quarta-feira, 2 de setembro de 2026

O VELHO POILÃO, de Odete Semedo



O tempo fez-me vergar

E as minhas raízes saltar

Agarro ao que de mim resta

E tento reconhecer a minha geração

De extrema solidão

No meu reino



Tenho pesadelos

Tractores de dentes aguçados

Ávidos lenhadores

De machado em punho

Meus oradores

Miram o meu tronco

Carcomido pelo tempo

À espera da queda fatal

Angustiado sonho com os belos tempos

Vejo os meus braços verdes

O meu tronco firme

Ostentando uma cabeça frondosa

De cabelos encarapinhados

Simulando perfis ocos

De rostos apinhados



Ainda recordo

De sombras que dei

Histórias de amor, noites de fogueira...

Quantas não assisti?

Fui símbolo de amor proibido

Refúgio de namorados

Hoje é isto o que de mim resta

Tudo que em mim presta

O tempo levou


E o chão aprovou



Mas não choro



(Entre o ser e o amar. Guiné-Bissau; 1996)



(Ilustração: Poilão - a árvore sagrada de Guiné-Bissau; Mwacir Quadé)

Nenhum comentário:

Postar um comentário