sábado, 29 de novembro de 2025
JE NE PARLE PAS BIEN, de Luz Ribeiro
excuse moi, pardon
me ...
je ne parle pas bien français
je ne parle pas bien anglais non plus
je ne parle pas bien
je ne parle pas bien
je ne parle pas bien
je ne parle pas bien
...
eu tenho uma língua solta
que não me deixa esquecer
que cada palavra minha
é resquício da colonização
cada verbo que aprendi conjugar
foi ensinado com a missão
de me afastar de quem veio antes
nossas escolas não nos ensinam
a dar voos, subentendem que nós retintos
ainda temos grilhões nos pés
esse meu português truncado
faz soar em meus ouvidos
o lançar dos chicotes
em costas de couros pretos
nos terreiros de umbanda
evocam liberdade e entidade
com esse idioma que tentou nos prender
cada sílaba separada
me faz relembrar
de como fomos e somos segregados
nos encostaram nas margens
devido a uma falsa abolição
que nos transformou em bordas
me...
je ne parle pas bien
je ne parle pas bien
tiraram de nós o acesso
a ascensão
e eis que na beira da beira, ressurgimos
reinvenção
nossa revolução surge e urge
das nossas bocas
das falas aprendidas
que são ensinadas
e muitas não compreendidas
salve, a cada gíria
je ne parle pas bien
temos funk e blues
de baltimore a heliópolis
com todo respeito edithpiaf
não é você quem toca no meu set list
eu tenho dançado ao som de “coller la petite”
je ne parle pas bien
o que era pra ser arma de colonizador
está virando revide de ex-colonizado
estamos aprendendo as suas línguas
e descolonizando os pensamento
estamos reescrevendo o futuro da história
não me peçam pra falar bem
parce que je ne parle pas bien
je ne parle pas bien
je ne parle pas bien, rien
eu não falo bem de nada
que vocês me ensinaram
(Ilustração: Claudie Baran - La Langue Bien Pendue)
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