quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
DE GOIABAS E PRESIDENTES, de Carlos Bruni
Você já jogou bolinha de gude? E pião? Se respondeu afirmativamente, provavelmente é alguém nascido lá pela metade do século passado, quando as crianças ainda não sonhavam com os chamados anos dourados, mas sabiam o que era “morrer sapateiro” ou “zuncar o pião”.
Isso fazia parte de minhas aventuras no caminho diário para a escola, jornadas povoadas de heróis e assombrações, animais ferozes e vilões.
Ah, eles existiam aqui mesmo, em São Paulo, quando a cidade começava a perder sua garoa. O rumo para a aventura era a centenária rua Siqueira Bueno, no Belenzinho, trilha explorada a cada dia no caminho para o Grupo Escolar Queiróz Teles. Ela ainda existe, é claro, mas não é mais a mesma. O asfalto, lojas de revenda de automóveis e até um hospital apareceram como invasores de um terreno que tinha seus donos: a molecada.
Era calçada com paralelepípedos (ou macacos, como eram chamados) que chegavam até o quarteirão de minha casa. Da esquina em diante, era terra mesmo, o que tornava possível cavar as quatro casinhas do jogo de bolinhas, dando ensejo a memoráveis disputas depois das aulas.
Também ficava nessa faixa o Mercado Municipal da Quarta Parada, onde volta e meia entrávamos para roubar azeitonas da banca do “seu” Nicola.
Por ser arborizada, poetas daquela época talvez dissessem ser aquela uma rua perfumada. Eu, a bem dizer, não notava perfume algum, principalmente perto da vacaria dos húngaros, família que se estabelecera numa chácara na esquina da Tobias Barreto, criando vacas e vendendo leite devidamente “batizado”. O que se sentia ali por perto, evidentemente não era nenhum perfume, mas um poeta sempre é capaz de achar que bosta de vaca é uma fragrância. De bonito, mesmo, só as roupas daqueles imigrantes que faziam questão de preservar sua identidade cultural, ainda que mesclada com um pouco da malandragem brasileira. Ou teria vindo de terras magiares o costume de botar água no leite?
A rua Siqueira era uma subidona e lá no topo, antes da virada da rua da escola, havia uma chácara quase abandonada, com um velho casarão. Na cabeça da meninada o que valia mesmo era a imaginação e esta povoava com almas e fantasmas aquela antiga sede de fazenda, fincada de forma ainda imponente no meio de uma selva impenetrável. Nem mesmo o valentão da turma teve, algum dia, coragem de desvendar esse mistério. Ainda bem; teria acabado com o encanto morador em nossas mentes.
As goiabas, sim; eram reais e tentadoras. O velho caseiro que morava nos fundos desse terreno, as vendia para obter algum sustento. Nós, crianças, queríamos mesmo era provar de seu gosto e o fazíamos através de incursões furtivas, mas não tão profundas, naquele terreno proibido. Não tinha graça pedir ou comprá-las; perderia o espírito de aventura negociar as uvas de dezembro ou os caquis de março. Sempre soubéramos que o gosto da fruta roubada era bem mais saboroso.
Depois, a escola. As inesquecíveis aulas com dona Inês, gorda e bondosa como deveriam ser todas as professoras. E foi num desses dias, a caminho do Grupo Escolar, que encontrei colegas descendo a rua, alvoroçados: “Hoje não tem aula. O Getúlio morreu”.
O Getúlio morreu? Isso significava para nós, moleques, que o jogo de bola de gude começaria bem mais cedo e morreria “sapateiro” quem não corresse as quatro casinhas, ida e volta.
Fui para casa tirar o uniforme e encontrei minha mãe junto ao velho rádio Philco, ouvindo notícias do Catete. Na verdade, não era assunto que me interessasse, embora visse o retrato do “Velho”, como meu pai o chamava, por toda parte: na vendinha do “seu” Leon, na barbearia, na padaria. Também não dei importância às mulheres nos portões, em rodinhas, algumas disfarçando uma lágrima. Importante era pegar a caixinha de papelão com as esferas de vidro prontas para o desafio.
Bons tempos, grandes combates, mas as goiabeiras foram abatidas e o casarão, posto no chão. O mercado deu lugar a um banco. Não sobrou nem um metro quadrado de terra para se escavar os quatro buracos do jogo de bolinha de gude. Foram-se também os húngaros e suas vaquinhas, vencidos pelo progresso e pelas lojas de automóveis usados.
Goiabas, hoje em dia, só nas feiras e supermercados. Também não existem mais mulheres que chorem por causa de seu presidente, a não ser, talvez, no sentido figurado.
Mas aí já é outra história.
(Ilustração: Portinari - menino com estilingue)
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Carlos Bruni - De goiabas e presidentes
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
INSÔNIA, de Eliana Iglésias
Tão reduzido esse meu corpo
Para um tamanho de alma que atinge as nuvens
O excesso de vinho nesta noite quente
Torna-me insone, consciente
De meus desvarios
Sinto-me culpada, nem ao menos pequei
Culpa genuína, das boas, culpa que brota do nada
O pecador não duvida
Ajoelha-se e confessa
em nome da redenção, pela interveniência de um sacerdote
A culpa é diferente, tem linha direta com os céus
Melhor a culpa, que o pecado
Pois este, é datado, a culpa imemorial
relativa, sem local certo, difusa, saborosa
Melhor a culpa, disparado
Ainda mais, quando não se tem noção do que é clamar por anjos
O zumbido do ventilador de agora, espanta moscas
é pecado, o zumbido
porque risca o silêncio da noite
Com seu rangido enjoado
Os ventiladores de antes, eram para as moscas, espantá-las
agora é como antes, cheio de moscas, posso senti-las
todas elas, as moscas
Moscas dos ventiladores da minha infância
Vocês já nem existem mais
ainda posso vê-las, senti-las
Lá estão, todas vocês, cristalizadas no tempo
Num sítio longínquo, eu nunca perdi de vista
O sítio da minha infância
Nem preciso levar a mão ao peito pra sentir o coração bater celerado,
Sei lá, se pelo vinho, a embriaguez da noite
Deixa-me dormir, coração!
O luminoso da Fuji entra com tudo, pela fresta da janela, é sua vez
Verde-vermelho, verde-vermelho
Há quanto tempo não reparava nessas coisas, as cores
Verde-vermelho, verde-vermelho
Nem que há um hospital junto de casa
E que é desrespeitoso, um luminoso, junto a um hospital
Mas, o que interessa essa percepção
O que interessa se os doentes dormem,
ou necessitam barbitúricos, como eu
Querer saber das dores cancerígenas
Se estas suportam o verde-vermelho do maldito Fuji, luminoso
Será que dores suportam cores?
Verde-vermelhas, verde-vermelhas? Verde-insistente, verde-doente
As cores combatem dores?
Serão bálsamos? Inócuas? instrumentos de tortura?
Escrevo no escuro, sem cores, prefiro
Sem ser poeta, sem sentir dores, prefiro
Sem moscas, cem moscas, refiro-me
Sem retorno, cem retornos, reviro-me
Vejo no escuro, alegrias. O que digo!
Sinto no escuro, alegrias. Mentira!
Por que não se vê alegria?
O que deve ser visto ou sentido? Quem é que determina?
O que faz o cego com sua escuridão?
Alegria é prerrogativa das grandes luzes?
O que faz o cego que tudo sente, nada vê, quem determina?
Deixa-me dormir, coração
Sinto-me só
Não me sinto só
Só, um pouco,
Masturbo-me. Perturba-me ainda essa palavra,
Não é palavra bonita, mas de alguma valia
Não muito,
Só, um pouco
Noite de vinho tinto, que tinge a noite de rubro
Rubra a noite, dá a impressão de quente
a camisola é alva, nem por isso fresca. Não é 100% algodão, por isso mesmo, quente
O vinho esquenta o corpo, tinge a noite de rubro, a camisola de sonhos, inventa a masturbação
É hora de relaxar, orar, levitar
Nada é factível, quando o verbo acaba em ar
Quantas vezes mais perguntar
Quantos carneiros contar
Se a noite é quente, o vinho é rubro, o algodão é misto e o nylon câncer
se orar é ópio, masturbar imperioso, a lógica o que é? o luminoso da Fuji? verde – vermelho? Verde – vermelho? Eu não sei
Só sei que
Uma boca qualquer, faz falta
outra mão, não esta que masturba, faz falta
outro braço, que não este, e um abraço seja de quem for, faz falta
Um trago a mais, com certeza, há de fazer muita falta
Hmm, cá estou eu
Apenas uma garrafa d’água, ao meu lado direito
Ao esquerdo, um criado-mudo e
a respiração ofegante de minha velha mãe.
(Ilustração: Achille Deveria)
sábado, 19 de dezembro de 2009
SAUDADE DE CERTO INSTANTE, de Marcel Proust
O sol se havia posto. A natureza recomeçava a reinar sobre o Bois, de onde se alara a ideia de que era o Jardim Elísio da Mulher; acima do moinho falso, o verdadeiro céu era cinzento; o vento enrugava o Grande Lago em pequeninas vagas, como um lago; grandes pássaros cruzavam rapidamente o Bosque, como a um bosque, e soltando gritos agudos, pousavam um após outro nos grandes carvalhos que, sob a sua coroa druídica e com uma majestade dodônea, pareciam proclamar o vazio inumano da floresta desapropriada, e me ajudavam a melhor compreender a contradição que existe em procurar na realidade os quadros da memória, aos quais faltaria sempre o encanto que lhes vem da própria memória e de não serem percebidos pelos sentidos. A realidade que eu conhecera não mais existia. Bastava que a senhora Swann não chegasse exatamente igual e no mesmo momento que antes, para que a avenida fosse outra. Os lugares que conhecemos não pertencem tampouco ao mundo do espaço, onde os situamos para maior facilidade. Não eram mais que uma delgada fatia no meio de impressões contíguas que formavam a nossa vida de então; a recordação de certa imagem não é senão saudade de certo instante; e as casas, os caminhos, as avenidas são fugitivos, infelizmente, como os anos.
(Em Busca do Tempo Perdido – No Caminho de Swann, tradução de Mário Quintana)
(Ilustração: Camille Pissarro)
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Marcel Proust - Saudade de certo instante
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
COBERTA, de Giselda Penteado Di Guglielmo
“Why needst thou have more
covering than a man?”
John Donne – Going to bed
Não preciso de atavios,
de jóias, de elogios.
Não preciso do sol,
da lua, do canto da cotovia.
Não preciso das sedas
nem do perfume da rosa.
Não preciso de nada –
só de minha nudez
e do teu desejo: teu corpo
é a coberta que almejo.
(Ilustração: Adrian Gottlieb - Heathers reverie)
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terça-feira, 15 de dezembro de 2009
ESSES DIAS SUPORTÁVEIS E SUBMISSOS, de Hermann Hesse
O dia passara como normalmente passam os dias: eu o havia desperdiçado, dissipado suavemente, como minha primitiva e arredia maneira de ser; trabalhara algumas horas a compulsar velhos livros e sentira dores durante duas horas seguidas, como os velhos costumam sentir; engolira uns pós e me alegrara porque as dores se haviam deixado enganar; metera-me num banho quente e absorvera o agradável calor; recebera três vezes o correio e correra a vista pelas cartas e os impressos sem importância; fizera meus exercícios respiratórios, mas achara conveniente transferir para outro dia os exercícios mentais; dera um passeio de uma hora e vira, recortados contra o céu, delicadas e belas amostras de cirros preciosos. Agradável, assim como ler os livros antigos ou demorar-me no banho quente, mas, afinal de contas, não fora a bem dizer um dia encantador, nem brilhante, nem feliz, nem plácido, mas tão somente um desses dias como desde algum tempo costumam ser os normais de minha vida: moderadamente agradáveis, totalmente suportáveis, toleráveis, tépidos dias de um velho e descontente senhor, dias sem dores particulares, sem singulares preocupações, sem aflições especiais, sem desesperos, dias em que até mesmo a pergunta, de que se não seria o momento de seguir o exemplo de Adalbert Stifter e degolar-me com a navalha de barbear, era meditada tranquilamente sem emoção, sem qualquer sentimento de angústia.
Quem havia passado pelos outros dias, aqueles terríveis de ataque de gota, das dores malignas por detrás dos globos oculares, transformando a alegria de ver e de ouvir num tormento alucinante sob os efeitos da enlouquecedora enxaqueca, ou aqueles dias de morte da alma, perversos de vazio interior e desespero, nos quais em meio à terra destroçada e ressequida pelas sociedades anônimas, o mundo dos homens e a chamada cultura ri-se de nós a cada passo com seu enganoso e vulgar esplendor de feira e nos atormenta com uma persistência emética, e quando tudo está concentrado e levado ao clímax do insuportável dentro de nosso próprio ser enfermo, - quem já havia passado por aqueles dias infernais mostrava-se bem contente com estes de agora, normais e vulgares, em que se sentava agradecido junto à estufa a ler os jornais, verificando satisfeito que não estalara nenhuma nova guerra, que não surgira nenhuma nova ditadura, que não se descobrira nenhum nauseante escândalo no mundo da política e das finanças, e podia planger agradecido as cordas de sua empoeirada lira para entoar um salmo de graças em tom moderado, suportavelmente alegre, quase regozijante, com o qual aborrecerá seu calado e tranquilo semideus, um tanto anestesiado pelo brometo, e no morno ar desse contente aborrecimento, dessa ausência de dor tão digna de nota, o semideus solitário e o semideus um tanto encanecido que cantava o salmo incolor pareciam gêmeos.
Muito se teria de dizer sobre esse contentamento e essa ausência de dor, sobre esses dias suportáveis e submissos, nos quais nem o sofrimento nem o prazer se manifestam, em que tudo apenas murmura e parece andar nas pontas dos pés. Mas o pior de tudo é que tal contentamento é exatamente o que não posso suportar. Após um curto instante parece-me odioso e repugnante. Então desesperado, tenho de escapar a outras regiões, se possível a caminho do prazer, se não, a caminho da dor. Quando não encontro nem um nem outro e respiro a morna mediocridade dos dias chamados bons, sinto-me tão dolorido e miserável em minha alma infantil, que atiro a enferrujada lira do agradecimento à cara insatisfeita do sonolento deus, preferindo sentir em mim uma verdadeira dor infernal do que essa saudável temperatura de um quarto aquecido. Arde então em mim um selvagem anseio de sensações fortes, um ardor pela vida desregrada, baixa, normal e estéril, bem como um desejo louco de destruir algo, seja um armazém ou uma catedral, ou a mim mesmo, de cometer loucuras temerárias, de arrancar a cabeleira a alguns ídolos venerandos, de entregar a um casal de estudantes rebeldes os ansiados bilhetes de passagem para Hamburgo, de violar uma jovem ou de torcer o pescoço a algum defensor da ordem e da lei. Pois o que eu odiava mais profundamente e maldizia mais, era aquela satisfação, aquela saúde, aquela comodidade, esse otimismo bem cuidado dos cidadãos, essa educação adiposa e saudável do medíocre, do normal, do acomodado.
Nesse estado de espírito, portanto, havia atravessado mais um dia vulgar e tolerável, quando chegou a noite. Não o iria encerrar, entretanto da maneira normal e convincente a um homem um tanto enfermo que devia ir para a cama tentado por uma botija de água quente. Em vez disso, calcei os sapatos um tanto mal humorado, descontente e insatisfeito com o parco trabalho que fizera, e saí para as ruas escuras e nevoentas para beber no Elmo de Aço, o que de acordo com antiga convenção os homens chamavam de “um copinho de vinho”.
Assim desci eu os degraus de minha mansarda, essa escura escada dos estranhos à casa, essa escada inteiramente burguesa, encerada e limpa, de uma casa de respeito, de três famílias decentíssimas, em cujo sótão eu vivia. Não sei por que motivo, eu, o Lobo da Estepe, o sem pátria e solitário odiador do mundo burguês, sempre morei em verdadeiras casas burguesas, talvez por um velho sentimentalismo de minha parte. Não vivia nem em palácios nem em casas proletárias, mas precisamente naqueles ninhos da pequena burguesia, decentíssimos, cheios de tédio e cuidadosamente conservados, onde há sempre um cheiro de terebintina e sabão e conde todos se sobressaltam quando alguém deixa a porta bater com força ou entra com sapatos sujos de lama. O amor por essa atmosfera vinda, sem dúvida, de minha infância, e meu secreto anseio por algo assim como um lar sempre me leva desesperadamente por esses velhos e estúpidos caminhos. Além disso, agrada-me o contraste que apresenta a minha vida, esta minha vida solitária, sem amor, gasta e inteiramente desordenada, em ralação ao ambiente familiar e burguês. Agrada-me respirar na escada este cheiro de calma, de ordem, de limpeza, de decência e de domesticidade, o que, apesar de meu desprezo pela burguesia, tem sempre algo de comovente para mim, e me apraz também atravessar o umbral do meu quarto, em cujo interior tudo isso se acaba, onde entre os montões de livros aparecem pontas de cigarro e garrafas de vinho vazias, onde tudo está desordenado e negligente, e onde tudo, livros, manuscritos, pensamentos, está marcado e embebido pela miséria do solitário, pela problemática do ser humano, pelo anseio de dar um novo sentido a uma vida humana que já perde seu rumo.
(O Lobo da Estepe; tradução de Augusto de Souza)
(Ilustração: Walter Sickert - Lazarus)
domingo, 13 de dezembro de 2009
VARIAÇÃO, de Hermes Fontes
Pois que tudo acabou, mando-te agora
os passaportes dessa despedida:
puna pálida rosa ressequida,
uma sombra de flor, murcha c inodora.
E o teu retrato que se descolora como
se descolora a minha vida,
vestida de anjo, a receber na ermida
tua primeira comunhão outrora.
Mando-te as cartas e os cabelos; mando
uma luva, de que essa mão foi alma,
quando. . . e dizer que já nem eu sei quando!
Mando-te. E manda-me, afinal te digo,
manda-me o eterno sono, a eterna calma,
manda-me o coração que está contigo!
(Os Mais Belos Sonetos que o Amor Inspirou)
(Ilustração: Pierre Bonnard - the garden)
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
O MITO DA CAVERNA, de Platão
Sócrates – Agora imagina a maneira como segue o estado da nossa natureza relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens numa morada subterrânea, em forma de caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância, de pernas e pescoços acorrentados, de modo que não podem mexer-se nem ver senão o que está diante deles, pois as correntes os impedem de voltar a cabeça; a luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por detrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada ascendente. Imagina que ao longo dessa estrada está construído um pequeno muro, semelhante às divisórias que os apresentadores de títeres armam diante de si e por cima das quais exibem as suas maravilhas.
Glauco – Estou vendo.
Sócrates – Imagina agora, ao longo desse pequeno muro, homens que transportam objetos de toda espécie, que os transpõem: estatuetas de homens e animais, de pedra, madeira e toda espécie de matéria; naturalmente, entre esses transportadores, uns falam e outros seguem em silêncio.
Glauco - Um quadro estranho e estranhos prisioneiros.
Sócrates - Assemelham-se a nós. E, para começar, achas que, numa tal condição, eles tenham alguma vez visto, de si mesmos e de seus companheiros, mais do que as sombras projetadas pelo fogo na parede da caverna que lhes fica defronte?
Glauco - Como, se são obrigados a ficar de cabeça imóvel durante toda a vida?
Sócrates - E com as coisas que desfilam? Não se passa o mesmo?
Glauco - Sem dúvida.
Sócrates - Portanto, se pudessem se comunicar uns com os outros, não achas que tomariam por objetos reais as sombras que veriam?
Glauco - É bem possível.
Sócrates - E se a parede do fundo da prisão provocasse eco sempre que um dos transportadores falasse, não julgariam ouvir a sombra que passasse diante deles?
Glauco - Sim, por Zeus!
Sócrates - Dessa forma, tais homens não atribuirão realidade senão às sombras dos objetos fabricados?
Glauco - Assim terá de ser.
Sócrates - Considera agora o que lhes acontecerá, naturalmente, se forem libertados das suas cadeias e curados da sua ignorância. Que se liberte um desses prisioneiros, que seja ele obrigado a endireitar-se imediatamente, a voltar o pescoço, a caminhar, a erguer os olhos para a luz: ao fazer todos estes movimentos sofrerá, e o deslumbramento impedi-lo-á de distinguir os objetos de que antes via as sombras. Que achas que responderá se alguém lhe vier dizer que não viu até então senão fantasmas, mas que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, vê com mais justeza? Se, enfim, mostrando-lhe cada uma das coisas que passam, o obrigar, à força de perguntas, a dizer o que é? Não achas que ficará embaraçado e que as sombras que via outrora lhe parecerão mais verdadeiras do que os objetos que lhe mostram agora?
Glauco - Muito mais verdadeiras.
Sócrates - E se o forçarem a fixar a luz, os seus olhos não ficarão magoados? Não desviará ele a vista para voltar às coisas que pode fitar e não acreditará que estas são realmente mais distintas do que as que se lhe mostram?
Glauco - Com toda a certeza.
Sócrates - E se o arrancarem à força da sua caverna, o obrigarem a subir a encosta rude e escarpada e não o largarem antes de o terem arrastado até a luz do Sol, não sofrerá vivamente e não se queixará de tais violências? E, quando tiver chegado à luz, poderá, com os olhos ofuscados pelo seu brilho, distinguir uma só das coisas que ora denominamos verdadeiras?
Glauco - Não o conseguirá, pelo menos de início.
Sócrates - Terá, creio eu, necessidade de se habituar a ver os objetos da região superior. Começará por distinguir mais facilmente as sombras; em seguida, as imagens dos homens e dos outros objetos que se refletem nas águas; por último, os próprios objetos. Depois disso, poderá, enfrentando a claridade dos astros e da Lua, contemplar mais facilmente, durante a noite, os corpos celestes e o próprio céu do que, durante o dia, o Sol e sua luz.
Glauco - Sem dúvida.
Sócrates - Por fim, suponho eu, será o sol, e não as suas imagens refletidas nas águas ou em qualquer outra coisa, mas o próprio Sol, no seu verdadeiro lugar, que poderá ver e contemplar tal qual é.
Glauco - Necessariamente.
Sócrates - Depois disso, poderá concluir, a respeito do Sol, que é ele que faz as estações e os anos, que governa tudo no mundo visível e que, de certa maneira, é a causa de tudo o que ele via com os seus companheiros, na caverna.
Glauco - É evidente que chegará a essa conclusão.
Sócrates - Ora, lembrando-se de sua primeira morada, da sabedoria que aí se professa e daqueles que foram seus companheiros de cativeiro, não achas que se alegrará com a mudança e lamentará os que lá ficaram?
Glauco - Sim, com certeza, Sócrates.
Sócrates - E se então distribuíssem honras e louvores, se tivessem recompensas para aquele que se apercebesse, com o olhar mais vivo, da passagem das sombras, que melhor se recordasse das que costumavam chegar em primeiro ou em último lugar, ou virem juntas, e que por isso era o mais hábil em adivinhar a sua aparição, e que provocasse a inveja daqueles que, entre os prisioneiros, são venerados e poderosos? Ou então, como o herói de Homero, não preferirá mil vezes ser um simples lavrador, e sofrer tudo no mundo, a voltar às antigas ilusões e viver como vivia?
Glauco - Sou de tua opinião. Preferirá sofrer tudo a ter de viver dessa maneira.
Sócrates - Imagina ainda que esse homem volta à caverna e vai sentar-se no seu antigo lugar: Não ficará com os olhos cegos pelas trevas ao se afastar bruscamente da luz do Sol?
Glauco - Por certo que sim.
Sócrates - E se tiver de entrar de novo em competição com os prisioneiros que não se libertaram de suas correntes, para julgar essas sombras, estando ainda sua vista confusa e antes que seus olhos se tenham recomposto, pois habituar-se à escuridão exigirá um tempo bastante longo, não fará que os outros se riam à sua custa e digam que, tendo ido lá acima, voltou com a vista estragada, pelo que não vale a pena tentar subir até lá? E se alguém tentar libertar e conduzir para o alto, esse alguém não o mataria, se pudesse fazê-lo?
Glauco - Sem nenhuma dúvida.
Sócrates - Agora, meu caro Glauco, é preciso aplicar, ponto por ponto, esta imagem ao que dissemos atrás e comparar o mundo que nos cerca com a vida da prisão na caverna, e a luz do fogo que a ilumina com a força do Sol. Quanto à subida à região superior e à contemplação dos seus objetos, se a considerares como a ascensão da alma para a mansão inteligível, não te enganarás quanto à minha idéia, visto que também tu desejas conhecê-la. Só Deus sabe se ela é verdadeira. Quanto a mim, a minha opinião é esta: no mundo inteligível, a idéia do bem é a última a ser apreendida, e com dificuldade, mas não se pode apreendê-la sem concluir que ela é a causa de tudo o que de reto e belo existe em todas as coisas; no mundo visível, ela engendrou a luz; no mundo inteligível, é ela que é soberana e dispensa a verdade e a inteligência; e é preciso vê-la para se comportar com sabedoria na vida particular e na vida pública.
Glauco - Concordo com a tua opinião, até onde posso compreendê-la.
(A República)
(Ilustração: pinturas rupestres, foto, autoria não identificada)
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
FLUTUAÇÕES, de Flora Figueiredo
O sonho aprendeu a pairar bem alto,
lá onde o sobressalto nem sequer nasceu.
Namorou a trôpega ilusão,
até que trêfego e desajeitado,
desprendeu-se de seu reino idealizado,
veio pousar tamborilante em minha mão.
Assim, aquecido e aconchegado,
parece que se esqueceu de ir embora.
Na hora em que ressona distraído,
eu lhe pingo malemolências ao ouvido,
à sua inquietação eu me sujeito.
Eis que o sonho dorme agora aqui comigo,
seu corpo repousa no meu peito.
(Amor a céu aberto)
(Ilustração: Adam Miller - spill)
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segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
ASPARGOS EMPAPADOS DE ULTRAMAR E ROSA, de Marcel Proust
Àquela hora em que eu descia à cozinha para saber o que se preparava, o serviço já tinha começado, e Françoise, dominando as forças da natureza transformadas em auxiliares suas, como nessas representações mágicas em que os gigantes servem de cozinheiros, mexia o carvão, entregava ao vapor umas batatas para estufá-las e fazia o fogo levar ao devido ponto as maravilhas culinárias, preparadas primeiro em recipientes de cerâmica, desde as grandes tinas, marmitas, sopeiras e travessas, às terrinas para caça, às fôrmas para empadas e tigelinhas de creme, passando por uma coleção completa de caçarolas de todas as dimensões. Parava para olhar em cima da mesa, onde a criada de cozinha acabava de as debulhar, as ervilhas alinhadas e contadas como bolitas verdes em um jogo; mas todo o meu encantamento era para os aspargos empapados de ultramar e rosa, e cujo talo, delicadamente estriado de azul e malva, se degrada insensivelmente até a base – com irisações que não são da terra. Parecia-me que aqueles matizes celestiais traíam as deliciosas criaturas que se haviam divertido em metamorfosear-se em legumes e que, através do disfarce de sua carne comestível e firme, deixavam transparecer naquelas cores frescas de aurora, naqueles esboços de arco-íris, naquele desmaio de tardes azuis, a mesma preciosa essência que eu ainda reconhecia quando essas criaturas, durante a noite que se seguia a um jantar em que eu comera aspargos, divertiam-se em suas farsas poéticas e grosseiras como uma féerie de Shakespeare, em transformar meu vaso noturno em vaso de perfume.
A pobre Caridade de Giotto, como chamava Swann, encarregada por Françoise de os pelar, tinha-os perto de si em uma cesta, e conservava um ar doloroso, como se sentisse todos os males da terra; e as leves coroas azuis que cingiam os aspargos por cima de suas túnicas róseas estavam nitidamente desenhadas, estrela por estrela, como se desenham, no afresco, as flores que engrinaldam a fronte ou pontilham corbelha da Virtude de Pádua. Enquanto isso, Françoise rodava no espeto um daqueles frangos, como só ela os sabia assar, que haviam espalhado em Combray o odor de seus méritos e que, quando no-los servia, faziam com que predominasse a doçura em minha concepção especial de seu caráter, pois o aroma daquela carne que ela sabia tornar tão untuosa e tenra não eram para senão o próprio perfume de uma de suas virtudes.
Mas o dia em que desci à cozinha enquanto meu pai consultava o conselho de família a respeito do encontro com Legrandin era um daqueles em que a Caridade de Giotto, muito abalada por seu parto recente, não podia levantar-se. E Françoise, privada de ajudante, estava atrasada no serviço. Quando cheguei embaixo, estava ela na copa que dava para o galinheiro, matando um frango que – com sua resistência desesperada e muito natural, mas acompanhada dos gritos de “Excomungado!” “Excomungado!” que soltava Françoise, fora de si, enquanto procurava cortar-lhe o pescoço por baixo da orelha – punha a santa doçura e a unção de nossa criada um pouco menos em evidência do que haveria de fazê-lo no jantar do dia seguinte, com sua pele bordada a outro como uma casula e sua graxa preciosa a gotejar como de um cibório. Morto o animal, Françoise recolheu o sangue que ia escorrendo sem lhe afogar o rancor, e ainda em um acesso de cólera, olhado o cadáver de seu inimigo, disse uma última vez: “Excomungado!” Subi todo trêmulo; desejaria que despachassem Françoise imediatamente. Mas quem havia de me preparar almôndegas tão quentinhas, café tão cheiroso, e até mesmo... frangos como aquele?... E na verdade, esse covarde cálculo, todos já o haviam feito como eu. Pois tia Léonie sabia – o que eu ainda ignorava – que Françoise, capaz de dar a vida, sem uma queixa, por sua filha ou seus sobrinhos, era de singular dureza para com as outras criaturas. Apesar disso, minha tia a conservava, pois se lhe reconhecia a crueldade, apreciava seus serviços. Pouco a pouco me apercebi de que doçura, a compunção, as virtudes de Françoise ocultavam tragédias de copa, como nos revela a história que os reinados dos Reis e Rainhas representados de mãos postas nos vitrais das igrejas se assinalaram por incidentes sangrentos. Descobri que, fora do círculo de seus parentes, tanto mais compaixão lhe provocavam os humanos com suas desgraças quanto mais afastados viviam dela. As torrentes de lágrimas que vertia ao ler nos jornais os infortúnios de desconhecidos, logo se estancavam se podia imaginar de maneira um pouco precisa a pessoa que lhes servira de objeto. Em uma das noites seguintes ao parto da criada de cozinha, foi esta acometida de atrozes cólicas; mamãe ouviu-a gemer, ergueu-se e despertou Françoise que, insensível, declarou que alquilo tudo não passava de comédia e que a outra queria era “fazer de senhora”. O médico, que receava tais crises, marcara, em um livro de medicina que possuíamos, a página em que elas vêm descritas, recomendando que a consultassem para achar a indicação dos primeiros cuidados de emergência. Minha mãe mandou Françoise buscar o livro, dizendo-lhe que não deixasse cair a marca. Passou uma hora, e nada de Françoise; mamãe, indignada, julgou que ela tivesse ido deitar-se e me disse que fosse eu mesmo buscar o livro na biblioteca. Ali encontrei Françoise, que, tendo querido ver o que estava assinalado, lia, soluçando, a descrição clínica da crise, agora que se tratava de um enfermo-tipo, para ela desconhecido. A cada sintoma doloroso mencionado pelo autor, exclamava: “Nossa Senhora! Será possível que o bom Deus queira fazer sofrer dessa maneira uma infeliz criatura humana? Ai! a coitadinha!”
Mas depois que a chamei e ela voltou para junto da Caridade de Giotto, suas lágrimas logo deixaram de correr; não pôde descobrir nem aquela agradável sensação de piedade e enternecimento que tão bem conhecia e tantas vezes lhe havia proporcionado a leitura dos jornais, nem prazer algum do mesmo gênero, no aborrecimento e irritação de se haver levantado no meio da noite por causa da criada de cozinha, e, à vista dos mesmos sofrimentos cuja descrição a fizera chorar, não teve mais que resmungos de mau humor, e até cruéis sarcasmos, dizendo, quando julgou que tínhamos partido e não mais podíamos ouvi-la: “Era só ela não feito o que é preciso para acontecer uma coisa dessas! Se fez é porque gostou! E agora não venha com manhas! Arre! é preciso que um homem esteja mesmo muito por baixo para se engraçar com isto. É bem como diziam na terra de minha pobre mãe:
Quem suspira ante o rabo de um cão,
Só vê nele uma rosa em botão.
Se, quando o neto estava um pouco resfriado, ela partia à noite, mesmo doente, em vez de se deitar, para ver se ele não tinha necessidade de nada, fazendo quatro léguas a pé, antes do amanhecer, para não perder o dia de serviço, por outro lado esse mesmo amor aos seus e o desejo de assegurar a grandeza futura de sua casa traduzia-se, em sua política para com os outros criados, pela norma constante de jamais deixar um só deles implantar-se na casa de minha tia, da qual, com zeloso orgulho, não deixava ninguém aproximar-se, preferindo, até quando enferma, levantar-se para lhe dar sua água de Vichy, a permitir que a criada de cozinha entrasse no quarto de sua patroa. E como esse himenóptero observado por Fabre, a vespa fossadora, a qual para que os filhos, após sua morte, disponham de carne fresca, chama a anatomia em auxílio da crueldade e, capturando gorgulhos e aranhas, lhes fere com maravilhosa ciência e habilidade o centro nervoso de que depende o movimento das patas, mas não as outras funções da vida, a fim de que o inseto paralisado junto ao qual deposita os ovos forneça às larvas, quando eclodirem, uma caça dócil, inofensiva, incapaz de fuga ou resistência, mas nada deteriorada, assim Françoise achava, para cumprir seu constante empenho de tornar a casa inabitável a qualquer criado, artimanhas tão sábias e impiedosas que só muitos anos mais tarde viemos a saber que, se naquele verão havíamos comido aspargos quase todos os dias, era porque seu cheiro dava à pobre rapariga encarregada de os pelar crises de asma de tal violência que ela afinal não teve outro remédio senão ir-se embora.
(Em Busca do Tempo Perdido, No Caminho de Swan – tradução de Mário Quintana)
(Ilustração: Cèzanne - cherries)
sábado, 5 de dezembro de 2009
MINHA SENHORA DE MIM, de Maria Teresa Horta
Comigo me desavim
minha senhora
de mim
sem ser dor ou ser cansaço
nem o corpo que disfarço
Comigo me desavim
minha senhora
de mim
nunca dizendo comigo
o amigo nos meus braços
Comigo me desavim
minha senhora
de mim
recusando o que é desfeito
no interior do meu peito
(Minha Senhora de Mim)
(Ilustração: Alia E. El-Bermani)
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Maria Teresa Horta - Minha senhora de mim
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
LOLITA, de Luiz Cláudio Cerqueira
Lolita sorri com a insistência de Pingo para ela comer o ovo. “Estou de regime”, torna a repetir.
Foi uma delicada operação roubar os ovos na feira. Afinal de contas, um casal daqueles rondando qualquer barraca já dá na pinta, mesmo na hora da xepa.
Mas o plano era bom e deu resultado. Lolita distraiu o feirante com a sua conversa diferente, o que lhe deu grande prazer conforme comentou depois, porque ficou parecendo uma cena de novela. Enquanto isso Pingo, sorrateiro, colocava os ovos numa sacola, tomando todo cuidado para não quebrar nenhum.
Sucesso. Mas agora, na hora de comemorar, ela recusa com sorriso vago e sonhador!
Pingo não se amofina. Já conhece bem as esquisitices da companheira. Trata de cozinhar uns para si, pois só de olhar fica com água na boca.
Eles têm um bocado de coisas ali debaixo do viaduto, mas a preciosidade mesmo é o fogareiro Jacaré, ganho de um grupo de hippies que retornava do acampamento e que, passando por ali, se encantou com a conversa de Lolita.
O querosene não podia faltar, tinha que ter nem que fosse um pingo, daí o apelido “Pingo” que Lolita lhe botou, foi quando passaram a dormir juntos.
Que nome tinha antes? Sabe que nem se lembra! Osvaldo, Gabriel... Nossa Senhora !
Sente medo quando fica assim. Mas não adianta sentir medo, a culpada é a danada da fome.
É, e Lolita sempre foi Lolita, isso é verdade.
Descasca o ovo com todo cuidado. Pena que não tem sal. Mas um ovo cozido é um ovo cozido, com sal ou sem sal, é ou não é?
Lolita está do outro lado da rua, vendo novela na TV da loja. Pingo não gosta de ir ali, o gerente já o enxotou mais de uma vez.
Também no boteco da esquina não adianta pedir um pouco de sal, de modo que um ovo cozido é mesmo um ovo cozido e vamos em frente.
O ovo ficou bem firme! Pingo dá a primeira dentada com suavidade, os olhos fechados. Depois olha a superfície côncava, o anel branco envolvendo a massa doce e úmida, amarela como o ouro.
A clara tem o gosto e a consistência de um manjar, a gema é estranha mas é boa, muito boa.
Pingo sente vontade de chorar, suspira forte e come o resto do ovo numa só bocada.
Lolita retorna, dançando entre os carros. Pingo quer foder com ela, está linda, mas é dia, de dia não dá, tem que esperar até a noite.
Antigamente existiam terrenos baldios onde um mendigo podia ir com a companheira e trepar, ou tocar uma punheta se estivesse sozinho. Desde que tivesse bastante cuidado.
Hoje parece que não se tem para onde ir. No boteco da esquina Pingo se queimou porque pediu para ir ao banheiro e demorou demais.
Agora só é aceito ali para tomar cachaça. O português o trata com um misto de nojo e caridade religiosa, mas do dinheiro ele não tem nojo, canalha.
Lolita continua dançando. Não há carros ali, debaixo do viaduto, mas ela continua dançando.
Dança e canta. Deve ser a música da novela.
Pingo não consegue entender como, apesar de a TV da loja não ter som, Lolita pode conhecer a história, as conversas e até a música. Mas não gosta do esforço que faz para entender, prefere acreditar que é assim, deixar como está, quem sabe sonhar com uma explicação.
Ainda tem um pouco de cachaça na garrafa. Pingo bebe um gole e imediatamente vem aquela fraqueza gostosa, que bom estar sentado!
E ele percebe uma coisa, por baixo das patas de inúmeros piolhos. É feliz.
É feliz porque a felicidade é o que sente quando está assim, sentado, sem dor ou nenhum outro sofrimento, com uma vontade de chorar diferente, que parece que viver não é tão ruim.
E porque, apesar das feridas pelo corpo, dos piolhos, do nojo e do desprezo que causa existe Lolita, sua companheira, que dorme com ele debaixo do viaduto.
Lolita parece que não liga para nada nem para ninguém, só para as novelas e Pingo acha isso extraordinário, ele a ama e é feliz.
E sorri, um sorriso bêbado de dentes esburacados, debaixo do viaduto.
(Ilustração: Mia Makila)
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Luiz Cláudio Cerqueira - Lolita
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
MENINA E MOÇA, de Machado de Assis
Está naquela idade inquieta e duvidosa,
Que não é dia claro e é já o alvorecer;
Entreaberto botão, entrefechada rosa,
Um pouco de menina e um pouco de mulher.
Às vezes recatada, outras estouvadinha,
Casa no mesmo gesto a loucura e o pudor;
Tem cousas de criança e modos de mocinha,
Estuda o catecismo e lê versos de amor.
Outras vezes valsando, o seio lhe palpita,
De cansaço talvez, talvez de comoção.
Quando a boca vermelha os lábios abre e agita,
Não sei se pede um beijo ou faz uma oração.
Outras vezes beijando a boneca enfeitada,
Olha furtivamente o primo que sorri;
E se corre parece, à brisa enamorada,
Abrir as asas de um anjo e tranças de uma huri.
Quando a sala atravessa, é raro que não lance
Os olhos para o espelho; e raro que ao deitar
Não leia, um quarto de hora, as folhas de um romance
Em que a dama conjugue o eterno verbo amar.
Tem na alcova em que dorme, e descansa de dia,
A cama da boneca ao pé do toucador;
Quando sonha, repete, em santa companhia,
Os livros do colégio e o nome de um doutor.
Alegra-se em ouvindo os compassos da orquestra;
E quando entra num baile, é já dama do tom;
Compensa-lhe a modista os enfados da mestra;
Tem respeito a Geslin, mas adora a Dazon.
Dos cuidados da vida o mais tristonho e acerbo
Para ela é o estudo, excetuando-se talvez
A lição de sintaxe em que combina o verbo
To love, mas sorrindo ao professor de inglês.
Quantas vezes, porém, fitando o olhar no espaço,
Parece acompanhar uma etérea visão;
Quantas cruzando ao seio o delicado braço
Comprime as pulsações do inquieto coração!
Ah! se nesse momento, alucinado, fores
Cair-lhe aos pés, confiar-lhe uma esperança vã,
Hás de vê-la zombar de teus tristes amores,
Rir da tua aventura e contá-la à mamã.
É que esta criatura, adorável, divina,
Nem se pode explicar, nem se pode entender:
Procura-se a mulher e encontra-se a menina,
Quer-se ver a menina e encontra-se a mulher!
(Ilustração: Adam Miller - melancholia)
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Machado de Assis - Menina e moça
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