sábado, 7 de dezembro de 2013

A FUGA DO AMANTE, de Gustave Flaubert











Mal chegou a casa, Rodolfo sentou-se bruscamente à escrivaninha, debaixo da cabeça de veado posta na parede à maneira de troféu. Mas, quando pegou na pena, não foi capaz de escrever nada, de modo que, apoiando-se nos dois cotovelos, se pôs a reflectir. Ema parecia ter recuado para um passado longínquo, como se a resolução por ele tomada tivesse estabelecido subitamente entre os dois um imenso intervalo.

Para tornar a evocar qualquer coisa dela, foi procurar no armário, à cabeceira da cama, uma velha caixa de biscoitos de Reims, onde tinha o hábito de meter todas as cartas de mulheres. De dentro saiu um cheiro de poeira úmida e rosas murchas. Primeiro encontrou um lenço de bolso, coberto de gotinhas desmaiadas. Era um lenço dela, de uma vez que, a passear, deitara sangue pelo nariz, já nem se lembrava. Havia depois, dobrado em todos os cantos, o retrato oferecido por Ema, o trajo pareceu-lhe pretensioso e o olhar, afetado, do mais deplorável efeito, depois, à força de olhar para aquela imagem e de evocar a recordação do modelo, os traços de Ema foram-se-lhe pouco a pouco confundindo na memória, como se a figura viva e a figura pintada, roçando-se uma na outra, se tivessem reciprocamente apagado. Finalmente, leu cartas dela,estavam cheias de explicações referentes à viagem, breves, técnicas e insistentes como cartas comerciais. Quis rever as longas, as de outrora, para encontrá-las no fundo da caixa, Rodolfo desarrumou todas as outras, e, maquinalmente, pôs-se a remexer aquele monte de papéis e de coisas, encontrando a trouxe-mouxe ramalhetes, uma liga, uma máscara negra, alfinetes e cabelos - cabelos!, escuros, louros, alguns, até, presos à ferragem da caixa, partiam-se quando a abria.

Vagueando assim no meio das suas recordações, examinava as caligrafias e o estilo das cartas, tão variadas como as respectivas ortografias. Eram ternas ou joviais, galhofeiras ou melancólicas, algumas pediam amor e outras pediam dinheiro. A propósito de uma palavra, lembrava-se de feições, de certos gestos, de um som de voz, no entanto, algumas vezes não se lembrava de nada.

Efetivamente, aquelas mulheres, acorrendo-lhe todas juntas ao pensamento, apertavam-se umas às outras e reduziam as suas proporções, como que no mesmo nível de amor que as fazia iguais. Pegando então num punhado daquelas cartas todas misturadas, entreteve-se durante alguns momentos a fazê-las cair em cascata, da mão direita para a mão esquerda. Por fim, entediado, sonolento, Rodolfo voltou a colocar a caixa dentro do armário, dizendo para si mesmo: "Que monte de patetices!..."

Isto resumia a sua opinião, porque os prazeres, como garotos no pátio de um colégio, de tal modo lhe haviam espezinhado o coração que nenhuma verdura nele nascia, e quem por lá passava, mais estouvado do que as crianças, nem ao menos deixava, como elas, o nome gravado na parede.

"Vamos lá começar", pensou ele!

Escreveu:

"Coragem, Ema! Tenha coragem! Não quero fazer a infelicidade da sua existência..." - No fim de contas, é verdade, pensou Rodolfo. - Procedo no seu interesse, sou honesto. "Acaso ponderou maduramente a sua determinação? Sabe o abismo para o qual eu a estava arrastando, pobre anjo? Não sabe, pois não? Ia confiante e louca, acreditando na felicidade, no futuro... Como somos infelizes, insensatos!"

Rodolfo deteve-se para procurar aqui uma boa desculpa.

- Se eu lhe dissesse que perdi toda a minha fortuna?... Isso não! Aliás não resolveria nada. Daria para recomeçar mais tarde. Pode-se lá fazer ouvir a razão a mulheres daquele gênero!

Refletiu e depois acrescentou:

"Nunca a esquecerei, acredite-me, e terei sempre por si uma profunda dedicação, mas, um dia, mais tarde ou mais cedo, este ardor (é essa a sorte de tudo o que é humano) reduzir-se-ia, sem dúvida! Surgir-nos-ia o enfado, e quem sabe se até eu não passaria pelo atroz sofrimento de assistir aos seus remorsos e de participar eu próprio neles, por ter sido o causador de tudo. Basta-me a ideia dos seus desgostos para me torturar, Ema! Esqueça-me! Porque haveria eu de conhecê-la? E porque haveria de ser tão bela? Serei culpado disso? Oh, meu Deus! Não, não me acuse. A culpa é da fatalidade!"

- Aqui está uma palavra que produz sempre efeito, pensou ele.

"Se a Ema fosse uma dessas mulheres de coração frívolo, como se veem tantas, então sim, eu teria podido, por egoísmo, tentar uma experiência sem perigo para si. Mas essa deliciosa exaltação, causa ao mesmo tempo do seu encanto e do seu tormento, impede-a de compreender, mulher adorável, a falsidade da nossa posição futura. Tampouco tinha eu a princípio reflectido nisso e descansava à sombra dessa felicidade ideal, como à sombra da mançanilheira, sem prever as consequências."

- Ela vai talvez acreditar que é por avareza que renuncio... Deixá-lo! Não faz mal! O que é preciso é acabar com isto!

"O mundo é cruel, Ema. Onde quer que estivéssemos, ele perseguir-nos-ia. Teria de suportar perguntas indiscretas, a calúnia, o desdém, talvez até o ultraje. O ultraje para si! Não!... O que eu desejaria era fazê-la sentar sobre um trono! Levo a recordação da sua pessoa como um talismã! Sim, porque me puno com o desterro de todo o mal que lhe tenho causado. Vou-me embora. Para onde? Nada sei, porque estou louco! Seja sempre boa! Conserve a lembrança do desgraçado que a perdeu. Ensine o meu nome à sua filha, para que o repita nas suas orações."

A chama das duas velas estremecia. Rodolfo levantou-se para ir fechar a janela e, quando se voltou a sentar, pensou:

- Parece-me que é tudo. Ah!, ainda mais isto, para que não venha outra vez agarrar-se a mim:

"Já estarei longe quando ler estas tristes linhas, pois quis fugir bem depressa para evitar a tentação de voltar a vê-la. Nada de fraquezas! Voltarei depois, e talvez que, mais tarde, possamos conversar juntos, friamente, sobre os nossos antigos amores. Adeus!"

E havia um último adeus, separado em duas palavras: "A Deus!", o que lhe pareceu de muito bom efeito.

- Agora como é que eu vou assinar? - pensou ele. Seu muito dedicado?... Não. Seu amigo?... Sim, é isso., Seu amigo.

Releu a carta. Pareceu-lhe boa.

- Pobre mulher!, pensou, com enternecimento. Vai acreditar que sou mais insensível do que uma rocha, faziam falta algumas lágrimas em cima disto, mas não sou capaz de chorar, não tenho culpa.

Então, pondo água num copo, Rodolfo molhou um dedo e deixou cair do alto uma grande gota que fez uma mancha esbatida sobre a tinta, depois, querendo lacrar a carta, encontrou o sinete Amor nel cor.

- Isto é que não vem nada a propósito... Ora, não tem importância!

No fim de tudo fumou três cachimbadas e foi-se deitar.

No dia seguinte, quando se levantou (cerca das duas horas, porque se deitara tarde), mandou apanhar um cesto de damascos. Colocou a carta no fundo, debaixo de folhas de parreira, e deu imediatamente ordem a Girard, o moço do arado, que levasse aquilo delicadamente a casa da senhora Bovary. Costumava servir-se daquele meio para se corresponder com ela, enviando-lhe, conforme a época do ano, fruta ou caça.

- Se ela te pedir notícias minhas - disse-lhe ele - responde que saí para uma viagem. Tens de entregar o cesto diretamente nas mãos dela... Vai, anda, e tem cuidado!

Girard envergou a sua blusa nova, atou o lenço por cima dos damascos e, caminhando a passos largos e pesados nas suas enormes galochas ferradas, tomou tranquilamente o caminho de Yonville.

A senhora Bovary, quando o rapaz lá chegou, estava com Felicidade, arrumando, em cima da mesa da cozinha, um embrulho de roupa.

- Aqui está isto que o meu patrão lhe manda - disse o moço.

Ema sentiu-se imediatamente apreensiva e, ao mesmo tempo que procurava qualquer moeda no bolso, fitava o camponês com olhos desvairados, enquanto este, por sua vez, a olhava espantado, não compreendendo como um presente tão simples pudesse comover alguém daquele modo. Finalmente, o rapaz saiu. Felicidade ficou. Ema não aguentava mais, correu para a sala como se lá fosse colocar os damascos, despejou o cesto, arrancou as folhas, achou a carta, abriu-a e, como se atrás dela houvesse um terrível incêndio, desatou a fugir para o quarto, aterrorizada.

Carlos estava lá, ela viu-o, ele falou-lhe, ela não ouviu nada e continuou a subir rapidamente os degraus, ofegante, desvairada, entontecida, segurando sempre aquela horrível folha de papel, que lhe estalava entre os dedos como um bocado de lata. No segundo andar parou diante da porta do sótão, que estava fechada.

Então quis acalmar-se, lembrou-se da carta, tinha de acabar de a ler, mas não conseguia. Além disso, onde? Como? Os outros vê-la-iam.

"Ah! Não, aqui estarei bem", pensou. Empurrou a porta e entrou. 

O telhado de ardósia deixava cair a prumo um calor pesado que lhe apertava as fontes e a sufocava, arrastou-se até à trapeira fechada, correu-lhe o ferrolho e a luz jorrou deslumbrante no mesmo momento.

Em frente, para além dos telhados, estendia-se a planície até se perder de vista. Em baixo, a praça da vila estava deserta, as pedras do ladrilho cintilavam, os cata-ventos das casas mantinham-se imóveis, à esquina da rua, saía de um andar inferior uma espécie de ronco com modulações estridentes. Era Binet a tornear.

Ema encostara-se ao peitoril da água-furtada e relia a carta com risadas de cólera. Mas, quanto mais fixava nela a atenção, mais as ideias se lhe confundiam. Continuava a vê-lo, a ouvi-lo, a estreitá-lo nos braços, no peito, as pulsações do coração causavam-lhe a sensação de fortes pancadas de aríete, acelerando-se umas após outras, com intermitências desiguais.

Lançava o olhar em redor, sentindo o desejo de que o mundo se desmoronasse.

Por que não acabar com tudo? Quem a impediria? Era livre. E avançou, olhou para a calçada e disse para consigo: "Vamos! Vamos!" O raio luminoso que vinha diretamente de baixo atraía-lhe para o abismo o peso do corpo. Parecia-lhe que o solo da praça oscilava, elevando-se ao longo das paredes, e que o sobrado se inclinava para a extremidade, como um navio sobre as ondas. Ema segurava-se mesmo à borda, quase suspensa, rodeada por um grande espaço. O azul do céu invadia-a, o ar circulava-lhe na cabeça vazia, bastava-lhe ceder, deixar-se levar, e o ronco do torno não parava, como uma voz furiosa que a estivesse chamando.

- Ó mulher!, mulher! - gritou Carlos.

Ema deteve-se.

- Mas onde é que estás? Vem daí!

A consciência de ter acabado de escapar à morte quase a fez desmaiar de terror, fechou os olhos, depois estremeceu ao contacto de uma mão que lhe tocava no braço: era Felicidade.

- O senhor está à sua espera, a sopa já está nos pratos.

E teve de descer! Não teve outro remédio senão sentar-se à mesa!

Experimentou comer. Os pedaços de comida sufocavam-na. Então desdobrou o guardanapo, como que para examinar as passagens que tinha, e procurou mesmo entregar-se a esse trabalho, contar os fios do tecido. Subitamente voltou a lembrar-se da carta. Tinha-a então perdido? Onde poderia encontrá-la? Mas sentia-se tão esgotada que não conseguiu inventar nenhum pretexto para se levantar da mesa. Além disso acobardara-se, tinha medo de Carlos, ele com certeza sabia de tudo! Efetivamente, ele pronunciou, de modo singular, as seguintes palavras:

- Parece que não veremos tão cedo o senhor Rodolfo.

- Quem foi que te disse? - respondeu ela, estremecendo.

- Quem me disse? - replicou ele, um pouco surpreendido com o tom brusco dela. - Foi o Girard, que encontrei há momentos à porta do Café Francês. Parece que vai ou que foi fazer uma viagem.

Ema teve um soluço.

- Por que é que te admiras? Ele ausenta-se assim de tempos a tempos para se distrair e acho que faz muito bem! Quando se tem uma fortuna e se é ainda novo!... Aliás, o nosso amigo diverte-se à larga! É um grande estroina. O senhor Langlois contou-me...

Calou-se, por decoro, por causa da criada, que entrava nesse momento. Esta repôs dentro do cesto os damascos espalhados em cima do aparador, Carlos, sem notar o rubor da mulher, pediu os frutos, pegou num e deu-lhe uma dentada.

- Oh! Magnífico! - dizia ele. - Toma, prova.

E estendeu-lhe o cesto, que ela repeliu delicadamente.

- Mas cheira: que perfume! - insistiu ele, passando-o várias vezes por debaixo do nariz de Ema.

- Falta-me o ar! - exclamou ela, levantando-se de um pulo.

Mas, por um esforço de vontade, este espasmo desapareceu, depois continuou:

- Não é nada! Não é nada! É nervoso! Senta-te e come!

Porque temia que lhe fizessem perguntas, que a fossem tratar, que não a deixassem mais.

Carlos, para obedecer, voltara a sentar-se e cuspia na mão os caroços dos damascos, que colocava seguidamente no prato.

Subitamente passou na praça, a trote rápido, um tílburi azul. Ema deu um grito e caiu hirta, de costas, no chão.

Com efeito, Rodolfo, depois de muitas reflexões, decidira-se a partir para Ruão. Ora, como da Huchette para Buchy não há outro caminho senão o de Yonville, teve de atravessar a vila, e Ema reconhecera-o, à luz das lanternas que, como um relâmpago, rasgavam o crepúsculo.

O farmacêutico, com o tumulto que se produziu em casa de Bovary, precipitou-se para lá. 

A mesa, com todos os pratos, estava tombada: molho, carne, facas, saleiro e galheteiro, tudo espalhado pelo aposento, Carlos pedia socorro, Berta, assombrada, gritava e Felicidade, com as mãos a tremer, desapertava a senhora, que tinha movimentos convulsivos por todo o corpo.

- Vou a correr ao laboratório - disse o boticário - buscar um pouco de vinagre aromático.

Depois, quando ela voltou a abrir os olhos com o cheiro do frasco, disse ainda:

- Eu tinha a certeza, isto até acordava um morto.

- Fala! - dizia Carlos, fala conosco! Sossega! Sou eu, o teu Carlos, que te ama! Não me reconheces? Olha, aqui tens a tua filhinha: vá, dá-lhe um beijo!

A criança estendia os braços à mãe para se lhe pendurar no pescoço. Mas, desviando a cabeça, Ema disse com voz sacudida:

- Não, não... ninguém!

E tornou a desmaiar. Levaram-na para a cama.

Ficou ali estendida, de boca aberta, com as pálpebras cerradas, as mãos estendidas, imóvel e branca como uma estátua de cera. Dos olhos saíam-lhe dois fios de lágrimas que corriam lentamente sobre o travesseiro.

Carlos, de pé, conservava-se ao fundo da alcova e o farmacêutico, junto dele, mantinha o silêncio meditativo que convém adotar nas ocasiões sérias da vida.

- Tenha calma - disse ele, dando-lhe um toque no cotovelo. - Parece-me que o paroxismo já passou.

- Sim, agora está a repousar um pouco! - respondeu Carlos, que a via dormir. - Minha pobre mulher!... Minha pobre mulher!... Foi uma recaída!

Então, Homais quis saber como tinha surgido aquele acidente. Carlos respondeu que lhe tinha sobrevindo repentinamente, quando ela estava comendo damascos.

- É extraordinário!... - continuou o farmacêutico. - Mas podem até ter sido os damascos que lhe provocaram a síncope! Há temperamentos extremamente sensíveis em relação a determinados aromas. Seria um bom assunto de investigação, tanto no aspecto patológico como no aspecto fisiológico. Os padres, que sempre utilizaram perfumes nas suas cerimônias, conhecem-lhes a importância. Fazem isso para nos embotar a mente e provocar êxtases, o que é, aliás, fácil de conseguir em pessoas do sexo feminino, que são mais delicadas do que nós. Conhecem-se casos de algumas que desmaiaram com o cheiro de chifre queimado, de pão quente...

- Cuidado, para não a despertar! - disse Bovary em voz baixa.

- E não são apenas os humanos - continuou o boticário -, mas até os animais estão sujeitos a estas anomalias. O doutor naturalmente não desconhece o efeito singularmente afrodisíaco que provoca a Nepeta cataria, vulgarmente chamada erva-de-gato, na espécie felina; por outro lado, para lhe citar um exemplo de que garanto a autenticidade, Bridoux (um dos meus antigos camaradas, atualmente estabelecido na rua Malpalu) possui um cão que entra em convulsões de cada vez que se lhe apresenta uma caixa de rapé. Muitas vezes ele até faz a experiência diante dos amigos, na casa que tem no Bosque Guillaume. Poder-se-ia imaginar que um simples esternutatório seria suficiente para causar semelhante devastação no organismo de um quadrúpede? É extremamente curioso, não é verdade?

- Pois é - respondeu Carlos, que nem o escutava.

- Isto prova - continuou o outro, sorrindo com um ar de benigna suficiência -, as inumeráveis irregularidades do sistema nervoso. No que diz respeito à sua esposa, ela sempre me pareceu, confesso, uma verdadeira sensitiva. Por isso eu nunca lhe aconselharia, meu bom amigo, nenhum desses pretensos remédios que, a pretexto de atacarem os sintomas, atacam mas é o temperamento. Nada de medicação desnecessária! Dieta, mais nada. Sedativos, emolientes, dulcificantes. Depois não pensa que seria talvez necessário tratar a imaginação?

- O quê? Como? - disse Bovary.

- Ah! Aí está o problema! Essa é efetivamente a questão: That is the question, como li há pouco tempo no jornal. 

Mas Ema, acordando, exclamou:

- E a carta? E a carta?

Pensaram que estivesse delirando, e delirou efetivamente a partir da meia-noite: declarara-se uma febre cerebral.

Durante quarenta e três dias, Carlos não a deixou um instante. Abandonou todos os seus doentes, não se deitava, estava continuamente a tomar-lhe o pulso, a aplicar-lhe sinapismos, compressas de água fria. Mandava Justino buscar gelo a Neufchâtel, o gelo derretia-se pelo caminho, voltava a mandá-lo lá. Chamou o doutor Canivet para uma consulta, mandou vir de Ruão o doutor Larivière, seu antigo professor, estava desesperado. O que mais o assustava era o abatimento de Ema, ela não falava, não ouvia nada e até parecia não sofrer, como se tanto o corpo como a alma estivessem ambos repousando de todas as suas agitações.

Por meados de outubro, Ema pôde segurar-se sentada na cama, com almofadas atrás dela. Carlos chorou quando a viu comer a sua primeira fatia de pão com doce. Voltaram-lhe as forças, levantava-se algumas horas durante a tarde e, um dia em que ela se sentia melhor, Carlos procurou levá-la pelo braço a dar um passeio pelo jardim. Não se via a areia do caminho coberto de folhas secas, ela dava um passo de cada vez, arrastando as chinelas, e, apoiada no ombro de Carlos, continuava a sorrir.

Chegaram assim ao fundo do jardim, junto do terraço. Ela endireitou-se lentamente, colocou a mão por cima dos olhos, para observar, olhou para longe, para muito longe, mas nada havia no horizonte senão grandes fogueiras de mato, fumegando sobre as colinas.

- Vais-te cansar, querida - disse Bovary.

E, empurrando-a levemente para a obrigar a entrar no caramanchão, continuou:

- Senta-te aqui neste banco: assim ficas bem.

- Não! Aí não, aí não! - balbuciou ela apenas.

Sentiu uma vertigem e, a partir daquela noite, agravou-se-lhe de novo a doença, com um ritmo mais incerto, é verdade, mas com características mais complexas. Tão depressa sofria do coração, como do peito, ora se queixava do cérebro, ora dos membros, apareceram-lhe vômitos, no que pareceu a Carlos reconhecer os primeiros sintomas de cancro.

E o pobre homem, por cima de tudo aquilo, andava inquieto por falta de dinheiro.




(Madame Bovary; tradução de Fernanda Ferreira Graça)




(Ilustração: Paula Rego - mulher cão)










quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

UM HOMME ET UNE FEMME ABSOLUTMENT BLANCS / UM HOMEM E UMA MULHER ABSOLUTAMENTE BRANCOS, de André Breton







Tout au fond de l'ombrelle je vois les prostituées merveilleuses

Leur robe un peu passée du côté du réverbère couleur des bois

Elles promènent avec elles un grand morceau de papier mural

Comme on ne peut en contempler sans serrement de coeur aux anciens étages d'une maison en démolition

Ou encore une coquille de marbre blanc tombée d'une cheminée

Ou encore un filet de ces chaînes qui derrière elles se brouillent dans les miroirs

Le grand instinct de la combustion s'empare des rues où elles se tiennent

Comme des fleurs grillées

Les yeux au loin soulevant un vent de pierre

Tandis qu'elles s'abîment' immobiles au centre du tourbillon

Rien n'égale pour moi le sens de leur pensée inappliquée

La fraîcheur du ruisseau dans lequel leurs bottines trempent l'ombre de leur bec

La réalité de ces poignées de foin coupé dans lesquelles elles disparaissent

je vois leurs seins qui mettent une pointe de soleil dans la nuit profonde

Et dont le temps de s'abaisser et de s'élever est la seule mesure exacte de la vie

je vois leurs seins qui sont des étoiles sur des vagues

Leurs seins dans lesquels pleure à jamais l'invisible lait bleu




Tradução de Antônio Ramos Rosa:


Lá no fundo do guarda-sol vejo as prostitutas maravilhosas

Com trajes um pouco antiquados do lado da lanterna cor dos bosques

Levam a passear consigo um grande pedaço de papel estampado

Esse papel que não se pode ver sem que o coração se nos aperte nos andares altos de uma casa em demolição

Ou uma concha de mármore branco caída no caminho

Ou um colar dessas argolas que se confundem atrás delas nos espelhos

O grande instinto da combustão conquista as ruas onde elas caminham

Direitas como flores queimadas

Com os olhos na distância levantando um vento de pedra

Enquanto imóveis se abismam no centro da voragem

Nada se iguala para mim ao sentido do seu pensamento desligado

A frescura do regato onde os sapatinhos delas banham a sombra dos seus bicos

A realidade daqueles molhos de feno cortado onde desaparecem

Vejo os seus seios que abrem uma nesga de sol na noite profunda

E que se abaixam e se elevam a um ritmo que é a única exata medida da vida

Vejo os seus seios que são estrelas sobre as ondas

Seios onde chove para sempre o invisível leite azul





(Le Revolver à cheveux blancs)


(Ilustração: Jaroslaw Kukowski - the little mairmaid happy ending)







domingo, 1 de dezembro de 2013

COMO DESCOBRI O RÁDIO, de Roberto Damatta








Pertenço ao século do rádio, da revista semanal, do bonde e de uma praia onde o banho de mar era obrigatório. Íamos só de "calção de banho" e não comíamos nada. As "meninas" levavam as "barracas" que os mais bem apanhados "armavam" vendo de perto o espetáculo gracioso e "casual" de observar como elas despiam as suas "saídas de praia", revelando corpos impecáveis. A praia parava para ver a chegada de certas moças, como a irmã do Nilton. Ou a mãe do Manuão, especialista - diziam - em freudianamente desvirginar os amigos do filho.

A ponte entre a fantasia do sexo real e a irrealidade do romance ideal, que invariavelmente terminava na confissão arrependida, era preenchida pelo rádio no canto de um Tony Bennett quando ele entoava Stranger in Paradise (Estranho no Paraíso). O paraíso representado pelo corpo desejado, mas ainda desconhecido de uma mulher - esse outro do qual saímos e ao qual, numa hora encantada, voltamos inventando a nossa masculinidade. Lembro que a belíssima canção era uma versão americanizada das Danças Polovitisianas, da ópera Príncipe Igor, de Alexander Bodorin, popularizada num musical da Broadway chamado Kismet, que os mais grosseiros chamavam de "quis meter", numa falta de gosto que feria a sensibilidade dos mais cultos e puros de coração.

Tudo era construído pelo rádio e foi pelo rádio lá de casa que testemunhei o poder do drama no choro aberto de mamãe e nas lágrimas contidas de meu pai ao ouvirem religiosamente a novela O Direito de Nascer. Desse mesmo rádio, ouvi o fim da 2.ª Guerra Mundial, o suicídio de Vargas e aprendi a imaginar campos de futebol e seus jogos maravilhosos pela voz de Oduvaldo Cozzi. Ao lado de suas pilhas chorei quando vencemos a Copa em 1958 e ouvi o programa humorístico Balança mas não Cai, que os mais velhos censuravam com o eterno "este mundo está perdido", no que eu, hoje mais velho que eles, reitero que sempre esteve e vai estar. O rádio era o meio e o mundo brasileiro (falado, ouvido e cantado), a mensagem.

Naquele Brasil de "80% de analfabetos de pai e mãe", conforme era banal dizer com um certo gosto e, às vezes, superioridade, quem não tinha rádio não estava no mundo.

Jaz aqui na minha frente a caixinha retangular de um velho rádio Sharp de duas bandas e dez transistores que comprei em Marabá no dia 3 de outubro de 1961, quando - em meio ao meu trabalho de campo com os índios Gaviões - me alienei dos acontecimentos políticos nacionais deflagrados pela renúncia de Jânio Quadros. O comerciante sírio-brasileiro que me vendeu o aparelho disse que o "bichinho pegava tudo". As estruturas eletrônicas do rádio iam me tirar das tais "estruturas sociais" tocadas a Lévi-Strauss que eu perseguia com tanto ardor.

Voltamos para a aldeia com o rádio. Queríamos notícias, mas os nossos constrangidos anfitriões - pois fomos nós que nos intrometemos autoritariamente em suas vidas - queriam música. E música sertaneja, naquela época representada pelo baião.

Uma noite, quando ouvíamos o noticiário político, o nosso mais dedicado instrutor, Aproronenum - conhecido entre os sertanejos pelo nobre apelido de Zarolho -, pediu música. Girei o indicador para satisfazê-lo e em torno do rádio formou-se uma alegre plateia.

Logo descobri que a novidade não era bem a música, mas o fato de ouvir e ver uma caixa cheia falante. Quando a música terminou, um índio que eu mal conhecia, um sujeito mal encarado, demandou exprimindo o desejo do grupo:

- Manda ele cantar de novo!

- Não posso - respondi atônito, diante do radiozinho falante, mas surdo diante do meu problema.

- Mas como não pode? Se ele fala, ele ouve!, disse o Gavião que havia chegado à aldeia durante os dias que estive em Marabá.

Recordando muito mal o que sabia de transmissores, tentei explicar o rádio. Esse rádio que havia permeado a minha vida e que eu descobria não saber sobre como ele funcionava. Vi, então, que sabia pouco do meu próprio mundo. Eu simplesmente, como Weber denunciou faz tempo no seu A Ciência como Vocação, era moderno. Nada sabia das entranhas dessas entidades mágicas que constituíam o meu mundo.


(OESP/17.4.2013)


(Ilustração: rádio Sharp antigo - autor não identificado)





quinta-feira, 28 de novembro de 2013

UN LUPO IN AGGUATO / UM LOBO AO ATAQUE, de Abbas Kiarostami










Traço vermelho sobre o branco da neve,

presa ferida

que coxeia




Um potro branco

nasceu

de uma égua negra

ao alvorecer




O vento levará consigo

flores de cerejeira

até à alvura das nuvens




Por cada onda alta

três ondas baixas,

por cada três ondas baixas

uma onda alta




Acompanhei

a lua

ao coração de uma nuvem escura,

bebi vinho e adormeci




Quando regressei à terra natal

a casa paterna

já não existia nem a voz de minha mãe




O céu

pertence-me,

a terra

pertence-me




como sou rico!




Um mendicante

acordou sobre a margem de um regato

um sedento

acordou sobre um tesouro




 (Un lupo in agguato, um lobo ao ataque - tradução do italiano de Mário Rui de Oliveira;  tradução do persa de Ricardo Zipoli)




(Ilustração: Alfred de Dreux - fidelité)


segunda-feira, 25 de novembro de 2013

A CASA DO INCESTO, de Anaïs Nin








Mas o medo da loucura, Jeanne, só o medo da loucura nos levará a ultrapassar as fronteiras invioláveis da nossa solidão. O medo da loucura destruirá os muros da nossa casa secreta e projetar-nos-á no mundo à procura de contactos ardentes.

Os mundos autoconstruídos e alimentados em si próprios estão cheios de fantasmas e de monstros.

Conheço apenas o medo, é verdade, tanto medo que me sufoca, que me deixa a boca aberta mas sem fôlego, como alguém a quem falta o ar; ou noutras alturas, deixo de ouvir e fico subitamente surda para o mundo. Bato os pés e não ouço nada. Grito e não percebo nem mesmo um pouco do meu grito. E também às vezes, quando estou deitada o medo volta a assaltar-me, o terror profundo do silêncio e do que poderá sair desse silêncio para me atingir e bata nas paredes das minhas têmporas, um grande, sufocante pavor. Eu então bato nas paredes, no chão, para acabar com o silêncio. Bato, canto, assobio com persistência até mandar o medo embora.

Sempre que me sento em frente de um espelho troço de mim própria. Escovo o cabelo. Vejo dois olhos, duas longas tranças, dois pés. Olho-os como se fossem dados num copo, à espera de que os sacuda, para que ao saírem se tornem EU.

Não sei dizer como todas essas peças separadas conseguem ser EU. Eu não existo. Não sou um corpo. Quando estendo a mão a alguém, sinto que a outra pessoa está longe, como se estivesse noutro quarto, e que a minha mão também lá está. E quando me assoo receio que o meu nariz fique no lenço.

Voz-melro cantante. Sombra da morte correndo atrás de cada palavra para as fazer secar antes que as acabe de dizer.

Quando o meu irmão se sentou ao sol e a sombra do seu rosto ficou projetada nas costas da cadeira, beijei a sua sombra. Beijei a sua sombra e esse beijo não o tocou, beijo perdido no ar, fundido na sombra.

O amor de um pelo outro é como uma extensa sombra que se beija, sem qualquer esperança de realidade.



(A casa do incesto - tradução de Isabel Hub Faria)




(Ilustração: Heriberto Cogollo)









sexta-feira, 22 de novembro de 2013

MÃE NEGRA, de Aguinaldo Fonseca






A mãe negra embala o filho.

Canta a remota canção

Que seus avós já cantavam

Em noites sem madrugada.

Canta, canta para o céu

Tão estrelado e festivo.

É para o céu que ela canta,

Que o céu

Às vezes também é negro.

No céu

Tão estrelado e festivo

Não há branco, não há preto,

Não há vermelho e amarelo.

— Todos são anjos e santos

Guardados por mãos divinas.

A mãe negra não tem casa

Nem carinhos de ninguém...

A mãe negra é triste, triste,

E tem um filho nos braços...

Mas olha o céu estrelado

E de repente sorri.

Parece-lhe que cada estrela

É uma mão acenando

Com simpatia e saudade...



(Poetas africanos contemporáneos, org. Fayada Jamis, Virgilio Piñera, Armando Álvarez Bravo, Manuel Cabrera y David Fernándes)



 (Ilustração: Elisha Ongere - my baby)




terça-feira, 19 de novembro de 2013

MÉNAGE À TROIS, de Tristan Bernard






Todo mundo conhece aquela fábula de La Fontaine, em que um ancião em seu leito de morte aconselha aos seus familiares que se mantenham unidos, se quiserem progredir na vida. E a quem melhor poder-se-ia dirigir essa recomendação do que a dois irmãos siameses, os quais, enquanto se acharem unidos, poderiam ganhar até cento e cinquenta francos em um dia, ao passo que, se se separarem, ganhariam apenas três francos diários, subscritando envelopes? 

Eu conheci em Londres dois destes gêmeos ligados, chamados comumente de irmãos siameses e denominados cientificamente de xifópagos. 

EduardoEdmundo possuíam uma fortuna bastante considerável, que os dispensava de exibir-se como fenômenos. Eduardo havia nascido em Manchester, há vinte e cinco anos. Edmundo havia nascido igualmente em Manchester, pela mesma época. Na adolescência se pareciam de uma forma extraordinária. A ponto de várias pessoas, confundindo a sua direita com a sua esquerda, não conseguirem distinguir um do outro. 

No entanto, manifestaram-se neles, com a idade, diferenças morais de grande profundidade. Eduardo tinha gostos serenos e amor aos estudos; Edmundo, instintos plebeus. Esse ultimo só se divertia na companhia dos devassos, dos vadios, dos beberrões. O desventurado Eduardo, com seu livro de estudo na mão, via-se na contingência de seguir Edmundo pelas tabernas e bordéis. E quando voltavam, com o rosto vermelho de vergonha, via-se forçado a ziguezaguear com ele, para não romper a membrana. 

Eduardo chegou a ser um famoso erudito. Mas não pode ser por muito tempo convidado para os banquetes das corporações cientificas, onde o famigerado Edmundo, mal se servia da sopa, começava logo a contar histórias obscenas que as pessoas decentes reservam de ordinário para depois do café. 

O ano passado, Eduardo pediu em casamento a mão de uma bela e rica donzela, sendo a cerimônia celebrada com grande pompa e circunstancia. Não houve alternativa senão convidar Edmundo que, alias, se portou admiravelmente bem durante todo o ato. Parecia-lhe que sua cunhada lhe inspirava certo respeito. No cortejo nupcial, a mulher de Eduardo, este e Edmundo, iam, os três, na frente, em meio à admiração geral. Na noite de núpcias, Edmundo portou-se, ainda, com grande correção. Dormira primeiro e, na manhã seguinte, fingiu acordar-se mais tarde do que os outros. Durante a lua-de-mel do seu irmão, entregou-se menos à bebida, cuidou da sua linguagem e vestiu-se com decência, posto que tivesse de sair com uma senhora. 

A jovem - já disse, por acaso, que ela se chamava Cecília? -, a jovem exercia sobre Edmundo uma grande influência. Ao cabo de algum tempo, aconteceu o que acontece toda vez que um solteiro penetra em um lar. Estabeleceram-se relações entre Cecília e o malvado Edmundo. 

Durante seis meses, Eduardo não desconfiou de dada. Tudo, no entanto, acabou por saber-se. Eduardo encontrou cartas em uma gaveta mal fechada, e apurou de maneira irrespondível que sua mulher e seu irmão traíam-no diariamente. 

Que fazer numa situação como esta? Bater-se em duelo com Edmundo não seria permitido pelos costumes ingleses. Temia também os comentários irônicos das testemunhas. 

O duelo a pistola, a dez metros de distância, não seria nada fácil, sucedendo o mesmo com o duelo a espada, tendo em vista a habitual proibição do corpo a corpo. 

Além disso, que aconteceria se matasse o seu irmão? Poderia continuar a existência comum com sua mulher? E depois, sempre aquele cadáver entre ambos!... 

Resolveu chamar Cecília e disse a ela: 

- A partir de hoje, não profanarás mais nosso domicilio conjugal. Vai-te embora! 

- Está bem! - concordou ela. 

- Está bem! - secundou Edmundo. - Mas eu a acompanho. 

O marido viu-se obrigado a segui-los. 

Edmundo instalou Cecília em um primeiro andar muito confortável. E como tudo acaba por se regularizar entre xifópagos, viveram lá os três, muito felizes. 



(Ilustração: autor desconhecido - Chang and Eng Bunker - c. 1836)


sábado, 16 de novembro de 2013

HERANÇA DE MORTE, de Amélia Dalomba













Lírios em mãos de carrascos
Pombal à porta de ladrões
Filho de mulher à boca do lixo
Feridas gangrenadas sobre pontes quebradas
Assim construímos África nos cursos de herança e morte
Quando a crosta romper os beiços da terra
O vento ditará a sentença aos deserdados
Um feixe de luz constante na paginação da história
Cada ser um dever e um direito
Na voz ferida todos os abismos deglutidos pela esperança




(Todos os Sonhos - Antologia da Poesia Moderna Angolana. Org. Adriano Botelho de Vasconcelos)




(Ilustração: Ndeveni - Maasai Moran and Cows at Manyatta)






quarta-feira, 13 de novembro de 2013

APÓLOGO BRASILEIRO SEM VÉU DE ALEGORIA, de Alcântara Machado










O trenzinho recebeu em Maguari o pessoal do matadouro e tocou para Belém. Já era noite. Só se sentia o cheiro doce do sangue. As manchas na roupa dos passageiros ninguém via porque não havia luz. De vez em quando passava uma fagulha que a chaminé da locomotiva botava. E os vagões no escuro. 

Trem misterioso. Noite fora noite dentro. O chefe vinha recolher os bilhetes de cigarro na boca. Chegava a passagem bem perto da ponta acesa e dava uma chupada para fazer mais luz. Via mal e mal a data e ia guardando no bolso. Havia sempre uns que gritavam: 

- Vá pisar no inferno! 

Ele pedia perdão (ou não pedia) e continuava seu caminho. Os vagões sacolejando. 

O trenzinho seguia danado para Belém porque o maquinista não tinha jantado até aquela hora. Os que não dormiam aproveitando a escuridão conversavam e até gesticulavam por força do hábito brasileiro. Ou então cantavam, assobiavam. Só as mulheres se encolhiam com medo de algum desrespeito. 

Noite sem lua nem nada. Os fósforos é que alumiavam um instante as caras cansadas e a pretidão feia caía de novo. Ninguém estranhava. Era assim mesmo todos os dias. O pessoal do matadouro já estava acostumado. Parecia trem de carga o trem de Maguari. 

Porém aconteceu que no dia 6 de maio viajava no penúltimo banco do lado direito do segundo vagão um cego de óculos azuis. Cego baiano das margens do Verde de Baixo. Flautista de profissão dera um concerto em Bragança. Parara em Maguari. Voltava para Belém com setenta e quatrocentos no bolso. O taioca guia dele só dava uma folga no bocejo para cuspir. 

Baiano velho estava contente. Primeiro deu uma cotovelada no secretário e puxou conversa. Puxou à toa porque não veio nada. Então principiou a assobiar. Assobiou uma valsa (dessas que vão subindo, vão subindo e depois descendo, vêm descendo), uma polca, um pedaço do Trovador. Ficou quieto uns tempos. De repente deu uma coisa nele. Perguntou para o rapaz: 

- O jornal não dá nada sobre a sucessão presidencial? 

O rapaz respondeu: 

- Não sei: nós estamos no escuro. 

- No escuro? 

- É. 

Ficou matutando calado. Claríssimo que não compreendia bem. Perguntou de novo: 

- Não tem luz? 

Bocejo. 

- Não tem. 

Cuspada. 

Matutou mais um pouco. Perguntou de novo: 

- O vagão está no escuro? 

- Está. 

De tanta indignação bateu com o porrete no soalho. E principiou a grita dele assim: 

- Não pode ser! Estrada relaxada! Que é que faz que não acende? Não se pode viver sem luz! A luz é necessária! A luz é o maior dom da natureza! Luz! Luz! Luz! 

E a luz não foi feita. Continuou berrando: 

- Luz! Luz! Luz! 

Só a escuridão respondia. 

Baiano velho estava fulo. Urrava. Vozes perguntaram dentro da noite: 

- Que é que há? 

Baiano velho trovejou: 

- Não tem luz! 

Vozes concordaram: 

- Pois não tem mesmo. 

Foi preciso explicar que era um desaforo. Homem não é bicho. Viver nas trevas é cuspir no progresso da humanidade. Depois a gente tem a obrigação de reagir contra os exploradores do povo. No preço da passagem está incluída a luz. O governo não toma providências? Não toma? A turba ignara fará valer seus direitos sem ele. Contra ele se necessário. Brasileiro é bom, é amigo da paz, é tudo quanto quiserem: mas bobo não. Chega um dia e a coisa pega fogo. 

Todos gritavam discutindo com calor e palavrões. Um mulato propôs que se matasse o chefe do trem. Mas João Virgulino lembrou: 

- Ele é pobre como a gente. 

Outro sugeriu uma grande passeata em Belém com banda de música e discursos. 

- Foguetes também? 

- Foguetes também. 

- Be-le-za! 

Mas João Virgulino observou: 

- Isso custa dinheiro. 

- Que é que se vai fazer então? 

Ninguém sabia. Isto é: João Virgulino sabia. Magarefe-chefe do matadouro de Maguari, tirou a faca da cinta e começou a esquartejar o banco de palhinha. Com todas as regras do ofício. Cortou um pedaço, jogou pela janela e disse: 

- Dois quilos de lombo! 

Cortou outro e disse: 

- Quilo e meio de toicinho! 

Todos os passageiros magarefes e auxiliares imitaram o chefe. Os instintos carniceiros se satisfizeram plenamente. A indignação virou alegria. Era cortar e jogar pelas janelas. Parecia um serviço organizado. Ordens partiam de todos os lados. Com piadas, risadas, gargalhadas. 

- Quantas reses, Zé Bento? 

- Eu estou na quarta, Zé Bento! 

Baiano velho quando percebeu a história pulou de contente. O chefe do trem correu quase que chorando. 

- Que é isso? Que é isso? É por causa da luz? 

Baiano velho respondeu: 

- É por causa das trevas! 

O chefe do trem suplicava: 

- Calma! Calma! Eu arranjo umas velinhas. 

João Virgulino percorria os vagões apalpando os bancos. 

- Aqui ainda tem uns três quilos de coxão mole! 

O chefe do trem foi para o cubículo dele e se fechou por dentro rezando. Belém já estava perto. Dos bancos só restava a armação de ferro. Os passageiros de pé contavam façanhas. Baiano velho tocava a marcha de sua lavra chamada Às armas cidadãos! O taioquinha embrulhava no jornal a faca surrupiada na confusão. 

Tocando a sineta o trem de Maguari fungou na estação de Belém. Em dois tempos os vagões se esvaziaram. O último a sair foi o chefe muito pálido. 

Belém vibrou com a história. Os jornais afixaram cartazes. Era assim o titulo de um: Os passageiros no trem de Maguari amotinaram-se jogando os assentos ao leito da estrada. Mas foi substituído porque se prestava a interpretações que feriam de frente o decoro das famílias. Diante do Teatro da Paz houve um conflito sangrento entre populares. 

Dada a queixa à polícia foi iniciado o inquérito para apurar as responsabilidades. Perante grande número de advogados, representantes da imprensa, curiosos e pessoas gradas, o delegado ouviu vários passageiros. Todos se mantiveram na negativa menos um que se declarou protestante e trazia um exemplar da Bíblia no bolso. O delegado perguntou: 

- Qual a causa verdadeira do motim? 

O homem respondeu: 

- A causa verdadeira do motim foi a falta de luz nos vagões. 

O delegado olhou firme nos olhos do passageiro e continuou: 

- Quem encabeçou o movimento? 

Em meio da ansiosa expectativa dos presentes o homem revelou: 

- Quem encabeçou o movimento foi um cego! 

Quis jurar sobre a Bíblia mas foi imediatamente recolhido ao xadrez porque com a autoridade não se brinca.




(Ilustração: William-Adolphe Bouguereau - Homer and his guide)















domingo, 10 de novembro de 2013

A NOITE DE PAVESE, de Amadeu Baptista







Raras vezes me franquearam a porta

e me deixaram entrar. A febre

sitia-me a alma e quem me vê

assusta-se do aspecto do meu rosto,

esta barba por fazer onde um rouxinol

se esconde. E mais ainda assusta

a minha altura, este lugar de vertigem

e palavras poderosas, a presença

de ilimitados segredos que ninguém quer conhecer,

o estremecimento que corre nos meus ombros.

Embora nada peça, sabem que sou um pedinte.

E quando entro nas casas os meus gestos

afeiçoam-se a alguma coisa enigmática

que contorna o pavor e o entrega

por não se saber que espécie de vida ou de morte

vem comigo. Obviamente, eu abençoo

quem me deixa entrar, dou a entender

que alguma coisa brilha nas minhas mãos

e posso matar a fome com uma ou outra palavra

próxima do amor, um dedo nos cabelos

de quem me recebe. Subi as escadas que vão dar a esta casa

em silêncio e em silêncio aceitei que me aguardassem

com as inefáveis sombras que vejo nos outros

e tento decifrar para meu contentamento.

Mandaram-me sentar e deram-me de beber.

Esse álcool reconfortou-me a alma.

E a minha gratidão expressa-se deste modo, limpo

e nítido, observando a mulher nesse sem fim

das coisas, onde todos os mistérios avançam

para uma explicação que a qualquer momento

pode irromper do espírito como uma explosão.

Olho-te nos olhos e recebo as duas moedas

que me ofereces, o teu rosto é-me familiar

se recuar à infância e subitamente perceber

que também pertenci ao exercício desta árvore

que nesta sala se levanta. Em frente,

na fotografia que o meu olhar alcança

porque me alcança o olhar que dela se desprende,

inscreve-se o enigma que me fez aqui chegar,

mais que um rumor ou um fio ténue

com o nome de todas as coisas inesperadas

que me aconteceram na vida, sempre

que me franquearam a porta e me deixaram entrar.

Agora, com a memória de ter estado em tua casa

e ter recebido a graça de alguma atenção,

eu, que sou pedinte embora nada peça,

entrego-te este sulco da desordem

sobre a página em branco e agradeço-te

com o conhecimento de um outro mundo

ainda mais inexplicável.

Não tendo havido despedida, sabe que permaneço

e na encruzilhada das dores que me couberam viver

não esquecerei o teu nome no dia em que também tiver partido

e mais nenhuma luz houver além daquela

que ilumina o teu rosto na solidão da noite.

Os anjos esperam-me. Não me é possível demorar.

Que me seja a alba a tua tolerância.




(Ilustração: Guy Baron - l'attente)

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

SYLVA SYLVARUM, de August Strindberg







Atingido meio caminho na minha vida, sento-me a descansar e a refletir.

Alcancei tudo o que audaciosamente desejei e sonhei. Carregado de vergonha e honra, alegrias e sofrimento, pergunto: E depois?


Tudo se vai repetindo numa desesperante monotonia, tudo é idêntico. Disseram os Antigos que o Universo já não possui segredos, encontramos a palavra de todos os enigmas, resolvemos todos os problemas. Com um espectroscópio vimos que o Sol tem falta de oxigênio, não impedindo que arda tão bem como o antimônio no cloro ou o cobre no enxofre.


Desenhamos os canais de Marte que tão desagradavelmente recordam os desenhos de Widmannestetten nos meteoritos e, no entanto, só há bem pouco tempo sabemos ao certo como é o aspecto interior de África e nada conhecemos de Bornéu ou dos oceanos polares.


Uma geração que devia ter tido a coragem de suprimir Deus, demolir o Estado, a Igreja, a sociedade e os costumes, ainda se vergou à ciência em que devia reinar a liberdade mas cuja palavra de ordem foi acreditar na autoridade ou morrer! Ainda não foi erigida qualquer coluna da Bastilha no local de uma antiga Sorbonne. A cruz ainda domina o Panteão e a cúpula o Instituto.

Não há nada a fazer neste mundo. Sinto-me inútil e resolvido a desaparecer.
Já a lâmpada de espírito-de-vinho está acesa debaixo da retorta, já amarelo como ouro está o ferrocianeto de potássio que cheira como o cardo-leiteiro quando quente, destilado do sangue e do ferro, prestes a receber o ácido sulfúrico que oferece a morte quando concentrado e cria a vida por fermentação quando diluído. Desta vez será concentrado para provocar a morte. - Que diferença, afinal? E que soberba contradição!



O cianogênio, o gerador de azul nascido do sal amarelo, começa a desenvolver-se na mais inocente de todas as combinações que o carvão puro faz com o indiferente azoto, uma terrível aliança que não tem igual e forçou a ciência a confessar ignorância perante a natureza deste milagre.


Os vapores saem do recipiente e atingem-me a garganta como a difteria ou os venenos de cadáver não oxigenados. Os músculos do braço começam a paralisar-se e sinto dores agudas na espinal-medula.


Interrompo a operação quando o cheiro a amêndoas amargas se liberta. Sem saber por quê, parece-me que vejo uma amendoeira em flor numa álea de jardim e oiço uma voz de mulher velha que diz ó criança, não acredites nisso!
Não voltei a acreditar, portanto, que o segredo do Universo esteja desvendado e saí, umas vezes só, outras acompanhado, para refletir na grande desordem onde acabei por descobrir uma coerência infinita.



Este é o livro da grande desordem e coerência infinita.


Eis o meu Universo, como o criei e a mim se revelou:


Se quiseres seguir-me, peregrino, transeunte, começarás a respirar mais livremente. Porque no meu Universo reina a desordem e na desordem é que existe a liberdade.








(Inferno - tradução de Aníbal Fernandes)



(Ilustração: Hugo Morbelli - ya sin chance)



segunda-feira, 4 de novembro de 2013

PRIMEIRO AMOR, de Adília Lopes









Gostava muito dele

mas nunca lhe disse isso

porque a minha criada tinha-me avisado

se gostar de um rapaz

nunca lhe diga que gosta dele

se diz

ele faz pouco de si para sempre

os rapazes são maus

eu não era bela

nem sabia quem tinha pintado Os pestíferos de Jaffa

resolvi assim escrever-lhe cartas anónimas

escrevia o rascunho num caderno pautado

não sei hoje o que escrevia

mas sei que nunca escrevi

gosto muito de ti

e depois pedia a uma rapariga muito bonita

que passasse as cartas a limpo

eu acreditava que quem tinha uns cabelos

assim loiros e a pele assim fina

devia ter uma letra muito melhor do que a minha

agora que conto isto

vejo que deixo muitas coisas de fora

por exemplo que o meu primeiro amor

não foi este mas o Paulo

o irmão da rapariga bonita




(Ilustração: Reuben Negron - the embrace VII)