sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

A CATÁSTROFE DO SUCESSO, de Tennessee Williams



Este inverno assinalou o terceiro aniversário da estréia, em Chicago, de À Margem da Vida(*), um evento que pôs término a uma parte de minha vida e começou outro tão diferente do precedente em todas as circunstancias externas quanto será fácil imaginar. Fui arrancado de meu quase anonimato e atirado aos píncaros de uma fama repentina e, do precário aluguel de quartos mobiliados em várias regiões do país, fui trasladado para um apartamento de um hotel de primeira classe em Manhattan. Minha experiência não foi única, pois o sucesso muitas vezes já irrompeu, da mesma forma abrupta, na vida de muitos americanos. A história de Cinderela é nosso mito nacional favorito, a pedra fundamental da indústria cinematográfica, se não da própria Democracia. Eu já a vira representada na tela tantas vezes que estava agora inclinado a recebê-la com um bocejo de enfado, não com descrença mas com a atitude de quem desse de ombros, exclamando: "Que bem me importa!" Qualquer pessoa dotada de dentes e cabelos tão lindos como a protagonista cinematográfica de tal história tinha, por força, que se divertir a valer, fosse como fosse. Você podia apostar seu último dólar e todo o chá da China em que aquela estrela nunca seria vista, viva ou morta, em qualquer tipo de reunião que exigisse um mínimo de consciência social.

Não, minha experiência não era excepcional, mas por outro lado não era tampouco comum e caso você esteja disposto a aceitar a tese um tanto eclética de que eu não escrevera tendo em mente tal experiência - e há muita gente não disposta a crer que um dramaturgo possa estar interessado em outra coisa que não seja o sucesso popular - talvez haja certa razão para compararmos estas duas fases de minha vida.

A vida que levara antes de atingir esse sucesso de público era do tipo que exigia resistência e tenacidade, que me fazia agarrar-me à superfície cheia de arestas que me feriam e me obrigavam a prender-me firmemente, com unhas e dentes, a cada centímetro de pedra colocada mais alto que a precedente - mas era uma vida substancialmente boa porque era do tipo para o qual o organismo humano é criado.

Eu só me dei conta de quanta energia vital eu despendera naquela luta quando esta cessou. Encontrei-me então num planalto, com meus braços ainda se agitando no ar e meus pulmões sorvendo sofregamente um ar que já não oferecia resistência. Isto era a segurança, afinal.

Sentei-me e olhei a meu redor e de repente me senti muito deprimido. Pensei comigo mesmo: não é nada, é só o período de adaptação. Amanhã de manhã acordarei neste hotel de luxo, pairando sobre o ruído discreto que sobe de um bulevar dos quarteirões elegantes do East Side e então apreciarei seu requinte e mergulharei em seu conforto, consciente de que cheguei ao nosso conceito americano do Olimpo. Amanhã de manhã, quando eu olhar para este sofá de cetim verde, me apaixonarei por ele. É só agora, temporariamente, que aquele cetim verde me dá a impressão de limo em água estagnada.

Mas na manhã seguinte o sofazinho inofensivo parecia ainda mais repugnante do que na noite anterior e eu já começava a engordar demais para usar um terno de 125 dólares que um conhecido elegante escolhera para mim. Na suíte que eu ocupava, objetos começaram a quebrar-se acidentalmente. Um braço saiu do sofá. Queimaduras de cigarro apareciam na superfície brilhante dos móveis. Eu deixava as janelas abertas e uma vez uma chuvarada inundou a suíte. Mas a empregada sempre endireitava tudo e a paciência do gerente do hotel era inextinguível. Festas que duravam até a madrugada não o ofendiam seriamente. Só uma bomba de demolição, parecia-me, podia incomodar meus vizinhos.

Eu recebia minhas refeições no apartamento. Mas até isso também tinha seu quê de desencanto. No tempo que decorria entre o momento em que eu escolhia o jantar pelo telefone e o momento em que ele entrava em meu quarto num carrinho, como um cadáver transportado numa mesa de rodas de borracha, eu perdia todo interesse por ele. Uma vez pedi um bife de filé e um sundae de chocolate, mas tudo estava disfarçado tão habilmente na mesa que confundi a cobertura de chocolate com o molho de carne e a derramei sobre o bife.

É claro que tudo isto era só o aspecto mais trivial de um descolocamento espiritual que começou a manifestar de formas muito mais perturbadoras. Logo notei que comecei a ficar indiferente às pessoas. Senti-me presa de uma onda de cinismo. As conversas que eu ouvia me pareciam todas gravadas há muitos anos e tocadas de novo num toca-disco. Parecia que a sinceridade e a bondade tinham desaparecido da voz dos meus amigos. Suspeitei que fossem hipócritas. Parei de telefonar-lhes, parei de vê-los. Não tinha mais paciência com o que me parecia ser os sintomas de uma adulação idiota. Fiquei tão saturado de ouvir gente dizer "adorei sua peça” que já nem podia mais agradecer. Eu me engasgava com aquelas palavras e virava as costas grosseiramente à pessoa geralmente sincera que as dissera. Já não sentia orgulho pela peça em si, ao contrário, comecei a enjoar dela, talvez porque me sentia demasiado morto por dentro para poder escrever oura. Eu caminhava como um zumbi, um morto conduzido pelos meus próprios pés. Eu sabia disso, mas não contava então com amigos em quem confiasse o suficiente para levá-los para um canto e contar-lhes o que me estava acontecendo. Esta situação estranha persistiu durante três meses, até quase fins da primavera, quando decidi submeter-me a outra operação na vista, principalmente devido ao pretexto que ela me oferecia de retirar-me do mundo detrás de uma máscara de gaze. Era já minha quarta operação na vista e talvez eu deva explicar que eu sofria há uns cinco anos de uma catarata no olho esquerdo que exigia uma série de operações torturantes e finalmente uma operação no músculo do olho (ainda tenho esse olho, esclareço). Bem, a máscara de gaze teve sua serventia. Enquanto eu estava repousando no hospital, os amigos, que abandonara ou insultara de uma forma ou de outra, começaram a visitar-me e agora que eu jazia em meio a escuridão e as cores de suas vozes pareciam ter mudado. Ou melhor: aquela mutação desagradável que eu suspeitara antes desaparecera no presente e elas soavam agora como sempre nos dias saudosos de minha obscuridade perdida. Novamente eu as reconhecia como sendo vozes sinceras e bondosas, animadas por um tom inconfundível de verdade e pela virtude da compreensão que me fizera buscá-las desde o início. No tocante a minha visão física, essa ultima operação tinha tido resultados só relativamente bons (embora me tivesse deixado com uma pupila aparentemente preta na posição devida ou quase) mas em outro sentido figurado da palavra, ela servira a um propósito muito mais profundo. Quando foi retirada a máscara de gaze, encontrei-me readaptado ao mundo. Deixei o apartamento elegante do hotel de luxo, guardei na mala meus papéis e alguns pertences e parti para o México, um país telúrico em que se podem esquecer rapidamente as falsas dignidades e as vaidades impostas pelo sucesso, um país em que vagabundos inocentes como crianças enrolam-se para dormir nas calçadas e as vozes humanas, principalmente quando a linguagem em que falam não é familiar a nossos ouvidos, parecem-nos suaves como o gorjeio dos pássaros. Meu "eu" público, aquele artifício de espelhos sobrepostos não existia aqui, e, portanto eu voltava a meu "eu" natural. Depois, como um ato final de restauração espiritual, permaneci durante algum tempo em Chapala, para trabalhar numa peça chamada A Partida de Pôquer, que se tornaria mais tarde Um Bonde Chamado Desejo(**). É só no seu trabalho que um artista pode encontrar a realidade e a satisfação, pois o mundo ambiente, real, é menos intenso que o mundo de sua invenção e consequentemente sua vida, sem recorrer a desordens violentas, não lhe parece muito importante. A condição verdadeira de vida para um artista é aquela em que seu trabalho é não só conveniente, mas também inevitável.

Para mim um lugar conveniente para trabalhar é um lugar distante, em meio a estranhos, onde eu possa dar umas braçadas. Mas a vida deve exigir um mínimo de esforço de nossa parte. Você não deve ter gente demais a servi-lo, ao contrário: você devia fazer sozinho a maioria das coisas. O serviço oferecido pelos hotéis é embaraçoso. As empregadas, os garçons, os boys e os porteiros etc. são as pessoas mais embaraçosas do mundo porque continuamente estão a recordar-nos as iniquidades que nós aceitamos como coisas certas. O quadro de uma velhinha ofegante que carrega com enorme esforço um balde pesado d'água por um corredor de hotel para limpar a imundice de um hóspede bêbado e cheio de privilégios sociais é um quadro que me faz ficar doente e oprime meu coração, fazendo-o murchar de vergonha deste mundo, em que essa situação é não só tolerada mas considerada como a prova dos nove de que o mecanismo da Democracia está funcionando devidamente, sem interferência de cima ou de baixo. Ninguém deveria ter que limpar a imundice de outros neste mundo. É intoleravelmente horrível para ambas as pessoas, mas talvez pior ainda para quem recebe esse tipo de serviço. Eu fui tão corrompido quanto qualquer outra pessoa pelo número vastíssimo de serviços humilhantes que nossa sociedade se acostumou a esperar e do qual ela depende. Mas nós devíamos fazer tudo por nós mesmos ou deixar que as máquinas o fizessem por nós, a gloriosa tecnologia que garantem ser o facho de luz do mundo futuro. Somos como um homem que comprou uma quantidade enorme de equipamento para acampar, que tem a canoa e a barraca, as linhas de pescar e o machado, os fuzis e os lençóis e os cobertores, mas que agora, que todos os preparativos e providências estão empilhados, por mão de perito, uns sobre os outros, sente-se de repente demasiado tímido para iniciar a jornada e fica-se onde estava ontem e antes de ontem e antes e antes, olhando com desconfiança, através das cortinas de renda branca, para o céu claro de suspeita. Nossa grandiosa tecnologia é uma oportunidade, que Deus nos enviou, para gozarmos da aventura e do progresso que temos medo de arriscar. Nossas ideias e nossos ideais continuam sendo exatamente os mesmos, no mesmo ponto em que os deixamos, três séculos atrás. Não, desculpe! Já ninguém mais se sente seguro bastante para sequer afirmá-los. Esta foi uma digressão longa, partida de um tema pequeno para um imenso, que eu não tinha intenção, originalmente, de fazer, por isso voltemos ao que eu estava dizendo antes. O que venho afirmando é uma simplificação extrema. Ninguém escapa assim tão facilmente da sedução de uma maneira de viver sibariticamente. Você não pode arbitrariamente dizer a si mesmo, de um momento para o outro: agora vou continuar minha vida como ela era antes desta coisa, o Sucesso, me acontecer. Mas logo que você apreender a vacuidade de uma vida sem lutas você estará equipado com os meios básicos de salvação. Logo que você souber que isto é verdade, que o coração do ser humano, seu corpo e seu cérebro são forjados numa fornalha de brasas vivas especificamente para o propósito do conflito, do choque (a luta criadora), e que uma vez desaparecendo esse conflito o homem é uma mera espadinha de criança, boa para cortar margaridas, que não é a privação, mas sim o luxo, o lobo mau, e que os dentes agudos do lobo são formados pelas vaidadezinhas e indolências pequeninas que constituem o legado do Sucesso - então, de posse desta certeza, você está pelo menos apto a saber onde reside o verdadeiro perigo. Você sabe, então, que o "alguém" público que você é quando "tem um nome" é uma ficção criada por espelhos e que o único alguém digno de você ser é o seu "eu" solitário, não visto pelos demais, que existiu desde a sua primeira respiração e que é a soma de todas as suas ações e, portanto está sempre num estado de eterno devenir, moldado pela sua própria vontade  -  sabendo essas coisas, você poderá sobreviver até à catástrofe do Sucesso! Nunca é tarde demais, a menos que você abrace a deusa-cadela, a fama, como William James a alcunhou, com os braços abertos e ache em seus abraços sufocantes exatamente aquilo que o menininho inquieto dentro de você, com saudades de casa, queria: proteção absoluta e uma vida sem sacrifício e esforços de espécie alguma. A segurança é uma espécie de morte, creio, e pode atingi-lo numa enxurrada de cheques de direitos autorais, junto a uma piscina em forma de rim em Beverly Hills ou em qualquer outro lugar que esteja divorciado das condições que tornaram você um artista, se é isso que você é ou foi ou quis ser. Pergunte a qualquer pessoa que já passou pelo tipo de sucesso de que estou falando. Para que serve? Provavelmente para obter uma resposta honesta você terá que lhe dar uma injeção de soro da verdade, mas a palavra que ele emitirá finalmente, com um gemido, não pode ser publicada em publicações refinadas.
Então o que nos serve, afinal? O interesse obsessivo pelas vicissitudes humanas, além de uma certa dose de compaixão e de convicção moral, que pela primeira vez tornou a experiência de viver algo que deve ser traduzido em pigmento, música, movimentos corpóreos ou poesia ou prosa ou qualquer coisa dinâmica e expressiva... isso é que lhe será útil se é que você tem objetivos sérios. William Saroyan escreveu uma grande peça sobre esse tema, o de que a pureza de coração é o único sucesso que vale a pena termos. "Durante sua vida - viva!"

A vida é curta e não volta nunca mais.

Ela está fluindo furtivamente agora, enquanto eu escrevo isto e enquanto você me lê e o pêndulo do relógio, ao oscilar, repete somente:

"Nunca-mais,  nunca-mais,  nunca-mais", a menos que você se lance de coração, em oposição a ele.


(*) Título original: The Glass Menagerie.

(**) No Brasil, essa peça recebeu o título de Uma Rua Chamada Pecado, quando desempenhada, mas manteve o título anterior na versão publicada.


Tradução de Léo Gilson Ribeiro



(Ilustração: A streetcar named desire: Karl Malden, Kim Hunter, Marlon Brando, Vivien Leigh)

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

POEMA 20, de Pablo Neruda



      






Puedo escribir los versos más tristes esta noche.

Escribir, por ejemplo: "La noche esta estrellada,

y tiritan, azules, los astros, a lo lejos".

El viento de la noche gira en el cielo y canta.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.

Yo la quise, y a veces ella también me quiso.

En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.

La besé tantas veces bajo el cielo infinito.

Ella me quiso, a veces yo también la quería.

Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.

Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.

Oír la noche inmensa, más inmensa sin ella.

Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.

Qué importa que mi amor no pudiera guardarla.

La noche está estrellada y ella no está conmigo.

Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.

Mi alma no se contenta con haberla perdido.

Como para acercarla mi mirada la busca.

Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.

La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.

Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.

Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise.

Mi voz buscaba el viento para tocar su oído.

De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.

Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.

Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.

Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.

Porque en noches como esta la tuve entre mis brazos,

mi alma no se contenta con haberla perdido.

Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,

y éstos sean los últimos versos que yo le escribo.



Tradução de Domingos Carvalho da Silva:




Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: “A noite está estrelada”,

e tiritam, azuis, os astros, à distância".

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Eu a quis e às vezes ela também me quis.

Nas noites como esta a tive entre meus braços.

Beijei-a tantas vezes sob este céu infinito.

Ela me quis, às vezes eu também a queria.

Como deixar de amar seus grandes olhos fixos?

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.

E o verso cai na alma como no pasto o rocio.

Que importa que meu amor não pudesse guardá-la.

A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. À distância, alguém canta. À distância.

Minha alma não se conforma com havê-la perdido.

Como para encontrá-la meu olhar a procura.

Meu coração a procura e ela não está comigo.

A mesma noite que faz brancas as mesmas árvores.

E nós, os de então, já não somos os mesmos.

Já não a quero, é certo, porém quanto a quis.

Minha voz buscava o vento para tocar seu ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes de meus beijos.

Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos.

Já não a quero, é certo, porém talvez a queira.

É tão curto o amor e tão grande o esquecimento.

Porque em noites como esta a tive entre meus braços,

minha alma não se conforma com havê-la perdido.

Ainda que seja esta a última dor que ela me causa

e estes os últimos versos que lhe tenha escrito.




(Veinte poemas de amor y una canción desesperada)




(Ilustração: Igor Belkovsky)



domingo, 8 de fevereiro de 2015

O CINEMA ERA UMA SUCESSÃO DE SURPRESAS, de Max Blecher




   



Em conjunto, os objetos formavam cenários. A impressão de espetáculo me perseguia por toda parte, com o sentimento de que tudo se desenrolava em meio a uma representação factícia e triste. Embora por vezes eu escapasse da visão enfadonha e opaca de um mundo incolor, sempre deparava com seu aspecto teatral, enfático e antiquado.

No contexto desse espetáculo geral, havia outros espetáculos assombrosos que me atraíam mais, posto que sua artificialidade e os atores que neles se apresentavam pareciam realmente compreender o sentido de mistificação do mundo. Só eles sabiam que, num universo espetacular e decorativo, a vida deveria ser representada com falsidade e ornamentação. Tais espetáculos eram o cinema e o panopticum.(*)

Ó sala de cinema B., longa e soturna como um submarino naufragado! As portas de entrada eram recobertas de espelhos de cristal que refletiam parte da rua de maneira que, já na entrada, havia um espetáculo gratuito, antes do da sala, constituído por essa tela surpreendente em que a rua surgia numa luz de sonho, esverdeada, com pessoas e charretes movendo-se sonâmbulas em suas águas.

Na sala reinava um cheiro fétido e ácido de banheiro público. O chão era cimentado e as poltronas, ao se mexerem, produziam rangidos que lembravam breves gritos de desespero. Diante da tela, uma galeria de vagabundo e cafajestes devorava sementes e comentava o filme em voz alta. As legendas eram escandidas por dezenas de vozes em uníssono, como se fossem exercícios de uma escola para adultos. Bem debaixo da tela agitava-se um trio composto por pianista, violinista e um velho judeu que tocava sem parar seu contrabaixo. O velho tinha ainda função de emitir diferentes ruídos que deveriam corresponder às ações que transcorriam na tela. Ele costumava berrar "cocorocó" sempre que aparecia o galo da empresa cinematográfica no início do filme e ainda me lembro de que, uma vez, quando a vida de Jesus estava sendo representada, ele se pôs a bater a caixa do contrabaixo freneticamente com o arco no momento da ressurreição, a fim de imitar os relâmpagos celestiais.

Eu vivia os episódios do filme com uma intensidade extraordinária, integrando-me à ação como um verdadeiro personagem da trama. Muitas vezes acontecia de o filme absorver tanto a minha atenção que eu me flagrava passeando pelos parques da tela, apoiado na balaustrada das varandas italiana por onde evoluía, pateticamente, Francesca Bertini, com os cabelos soltos e os braços agitados como echarpes.

Definitivamente, não há nenhuma diferença bem estabelecida entre a nossa pessoa real e nossos diferentes personagens interiores imaginários. Ao acender das luzes, durante o intervalo, a sala revelava um ar que vinha de longe. Havia no ambiente algo de precário e artificial, muito mais incerto e efêmero que o espetáculo da tela. Eu fechava os olhos e esperava até o ruído mecânico do aparelho anunciar que o filme continuaria; reencontrava então a sala na escuridão e todas as pessoas ao meu redor, indiretamente iluminadas pela tela, pálidas de transfiguradas como uma galeria de estátuas de mármore num museu ao luar da meia-noite.

Num determinado momento, o cinema começou a pegar fogo. A película se soltou e ardeu imediatamente, de modo que, durante alguns segundos, as chamas do incêndio apareceram na tela como uma espécie de aviso condescendente de que o cinema estava em chamas e, ao mesmo tempo, como uma continuação lógica do rolo do aparelho no sentido de apresentar as "atualidades" e cuja missão ele assim cumpria, num excesso de zelo, representando a derradeira e mais palpitante delas: a de seu próprio incêndio. Eclodiram de todas as partes clamores e gritos curtos de "Fogo! Fogo!" como disparos de revólver. O alarido que irrompeu na sala foi de tal magnitude que parecia que os espectadores, até então calados no escuro, não haviam feito outra coisa senão amontoar dentro de si berro e brados, como plácidos e inofensivos condensadores que explodem assim que o limite de sua capacidade de carregamento é ultrapassado.

Em poucos minutos, e antes que metade da sala fosse evacuada, o "incêndio" foi apagado. Os espectadores porém continuavam gritando como se tivesse de gastar, uma vez desencadeada, determinada quantidade de energia. Uma senhorita de rosto empoado como gesso berrava com estridência, olhando fixamente para meus olhos, sem mover-se ou dar um passo na direção da saída. Um cafajeste musculoso, convencido da utilidade de sua força em tais circunstâncias mas sem saber para onde direcioná-la, agarrava uma a uma as cadeiras de madeira e as arremessava contra a tela. Ouviu-se de repente um grande estrondo: uma delas atingira em cheio o contrabaixo do velho músico. O cinema era uma sucessão de surpresas.




(*) O panopticum era uma carroça ambulante de diversões, em que podiam ser vistas coisas e criaturas raras ou extraordinárias. Além disso, podiam-se ver também ilusionistas, levantadores de peso e equilibristas e, às vezes, figuras de cera. [N.T.]




(Acontecimentos na irrealidade imediata; tradução de Fernando Klabin)




(Ilustração: Francesca Bertini; 1892-1985; atriz do cinema mudo italiano de grande sucesso nos anos 20 do século passado - foto da internet, sem indicação de autoria)

domingo, 1 de fevereiro de 2015

AUTOBIOGRAFIA LITERÁRIA, de Alberto Pucheu




   






Se das águas que correm do chamado Rio,

armazenam pedras, semáforos, blitz, informações estagnadas,

coito interrompido, por outro lado,

palavras líquidas

me encharcam de marés, correntezas,

rodovias desimpedidas, gozo de frases fluindo em direção

às que transbordam do submerso, com suas sirenes,

indetidas. Rio, lago, lagoa, baía... tantos nomes... tantos

janeiros... na língua que falo, tudo é um só movimento de

águas e trânsitos,

o primeiro tempo inundando o último segundo,

o murmúrio do mundo no discurso,

a suja rasura da dúvida e da pergunta,

na língua que falo, fala o percurso do primeiro susto, o

sussurro da comunhão de tudo o que é raso com o fundo.

Trago a nudez de nervos na língua de mil sons agenciados. E

o que a língua não fala, falam os braços, pernas, buzinas,

ondas, engrenagens... Não tenho leis, dizem,

nem religião ou trabalho, dizem

que, por isso, sou estranho,

sim, sou estranho, abro palavras pelas ruas, ao lado de

buracos, pelas farmácias, ao lado de remédios, pelos bancos,

ao lado de cofres, pela vida,

ao lado de vantagens, sim, sou estranho,

recolho do mundo uns tiros de espanto,

balas ferindo para fazer viver.

Uma certa inquietude me conforma com esta estranheza,

uma inquietude áspera, de instintos

entrelaçados ao pensamento, de começos coexistindo por

todos os cantos,

de errância permissiva de gerações, de construir o que,

para ser habitado, tem de ser logo abandonado.





(A vida é assim)





(Ilustração: Saturno Buttò)


segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

DANDO O TROCO, de Howard Jacobson







Finkler fez por onde.
Foi essa a conclusão de Tyler Finkler à época e também de Julian Treslove. Sam ia ter o troco.
O argumento de Tyler Finkler era mais forte. O marido estava trepando com outras mulheres. Ou se não estivesse trepando com outras mulheres, poderia muito bem estar trepando com outras mulheres, dado o volume de atenção que dispensava a ela.
Para Treslove, simplesmente Finkler teria o troco por ser finkler. Mas Treslove também achava que uma mulher tão bonita quanto Tyler não devia ter de sofrer.
Tyler Finkler. A falecida Tyler Finkler. Lembrando-se dela enquanto tomava um segundo café, Treslove soltou um suspiro profundo.
- Sam está envolvido num projeto que lhe demanda muito - justificara para Tyler, então. - É um sujeito ambicioso. Foi um garoto ambicioso.
- Meu marido foi um garoto!
Treslove sorrira sem jeito. Finkler não havia sido, com efeito, propriamente um garoto, mas não lhe pareceu correto dizer isso à esposa enfurecida de Finkler.
Os dois estavam deitados na cama de Treslove naquele subúrbio que ele insistia em chamar de Hampstead. Não deveriam estar deitados na cama de Treslove em subúrbio algum. Ambos sabiam disso. Mas Finkler fizera por onde.
Tyler não ligara para Treslove a princípio para indagar se podia aparecer para assistir ao primeiro programa da nova série do marido na TV de Treslove.
- Claro - respondeu Treslove -, mas você não assistir com Sam?
- Samuel está assistindo ao programa com a equipe, codinome amante.
Tyler era a única pessoa que ainda chamava Sam de Samuel. Dava-lhe poder sobre o marido, o poder de alguém que conhecera uma pessoa importante antes que ela se tornasse uma pessoa importante. Às vezes, ela ia mais longe e o chamava de Shmuelly para recordá-lo de suas origens, sempre que ele parecia correr o risco de esquecê-las.
- Oh - disse Treslove.
- E o pior é que ela nem é a porra da diretora. Não passa de assistente de produção.
- Ah - disse Treslove, imaginando se Tyler estaria assistindo ao programa com Sam, caso Sam, de forma mais convencional, estivesse trepando com a diretora. Nunca se sabe exatamente onde se pisa quando se trata de finklers, homens ou mulheres, e de questões que giram em torno de humilhação e prestígio. Os não finklers pensam que todas as infidelidades são iguais, mas, por experiência, Treslove sabia que os finklers são capazes de fazer concessões se o terceiro por acaso for alguém importante. O príncipe Philip, Bill Clinton, até o papa. Treslove esperava não estar estereotipando ninguém pensando assim.
- Você vai trazer as crianças? - indagou Treslove.
- As crianças? As crianças estão estudando fora. Logo vão entrar na faculdade. Ao menos finja algum interesse, Julian.
- Não sou chegado a filhos - explicou ele. - Nem aos meus.
- Bom, você não precisa se preocupar. Não vamos fazer filho nenhum. Meu corpo já passou dessa fase.
- Oh - disse Treslove.
Foi a primeira pista de que e a mulher do seu amigo não veriam muita televisão naquela noite.
- Ah - disse ele para si mesmo, debaixo do chuveiro, como se fosse a vítima do que quer que estivesse para acontecer, em lugar de um parceiro ativo na coisa toda. Mas nunca houve a mais remota possibilidade de que pudesse ser capaz de resistir a Tyler, por mais que ela o estivesse usando apenas para se vingar do marido.
Embora Tyler não fosse o tipo de mulher por quem normalmente se apaixonasse, ele se apaixonara por ela mesmo assim na primeira vez que Sam a apresentou como esposa. Não via o amigo havia algum tempo e não sabia  que ele estava namorando firme, muito menos que se casara. Mas esse um hábito de Finkler: erguer a barra da própria vida um tiquinho, tão somente o bastante para fazer Treslove se sentir intrigado e excluído, e depois baixá-la outra vez.
A recém-casada sra. Finkler não era de fato bonita, mas era como se fosse, morena e angulosa, com feições nas quais um homem descuidado poderá se cortar e olhos impiedosamente sarcásticos. Embora houvesse pouca carne a lhe cobrir os ossos, de alguma forma ela conseguia sugerir ocasiões voluptuosas. Sempre que Treslove a encontrava, Tyler estava vestida como se fosse a um banquete oficial, onde comeria pouco, falaria com segurança, dançaria com graça com quantos pares precisasse dançar e atrairia olhares admiradores de todos os presentes. Era o tipo de mulher da qual um homem de sucesso precisa. Competente, sociável, altivamente elegante - desde que esse homem não a esquecesse por causa do sucesso. A palavra úmida vinha à mente de Treslove quando ele pensava em Tyler Finkler. O que o surpreendia, já que sua superfície era árida. Mas Treslove imaginava como ela seria por baixo da superfície, quando penetrasse seu sombrio mistério feminino. Ela habitava algum lugar onde ele jamais estaria e onde ele provavelmente não deveria sequer pensar em estar. Era a eterna mulher finkler. Daí jamais ter existido para Treslove a mais remota possibilidade de recusar a oferta quando a recebeu. Ele precisava descobrir como seria penetrar o mistério feminino sombrio e úmido de uma finkleresa.
Os dois ligaram a televisão, mas não assistiram a um único segmento do programa de Sam.
- Que grande mentiroso - disse ela, despindo um vestido que poderia ser usado para assistir à condecoração do marido como cavaleiro. - Cadê aquela filosofia todo quando não sirvo o jantar dele na hora certa? Cadê aquela filosofia toda quando deveria estar com o pau dentro das calças por aí?
Treslove nada disse. Era estranho estar diante da cara do amigo na tela da TV ao mesmo tempo que segurava a mulher do amigo nos braços. Não que Tyler estivesse de fato em seus braços. Tyler gostava que fizessem amor a distância, como se não estivesse de fato acontecendo. Boa parte do tempo, ela nem olhou para Treslove, trabalhando em seu pênis com a mão atrás das costas, como se abotoasse um sutiã complicado ou lutasse com um vidro difícil de abrir, enquanto comentava o marido, matraqueando incessantemente. Preferia a luz acesa e não via qualquer virtude sensual no silêncio. Apenas quando a penetrou - rapidamente, porque ela lhe disse que não lhe agradavam intercursos longos - Treslove conseguiu de fato encontrar a sombria e cálida umidade finkleresa que antecipara. E ela superou toda e qualquer expectativa.
Deitado de costas, sentiu as lágrimas brotarem em seus olhos. E disse a ela que a amava.
- Não seja ridículo - rebateu Tyler. - Você nem sequer me conhece. Era com Sam que você estava transando.
Ele se sentou na cama.
- Definitivamente não.
- Não me importo. Por mim, tudo bem. A gente pode até repetir. E, se você se excita por trepar com seu amigo, trepar ou lhe passar a perna, não há por que tergiversar, por mim tudo bem.
Treslove se apoiou no cotovelo para fitá-la, mas novamente ela lhe dera as costas. Ele estendeu a mão para lhe acariciar os cabelos.
- Não faça isso - objetou Tyler.
- O que você não entende é que esta é a minha primeira vez.
- A primeira vez que você transa? - Na verdade, ela não parecia muito surpresa.
- A primeira vez... - Soava insosso agora que ele traduzia em palavras. - A primeira vez... você sabe...
- A primeira vez que você sacaneia Samuel? Eu não me preocuparia com isso. Ele não pensaria duas vezes em fazer o mesmo com você. Provavelmente, até já fez. Ele encara o fato como droit de philosophe. Por ser um pensador, acha que tem o direito de foder quem bem quiser.
- Eu não quis dizer isso. Eu quis dizer que você a minha primeira...
Dava para perceber que sua hesitação começava a irritá-la. A cama congelou ao redor dela.
- Primeira o quê? Desembuche. Mulher casada? Mãe? Esposa de um apresentador de TV? Mulher sem diploma?
- Você não tem diploma?
- Primeira o quê, Julian?
Ele engoliu a palavra duas ou três vezes, mas precisava ouvi-la da própria boca. Dizer era quase tão doce em sua perversão quanto fazer.
- Judia - conseguiu finalmente falar. - Judiiiiia - repetiu, demorando-se para terminar, deixando as sílabas esquentarem em seus lábios.
Ela se virou como se pela primeira vez precisasse ver como ele era, os lhos brilhando com zombaria.
- Judia? Você acha mesmo que sou uma judia?
- E não é?
- Essa é a pergunta mais gentil que você poderia me fazer. Mas de onde você tirou a ideia de que eu seja o produto genuíno?
Treslove não conseguiu pensar em algo para dizer, havia tanta coisa.
- Tudo - foi o que, afinal, achou como resposta. Lembrou-se de ter ido a um bar mitzvah de algum dos filhos de Finkler, mas, como não tinha certeza de qual deles, permaneceu calado a esse respeito.
- Bom, o seu tudo é nada - disse ela.
Ele estava amargamente desconcertado. Tyler não nascera judia? Então o que era aquela sombria umidade na qual penetrara?
Ela fez beicinho para ele (e isso por acaso não era tipicamente judeu?).
- Você acha, honestamente, que Samuel se casaria com uma judia?
- Bom, não pensei que não casasse.
- Então, você conhece muito pouco o meu marido. É atrás das gentias que ele corre. Sempre correu. Você devia saber disso. Ele transou com judias. Nasceu judeu. Elas não podem rejeitá-lo. Então, por que perder tempo com elas? Ele teria se casado comigo na igreja se eu pedisse. Ficou ligeiramente furioso comigo porque não pedi.
- Então, por que você não pediu?
Ela riu. Um ruído rouco de uma garganta seca.
- Porque sou uma outra versão dele, só isso. Cada um de nós queria conquistar o universo do outro. Ele queria que as goyim o amassem. Eu queria ser amada pelos judeus. E gostava da ideia de ter filhos judeus. Achava que eles se sairiam melhor na escola. E, cara, não que se saíram mesmo?
(Ela se orgulhava deles - isso também não era tipicamente judeu?).
Treslove estava perplexo.
- Pode-se ter filhos judeus sem ser judia?
- Não aos olhos dos ortodoxos. Não é fácil, de todo jeito. Mas nós fizemos um casamento liberal. Até precisei me converter para isso. Durante dois anos eu investi, aprendi como administrar um lar judeu, como ser uma mãe judia. Me pergunte qualquer coisa que queira saber sobre judaísmo que eu respondo. Como preparar uma galinha kosher, como acender as velas do shabbes, o que fazer em um mikva. Você quer que lhe diga como uma boa judia sabe que sua menstruação acabou? Conheço mais a cultura judaica do que todas as judias echt de Hampstead juntas.
Treslove se abstraiu, mentalmente juntando todas as judias não judias de Hampstead, mas o que perguntou foi:
- O que é um mikva?
- Um banho ritual. A gente vai lá para se purificar para o nosso marido judeu, que morre se encostar numa gota de sangue da gente.
- Sam quis que você fizesse isso?
- Samuel não, eu quis. Samuel não estava nem aí. Achava uma barbárie essa preocupação com o sangue menstrual, do qual, a bem da verdade, ele gosta um bocado, o tarado. Fui ao mikva por mim mesma. Achei calmante. Sou a parte judia do casal, mesmo tendo nascido católica. Sou a princesa judia sobre a qual se lê nos contos de fada, só que não sou judia. A ironia é que...
- Ele trepa com as shiksas?
- Óbvio demais. Ainda sou uma shiksa para ele. Se ele quiser o proibido, pode tê-lo em casa. A ironia é que ele trepa com as judias. Esse cocô da Ronit Kravitz, a assistente de produção. Eu não me espantaria se ele a convertesse.
- Acho que você tinha dito que ela já é judia.
- Convertê-la ao cristianismo, seu pateta.
Treslove calou-se. Havia tanta coisa que ele não entendia. E tanta coisa para deixá-lo nervoso. Sentiu que haviam lhe dado um prêmio que há muito almejava, mas apenas para tirá-lo dele antes que sequer encontrasse um lugar para exibi-lo. Tyler Finkler não era uma finkler! Consequentemente, o profundo, úmido e sombrio mistério de uma mulher finkler continuava, estritamente falando - e esse era um conceito estrito, afinal -, desconhecido para ele.
Ela começou a se vestir.
- Espero não ter decepcionado você - disse Tyler.
- Me decepcionado? Imagine. Você vem ver o segundo programa aqui?
- Reflita a respeito.
- O que há para refletir?
- Ah, você sabe... - respondeu ela.
Tyler não o beijou ao sair.
Mas voltou-se da porta, para fitá-lo.
- Um sábio conselho: não deixem que peguem você falando "judiiiiia" - avisou, imitando a forma lânguida como ele pronunciara a palavra. - Elas não gostam.



(A Questão Finkler, tradução  de Regina Lyra)




(Ilustração: Angel Zárraga - la femme et le pantin)



sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

VOCÊ NÃO TEM CHAVES, de Fernanda D'Umbra







você não tem chaves
(eu não preciso)
você não tinge os cabelos
(eu tinjo, se eu quiser, mas tá legal assim)
você não tem carteira assinada
(Deus me livre!)
você não tem patrão
(nunca tive, nunca terei)
você não tem cachorro
(eu viajo, não acho justo)
você não tem plantas
(eu viajo, não acho justo)
você não tem filhos
(sou uma puta madrastra, pode perguntar)
você não depende de ninguém financeiramente
(eu sou uma trabalhadora, uma mina normal)
você assusta, Fernanda
(eu sei, eu sinto muito)



(Ilustração: Loïc Allemand)



terça-feira, 20 de janeiro de 2015

CANTEIRO, de Isabela Penov




     

Nessa maldita marmita sem mistura ele remexe o que atura todo dia

É meio dia, arroz, feijão e agonia requentada já salgada com suor de tanta lida

Restos de ontem, carne fria de segunda e na segunda a sua carne sente o açoite e a ferida

A vida amarga sem tempero e o dia inteiro, o dia inteiro no canteiro semeando a força bruta

“A vida é luta, a vida é luta” já dizia a sua avó

E aquele nó bem na garganta não desfaz mas disfarça a cada passo a vontade de gritar

Farinha seca, terra seca, gente seca, sua terra, sua gente, e a saudade lentamente triturada entre seus dentes

Palita os dentes com os ponteiros do relógio, cospe o ódio, engole o ócio e canta um verso num minuto que sobrar.

E num lugar onde ninguém sabe o seu nome ao fim do dia à revelia uma pergunta lhe consome:


quem escolhe o que come?

quem escolhe o que come?

quem escolhe o que come?


Em meio a ordens tem que mastigar a vida, digerir toda a comida, as feridas mais doídas, sua classe e sua cor

Uns comprimidos, a tevê e a bebida não dão conta de prender e segurar dentro do peito esse viver doído e estreito de trabalho e desamor

E ele vomita cada dia então perdido, os pedidos que não fez, os sóis e céus que não viu, as paisagens que perdeu, os minutos que engoliu

Em meio à bile escorreram da sua boca dois mil sóis meio apagados paga dos dias passados que ele nunca viu passar

E foi cuspindo um triste grito sem medida, umas lágrimas contidas, todas as contas vencidas e as que nunca vai pagar; suas olheiras, a xepa do fim da feira, a canseira, a bebedeira, os trocados amassados na carteira, a chuteira pendurada, a bem amada que se foi sem ter porquê

Enxuga os lábios com uns versos amassados que ele fez nos intervalos com a esperança de alguém ler.

Quando menino ele sonhava em ser poeta, mas a vida é incerta, e a mão semianalfabeta sucumbiu ao desatino, vendeu o sonho menino por moedas no batente

Ingenuamente achou que vender os sonhos lhe daria outra vida de comida mais decente

Sem esperança, esqueceu que foi criança e entrou na contradança da máquina de moer gente.

Toca a sineta então na terça como um tiro de escopeta no seu peito de poeta que não foi e nem será

Abre a marmita mirrada de todo dia, arroz feijão e agonia, outro dia a lhe gastar

E num lugar onde ninguém sabe o seu nome é que ele come mas a fome lhe consome ao fim do dia

Dentro do estômago e do peito ele tem fome e não é fome de pão, é fome de poesia.

Entre o arroz e um pirão meio mal feito, a barriga, a mente e o peito roncam a dor que carcome

E num lugar onde ninguém sabe o seu nome ao fim do dia em rebeldia uma pergunta lhe consome:



quem escolhe o que come?

quem escolhe o que come?

quem escolhe o que come?




(Ilustração: Jean Béraud - inverno)










sábado, 17 de janeiro de 2015

SONETILHO DE VERÃO, de Paulo Henriques Brito




    




Traído pelas palavras.

O mundo não tem conserto.

Meu coração se agonia.

Minha alma se escalavra.

Meu corpo não liga não.

A ideia resiste ao verso,

o verso recusa a rima,

a rima afronta a razão

e a razão desatina.

Desejo manda lembranças.

O poema não deu certo.

A vida não deu em nada.

Não há deus. Não há esperança.

Amanhã deve dar praia.





(Trovar Claro)






(Ilustração: afresco de Pompeia)









quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

HEILIGENSTÄDTER TESTAMENT / O TESTAMENTO DE HEILIGENSTADT(1), de Ludwig Van Beethoven




  


O ihr Menschen, die ihr mich für feindselig, störrisch oder misantropisch haltet oder erkläret, wie unrecht tut ihr mir; ihr wißt nicht die geheime Ursache von dem, was euch so scheinet; mein Herz und mein Sinn waren von Kindheit an für das zarte Gefühl des Wohlwollens, selbst große Handlungen zu verrichten, dazu war ich immer aufgelegt, aber bedenket nur, daß seit 6 Jahren ein heilloser Zustand mich befallen, durch unvernünftige Ärzte verschlimmert, von Jahr zu Jahr in der Hoffnung, gebessert zu werden, betrogen, endlich zu dem Überblick eines dauernden Übels [daß durchstrichen] (dessen Heilung vielleicht Jahre dauern oder gar unmöglich ist) gezwungen, mit einem feuerigen, lebhaften Temperamente geboren, selbst empfänglich für die Zerstreuungen der Gesellschaft, mußte ich früh mich absondern, einsam mein Leben zubringen, wollte ich auch zuweilen mich einmal über alles das hinaussetzen, o wie hart wurde ich dur[ch] die verdoppelte traurige Erfahrung meines schlechten Gehör's dann zurückgestoßen, und doch war's mir noch nicht möglich, den Menschen zu sagen: sprecht lauter, schreit, denn ich bin taub, ach wie wär es möglich, daß ich dann die Schwäche eines Sinnes angeben sollte, der bei mir in einem vollkommenern Grade als bei andern sein sollte, einen Sinn, den ich einst in der größten Vollkommenheit besaß, in einer Vollkommenheit, wie ihn wenige von meinem Fache gewiß haben noch gehabt haben - o ich kann es nicht, drum verzeiht, wenn ihr mich da zurückweichen sehen werdet, wo ich mich gerne unter euch mischte; doppelt wehe tut mir mein Unglück, indem ich dabei verkannt werden muß, für mich darf Erholung in menschlicher Gesellschaft, feinere Unterredungen, wechselseitige Ergießungen nicht statt haben, ganz allein fast nur so viel, als es die höchste Notwendigkeit fodert, darf ich mich in Gesellschaft einlassen, wie ein Verbannter muß ich leben, nahe ich mich einer Gesellschaft, so überfällt mich eine heiße Ängstlichkeit, indem ich befürchte, in Gefahr gesetzt zu werden, meinen Zustand merken zu lassen - so war es denn auch dieses halbe Jahr, was ich auf dem Lande zubrachte, von meinem vernünftigen Arzte aufgefordert, so viel als möglich mein Gehör zu schonen, kam er [nur durchstrichen] fast meiner jetztigen natürlichen Disposition entgegen, obschon, vom Triebe zur Gesellschaft manchmal hingerissen, ich mich dazu verleiten ließ, aber welche Demütigung, wenn jemand neben mir stund und von weitem eine Flöte hörte, und ich nichts hörte; oder jemand den Hirten singen hörte, und ich auch nichts hörte; [Seite 2] solche Ereignisse brachten mich nahe an Verzweiflung, es fehlte wenig, und ich endigte selbst mein Leben - nur sie, die Kunst, sie hielt mich zurück, ach es dünkte mir unmöglich, die Welt eher zu verlassen, bis ich das alles hervorgebracht, wozu ich mich aufgelegt fühlte; und so fristete ich dieses elende Leben - wahrhaft elend; einen so reizbaren Körper, daß eine etwas schnelle Veränderung mich aus dem besten Zustande in den schlechtesten versetzen kann - Geduld - so heißt es, sie muß ich nun zur Führerin wählen, ich habe es - dauernd, hoffe ich, soll mein Entschluß sein auszuharren, bis es den unerbittlichen Parzen gefällt, den Faden zu brechen, vielleicht geht's besser, vielleicht nicht, ich bin gefaßt - schon in meinem 28. Jahre gezwungen, Philosoph zu werden, es ist nicht leicht, für den Künstler, schwerer als für irgend jemand - Gottheit, du siehst herab auf mein Inneres; du kennst es, du weißt, daß Menschenliebe und Neigung zum Wohltun drin hausen, - o Menschen, wenn ihr einst dieses leset, so denkt, daß ihr mir unrecht getan, und der Unglückliche, er tröste sich, einen seinesgleichen zu finden, der trotz allen Hindernissen der Natur, doch noch alles getan, was in seinem Vermögen stand, um in die Reihe würdiger Künstler und Menschen aufgenommen zu werden - ihr meine Brüder Carl und [Johann fehlt], sobald ich tot bin, und Professor Schmid lebt noch, so bittet ihn in meinem Namen, daß er meine Krankheit beschreibe, und dieses hier geschriebene Blatt füget ihr dieser meiner Krankengeschichte bei, [ein unleserliches Wort durchstrichen] damit wenigstens so viel als möglich die Welt nach meinem Tode mit mir versöhnt werde - zugleich erkläre ich euch beide hier für [meinen durchstrichen] die Erben des kleinen Vermögens, (wenn man es so nennen kann) von mir, teilt es redlich, und vertragt und helft euch einander; was ihr mir zuwider getan, das wißt ihr, war euch schon längst verziehen, dir Bruder Carl danke ich noch insbesondere für deine in dieser letztern spätern Zeit mir bewiesene Anhänglichkeit; mein Wunsch ist, daß [ich durchstrichen] euch ein bessers sorgen[volleres durchstrichen] loseres Leben als mir werde, empfehlt euren [nach durchstrichen] Kindern Tugend, sie nur allein kann glücklich machen, nicht Geld, ich spreche aus Erfahrung, sie war es, die mich selbst im Elende gehoben, ihr danke [Seite 3] ich nebst meiner Kunst, daß ich durch keinen Selbstmord mein Leben endigte - lebt wohl und liebt euch, - allen Freunden danke ich, besonders Fürst Lichnowski und Professor Schmid. Die Instrumente von Fürst L. wünsche ich, daß sie doch mögen aufbewahrt werden bei einem von euch, doch entstehe deswegen kein Streit unter euch, sobald sie euch aber zu was nüzlicherm dienen können, so verkauft sie nur, wie froh bin ich, wenn ich auch noch unter meinem Grabe euch nützen kann - so wär's geschehen - mit Freuden eil ich dem Tode entgegen - kömmt er früher, als ich Gelegenheit gehabt habe, noch alle meine Kunst-Fähigkeiten zu entfalten, so wird er mir trotz meinem harten Schicksal doch noch zu frühe kommen, und ich würde ihn wohl später wünschen - doch auch dann bin ich zufrieden, befreit er mich nicht von einem endlosen, leidenden Zustande? - komm, wann du willst, ich gehe dir mutig entgegen - lebt wohl und vergeßt mich nicht ganz im Tode, ich habe es um euch verdient, indem ich in meinem Leben oft an euch gedacht, euch glücklich zu machen, seid es -






Ludwig van Beethoven

Heiglnstadt

am 6ten October 1802



Tradução de Manuel Malzbender:


Ó vós, humanos, que me julgais ou declarais hostil, obstinado ou misantropo, como sois injustos para comigo, pois não sabeis as causas secretas que me forçam a parecer como tal, desde a infância que o meu coração e o meu espírito se inclinam para o terno sentimento da afeição, e sempre estive disposto a realizar grandes actos, mas considerai que nos últimos seis anos me tem atormentado um estado lastimável, agravado por médicos incompetentes, de ano para ano iludido com a esperança de melhorar, e, finalmente, forçado a encarar a perspectiva de um mal permanente (cuja cura poderá durar anos se não for de todo impossível), nascido com um temperamento vivo e ardente, sensível até às distracções da sociedade, cedo tive de me isolar dela e passar a minha vida em solidão, e quando por vezes quis superar tudo isto, oh como fui duramente repelido pela redobrada triste experiência da minha surdez, contudo não me foi possível dizer às pessoas: falai mais alto, gritai, pois eu sou surdo, ah como poder divulgar a fraqueza desse sentido que eu deveria possuir num grau mais perfeito do que os outros, um sentido que outrora possuíra na sua maior perfeição, numa perfeição que certamente só poucos na minha profissão possuem ou possuíram - oh, não posso, por isso perdoai-me quando vereis que me retiro, eu que gostaria tanto de me juntar a vós, a minha desventura é duplamente penosa pois, devido a ela, sou obrigado a ser mal julgado, para mim já não poderá existir prazer na vida em sociedade, nem conversações distintas, nem mútuas confissões, só me é permitido juntar-me à sociedade quando uma estrita necessidade o exige, sou obrigado a viver como um exilado, quando me aproximo de um grupo de pessoas aflige-me uma ardente angústia, com receio de correr perigo de dar a perceber o meu estado - assim vivi este meio ano que passei no campo, seguindo o conselho de um médico sensato, a poupar o mais possível o meu ouvido, o que quase correspondia à minha actual disposição natural, embora por vezes arrastado pela necessidade de companhia me deixasse seduzir, mas que humilhação, quando alguém ao meu lado ouvia o som longínquo de uma flauta, enquanto eu nada ouvia, ou quando alguém escutava o canto do pastor, e eu mais uma vez nada ouvia, esses acontecimentos levaram-me quase à beira do desespero, e pouco faltou para eu ter posto um fim à minha vida - só ela, a arte, me deteve, ah pareceu-me impossível abandonar o mundo antes de ter produzido tudo aquilo para o qual me sentia predisposto, e assim prolonguei esta vida miserável — verdadeiramente miserável, com este corpo de tal modo frágil, que qualquer mudança súbita consegue fazer passar do melhor estado ao pior — paciência —, sim, é ela que terei então de escolher como guia, dizem, e assim o fiz - espero que a minha resolução de perseverar seja duradoura, até ao momento em que as impiedosas Parcas desejem quebrar o fio, talvez melhore, talvez não, mas estou sereno - apenas com 28 anos forçado a ser filósofo, não, não é fácil, e para um artista muito mais difícil do que para qualquer outro — Deus! tu contemplas do alto a minha alma, conhece-la, sabes que o amor ao próximo e a vontade de fazer bem residem nela, ó humanos, quando um dia lerdes isto, pensai que fostes injustos para comigo, e que o desditoso se console por ter encontrado alguém como ele, que, apesar de todos os obstáculos da natureza, fez sempre tudo o que esteve no seu poder para pertencer ao mundo dos homens e artistas dignos — vós, ó meus irmãos Karl e Johann, logo que eu tiver morrido e o professor Schmid ainda estiver vivo, pedi-lhe em meu nome que descreva o meu mal, e juntai esta folha escrita à história da minha moléstia, para que ao menos o mundo se reconcilie tanto quanto possível comigo - ao mesmo tempo declaro-vos ambos herdeiros da minha pequena fortuna (se for permitido chamar-lhe assim), reparti-a honestamente, entendei-vos e ajudai-vos um ao outro, o que me fizestes de mal, isso vós o sabeis, já vos perdoei há muito, a ti irmão Karl agradeço particularmente a dedicação que por mim tens demonstrado nos últimos tempos, o meu desejo é que tenhais uma vida melhor e com menos preocupações que a minha, recomendai aos vossos filhos a virtude, apenas ela poderá dar felicidade, não o dinheiro, falo por experiência própria, foi ela que me ergueu da miséria, só a ela devo, como à minha arte, não ter terminado em suicídio a minha vida - adeus e amai-vos um ao outro -, agradeço a todos os amigos, nomeadamente ao príncipe Lichnowski e ao professor Schmidt. — Desejo que os instrumentos musicais do príncipe L. sejam guardados por um de vós, mas que nenhuma disputa surja entre vós por causa disso, porém, logo que vos possam servir para algo mais útil, vendei-os, como fico feliz ao saber que, mesmo debaixo do meu túmulo, vos poderei valer - então, assim seja - caminho com alegria ao encontro da morte - se ela vier antes de eu ter tido a oportunidade de realizar todas as minhas capacidades artísticas, então terá chegado cedo de mais, apesar do meu triste destino, e eu desejaria que a minha morte tardasse — no entanto também ficarei satisfeito se ela vier logo, pois não me libertará ela de um estado de tormento infinito? — Vem, quando quiseres, com coragem te enfrentarei — adeus, e não me esqueçais inteiramente depois da minha morte, bem o mereço da vossa parte, pois pensei muitas vezes em vós durante a minha vida, desejando fazer-vos felizes, sede-lo --



 Ludwig van Beethoven.
Heiligenstadt, 6 de outubro de 1802




[1] A tradução aqui apresentada respeita a pontuação e a sintaxe descontínua do Testamento, evitando assim a imposição ao texto de uma calma e coerência que o original não possui. (N. do T.)




(Dois Mil e Quatro. Antologia literária)



(Ilustração: John Michael Carter - la pianiste)