quarta-feira, 13 de outubro de 2010

POEMA ANTIPEDAGÓGICO, de Uilcon Pereira








naqueles remotos, silenciosos anos, Biúte conversa com o Baravelli, seu colega no Colégio Bandeirantes de Àssombradado, no qual estudantes passadistas continuavam a tradição das sabedorias já esquecidas:


— ei, Bi, me empreste a borracha


— eu não tenho, nunca trago borracha


— por quê, você não costuma errar?


— Não, bicho, é que eu jamais acerto




(A Educação pelo Fragmento)


(Ilustração: Tiago Carneiro da Cunha – autorretrato afundando)




segunda-feira, 11 de outubro de 2010

A ESTANTE, de Ferreira Gullar








Naquele novo apartamento da rua Visconde de Pirajá pela primeira vez teria um escritório para trabalhar. Não era um cômodo muito grande mas dava para armar ali a minha tenda de reflexões e leitura: uma escrivaninha, um sofá e os livros. Na parede da esquerda ficaria a grande e sonhada estante que caberia todos os meus livros. Tratei de encomendá-la a seu Joaquim, um marceneiro que tinha oficina na rua Garcia D’Avila com Barão da Torre.

O apartamento não ficava tão perto da oficina. Era quase em frente ao prédio onde morava Mário Pedrosa, entre a Farme de Amoedo e a antiga Montenegro, hoje Vinicius de Moraes. Estava ali há uma semana e nem decorara ainda o número do prédio. Tanto que, quando seu Joaquim, ao preencher a nota da encomenda, perguntou-me onde seria entregue a estante, tive um momento de hesitação. Mas foi só um momento. Pensei rápido: “Se o prédio do Mário é 228, o meu, que fica quase em frente, deve ser 227. “Mas lembrei-me de que, ao ir ali pela primeira vez, observara que, apesar de ficar em frente ao do Mário, havia uma diferença na numeração.

— Visconde de Pirajá 127 — respondi, e seu Joaquim desenhou o endereço na nota.

— Tudo bem, seu Ferreira. Dentro de um mês estará lá sua estante.

— Um mês, seu Joaquim! Tudo isso? Veja se reduz esse prazo.

— A estante é grande, dá muito trabalho... Digamos, três semanas.

Contei as semanas. Não via chegar o momento de ter no escritório a estante sonhada, onde enfim poderia arrumar os livros por assunto e autores. E,mais que isso, sentir-me um escritor de verdade, um profissional, cercado de livros por todos os lados. No dia da entrega, voltei do trabalho apressado para ver minha estante.

— Como é, veio? — perguntei ao entrar.

— Veio o quê?

— Como o quê? A estante!

Não viera. Seu Joaquim não cumprira com a palavra empenhada, ah português filho de... Telefonei para ele sem dissimular, no tom da voz, minha irritação. E ele:

— Como não cumpri? Andei com dois homens de cima para baixo da rua e não encontrei o tal número que o senhor me indicou. Não existe na rua Visconde de Pirajá o número 127, senhor Ferreira.

Fiquei sem ação. Dera a ele o número errado.

— Diga-me o número certo e sua estante estará em sua casa amanhã mesmo.

Fiquei sem palavra. Se não era 127, qual número seria? Não era 227, disso tinha certeza... E o Joaquim ao telefone:

— Qual o número, seu Ferreira?

— É 217, seu Joaquim... É isso, 217.

— Muito bem, 217. Já anotei. Amanhã terá sua estante.

Não tive. Ao chegar em casa e verificar que a estante não estava lá, concluí que havia dado de novo o número errado ao marceneiro. E corri para o telefone a fim de me desculpar.

— Seu Joaquim, é o senhor Ferreira... da estante.

— O senhor está querendo brincar comigo?

Fui tomado por um frouxo de riso, enquanto seu Joaquim, indignado, dizia que não ia mais entregar estante nenhuma, que eu fosse buscá-la, pois já era a segunda vez que subira e descera a Visconde de Pirajá, carregando aquela estante enorme, etc. etc...



(A estranha vida banal)



(Ilustração: Siegfried Zademack – Vom Rauschen des Meeres inspiriert)



sábado, 9 de outubro de 2010

SE EU DANÇASSE AGORA, de Rita Brant






Se eu dançasse agora

Colocaria meus pés a meia altura do chão

Balançaria meus braços numa demonstração louca de quem imita os pássaros

Giraria em círculos como a biruta que saboreia os ventos

Torceria meu tronco como se ondulasse em mim um vivo arame flexível

Juntaria minhas mãos em prece e, sem a menor pressa, as levaria a apontar mil e uma estrelas

Mostraria meus seios, sem receio, para revelar meu desejo de refletir-me em luas

Viraria a cabeça para perceber de quantos ângulos se compõe o mosaico do mundo

Agitaria minhas ancas num variado frenesi alimentado por moléculas alegres

Lançar-me-ia inteira na beira de minha própria eira que se dobra neste agora





(Ilustração: Martin Eder – me girl)


quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O HOMEM NU, de Fernando Sabino






Ao acordar, disse para a mulher:

— Escuta, minha filha: hoje é dia de pagar a prestação da televisão, vem aí o sujeito com a conta, na certa. Mas acontece que ontem eu não trouxe dinheiro da cidade, estou a nenhum.

— Explique isso ao homem — ponderou a mulher.

— Não gosto dessas coisas. Dá um ar de vigarice, gosto de cumprir rigorosamente as minhas obrigações. Escuta: quando ele vier a gente fica quieto aqui dentro, não faz barulho, para ele pensar que não tem ninguém. Deixa ele bater até cansar — amanhã eu pago.

Pouco depois, tendo despido o pijama, dirigiu-se ao banheiro para tomar um banho, mas a mulher já se trancara lá dentro. Enquanto esperava, resolveu fazer um café. Pôs a água a ferver e abriu a porta de serviço para apanhar o pão. Como estivesse completamente nu, olhou com cautela para um lado e para outro antes de arriscar-se a dar dois passos até o embrulhinho deixado pelo padeiro sobre o mármore do parapeito. Ainda era muito cedo, não poderia aparecer ninguém. Mal seus dedos, porém, tocavam o pão, a porta atrás de si fechou-se com estrondo, impulsionada pelo vento.

Aterrorizado, precipitou-se até a campainha e, depois de tocá-la, ficou à espera, olhando ansiosamente ao redor. Ouviu lá dentro o ruído da água do chuveiro interromper-se de súbito, mas ninguém veio abrir. Na certa a mulher pensava que já era o sujeito da televisão. Bateu com o nó dos dedos:

— Maria! Abre aí, Maria. Sou eu — chamou, em voz baixa.

Quanto mais batia, mais silêncio fazia lá dentro.

Enquanto isso, ouvia lá embaixo a porta do elevador fechar-se, viu o ponteiro subir lentamente os andares... Desta vez, era o homem da televisão!

Não era. Refugiado no lanço da escada entre os andares, esperou que o elevador passasse, e voltou para a porta de seu apartamento, sempre a segurar nas mãos nervosas o embrulho de pão:

— Maria, por favor! Sou eu!

Desta vez não teve tempo de insistir: ouviu passos na escada, lentos, regulares, vindos lá de baixo... Tomado de pânico, olhou ao redor, fazendo uma pirueta, e assim despido, embrulho na mão, parecia executar um ballet grotesco e mal ensaiado. Os passos na escada se aproximavam, e ele sem onde se esconder. Correu para o elevador, apertou o botão. Foi o tempo de abrir a porta e entrar, e a empregada passava, vagarosa, encetando a subida de mais um lanço de escada. Ele respirou aliviado, enxugando o suor da testa com o embrulho do pão.

Mas eis que a porta interna do elevador se fecha e ele começa a descer.

— Ah, isso é que não! — fez o homem nu, sobressaltado.

E agora? Alguém lá embaixo abriria a porta do elevador e daria com ele ali, em pelo, podia mesmo ser algum vizinho conhecido... Percebeu, desorientado, que estava sendo levado cada vez para mais longe de seu apartamento, começava a viver um verdadeiro pesadelo de Kafka, instaurava-se naquele momento o mais autêntico e desvairado Regime do Terror!

— Isso é que não — repetiu, furioso.

Agarrou-se à porta do elevador e abriu-a com força entre os andares, obrigando-o a parar. Respirou fundo, fechando os olhos, para ter a momentânea ilusão de que sonhava. Depois experimentou apertar o botão do seu andar. Lá embaixo continuavam a chamar o elevador. Antes de mais nada: "Emergência: parar". Muito bem. E agora? Iria subir ou descer? Com cautela desligou a parada de emergência, largou a porta, enquanto insistia em fazer o elevador subir. O elevador subiu.

— Maria! Abre esta porta! — gritava, desta vez esmurrando a porta, já sem nenhuma cautela. Ouviu que outra porta se abria atrás de si.

Voltou-se, acuado, apoiando o traseiro no batente e tentando inutilmente cobrir-se com o embrulho de pão. Era a velha do apartamento vizinho:

— Bom dia, minha senhora — disse ele, confuso. — Imagine que eu...

A velha, estarrecida, atirou os braços para cima, soltou um grito:

— Valha-me Deus! O padeiro está nu!

E correu ao telefone para chamar a radiopatrulha:

— Tem um homem pelado aqui na porta!

Outros vizinhos, ouvindo a gritaria, vieram ver o que se passava:

— É um tarado!

— Olha, que horror!

— Não olha não! Já pra dentro, minha filha!

Maria, a esposa do infeliz, abriu finalmente a porta para ver o que era. Ele entrou como um foguete e vestiu-se precipitadamente, sem nem se lembrar do banho. Poucos minutos depois, restabelecida a calma lá fora, bateram na porta.

— Deve ser a polícia — disse ele, ainda ofegante, indo abrir.

Não era: era o cobrador da televisão.




(Ilustração: Lucian Freud – naked man, back view)






domingo, 3 de outubro de 2010

A MÁQUINA DE ESCREVER, de Giuseppe Ghiaroni







Mãe, se eu morrer de um repentino mal,
vende meus bens a bem dos meus credores:
a fantasia de festivas cores
que usei no derradeiro Carnaval.

Vende ese rádio que ganhei de prêmio
por um concurso num jornal do povo,
e aquele terno novo, ou quase novo,
com poucas manchas de café boêmio.

Vende também meus óculos antigos
que me davam uns ares inocentes.
Já não precisarei de duas lentes
para enxergar os corações amigos.

Vende , além das gravatas, do chapéu,
meus sapatos rangentes. Sem ruído
é mais provável que eu alcance o Céu
e logre penetrar despercebido.

Vende meu dente de ouro. O Paraíso
requer apenas a expressão do olhar.
Já não precisarei do meu sorriso
para um outro sorriso me enganar.

Vende meus olhos a um brechó qualquer
que os guarde numa loja poeirenta,
reluzindo na sombra pardacenta,
refletindo um semblante de mulher.

Vende tudo, ao findar a minha sorte,
libertando minha alma pensativa
para ninguém chorar a minha morte
sem realmente desejar que eu viva.

Pode vender meu próprio leito e roupa
para pagar àqueles a quem devo.
Sim, vende tudo, minha mãe, mas poupa
esta caduca máquina em que escrevo.

Mas poupa a minha amiga de horas mortas,
de teclas bambas,tique-taque incerto.
De ano em ano, manda-a ao conserto
e unta de azeite as suas peças tortas.

Vende todas as grandes pequenezas
que eram meu humílimo tesouro,
mas não! ainda que ofereçam ouro,
não venda o meu filtro de tristezas!

Quanta vez esta máquina afugenta
meus fantasmas da dúvida e do mal,
ela que é minha rude ferramenta,
o meu doce instrumento musical.

Bate rangendo, numa espécie de asma,
mas cada vez que bate é um grão de trigo.
Quando eu morrer, quem a levar consigo
há de levar consigo o meu fantasma.

Pois será para ela uma tortura
sentir nas bambas teclas solitárias
um bando de dez unhas usurárias
a datilografar uma fatura.

Deixa-a morrer também quando eu morrer;
deixa-a calar numa quietude extrema,
à espera do meu último poema
que as palavras não dão para fazer.


Conserva-a, minha mãe, no velho lar,
conservando os meus íntimos instantes,
e, nas noites de lua, não te espantes
quando as teclas baterem devagar.



(Ilustração: João Ruas)

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

PRIMEIRA CARTA, de Albino Forjaz de Sampaio






Vi que a vida era má e escrevi estas cartas. Se as leres no meio dum festim as porás de parte com enfado,mas buscarás a sua consolação quando o mundo te fizer chorar. 

Meu amigo: 

Escrevo-te de longe, de muito longe, perdido nos confins deste meu bairro onde só muito fraco chega o rumor da grande cidade. De que te hei-de falar? Da vida? Pois seja. Tu vens para ela, para o imenso brouhaha. A vida é a escola do cinismo. Trazes coração? Esmaga-o ao entrar como uma coisa que nos compromete, que nos avilta. Se acaso és bom - tolice - não venhas. Aqui, para triunfar, é preciso ser mau, muito mau. Sê mau, cínico, hipócrita e persistente que vencerás. Serás aclamado, respeitado e invejado. Ri do Bem e da Virtude, da Alma e do Sentir. Ri de tudo, que é preciso que rias. Abafa um protesto com um sorriso, uma agonia com uma gargalhada, um estertor com uma praga. 

Sê polido, meu amigo. Encobre a raiva sob o riso, e o riso sob o pesar. 

Sê mau, sobretudo. Se a alma compromete estrangula-a, se o riso desmascara sufoca-o, se o choro atraiçoa esfibrina-o às gargalhadas. 

Não ames nem creias. Todo o homem que ama é homem perdido, e todo aquele que crê nunca será ninguém. Odeia sempre. Odeia os que sobem e os que pretendem subir, odeia os que subiram e os que um dia subirão. Odeia todos e desconfia. Lembra-te que o Ódio dá mais prazeres do que o amor. 

A satisfação de ver agonizar um canalha, quer ele seja um mártir, que ele seja um ladrão, é maior que a de sentir os braços opulentos duma mulher que se entrega. É menos um. Sê pois forte como o diamante e como o ódio. 

No amor - gentil comédia - sê pródigo, e sobretudo nunca ames uma só mulher. Se és bom serás ridículo, se é mau serás temido. Sê mau sempre. Este farrapo a que se chama Vida foi, é, e há-de ser sempre assim. 

Tudo é egoísmo. Se és bom morrerás como Cristo, se é um tolo morrerás como Judas, se és mau - meu amigo - serás lembrado como Satã. 

Vem, mas vem cínico. Triunfarás, terás oiro, amantes, mulheres, o diabo. 

Acredita que metade da humanidade nasceu para se rojar pela lama, para que tu, eu, todos os maus, todos os cínicos, a esmagássemos, e lhe cingíssemos fraternalmente as carnes com um chicote. Depois da morte há o Nada. Portanto, meu caro, aqueles que o sabem, o que pensam é em sugar a vida com um furor de agiotas sem entranhas. Isto é como no mar; já Shakespeare dizia que o "mugem vive para ser tragado pelo lúcio". 

Ou serás vencido ou vencedor. Se vencido esperam-te todas as humilhações desde o desprezo até a compaixão. Se vencedor todos os triunfos desde o respeito ao Capitólio. Luta sempre, calado, fino, sabido que se não tens jeito para isto será um eunuco eterno, castrado para a Vida, para o Amor, e para o sonho. 

A raiva também tem o seu gozo, o Ódio também tem o seu amor. E o amor do Ódio é maior porque é mais forte. 

Não poderás gozar e serás mais desprezado do que uma serapilheira que o uso condenou.

A carne é matéria como a rocha, a rocha é matéria como a flor. Da mulher honesta à prostituta não há diferença, a distância duma à outra é nula. 

Não beijam ambas?! Uma por prazer, outra por precisão. Pois, meu caro, eu prefiro a prostituta sempre. 

Acredite que todos se vendem, homens e mulheres, palhaços e imperadores, cristos e mendigos: a questão é de preço e o preço sufoca todas as consciências, todas as revoltas. 

Acredita que falta quem compre toda a gente que se quer vender. 

A mulher mais honesta capitula, e aquilo a que tu chamas acaso, chamo eu persistência, e persistência gasta a vida como a água gasta a rocha. 

Tu és filho duma prostituta, pois que tua mãe só foi de teu pai e teu pai foi o primeiro a quem ela se entregou, que depois o egoísmo do seu amor fez conservar junto de si... 

O seu corpo tinha gozos inusitados, que ele demandou primeiro. E se teu pai não fosse dela, seria o primeiro que lhe agradasse, o primeiro que a sua carne lhe impusesse, o primeiro que passasse à sua rua. Assim, tu és filho dum operário como poderias ser dum assassino. Podia mais a sua carne do que ela, mas o seu egoísmo foi maior do que a sua carne. 

"A vida é uma luta brutal". (Tourgueneff). 

Tu crês em Deus? Crês sim, que bem o sei. Pois bem; vai dizer-lhe que eu o odeio com toda a força do meu ódio. Tu que te dás com ele, que crês nele, que és amigo dele, vai dizer-lhe que ele é mais vil do que as coisas vis. Vai dizer-lhe que eu o odeio, porque ele deixou morrer aquela criatura aqui do lado, cujos seis filhos abandonados me vieram comer o meu jantar. Vai dizer-lhe o ódio lhe tenho por ele deixar morrer aquele justo, que por ser bom teve de se matar; diz-lhe finalmente que nada disto se deve fazer quando se é Deus. 

Que me odeie agora também porque eu dei o jantar ao pequenos que o não tinham; que me odeie porque a última camisa a dei a um pobre que quase ma roubou; que me odeie porque eu o castigo como no outro dia castiguei um velho que maltratava um cão. Anda, vai dizer-lhe que me odeie, que se avilte ainda mais se é capaz... 

A geração é de cobardes e "cada ano que passa está mais corrupto o mundo". (Maximo Gorki). 

Ah! Não ter eu muito que dar a este pequeno miserável que me bate agora à porta, para que ele, recebida a esmola, me chame o mais vil que o sol cobre, o mais canalha de todos, o mais indigno, o mais bandido! 

Ele não se engana. Lá tem o seu raciocínio que não falha nunca. 

Dei-lhe tudo o que tinha e todavia vai a resmungar baixinho que um dia, um dia que virá cedo, me virá bater à porta com uma coronha e me há-de fuzilar a mim, o maior dos patifes que o socorri. 

Vai-se embora a pensar que se fosse rico, havia de azorragar toda essa ralé que pede esmola e toda aquela que dá tudo o que tem. 

E cisma em ser um dia o maior dos Neros que o mundo tem visto; em ter um chicote com que possa duma vez só azorragar a Terra, ele, cujo corpo devia ser balouçado no candeeiro ali defronte. 

De trinta mendigos a quem dei esmola hão-de nascer noventa patifes para me apedrejar. Abençoada esmola! Mas explica-se. É que a minha esmola - esmola humana - fecunda lá dentro todo o meu cinismo e toda a minha canalhice. 

Deste-me esmola? Muito bem, odeio-te. Odeio-te porque não posso também dar esmolas e porque me curvei a ti. Toda a vida tu me fizeste bem, socorreste-me, agasalhaste-me. Um dia eu - mau como sou - estou por cima. Então eu havia de perder a ocasião de me vingar de tudo o que tu me fizeste? Chegou o meu dia. Agora, meu velho, eu sou maior, ouves? Eu dobrei-me e tu socorreste-me, mas eu dobrei-me. Eu era um faminto e tu sentaste-me à mesa, mas eu dobrei-me. Tive fome tu encheste-me, tive frio tu agasalhaste-me. Irritante Tu, sempre Tu. 

E eu não podia vingar-me, mas agora chegou a minha vez. 

Acredita que todos aqueles a quem fazemos bem, nutrem lá dentro a secreta esperança dum dia nos correrem a pontapé. Logo no primeiro dia em que não temam desconjuntar a bota, quando o fizerem, percebes? 

Escutaste? Vem, se te sentes com forças. Demais és pobre. Então para ti a vida é tudo isto e tudo o mais que tu tiveres coragem de inventar. "O pobre será odioso até ao seu parente mais chegado" (Provérbios, XVI-20), que "não merece carinhos quem não tem para caldo" (Silva Pinto), ouves? Tu virás e triunfarás. Tu serás mau e cínico e traidor. 

A Vida? "Seria loucura, na verdade, conservarmos alguns sentimentos compassivos quando vivemos em semelhantes cavernas". (M. Du Camp). 

A vida é uma canalhice, uma farçada, "uma luta brutal", como diz ali o Tourguen.



(Palavras Cínicas




(Ilustração: Anthony Christian – Oedipus Fingers Oedipus Finx)


quarta-feira, 29 de setembro de 2010

SÓ DESTA VEZ, OU: EU QUE JÁ MOREI EM JUNDIAÍ, de Eliana Iglesias






O James Dean
sabe, ele?
se apaixonou
...por mim
nem liguei
eu tava em outra
papo de liberdade
luta armada
revolução
no campo
e na cidade
que roubada!
o Elvis Presley
alí, aos meus pés
e eu?
pelo viés
na contramão
eu era assim
cheia de ilusão
livro vermelho de mao
ouvindo a rádio de pequim
eu era assim

cartinhas do
John Kennedy
cheias de paixão
ele que era tão amerrricano
e eu nem tchum
se eu era daqui?
convento dos dominicanos
rua Caiubi
secreta reunião
“ o que é isso, companheiro! ”
um fusca
ronda o quarteirão
milícia armada invade
a sala
e toma bala!
ah!
bombas de gás
também
eles diziam
pra se manter a paz
não era demais?
e o John Kennedy
querendo a mim?
quando podia ter
a Marilyn!
e eu que nem era
comunista
nem nada
era anarquista?
deslumbrada?
eu era boba
usei calça cigarrete
coque banana
experimentei minister
e marijuana
dancei tanto rock
ganhei campeonato
nunca fui a Miami
mas usei rayban
banlon, tergal
eu que tive
a Marilyn por rival
gostava de cada coisa!
supremo de filé de frango
no Ferro´s bar
pousar de intelectual
cinema novo
bossa nova
e velhos ideais
isso pode?
de tão velhos
os ideais?
morreram
um a um
num lugar fétido
chamado de doi-codi
os amigos se foram
a padaria fechou
e como diria john lennon
então.... o sonho acabou?


o sonho não acaba nunca
agora
o Brad Pitt
me deseja
e eu nem aí
alguém como eu
que já morou em Jundiaí
não tem que competir
com mais ninguém
pensaram que a rima
fosse com Jolie? é?

não, que minha geração
não rima com mais nada
os que restaram
ficaram por aí,
na estrada
e eu... eu
nunca mais os vi
justo eu ...
que já morei em Jundiaí

ninguém me pergunta mais
da alegria, ou tortura
se ainda me lembro
do riso, da angústia
do medo, do abraço
o que faço?
sou desinteressante
não para mim, é claro!
o passado
faço questão
é algo muito raro
... para mim, é claro!
então,
dou um laço
amarrando o presente
com nó apertado
e deixo esse tal de... presente
de lado (de uma vez por todas)


o que há aqui
é só gente
isso é passado?
ou é presente?
gente que não conheço?
gente que logo me esquece?
e que logo esqueço?
é... (nem se discute)
é presente!

cadê o endereço?
merda de festa insossa
bovinamente mastigamos crepe
George Clooney? Matt Demon?
Al Pacino?
o quê fazer?
se eu tou em outra?
meu deus?
em que outra eu tou?
que outra eu sou?
ah!
sei lá,

merda de festa
insossa...
bovinamente,
mastigamos crepe
capitulei
desta vez,
e só desta vez
posso considerar
quem sabe
uma declaração de amor
...do Johnny Deep? ....




(Ilustração: Jack Vettriano – the red room)




segunda-feira, 27 de setembro de 2010

A DECREPITUDE DA ETERNIDADE, de Glauco Mattoso






No quarto andar dum pardieiro da rua São Bento, encontraram Adolf Hitler, vivo e maltrapilho, trabalhando para um comerciante de blue jeans americanos importados do Paraguay.

Não se sabe como nem por quem foi reconhecido. A verdade é que o ex-fuehrer não teve outro remédio senão bater em retirada. Foi dando nos calcanhares e, antes que atingisse o térreo, já o acossavam escadas abaixo.

O velho nazista, porém, ganhou a rua e embrenhou-se na multidão com tamanha agilidade que ninguém diria tratar-se de um octogenário, muito menos de um depauperado psicopata egresso dum conflito mundial.

Teria virtualmente sumido, não fora a providencial aparição dos agentes de Simon Rosenthal.

De repente, cada office-boy, cada informante, cada balconista, cada jornaleiro, cada bilheteiro, cada manequim era um judeu escapo do nazismo.

Vendo que não alcançaria o Anhangabaú para jogar-se debaixo de um ônibus, Hitler, a ponto de ser agarrado pelos transeuntes semitas, driblou um rabino e, em súbito desvio para a esquerda, entrou no Martinelli pelo corredor dos elevadores.

A multidão aglomerou-se na porta do edifício, enquanto dois policiais penetraram no túnel atrás do fugitivo.

Voltaram de mãos abanando.

Hitler conseguira tomar um dos oito elevadores em funcionamento e já estaria a dezenas de andares acima.

Um clamor tonitroante levantou do povo. Queriam invadir o prédio e vasculhar tudo, mas os policiais recebiam grossos reforços e afastavam a população a golpes de cassetete e rajadas para o ar.

Em poucos minutos, o paleontológico edifício estava militarmente sitiado.

Tropas de choque ocuparam a saída dos cinqüenta poços de elevador, inclusive aqueles que já não tinham fundo, instalando ninhos de metralhadora em todos eles.

Do lado de fora, armaram mini-bases de mísseis teleguiados e, sobre os beirados do fronteiro Banco do Brasil, carabinas nucleares munidas de mira telescópica.

Todo o espigão da avenida São João foi interditado e ocupado por tanques e carros blindados que congestionavam o tráfego do Anhangabaú a ponto de tornar inexeqüível qualquer tentativa de suicídio por atropelamento.

Aquele aparato bélico contrariava os planos dos agentes de Simon Rosenthal.

Obrigados a se afastarem do edifício, tiveram de ficar misturados à multidão que se comprimia na retaguarda das barricadas, improvisadas com material das obras do metrô.

Era indescritível o pesar dos seus rostos enrugados e dos seus olhos monomaníacos.

Depois de seguir a pista do ex-fuehrer por cinco quartos do mundo, perdê-lo para outros caçadores que nem sequer imaginavam como silenciá-lo para sempre...

Na impossibilidade de qualquer atitude reparadora, assistiram estupefatos às manobras militares tendentes a isolar aquela granítica e outrora babilônica muralha de 110 andares de janelas mais 6 de águas-furtadas, há muito desabitada e sombria.

Mais sombria e tenebrosa depois que Hitler se infiltrara em seu bojo.

E os fracassados sequazes de Simon Rosenthal permaneceram estáticos em meio ao povo, mesmo quando este vibrava ao serem disparados os primeiros projéteis de gás lacrimogêneo para dentro das janelas do Martinelli. Só alteraram a postura no momento em que a ordem de fogo foi repentinamente sustada e milhares de olhares convergiram para o corpúsculo que se movia numa das mais superiores sacadas, empunhando misterioso megafone.

Binóculos e miras foram assestados na direção do vulto.

Antes que partisse nova ordem, um discurso estrepitoso e apoplético começou a jorrar como cascata sobre a massa popular.

Os militares, hipnotizados, não esboçaram o mínimo gesto para tentar impedir que aquela voz desmesuradamente esganiçada caísse do alto de tão esdrúxulo púlpito.

O resultado não se fez esperar.

Sob o aspérrimo discurso, as vozes do povo se elevaram uníssonas, urrando um coro de "heils" a cada exortação do carisma.

Àquela altura, mais de um milhão de pessoas tinham afluído em torno do Martinelli, enquanto uma chusma de militantes da TFP saía da catedral da Sé desfraldando estandartes que ostentavam cruzes rampantes e leões suásticos.

Os sectários de Simon Rosenthal testemunharam desolados aquelas cenas projetadas do pesadelo dum ex-combatente neurótico. Depois, como se nada mais houvesse a fazer, tergiversaram cabisbaixos e, varando a custo a multidão magnetizada, voltaram à praça do Patriarca.

Do hotel, enviaram por microtransmissor, via satélite, a senha para a deflagração da Terceira Guerra Mundial.

Antes, porém, renovaram comovidos o juramento de não falhar na próxima caçada.



(Revista "Escrita", 1976)



(Ilustração: Odilon Redon – the egg)







sábado, 25 de setembro de 2010

MONÓLOGO, de Cecília Meireles







Para onde vão minhas palavras,
se já não me escutas?
Para onde iriam, quando me escutavas?
E quando me escutaste? - Nunca.

Perdido, perdido. Ai, tudo foi perdido!
Eu e tu perdemos tudo.
Suplicávamos o infinito.
Só nos deram o mundo.

De um lado das águas, de um lado da morte,
tua sede brilhou nas águas escuras.
E hoje, que barca te socorre?
Que deus te abraça? Com que deus lutas?

Eu, nas sombras. Eu, pelas sombras,
com as minhas perguntas.
Para quê? Para quê? Rodas tontas,
em campos de areias longas
e de nuvens muitas.



(Ilustração: Aaron Coberly)


quarta-feira, 15 de setembro de 2010

AS CRIANÇAS QUE MATAM, de João do Rio







É assombrosa a proporção do crime nesta cidade, e principalmente do crime praticado por crianças! Estamos a precisar de uma liga para a proteção das crianças, como a imaginava o velho Júlio Vallés...

- Que houve de mais? - indagou Sertório de Azambuja, estirando-se no largo divã forrado de brocado cor de ouro velho.


- Vê o jornal. Na Saúde, um bandido de treze anos acaba de assassinar um garotinho de nove. É horrível!
O meu amigo teve um gesto displicente.

- Crime sem interesse... A menos que não se dê um caso de genialidade, um homem só pode cometer um belo crime, um assassinato digno, depois dos dezesseis anos. Uma criança está sempre sujeita aos desatinos da idade. Ora, o assassinato só se torna admirável quando o assassino fica impune e realiza integralmente a sua obra. Desde Caim nós temos na pele o gosto apavorador do assassinato. Não estejas a olhar para mim assim assustado. As mais frágeis criaturas procuram nos jornais a notícia das cenas de sangue. Não há homem que, durante um segundo ao menos, não pense em matar sem ser preso. E o assassínio é de tal forma a inutilidade necessária ao prazer imaginativo da humanidade, que ninguém se abala para ver um homem morto de morte natural, mas toda gente corre ao necrotério ou ao local do crime para admirar a cabeça degolada ou a prova inicial do crime. Dado o grau de civilização atual, civilização que tem em germe todas as decadências, o crime tende a aumentar, como aumentam os orçamentos das grandes potências, e com uma percentagem cada vez maior de impunidade. Lembra-te das reflexões de Thomas de Quincey na sua pedagogia do crime. É dele esta frase profunda: "O público que lê jornais contenta-se com qualquer coisa sangrenta; os espíritos superiores exigem alguma coisa mais..."

Humilhadamente, dobrei o jornal:

- Então só os espíritos superiores?...

- Podem realizar um crime brilhante. Esse caso da Saúde não tem importância alguma. É antes um exemplo comum da influência do bairro, desse bairro rubro, cuja história sombria passa através dos anos encharcada de sangue. Nunca foste ao bairro rubro? Queres lá ir agora? São oito horas. Vamos? Vem daí...

Descemos. Estava uma noite ameaçadora. No céu escuro, carregado de nuvens, relâmpagos acendiam clarões fugazes. A atmosfera abafava. Uma agonia vaga pairava na luz dos combustores.

Sertório de Azambuja ia de chapéu mole, com um lenço de seda à guisa de gravata. Ao chegar ao Largo do Machado, chamou um carro, mandou tocar para o começo da Rua da Imperatriz.

- Que te parece o nosso passeio? Estamos como Dorian Gray, partindo para o vício inconfessável. Lord Henry dizia: "Curar os sentidos por meio da alma e a alma por meio dos sentidos". Vamos entrar no outro mundo...

Eu atirara-me para o fundo da vitória de praça e via vagamente a iluminação das casas, os grandes panos de sombra das ruas pouco iluminadas, a multidão, na escuridão às vezes, às vezes queimada na fulguração de uma luz intensa, os risos, os gritos, o barulho de uma cidade que se atravessa. Na Rua Marechal Floriano, Sertório pagou ao cocheiro, dizendo:

- Saltaremos em movimento.

E para mim:

- Não vale dar na vista...

Um instante depois saltou. Acompanhei-o. O carro continuou a rodar. O bairro rubro não é um distrito, uma freguesia: é uma reunião de ruas pertencentes a diversos distritos, mas que misteriosamente, para além das forças humanas, conseguiu criar a rede tenebrosa, o encadeamento lúgubre da miséria e do crime, insaciáveis. A Rua da Imperatriz é um dos corredores de entrada.

O bairro onde o assassinato é natural abraça a Rua da Saúde, com todos os becos, vielas e pequenos cais que dela partem, a Rua da Harmonia, a do Propósito, a do Conselheiro Zacarias, que são paralelas à da Gamboa, a do Santo Cristo, a do Livramento e a atual Rua do Acre. Naturalmente as ruas que as limitam ou que nelas terminam - São Jorge, Conceição, Costa, Senador Pompeu, América, Vidal de Negreiros e a Praia do Saco - participam do estado de alma dominante.

Toda essa parte da cidade, uma das mais antigas, ainda cheia de recordações coloniais, tem, a cada passo, um traço de história lúgubre. A Rua da Gamboa é escura, cheia de pó, com um cemitério entre a casaria; a da Harmonia já se chamou do Cemitério, por ter aí existido a necrópole dos escravos vindos da costa da África; a da Saúde, cheia de trapiches, irradiando ruelas e becos, trepando morro acima os seus tentáculos, é o caminho do desespero; a da Prainha, mesmo hoje aberta, com prédios novos, causa, à noite, uma impressão de susto.

Como dizia o meu guia, estávamos num novo mundo...


A Rua da Imperatriz, às oito e meia, com uma porção de casas comerciais velhas e tão juntas, tão trepadas na calçada, que parecem despejadas na rua, estava em plena febre. Os botequins reles, as barbearias sujas, as tascas imundas gargulejavam gente, e essa gente era curiosa - trabalhadores em mangas de camisa, carroceiros, carregadores, fumando mata-ratos infectos, cuspinhando cachaça em altos berros, num calão de imprevisto, e rapazes mulatos, brancos, de grandes calças a balão, chapéu ao alto, a se arrastarem bamboleando o passo, ou em tabernas barulhentas. A nossa passagem era acompanhada com um olhar de ironia, e bastava parar dois segundos defronte de uma taberna, para que dentro todos os olhos se cravassem em nós.

Eu sentia acentuar-se um mal-estar bizarro. Sertório ria.


- A vulgaridade da populaça! Há por aqui, entre esses marçanos fortes, gente boa. Há também ruim. Estão fatalmente destinados ou a apanhar ou a dar, desde crianças. É a vida. Alguns são perversos: provocam, matam. Vais ver. Nasceram aqui, de pais trabalhadores...

Tínhamos chegado à Rua Camerino, esquina da Saúde. Há aí uma venda com um pequeno terraço de entrada. O prédio desfaz-se, mas dentro redemoinha uma turba estranha: negralhões às guinadas, inteiramente bêbedos, adolescentes ricos de músculos, embarcadiços, foguistas.

Fala-se uma língua babélica, com termos da África, expressões portuguesas, frases inglesas. Uns cantam, outros rouquejam insultos. Sertório aproxima-se de um grupo. Há um mulato de tamancos, que parece um arenque ensalmonado, no meio da roda. O mulato cuspinha:


- Go on, go on... yeah. farewell! yeah!

É brasileiro. Está aprendendo todas essas línguas estrangeiras com os práticos ingleses.

Há um venerável ancião, da Colônia do Cabo, tão alcoolizado que não consegue senão fazer um gesto de enjoo; há um copta, apanhado por um navio de carga no Mar Vermelho; há dois negrinhos retintos, com os dentes de uma alvura estranha, que bradam:


- Eh oui, petit monsieur, nous sommes du Congo. Étudiés avec pères blancs...

Todos incondicionalmente abominam o Rio: querem partir.

Sertório paga maduros; eles fazem roda. O mulato brasileiro está delicado.

- Hip! Hip! Cambada! Para mostrar a vocês que cá na terra há gente para embrulhar língua direito! Aguente, negrada!

- Sai burrique! - grunhe o ancião.

Dando guinadas com os copos a escorrer o líquido sujo do maduro, essa tropa parecia toda vacilar com a casa, com as luzes, com os caixeiros. Saí antes, meio tonto. Sertório livrava-se da matilha distribuindo níqueis.

Quando conseguiu não ser acompanhado, meteu-se pelo beco. Segui-o e, de repente, nós demos nos trechos silenciosos e lúgubres. Nas ruas, a escuridão era quase completa. Um transeunte ao longe anunciava-se pelo ruído dos passos.

De vez em quando uma rótula aberta e dentro uma sombra. Que lugares eram aqueles? O outro mundo! A outra cidade! A atmosfera era aquecida pelo cheiro penetrante e pesado dos grandes trapiches. Em alguns trechos, a treva era total. Na passagem da estrada de ferro, a luz elétrica, muito fraca, espalhava-se como um sudário de angústias.

Foi então que começamos a encontrar em cada esquina, ou sentados nas soleiras das portas, ou em plena calçada, uns rapazes, alguns crescidos, outros pequenos. À nossa passagem calavam-se, riam. Mas nós íamos seguindo, cada vez mais curiosos.

Afinal, demos no Largo da Harmonia, deserto e lamentável. À porta da igreja uma outra roda, maior que as outras, confabulava. Aproximamo-nos.

- Boa noite!

- Boa noite! - respondeu um pretalhão, erguendo-se com os tamancos na mão.

Os outros ficaram hesitantes, desconfiando da amabilidade.

- Que fazem vocês aí?

- Nós? - indagou um rapazola já de buço, gingando o corpo - Contamos histórias: ora aí tem! Interessa-lhe muito?

- Histórias! Mas eu gosto de histórias. Quem as conta?

- Isso é costume cá no bairro. Há rapazes que sabem contar que até dá gosto. Aqui quem estava contando era o José, este caturrita...

Era um pequeno franzino, magro, com uma estranha luz nos olhos.

Talvez matasse amanhã, talvez roubasse! Estava ingenuamente contando histórias...

Sertório insistia, entretanto, para ouvi-lo. Ele não se fez de rogado. Tossiu, pôs as mãos nos joelhos...


- Era uma vez uma princesa, que tinha uma estrela de brilhantes na testa.


A roda caíra de novo num silêncio atento. A escuridão parecia aumentar, e, involuntariamente, eu e o meu amigo sentimos na alma a emoção inenarrável que a bondade do que julgamos mau sempre nos causa...






(Cinematographo – 1909)





(Iustração: Mia Makila – horror art)