quarta-feira, 26 de novembro de 2025

DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL, de Jessé Souza

 


Os grandes sociólogos da religião, como Max Weber e Pierre Bourdieu, analisam o campo religioso do mesmo modo como analisam outros campos sociais. Como qualquer empresa no mercado econômico, que utiliza estratégias para conquistar o maior número de consumidores, a empresa religiosa usa o que estiver ao seu alcance para angariar o maior número de fiéis. O vertiginoso sucesso da vertente neopentecostal foi causado por uma conjunção de dois fatores: o aproveitamento consequente da ideia da batalha transcendental entre a divindade e o diabo – que já habitava o imaginário popular influenciado pela religiosidade africana – com o uso superficial do vocabulário judaico-cristão de modo a parasitar seu prestígio.

Em geral, o pentecostalismo se baseia no episódio bíblico citado em Atos dos Apóstolos, capítulo 2, em que o Espírito Santo teria se revelado aos cristãos por meio da língua do fogo. Partindo dessa vertente interpretativa, o pentecostalismo defende a presença concreta de Deus no mundo por meio do Espírito Santo, em especial pelo dom da cura e do falar em “línguas estranhas” (como vimos, glossolalia). A glossolalia, no entanto, foi perdendo prestígio por comparação com o dom da cura, a libertação dos demônios e a teologia da prosperidade.

Na segunda onda pentecostal e na terceira onda neopentecostal, ocorre um deslocamento simbólico da relação com as “línguas de fogo” em favor da força das palavras proferidas em nome de Deus. Passa-se a acreditar que a palavra dita em “nome de Jesus”, uma espécie de ordem verbal de Deus, tem o poder de curar. Também no exorcismo de demônios a palavra oral é fundamental. O pastor ordena a saída do demônio e é apoiado pela multidão, que grita: “Sai, sai!” ou “Queima, queima!”. A alusão a “queimar” permite perceber a passagem das línguas de fogo ao poder da palavra dita com fé. O exemplo da força das palavras viria do Deus do Livro de Gênesis, que cria o universo por meio do verbo, ou seja, da palavra.[1] Esse fato abre a possibilidade de vincular a bíblia não mais à escrita e à conversão racional, mas, ao contrário, aproximá-la da tradição oral como agente mágico transformador da realidade.

É a ênfase na tradição da oralidade que permite ao neopentecostalismo se aproximar – como o substituto perfeito – das religiões afro-brasileiras, nas quais a palavra se reveste de poder mágico. No candomblé, a palavra dita é “emanação de axé”, mecanismo de movimentação de forças sagradas, sendo Exu percebido como emanação desse poder que pode ser conferido por meio de oferendas. No neopentecostalismo, o poder da fala reinterpreta e ressignifica o fogo da língua do Espírito Santo no sentido do poder de intervenção mágica de Exu. A força da fala, muito além da mera pregação da palavra escrita divina – típica das versões mais éticas e racionais do cristianismo –, transforma-se, no neopentecostalismo, na emanação mágica de um poder autorreferente e autoconstituído.[2]

O neopentecostalismo, portanto, opera uma “antropofagia” da fé inimiga[3] pela centralidade do “transe religioso”, reintroduzindo a proximidade imediata com o sagrado que havia sido expurgado do campo cristão em nome da conversão racional. A novidade do movimento pentecostal, radicalizada no neopentecostalismo, foi introduzir o êxtase religioso e seu fundo mágico para o centro do cristianismo a partir da figura do Espírito Santo como emanação material da divindade.

O que está por trás desse movimento é, acima de tudo, uma redefinição da noção de “eu” e da personalidade do fiel, ou seja, de seu processo singular de subjetivação. No neopentecostalismo, assim como em várias versões do protestantismo, o corpo é pensado como morada de Deus na sua dualidade de corpo e alma. Daí a legitimidade cristã da guerra contra a possessão do corpo pelo demônio, substituindo-a pela possessão do Espírito Santo.

No candomblé, a pessoa é vista como fragmentada e a ela se agregam várias entidades sob a forma de um “enredo de santo”. Esse enredo varia de acordo com o orixá de frente. Os rituais de iniciação visam, por meio do sacrifício de animais e outros ritos, fixar no Ori da pessoa esse enredo, até que, com o tempo – normalmente sete anos –, não haja mais necessidades dos rituais, significando a imanência do seu orixá na própria pessoa, tornando o transe supérfluo.[4]

Desse modo, a fragmentariedade inicial é fundida em uma unidade à medida que vai compondo seu “enredo de santo”. Os ritos sacrificiais de animais servem, precisamente, para garantir uma continuidade da comunicação entre as divindades e os homens. A morte do animal permite abrir um canal de comunicação para que a graça divina possa fluir até os homens. A possessão indica a eficácia desse canal. Quando a divindade “vem”, como na possessão, o homem “vai” – ou seja, perde a consciência.

Apesar da complementariedade, um não pode se sobrepor ao outro.[5]

O neopentecostalismo, nos seus rituais de exorcismo, utiliza-se dessa linguagem e desse universo simbólico para criar uma nova relação do fiel com o Deus. Se nas religiões afro-brasileiras a pessoa se completa pela incorporação de um panteão sagrado, no neopentecostalismo a sacralidade do eu já é pressuposta – bastando que o indivíduo se liberte das eventuais tentações que vêm “de fora”. Assim, se nas religiões afro-brasileiras o “eu” se forma por “adição” das diversas divindades que o regem, no neopentecostalismo o “eu” se forma pela permanente “subtração”, na expulsão dos demônios que ameaçam a já existente divindade do “eu”.[6]

Para Ronaldo de Almeida,[7] os ritos de expulsão dos demônios no neopentecostalismo são mera inversão simbólica dos ritos africanos. Se nas religiões afro a possessão ocorre como uma festa de sacralidade do ritual, no neopentecostalismo a possessão é o polo negativo do sagrado por significar a irrupção do mal. A inversão, como sabe muito bem a psicanálise, mantém o principal em comum, apenas invertendo os termos da relação. O decisivo, portanto, que é a crença na possessão e na subordinação da lógica profana pela transcendental, se mantém. O que a inversão possibilita ao neopentecostalismo é a criminalização do competidor religioso.

Não por acaso são os Exus e as Pombagiras os representantes do diabo no contexto do neopentecostalismo e suas sessões de “descarrego”. Essa aproximação da simbologia cristã e africana já fazia parte da história secular do sincretismo brasileiro. Nas religiões afro, o sentido dos Exus é dado pelo contexto. Os Exus podem ser “amarrados” pelo orixá para obedecer, podendo ser, portanto, tanto demônio quanto orixá. Essa é a confissão que o pastor neopentecostal exige desses espíritos: não que ele seja o demônio, mas que eles revelem não serem sujeitos à negociação como se imaginava,[8] exigindo a vitória do pastor sobre eles.

Essa é uma estratégia que visa conquistar os adeptos desse tipo de religiosidade. A religiosidade africana, portanto, segue intocada no neopentecostalismo – o que explica o ódio à religiosidade afro exatamente pela proximidade e competição mais próxima –, mas é “recoberta”, superficialmente como uma pátina, com o vocabulário de alto prestígio simbólico – em todo o Ocidente – do cristianismo e do judaísmo.

Em um país racista como o nosso, o neopentecostalismo se alimenta, vicariamente, também dessa tradição nefasta que ajuda a criminalizar o negro e todas as suas práticas, inclusive as religiosas. Portanto, o neopentecostalismo é ideal para quem pretende “embranquecer” – com tudo o que isso significa no Brasil, e que não se refere apenas à cor da pele – pela aceitação da norma moral vigente do dominador branco que implica o estigma do negro (seu vizinho ou irmão) e a sua criminalização.

Notas:

[1].Vagner Gonçalves da Silva, “Concepções religiosas afro-brasileiras e neopentecostais”,2005.

[2].Ibidem.

[3].Ronaldo Almeida, A Igreja Universal e seus demônios, 2009.

[4].Ibidem.

[5].Ibidem.

[6].Ibidem.

[7].Ibidem.

[8].Ibidem.



(O pobre de direita)




(Ilustração: Jerry D'oxossi - Exus e Bombogiras, entidades trabalhadoras da Umbanda)


Nenhum comentário:

Postar um comentário