domingo, 10 de novembro de 2013

A NOITE DE PAVESE, de Amadeu Baptista








Raras vezes me franquearam a porta  
e me deixaram entrar. A febre  
sitia-me a alma e quem me vê  
assusta-se do aspecto do meu rosto,  
esta barba por fazer onde um rouxinol  
se esconde. E mais ainda assusta  
a minha altura, este lugar de vertigem  
e palavras poderosas, a presença  
de ilimitados segredos que ninguém quer conhecer,  
o estremecimento que corre nos meus ombros.  
Embora nada peça, sabem que sou um pedinte.  
E quando entro nas casas os meus gestos  
afeiçoam-se a alguma coisa enigmática  
que contorna o pavor e o entrega  
por não se saber que espécie de vida ou de morte  
vem comigo. Obviamente, eu abençoo  
quem me deixa entrar, dou a entender  
que alguma coisa brilha nas minhas mãos  
e posso matar a fome com uma ou outra palavra  
próxima do amor, um dedo nos cabelos  
de quem me recebe. Subi as escadas que vão dar a esta casa  
em silêncio e em silêncio aceitei que me aguardassem  
com as inefáveis sombras que vejo nos outros  
e tento decifrar para meu contentamento.  
Mandaram-me sentar e deram-me de beber.  
Esse álcool reconfortou-me a alma.  
E a minha gratidão expressa-se deste modo, limpo  
e nítido, observando a mulher nesse sem fim  
das coisas, onde todos os mistérios avançam  
para uma explicação que a qualquer momento  
pode irromper do espírito como uma explosão.  
Olho-te nos olhos e recebo as duas moedas  
que me ofereces, o teu rosto é-me familiar  
se recuar à infância e subitamente perceber  
que também pertenci ao exercício desta árvore   
que nesta sala se levanta. Em frente,  
na fotografia que o meu olhar alcança  
porque me alcança o olhar que dela se desprende,  
inscreve-se o enigma que me fez aqui chegar,  
mais que um rumor ou um fio ténue  
com o nome de todas as coisas inesperadas  
que me aconteceram na vida, sempre  
que me franquearam a porta e me deixaram entrar.  
Agora, com a memória de ter estado em tua casa  
e ter recebido a graça de alguma atenção,  
eu, que sou pedinte embora nada peça,  
entrego-te este sulco da desordem  
sobre a página em branco e agradeço-te  
com o conhecimento de um outro mundo  
ainda mais inexplicável.  
Não tendo havido despedida, sabe que permaneço  
e na encruzilhada das dores que me couberam viver  
não esquecerei o teu nome no dia em que também tiver partido  
e mais nenhuma luz houver além daquela  
que ilumina o teu rosto na solidão da noite.  
Os anjos esperam-me. Não me é possível demorar.  
Que me seja a alba a tua tolerância. 



(Ilustração: Guy Baron - l'attente)

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