segunda-feira, 14 de setembro de 2026
TRICKS WITH MIRRORS / TRUQUES DE ESPELHOS, de Margaret Atwood
i
It's no coincidence this is a used furniture warehouse.
I enter with you and become a mirror.
Mirrors
are the perfect lovers,
that’s it, carry me up the stairs by the edges, don’t drop me,
that would be bad luck, throw me on the bed
reflecting side up, fall into me,
it will be your own
mouth you hit, firm and glassy,
your own eyes you find you are up against closed closed
ii
There is more to a mirror than you looking at
your full-length body flawless but reversed,
there is more than this dead blue oblong eye turned outwards to you.
Think about the frame.
The frame is carved, it is important,
it exists, it does not reflect you,
it does not recede and recede, it has limits
and reflections of its own. There’s a nail in the back
to hang it with; there are several nails, think about the nails,
pay attention to the nail marks in the wood, they are important too.
iii
Don’t assume it is passive or easy, this clarity
with which I give you yourself. Consider what restraint it
takes: breath withheld, no anger or joy disturbing the surface
of the ice.
You are suspended in me
beautiful and frozen, I preserve you, in me you are safe.
It is not a trick either, it is a craft: mirrors are crafty.
iv
I wanted to stop this,
this life flattened against the wall,
mute and devoid of colour, built of pure light,
this life of vision only, split and remote, a lucid impasse.
I confess: this is not a mirror, it is a door
I am trapped behind.
I wanted you to see me here,
say the releasing word, whatever that may be, open the wall.
Instead you stand in front of me combing your hair.
v
You don’t like these metaphors. All right:
Perhaps I am not a mirror. Perhaps I am a pool.
Think about pools.
Tradução de Carolina Paganine:
i
Não é coincidência que este seja um armazém de móveis usados.
Entro com você e me torno um espelho.
Espelhos
são as namoradas ideais,
é isso, me carregue escada acima pelas bordas, não me deixe cair,
isso daria azar, me jogue na cama
reflexo pra cima, deite-se sobre mim,
vai bater com a própria boca, firme e vítrea,
seus próprios olhos você vê estão contra você fechados fechados
ii
há mais coisas em um espelho do que você olhar pro
seu corpo inteiro perfeito mas invertido,
há mais coisas que esse olho azul oblongo e mortiço voltado pra você.
Pense na moldura.
A moldura é entalhada, é importante,
ela existe, ela não reflete você, não recua e recua, tem limites
e reflexões próprias. Há um prego atrás
pra pendurar; há muitos pregos, pense nos pregos,
preste atenção nos pregos e suas marcas na madeira, elas são importantes também.
iii
Não acredite que seja passiva ou fácil essa claridade
com a qual eu te ofereço a si mesmo. Considere o comedimento
necessário: prender a respiração, sem raiva ou alegria agitando a superfície
de gelo.
Você está suspenso em mim
elegante e congelado, eu te preservo, em mim está seguro.
Não é truque nenhum, é uma arte espelhos são arteiros.
iv
Queria acabar com isso,
essa vida achatada contra a parede,
muda e desprovida de cor, feita de luz pura,
essa vida de visão apenas, apartada e remota, um lúcido impasse.
Confesso: isto não é um espelho, é uma porta
Estou presa atrás.
Queria que você me visse aqui,
dissesse a palavra que libertasse, qualquer que fosse, abrisse a parede.
Ao invés você está à minha frente penteando o cabelo.
v
Você não gosta dessas metáforas. Tudo bem:
Talvez eu não seja um espelho. Talvez eu seja um lago.
Pense nos lagos.
(Atwood, 1976, posição 1554-1589)
(Ilustração: Vera Rocline - la mujer y el espejo)
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