quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

LOLITA, de Luiz Cláudio Cerqueira







Lolita sorri com a insistência de Pingo para ela comer o ovo. “Estou de regime”, torna a repetir.

Foi uma delicada operação roubar os ovos na feira. Afinal de contas, um casal daqueles rondando qualquer barraca já dá na pinta, mesmo na hora da xepa.
Mas o plano era bom e deu resultado. Lolita distraiu o feirante com a sua conversa diferente, o que lhe deu grande prazer conforme comentou depois, porque ficou parecendo uma cena de novela. Enquanto isso Pingo, sorrateiro, colocava os ovos numa sacola, tomando todo cuidado para não quebrar nenhum.

Sucesso. Mas agora, na hora de comemorar, ela recusa com sorriso vago e sonhador!

Pingo não se amofina. Já conhece bem as esquisitices da companheira. Trata de cozinhar uns para si, pois só de olhar fica com água na boca.

Eles têm um bocado de coisas ali debaixo do viaduto, mas a preciosidade mesmo é o fogareiro Jacaré, ganho de um grupo de hippies que retornava do acampamento e que, passando por ali, se encantou com a conversa de Lolita.

O querosene não podia faltar, tinha que ter nem que fosse um pingo, daí o apelido “Pingo” que Lolita lhe botou, foi quando passaram a dormir juntos.
Que nome tinha antes? Sabe que nem se lembra! Osvaldo, Gabriel... Nossa Senhora !

Sente medo quando fica assim. Mas não adianta sentir medo, a culpada é a danada da fome.

É, e Lolita sempre foi Lolita, isso é verdade.

Descasca o ovo com todo cuidado. Pena que não tem sal. Mas um ovo cozido é um ovo cozido, com sal ou sem sal, é ou não é?

Lolita está do outro lado da rua, vendo novela na TV da loja. Pingo não gosta de ir ali, o gerente já o enxotou mais de uma vez.

Também no boteco da esquina não adianta pedir um pouco de sal, de modo que um ovo cozido é mesmo um ovo cozido e vamos em frente.

O ovo ficou bem firme! Pingo dá a primeira dentada com suavidade, os olhos fechados. Depois olha a superfície côncava, o anel branco envolvendo a massa doce e úmida, amarela como o ouro.

A clara tem o gosto e a consistência de um manjar, a gema é estranha mas é boa, muito boa.

Pingo sente vontade de chorar, suspira forte e come o resto do ovo numa só bocada.

Lolita retorna, dançando entre os carros. Pingo quer foder com ela, está linda, mas é dia, de dia não dá, tem que esperar até a noite.

Antigamente existiam terrenos baldios onde um mendigo podia ir com a companheira e trepar, ou tocar uma punheta se estivesse sozinho. Desde que tivesse bastante cuidado.

Hoje parece que não se tem para onde ir. No boteco da esquina Pingo se queimou porque pediu para ir ao banheiro e demorou demais.

Agora só é aceito ali para tomar cachaça. O português o trata com um misto de nojo e caridade religiosa, mas do dinheiro ele não tem nojo, canalha.

Lolita continua dançando. Não há carros ali, debaixo do viaduto, mas ela continua dançando.

Dança e canta. Deve ser a música da novela.

Pingo não consegue entender como, apesar de a TV da loja não ter som, Lolita pode conhecer a história, as conversas e até a música. Mas não gosta do esforço que faz para entender, prefere acreditar que é assim, deixar como está, quem sabe sonhar com uma explicação.

Ainda tem um pouco de cachaça na garrafa. Pingo bebe um gole e imediatamente vem aquela fraqueza gostosa, que bom estar sentado!

E ele percebe uma coisa, por baixo das patas de inúmeros piolhos. É feliz.
É feliz porque a felicidade é o que sente quando está assim, sentado, sem dor ou nenhum outro sofrimento, com uma vontade de chorar diferente, que parece que viver não é tão ruim.

E porque, apesar das feridas pelo corpo, dos piolhos, do nojo e do desprezo que causa existe Lolita, sua companheira, que dorme com ele debaixo do viaduto.
Lolita parece que não liga para nada nem para ninguém, só para as novelas e Pingo acha isso extraordinário, ele a ama e é feliz.

E sorri, um sorriso bêbado de dentes esburacados, debaixo do viaduto.



(Ilustração: Mia Makila)



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