domingo, 23 de novembro de 2025

MADRIGAL LÚGUBRE, de Carlos Drummond de Andrade

 


Em vossa casa feita de cadáveres,

Ó princesa ! Ó donzela !

Em vossa casa, de onde o sangue escorre,

Quisera eu morar.

Cá fora é o vento e são as ruas varridas de pânico,

É o jornal sujo embrulhando fatos, homens e comida guardada.



Dentro, vossas mãos níveas e mecânicas tecem algo parecido com um véu.

O mundo, sob a neblina que criais, torna-se de tal modo espantoso

Que o vosso sono de mil anos se interrompe para admirá-lo.



Princesa: acordada sois mais bela, princesa.

E já não tendes o ar contrariado dos mortos à traição.

Arrastar-me-ei pelo morro e chegarei até vós.

Tão completo desprezo se transmudará em tanto amor…

Dai-me vossa cama, princesa.

Vosso calor, vosso corpo e suas repartições,

Oh dai-me! que é tempo de guerra,

Tempo de extrema precisão.



Não vos direi dos meninos mortos

(nem todos mortos, é verdade,

Alguns apenas mutilados).

Tampouco vos contarei a história

Algo monótona talvez

Dos mil e oitocentos atropelados

No casamento do rei da Ásia.

Algo monótono… Ásia monótona…

Se bocejardes, minha cabeça

cairá por terra, sem remissão.



Sutil flui o sangue nas escadarias.

Ah, esses cadáveres não deixam

Conciliar o sono, princesa?

Mas o corpo dorme; dorme assim mesmo.



Imensa berceuse sobe dos mares,

Desce dos astros lento acalanto,

Leves narcóticos brotam da sombra,

Doces unguentos, calmos incensos.

Princesa, os mortos! gritam os mortos!

querem sair! querem romper!

Tocai tambores, tocai trombetas,

Imponde silêncio, enquanto fugimos!



…Enquanto fugimos para outros mundos,

Esse que está velho, velha princesa,

Palácio em ruínas, ervas crescendo,

Lagarta mole que escreve

a história,


Escreve sem pressa mais esta história:

o chão está verde de lagartas mortas…

Adeus, princesa, até outra vida.




(Ilustração: Valquíria Cavalcante)


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