo a se manifestar. Esses zumbidos chegaram aos ouvidos do Presidente. [...]

A 10 de Novembro de 1937, os deputados que chegaram à Câmara encontraram a casa de portas fechadas; ali não se ouviriam mais bobagens e bate-papos inúteis a 200 mil réis diários por cabeça.

O povo saiu em festa para as ruas.

O céo se encheu de estrelas.

E, nessa noite, noite de luz e de contentamento, o Presidente chegou ao microfone do rádio e anunciou o nascimento do Estado Novo e a morte da Excelentíssima e Fulustrequíssima Senhora Dona Polítca.[3]

É possível depreender das passagens acima que a narrativa em torno da vida e das ações de Getúlio Vargas tinha o claro objetivo de alçar o presidente como o grande estadista, o salvador da nação, aquele que teve coragem de acabar com os desmandos, a corrupção e as politicagens que caracterizam a Primeira República, inaugurando uma nova fase no cenário político brasileiro, bem como aquele que conseguiu barrar as tentativas de avanço comunista no Brasil. Utiliza-se a palavra “tentativa” no plural à medida que, pela disposição do texto e pela sequência narrada, possivelmente trata-se de uma alusão aos movimentos comunistas de 1935, a chamada “Intentona Comunista”, e também os movimentos políticos que possibilitaram a implantação do Estado Novo, motivado por um suposto plano comunista de tomada do poder, o chamado “Plano Cohen”.

Ao que parece, a escolha desses dois momentos de efervescência política não se deu por acaso. Com relação à primeira tentativa, sendo possível considerá-la como os acontecimentos de 1935, a referência na narrativa aos comunistas é explícita. Ainda, é relevante observar a construção da narrativa em torno da aproximação da “Senhora Política” com os comunistas (...Deu ela o braço até a amigos perigosos como o Comunismo...), possivelmente uma tentativa de relacionar os desmandos, os contratempos e a corrupção que imperavam na Primeira República, aos olhos do Estado Novo, como elementos que possibilitaram o crescimento do movimento comunista no Brasil e que culminaram no levante de 1935. Não por acaso, como atesta MOTTA

Os acontecimentos de novembro de 1935 têm uma importância marcante na história do imaginário anticomunista brasileiro, na medida em que forneceram argumentos para solidificar as representações do comunismo como fenômeno essencialmente negativo. [..]

Intentona significa intento louco, motim insensato e é exatamente esta a ideia que se pretende associar ao evento, representado desde então como um “capítulo negro” da história brasileira (MOTTA 2002, 76).

Partindo da possibilidade de se considerar essa primeira tentativa como uma referência ao levante de 1935, a segunda tende a ser, necessariamente, o suposto plano comunista de tomada do poder apresentado ao final de 1937 e que justificaria a criação do Estado Novo. Os “zumbidos” da movimentação comunista que chegaram “aos ouvidos do Presidente” ganharam materialidade através deste plano e justificariam a suspensão da ordem vigente em prol, paradoxalmente, desta mesma ordem. Ainda segunda a narrativa, somente com o nascimento do Estado Novo, o perigo comunista estava minado e a “Senhora Dona Política” estava morta. Agindo dessa maneira, tentava passar às crianças que o advento do Estado Novo representava a conclusão da obra de expurgo da má política, obra iniciada desde a Revolução de 1930, mas que encontra em 1937 o seu epílogo.



Notas:

[1] OLGA. História de um menino de São Borja: a vida do presidente Getulio Vargas contada por tia Olga aos seus sobrinhos Rosa Maria e Chico-Chicote. [S.l.]: D.N.P., 1939. (Acervo Memória Infantil da Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa). Não foi possível identificar a autoria da obra. Optou-se, assim, em utilizar a classificação criada pela Biblioteca Estadual Luiz de Bessa, setor de Memória Infantil, local onde a obra foi encontrada.

[2] Idem. p. 69 e 70.

[3] Idem. p. 70 e 71.




(Excerto da tese : O VERMELHO E O NEGRO: Intolerância, Construção da Identidade Nacional e Práticas Educativas durante o Estado Novo, 1937 – 1945)


Ilustração: Getúlio Vargas - cartaz de propaganda getulista)

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